{"id":9127,"date":"2019-10-04T17:17:13","date_gmt":"2019-10-04T20:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=9127"},"modified":"2019-10-03T18:06:53","modified_gmt":"2019-10-03T21:06:53","slug":"suicidio-a-partir-do-sujeito-e-das-relacoes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=9127","title":{"rendered":"Suic\u00eddio a partir do sujeito e das rela\u00e7\u00f5es sociais"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"426\" data-attachment-id=\"9128\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=9128\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/17107016.jpg?fit=700%2C466&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"700,466\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"17107016\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/17107016.jpg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/17107016.jpg?fit=640%2C426&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/17107016.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-9128\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/17107016.jpg?w=700&amp;ssl=1 700w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/17107016.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Por <strong>Elisa Zaneratto Rosa<\/strong>, no <em><a href=\"https:\/\/www.brcidades.org\/\">BrCidades<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao final de setembro, Setembro Amarelo, como o qualifica a  campanha que cada vez mais ganha espa\u00e7o e amplitude na medida em que  adensa a mobiliza\u00e7\u00e3o das pessoas em torno da tem\u00e1tica do suic\u00eddio. Tal  mobiliza\u00e7\u00e3o tem suas raz\u00f5es de ser: os \u00edndices de suic\u00eddio, como  revelaram pesquisas recentes, cresceram no Brasil, na contram\u00e3o da  diminui\u00e7\u00e3o de ocorr\u00eancias em \u00e2mbito mundial. Esse crescimento  concentra-se em alguns grupos populacionais, provocando-nos a olhar para  a complexidade da quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se muitas vezes entendemos o suic\u00eddio como derivado de um processo de\n \u201cadoecimento mental\u201d das pessoas, instiga pensar as raz\u00f5es pelas quais a\n sua incid\u00eancia aumenta quando olhamos a popula\u00e7\u00e3o a partir de recortes \n\u00e9tnico raciais, et\u00e1rios, regionais ou mesmo aqueles relativos ao lugar \nque elas ocupam no mundo do trabalho. Muito j\u00e1 se debateu, por exemplo, \nsobre as altas taxas de suic\u00eddio entre ind\u00edgenas. Mais recentemente, a \nobserva\u00e7\u00e3o do crescimento significativo de casos de suic\u00eddio entre \nadolescentes e jovens brasileiros tem mobilizado nossa aten\u00e7\u00e3o. Em \npesquisa lan\u00e7ada na \u00faltima semana no estado de S\u00e3o Paulo, os n\u00fameros \nrelativos aos suic\u00eddios cometidos por policiais ganharam destaque na \nm\u00eddia. Afinal, por que estariam essas pessoas mais adoecidas? Que doen\u00e7a\n \u00e9 essa que nos acomete de forma distinta em fun\u00e7\u00e3o de onde vivemos, do \nque fazemos, da nossa condi\u00e7\u00e3o de vida?<\/p>\n\n\n\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o serve para olharmos para o fen\u00f4meno do suic\u00eddio antes \ncomo express\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o de sofrimento intenso do que de uma \npatologia. Assim temos, em verdade, defendido que sejam olhadas todas as\n situa\u00e7\u00f5es outrora significadas como doen\u00e7as mentais. Sem recusar o fato\n de que estamos diante de situa\u00e7\u00f5es intensas de sofrimento, que requerem\n cuidado e aten\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, trata-se de n\u00e3o reduzir essa \nexperi\u00eancia a um fen\u00f4meno que seja tomado de forma natural, como afec\u00e7\u00e3o\n que se instala nos corpos humanos. Colocar a doen\u00e7a entre par\u00eanteses, \ncomo nos ensinou Franco Basaglia, importante psiquiatra da Reforma \nPsiqui\u00e1trica italiana, para olhar a pessoa, o sujeito. Ao olhar o \nsujeito, encontramos uma exist\u00eancia concreta, que se tece no corpo \nsocial, nas rela\u00e7\u00f5es, sob condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e determinadas, ganhando\n assim sua