{"id":8974,"date":"2019-09-23T09:02:56","date_gmt":"2019-09-23T12:02:56","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8974"},"modified":"2019-09-20T14:31:31","modified_gmt":"2019-09-20T17:31:31","slug":"a-guerra-contra-as-mulheres-no-brasil-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8974","title":{"rendered":"A guerra contra as mulheres no Brasil de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\" data-attachment-id=\"8975\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=8975\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial.jpg?fit=1280%2C720&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1280,720\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Arte: Daniela Muller\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial.jpg?fit=300%2C169&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial-1024x576.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-8975\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-editorial.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Arte: Daniela Muller<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p> Por <a href=\"https:\/\/catarinas.info\/author\/catarinas\/\">Portal Catarinas<\/a>*<\/p>\n\n\n\n<p>O machismo, enquanto cultura, e a misoginia, como conjunto de pr\u00e1ticas que a sustentam, ocupam lugares privilegiados atualmente no Brasil. Mais que naturalizado, o pensamento supremacista masculino de extrema-direita passou a ser institucionalizado, presente em forma e conte\u00fado pela estupidez e brutalidade de cada posicionamento presidencial.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O coment\u00e1rio \u201cN\u00e3o humilha cara. Kkkkkkk\u201d feito pelo presidente Jair Bolsonaro \u00e0 postagem de um apoiador no Facebook que comparava a apar\u00eancia f\u00edsica das esposas dos mandat\u00e1rios da Fran\u00e7a e Brasil n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais um exemplo desse ide\u00e1rio, mas um marco da misoginia bolsonarista ultrapassando as fronteiras do Brasil. O coment\u00e1rio em meme ridicularizava Brigitte Macron, 24 anos mais velha do que Emmanuel Macron, e validava Michelle Bolsonaro, 27 anos mais nova do que o marido. Neste epis\u00f3dio, a negocia\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica pela pol\u00edtica de preserva\u00e7\u00e3o da  Amaz\u00f4nia deu lugar na arena p\u00fablica \u00e0s ofensas do presidente do Brasil \u00e0  primeira-dama da Fran\u00e7a.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, as rela\u00e7\u00f5es entre centro e periferia \u2014 pot\u00eancias mundiais e pa\u00edses em desenvolvimento \u2014  se ativam e se retroalimentam constantemente em um refor\u00e7o da depend\u00eancia das na\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas. Este tr\u00e2nsito que experimentamos na contemporaneidade com o giro ao conservadorismo por governos de direita de v\u00e1rios pa\u00edses \u2014 ainda que nem todos se articulem em torno de um discurso mis\u00f3gino \u2014 tem como marca a recoloniza\u00e7\u00e3o tanto de territ\u00f3rios quanto dos corpos femininos e n\u00e3o brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da colonizadora Europa, ao contr\u00e1rio do que diz, o presidente do Brasil n\u00e3o afirma soberania, primeiro porque n\u00e3o assume postura de estadista e republicano, segundo porque refor\u00e7a o ide\u00e1rio de recoloniza\u00e7\u00e3o, tratando territ\u00f3rio e corpo feminino como propriedades. Sua estrat\u00e9gia discursiva exalta um nacionalismo a partir da constru\u00e7\u00e3o de um inimigo nacional: mulheres, pobres, negros, ind\u00edgenas, quilombolas e popula\u00e7\u00e3o LGBTI+. No entanto, no fundo, essa ideia de \u201cnacionalismo\u201d de Bolsonaro \u00e9 baseada em uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e submiss\u00e3o ao presidente estadunidense, deliberadamente mis\u00f3gino. Nessa rela\u00e7\u00e3o, as mulheres, principalmente negras e ind\u00edgenas, t\u00eam sido o alvo das ocupa\u00e7\u00f5es desse corpo \u2013 territ\u00f3rio que concentram as viol\u00eancias simb\u00f3licas e materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme a antrop\u00f3loga argentina Rita Segato no livro <em>La guerra contra las mujeres<\/em> (2016), pa\u00edses da Am\u00e9rica Central e Am\u00e9rica Latina passam por um  intenso processo de \u201cmafializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u201d, momento em que os  colonizados exercem sua \u201chipertrofia da masculinidade\u201d. Uma  masculinidade b\u00e9lica que reproduz as viol\u00eancias desse processo colonial direcionadas aos corpos dominados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cA estrutura funcional  hierarquicamente disposta que o mandato de masculinidade origina \u00e9 an\u00e1logo \u00e0 ordem da m\u00e1fia; por esse tipo de viol\u00eancia, o poder \u00e9 expresso, exibido e consolidado de forma truculenta perante os olhos do p\u00fablico\u201d, explica em seu livro.