{"id":8883,"date":"2019-09-16T11:43:50","date_gmt":"2019-09-16T14:43:50","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8883"},"modified":"2019-09-16T10:58:26","modified_gmt":"2019-09-16T13:58:26","slug":"da-desolacao-ao-empoderamento-taticas-de-uma-jornalista-para-sobreviver-e-combater-a-misoginia-e-o-abuso-online-no-azerbaijao-e-alem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8883","title":{"rendered":"Da desola\u00e7\u00e3o ao empoderamento: t\u00e1ticas de uma jornalista para sobreviver e combater a misoginia e o abuso online no Azerbaij\u00e3o (e al\u00e9m)"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por Arzu Geybullayeva, na <\/em><\/strong><a href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\/arzu-esp?fbclid=IwAR3Pqddq_H-QTOzd2wZOQu-QL60c3JcqERfYkCV8jW_87t2V3laVCQR7hxE\"><strong><em>Revista Bravas<\/em><\/strong><\/a><strong><em>. <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"356\" data-attachment-id=\"8885\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=8885\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/azru.jpg?fit=720%2C401&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"720,401\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"azru\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/azru.jpg?fit=300%2C167&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/azru.jpg?fit=640%2C356&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/azru.jpg?resize=640%2C356&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-8885\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/azru.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/azru.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Arzu Geybullayeva (Baku, 1983) \u00e9 jornalista freelancer e blogueira, al\u00e9m de mestre em Pol\u00edtica Global pela London School of Economics. Especialista  na regi\u00e3o da Eur\u00e1sia e em temas de direitos humanos, colaborou com meios como Al Jazeera, Open Democracy, Radio Free Europe, Radio Liberty e Meydan TV. Sua entrada no pa\u00eds natal, Azerbaij\u00e3o (ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) \u00e9 proibida, onde foi amea\u00e7ada por colaborar com um jornal arm\u00eanio. N\u00e3o obstante, continuou seu trabalho jornal\u00edstico a partir do ex\u00edlio. Sua coragem e compromisso profissional a valeu um lugar na lista da BBC de 100 mulheres mais influentes do mundo em 2014. A seguir, reproduzimos seu relato, exposto no semin\u00e1rio \u201cAmea\u00e7as \u00e0 Liberdade de Express\u00e3o. Vozes e experi\u00eancias de mulheres jornalistas e comunicadoras na Am\u00e9rica Latina e na Europa&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>Ol\u00e1, muito obrigada. \u00c9 um prazer estar aqui. Eu gostaria de agradecer \u00e0s  organizadoras. Realmente \u00e9 uma honra compartilhar esse espa\u00e7o t\u00e3o  importante, com tantas jornalistas da regi\u00e3o, especialmente no dia de hoje, dia mundial da liberdade de imprensa. Antes de chegar, me pediram  que compartilhasse minha experi\u00eancia do que significava ser uma  jornalista no Azerbaij\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Venho de um pa\u00eds que realmente se encontra assolado por viola\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade de imprensa, onde os e as jornalistas s\u00e3o mandados \u00e0 pris\u00e3o sob  acusa\u00e7\u00f5es inver\u00eddicas e onde a liberdade em geral est\u00e1 muito comprometida. Desse modo, muitas das experi\u00eancias que contaram nos  pain\u00e9is anteriores me parecem muito pr\u00f3ximas. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Venho de um pa\u00eds que \u00e9 gerido pela mesma fam\u00edlia desde 1983. O presidente  atual \u00e9 filho do presidente anterior. E na elei\u00e7\u00e3o anterior, a esposa do  presidente se transformou na vice-presidenta. Assim sendo, podem imaginar como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Trata-se de gente muito endinheirada e basicamente o que fazem \u00e9 gerir os  recursos e o or\u00e7amento do pa\u00eds para atender \u00e0s pr\u00f3prias necessidades.  [Heydar Aliyev,] o filho do presidente atual [Ilham Aliyev] tem propriedades em Dubai de 17 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, que adquiriu quando tinha 14 anos. E este \u00e9 um dos muitos exemplos de outros casos nos quais a fam\u00edlia tem este tipo de propriedades, de neg\u00f3cios ou empresas, ou outros tipos de empreendimentos ou atividades muito luxuosos. Por isso, h\u00e1 dez anos escrevo sobre este e outros temas que s\u00e3o importantes no pa\u00eds. Tamb\u00e9m j\u00e1 falei em confer\u00eancias internacionais e segundo  considerava meu governo eu era uma traidora por divulgar todos esses segredos. No entanto, n\u00e3o imaginava qu\u00e3o descontentes estavam com o que escrevia e com o compromisso que eu tinha.