singularidade. Portanto, falar de suic\u00eddio e mobilizar a \npopula\u00e7\u00e3o para uma perspectiva de a\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o comprometida com sua \npreven\u00e7\u00e3o significa, necessariamente, falar dos sofrimentos humanos. \nEsses sofrimentos s\u00e3o singulares, mas s\u00e3o tamb\u00e9m sofrimentos do nosso \ntempo, do nosso espa\u00e7o, das condi\u00e7\u00f5es que se configuram para a vida \nhumana em sociedade, das pol\u00edticas que promovemos para que a aten\u00e7\u00e3o e o\n cuidado necess\u00e1rios sejam poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O recorte social dos suic\u00eddios<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>As altas taxas de suic\u00eddio entre ind\u00edgenas nos levam a pensar muitas\ncoisas: que sofrimentos se imp\u00f5em a essa popula\u00e7\u00e3o, resultantes dos\nnossos modos hist\u00f3ricos de produ\u00e7\u00e3o de vida social, que insiste em\nperpetuar seu genoc\u00eddio, o assassinato de seus povos e a aniquila\u00e7\u00e3o de\nsua cultura? Que rela\u00e7\u00e3o existe entre esse sofrimento, expresso nas\nsitua\u00e7\u00f5es extremas como suic\u00eddio, e a centralidade da quest\u00e3o da terra\nna constitui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, da produ\u00e7\u00e3o de suas vidas, de suas\nidentidades, de sua condi\u00e7\u00e3o humana? Como nossas pol\u00edticas e pr\u00e1ticas de\ncuidado e aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental t\u00eam sido capazes de abarcar as\nespecificidades dessas experi\u00eancias de sofrimento e, antes at\u00e9, como\ntemos garantido para essa popula\u00e7\u00e3o pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado e\naten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade, al\u00e9m de outras pol\u00edticas de acesso a direitos? Em\ntempos de recusa expl\u00edcita do Estado a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas,\nonde as disputas em torno do capital mobilizam a centralidade dessa\ntem\u00e1tica na plataforma pol\u00edtica do atual governo federal, numa\nperspectiva de total oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas dos povos\nind\u00edgenas, se quisermos prevenir suic\u00eddio, precisamos incluir essa\ndimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma maneira, a realidade atual nos convoca a pensar sobre o \nsofrimento dos adolescentes e da juventude. N\u00e3o se trata de uma doen\u00e7a \nque, como epidemia, cresce nesse tempo. Crescem nesse tempo as \nincertezas sobre suas possibilidades futuras, num pa\u00eds onde o trabalho \u00e9\n cada vez mais escasso e prec\u00e1rio. Crescem os desmontes de direitos que \nfazem recair sobre os sujeitos, cada vez mais, as responsabilidades \nsobre seu futuro, sobre as negocia\u00e7\u00f5es que dever\u00e3o travar em rela\u00e7\u00f5es de\n poder absolutamente desiguais e perversas, diante das quais lhes resta o\n empreendedorismo, t\u00e3o conclamado por uma sociedade que parece n\u00e3o \nperceber se desresponsabilizar pelos caminhos garantidos \u00e0 sua \njuventude, atribuindo a eles numa l\u00f3gica competitiva os rumos de seu \ndestino. Crescem as posi\u00e7\u00f5es fascistas, de \u00f3dio e de intoler\u00e2ncia, que \nreduzem o leque relativo \u00e0 diversidade de modos poss\u00edveis de ser e \nexistir como sujeitos para esses jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00edamos, aqui, construir reflex\u00f5es sobre tantos outros exemplos\nque, tomando os recortes pelos quais analisamos o fen\u00f4meno do suic\u00eddio,\nnos levam a problematizar as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia relacionadas aos\nprocessos singulares de intenso sofrimento. Afinal, como produzir vida\ndiante dessas condi\u00e7\u00f5es? Que caminhos temos a oferecer? Por onde \u00e9\nposs\u00edvel trilhar a continuidade da exist\u00eancia? Estarmos atentos,\nouvirmos, nos sensibilizarmos, cuidarmos nos implica a\ncorresponsabiliza\u00e7\u00e3o pelo percurso a ser assumido na pactua\u00e7\u00e3o da\ncontinuidade da vida. Portanto, falar de preven\u00e7\u00e3o ao suic\u00eddio hoje \u00e9\nconvoca\u00e7\u00e3o de nossa implica\u00e7\u00e3o