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como afirma Segato, os pactos e mandatos de masculinidade funcionam a partir de uma estrutura mafiosa, na qual o sujeito obt\u00e9m sua masculinidade diante de desafios, de prova ante os pares. Logo, a forma como expressam seus pactos mafiosos de  masculinidade \u00e9 o que lhes garante lugar nesta confraria. A necessidade dessa masculinidade d\u00e9bil, historicamente subalterna aos colonizadores, reflete essa brutalidade que ativa entre os homens da confraria um  prest\u00edgio ao desprezar a esposa do presidente franc\u00eas por sua idade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de Emmanuel Macron, de 42  anos, ter um relacionamento amoroso com uma mulher de 66 tamb\u00e9m foi usado por seus advers\u00e1rios pol\u00edticos para atingi-lo durante as elei\u00e7\u00f5es. Por mais de uma vez, o franc\u00eas respondeu: <a href=\"https:\/\/agenciapatriciagalvao.org.br\/destaques\/estudiosas-de-genero-rebatem-comentario-sexista-de-bolsonaro-sobre-primeira-dama-da-franca-mulher-nao-e-um-premio\/\">\u201cse fosse eu 20 anos mais velho que minha mulher, ningu\u00e9m estaria falando disso<\/a>\u201d. Sim, nos acostumamos a ver homens conservadores se relacionando com mulheres muito mais jovens, instrumentalizando-as como trof\u00e9u garantidor de um n\u00edvel de masculinidade desejado, como vimos com o ex-presidente Michel Temer e agora com Bolsonaro. Esta masculinidade valiosa, atrelada a uma pot\u00eancia sexual que \u00e9 facilmente substitu\u00edda pelo poder pol\u00edtico, econ\u00f4mico, intelectual, moral ou b\u00e9lico, tributa ao feminino a subservi\u00eancia, subordina\u00e7\u00e3o e cuidado. Nesse cen\u00e1rio, recai sobre as  mulheres o peso de um padr\u00e3o est\u00e9tico s\u00f3 poss\u00edvel de ser atingido em um per\u00edodo curto de exist\u00eancia, enquanto potencialmente reprodutivas e sexualmente ativas, j\u00e1 que, como visto na ofensa \u00e0 Brigitte Macron, \u00e9 a idade de suas companheiras o que valida, aos olhos do senso comum, a afirma\u00e7\u00e3o social do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro inaugurou um novo l\u00e9xico presidencial. \u201cPorra\u201d e \u201ccara\u201d est\u00e3o entre as palavras acionadas na sua comunica\u00e7\u00e3o direta com um p\u00fablico que se v\u00ea autorizado a expandir suas falas burlescas para al\u00e9m do churrasco de fam\u00edlia ou da mesa de bar. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=vJr3ffq57A0\">Dizendo ser Jonny Bravo<\/a>,  personagem de desenho animado, conhecido por sua estupidez e modos desagrad\u00e1veis, Bolsonaro se torna uma caricatura como forma de ratificar sua masculinidade. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Sua postura de hostilidade aos ativismos e estudos de g\u00eanero \u00e9 representativa da  reinstala\u00e7\u00e3o, segundo Segato, de um \u201cfanatismo patriarcal militante\u201d,  caro aos donos do poder enquanto rea\u00e7\u00e3o aos movimentos sociais.\u00a0<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Apesar de soar esvaziado de conte\u00fado pol\u00edtico, o endosso de Bolsonaro \u00e0  postagem sobre as primeiras-damas demonstra como a discrimina\u00e7\u00e3o de  g\u00eanero \u00e9, tamb\u00e9m, et\u00e1ria, e perfaz o itiner\u00e1rio de uma pol\u00edtica de \u00f3dio contra as mulheres. H\u00e1 v\u00e1rios registros em que Bolsonaro busca demonstrar o poderio masculino sobre corpos femininos. O mais deliberado foi proferido ainda enquanto era deputado federal, em tom de ofensa \u00e0 deputada Maria do Ros\u00e1rio, nos corredores do Congresso Nacional. <a href=\"https:\/\/catarinas.info\/stf-mantem-decisao-e-bolsonaro-tera-que-indenizar-maria-do-rosario\/\">Em 2014, Bolsonaro disse que s\u00f3 n\u00e3o estupraria a deputada<\/a> pois ela n\u00e3o merecia, no sentido de que n\u00e3o era apraz\u00edvel ao seu gosto. O estupro, como sabemos, \u00e9 usado como arma de guerra, acionada n\u00e3o para atender um desejo sexual, mas para demarcar poder sobre um territ\u00f3rio.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Segato, nas guerras informais contempor\u00e2neas, cuja express\u00e3o m\u00e1xima \u00e9 o estupro e o feminic\u00eddio, o corpo da mulher \u00e9 um lugar onde se inscreve a pot\u00eancia jurisdicional dos homens e da m\u00e1fia: a soberania sobre um territ\u00f3rio. Como observa, o contexto de guerra contra as mulheres est\u00e1 condicionado \u00e0 exist\u00eancia de um sistema patriarcal de alta intensidade. Resta nos perguntar, diante dos ataques, se n\u00e3o estar\u00edamos em tr\u00e2nsito para esse patriarcado de alta intensidade, em que o bolsonarismo aliado \u00e0s mil\u00edcias, aos discursos de \u00f3dio exacerbado, \u00e0 releitura da coloniza\u00e7\u00e3o dos corpos femininos e n\u00e3o brancos, estaria promovendo uma frente poderosa e perversa, uma guerra contra as mulheres? <\/p>\n\n\n\n<p>Esse texto faz parte do Editorial do Portal Catarinas: <a href=\"https:\/\/catarinas.info\/a-guerra-contra-as-mulheres-no-brasil-de-bolsonaro\/?fbclid=IwAR3wCZjN4VwjPCunOx7qC2pa5lvPSehcL0W-f2rlP7KNnjuqjAvViTTwYOw\"><strong>https:\/\/catarinas.info\/a-guerra-contra-as-mulheres-no-brasil-de-bolsonaro\/?fbclid=IwAR3wCZjN4VwjPCunOx7qC2pa5lvPSehcL0W-f2rlP7KNnjuqjAvViTTwYOw<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O machismo, enquanto cultura, e a misoginia, como conjunto de pr\u00e1ticas que a sustentam, ocupam lugares privilegiados atualmente no Brasil. 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