com o mundo em que viveremos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os suic\u00eddios e as cidades<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, um recorte em espec\u00edfico merece nosso destaque: a\ndistribui\u00e7\u00e3o dos casos de suic\u00eddio entre as cidades brasileiras repete\num dado que h\u00e1 muito vemos se repetindo: aquele relativo \u00e0 maior\npropor\u00e7\u00e3o de pessoas em sofrimento ps\u00edquico grave nos grandes centros\nurbanos, a preval\u00eancia de determinadas patologias e transtornos nesses\ncontextos, dados expressos nas estat\u00edsticas. Repetindo o convite feito\nao longo desse texto, nos interessa pensar como determinadas formas de\norganizar a vida, ocupar a cidade, estar em rela\u00e7\u00e3o promovem sa\u00fade ou\ns\u00e3o geradoras de sofrimento. Nesse sentido, todo o esfor\u00e7o de reconhecer\nas condi\u00e7\u00f5es de vida das grandes cidades, em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es, \u00e9\nbem-vindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos falar das desigualdades que marcam essas cidades e das \nviv\u00eancias que acompanham essas desigualdades. Podemos reconhecer o modo \ncomo o Estado atua na gest\u00e3o dessas desigualdades, por meio de sua face \nviolenta, da repress\u00e3o policial e dos alvos que elege ao longo da \nhist\u00f3ria, operando pol\u00edticas higienistas. Podemos identificar aspectos \nque impactam qualidade de vida, do ponto de vista das dificuldades de \ncircula\u00e7\u00e3o humana, de acesso a lazer, de condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Devemos,\n ali\u00e1s, reconhecer as diversas informalidades que se configuram como \npossibilidades de trabalho nas grandes cidades. Podemos, ainda, falar de\n direito ao lazer, de ocupa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, de garantia de espa\u00e7os de \nparticipa\u00e7\u00e3o, de pertencimento, de constitui\u00e7\u00e3o de redes de rela\u00e7\u00e3o e de\n solidariedade, t\u00e3o prejudicados nas grandes cidades. Precisamos, ainda,\n reconhecer a precariedade de investimento em pol\u00edticas p\u00fablicas que \npossam responder aos desafios das grandes cidades, em sua complexidade, \natendendo \u00e0s necessidades dos sujeitos de modo a legitim\u00e1-las como \ndireitos antes de transform\u00e1-las em mercadorias e lan\u00e7\u00e1-las ao mercado, \nexigindo das pessoas a competitividade necess\u00e1ria para sua aquisi\u00e7\u00e3o. \nEssas configura\u00e7\u00f5es da realidade social que vivemos nas grandes cidades \nse traduzem como afetos na singularidade de cada exist\u00eancia e mais uma \nvez transformam, no setembro amarelo, a mobiliza\u00e7\u00e3o pela preven\u00e7\u00e3o ao \nsuic\u00eddio na necess\u00e1ria mobiliza\u00e7\u00e3o por uma sociedade mais justa, mais \nigualit\u00e1ria e mais equ\u00e2nime.<\/p>\n\n\n\n<p>O convite ao olhar para os sujeitos concretos inseridos em  determinadas condi\u00e7\u00f5es de vida amplia nosso desafio como os parceiros  atentos ao sofrimento do outro. Dar as m\u00e3os a esse sofrimento \u00e9 assumir a  corresponsabiliza\u00e7\u00e3o pela tessitura de outras vidas poss\u00edveis. Se for  mais f\u00e1cil a nossa sensibiliza\u00e7\u00e3o para a parceria na supera\u00e7\u00e3o a uma  doen\u00e7a, a not\u00edcia \u00e9 que a sensibiliza\u00e7\u00e3o precisar\u00e1 nos deslocar de muito  lugares, convocando-nos a uma pactua\u00e7\u00e3o \u00e9tica pela defesa da vida, da  diversidade, da igualdade. Uma pactua\u00e7\u00e3o com a defesa de pol\u00edticas  p\u00fablicas sociais que garantam \u00e0s nossas cidades educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade,  esporte, lazer, assist\u00eancia e trabalho como direitos. A \u00e9tica da vida \u00e9,  nesse tempo hist\u00f3rico, a \u00e9tica da defesa de direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/suicidio-a-partir-do-sujeito-e-das-relacoes-sociais\/\">Outras M\u00eddias<\/a><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante do aumento de ocorr\u00eancias, psic\u00f3loga busca nexos com as crises contempor\u00e2neas. 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