\u200b<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu sabia quais seriam os custos de ser jornalista e de mostrar a situa\u00e7\u00e3o  de injusti\u00e7a que est\u00e1vamos vivendo. Eu vi como alguns dos meus amigos foram enviados \u00e0 pris\u00e3o, vi como algumas colegas minhas foram extorquidas com v\u00eddeos sexuais. Por\u00e9m, de certa maneira me sentia mais confort\u00e1vel porque quando estava cobrindo algum destes temas n\u00e3o estava em territ\u00f3rio do Azerbaij\u00e3o, mas no exterior. Sabia que n\u00e3o podiam me prender e sabia que n\u00e3o podiam me acusar de delitos que n\u00e3o havia cometido, como ser arruaceira, de possuir drogas o sonegar impostos, que s\u00e3o acusa\u00e7\u00f5es muito comuns para atacar os jornalistas. De fato, o melhor que puderam fazer foi me acusar de traidora e agente que trabalha no exterior. E aqui come\u00e7a minha hist\u00f3ria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em dezembro de 2014, uma amiga me marcou em uma publica\u00e7\u00e3o no Facebook. Quando cliquei para ver do que se tratava, vi duas fotos: uma era minha e a outra era de outra jornalista, uma colega que mataram quando estava cobrindo o conflito de 1994. 1 E, de fato, ela era apresentada como uma hero\u00edna porque havia exposto uma situa\u00e7\u00e3o injusta e relatava delitos ou  crimes de guerra, na guerra que estava travada com a Arm\u00eania. Contudo, o  texto me descrevia era um pouco menos positivo: continha informa\u00e7\u00e3o falsa e me acusava de divulgar segredos do governo e tamb\u00e9m dizia que eu havia sido paga para fazer isso, que eu estava negando a exist\u00eancia dessa guerra, que apoiava aqueles que a estavam levando adiante e que estava indo contra as autoridades do Azerbaij\u00e3o. E esta foi uma das muitas publica\u00e7\u00f5es, um dos muitos artigos e v\u00eddeos que foram escritos e que publicaram sobre mim nos \u00faltimos cinco anos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tudo havia come\u00e7ado em mar\u00e7o de 2014, quando uma pequena plataforma de meios me pediu uma entrevista. O t\u00edtulo da entrevista foi \u201cUma jornalista  azerbaij\u00e3 trabalhando para um jornal arm\u00eanio\u201d, por\u00e9m a jornalista n\u00e3o me  informou que esse seria o tema da entrevista. Tinha me dito que estava  trabalhando em uma s\u00e9rie sobre mulheres azerbaij\u00e3s de sucesso que  trabalhavam e viviam no exterior. Por isso, quando recebi as perguntas, me dei conta que n\u00e3o se tratava de mim como azerbaij\u00e3 bem sucedida que vive fora do pa\u00eds: a maioria das perguntas tinham a ver com um pequeno jornal turco-arm\u00eanio de Istambul chamado Agos. Comecei a trabalhar no Agos em abril de 2013 como parte das minhas convic\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m foi  parte da minha transforma\u00e7\u00e3o como jornalista. Aquelas de voc\u00eas que trabalham a partir de informa\u00e7\u00e3o equivocada e propaganda em tempos de conflitos ou de guerra, este jornal \u00e9 um grande exemplo de colabora\u00e7\u00e3o e como se pode eliminar essa falta de informa\u00e7\u00e3o err\u00f4nea e propaganda. Mas para outros, esta foi a desculpa perfeita para me atacar. E o fizeram.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_fd06f450fc174e17a27eb09c03f167f1~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_598%2Ch_333%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/ARZUt.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"ARZUt.jpg\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><em>A entrevista causou uma enorme onda de misoginia, ass\u00e9dio, amea\u00e7as de  morte online e tamb\u00e9m uma campanha de difama\u00e7\u00e3o. Tudo isto porque diziam  que eu era uma traidora. Vou ler alguns dos coment\u00e1rios que fizeram  contra mim: \u201cUm micr\u00f3bio sujo que caiu da Arm\u00eania de merda\u201d. Como viram  meu sobrenome Geybullayeva, alguma pessoa escreveu jogando com o  sobrenome \u201cArzu-gay-ulaya\u201d. \u201cA filha gay de Geybullayev\u201d; \u201c\u00c9 poss\u00edvel  que limpe os dentes com esperma, vejam como s\u00e3o t\u00e3o branquinhos\u201d; \u201c\u00e9 prov\u00e1vel que a estejam estuprando em grupo todo esse tempo\u201d; \u201capesar de ser uma traidora, a verdade \u00e9 que \u00e9 bem apessoada. Pagaria 50 manat 2 para estar com ela por uma hora\u201d. Um usu\u00e1rio disse que deveriam me apagar; havia pessoas dispostas a me matar, a me estuprar, a me pendurar pelos p\u00e9s. Algumas mensagens eram t\u00e3o descritivas que realmente me surpreendeu a imagina\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tudo isso me afetou muit\u00edssimo porque me senti indefesa e desacreditada. Ser  desacreditada para uma jornalistas \u00e9 um ataque muito forte. Me levou anos entender o trabalho que fiz e escrever todas as hist\u00f3rias que estava escrevendo. Comecei a atravessar um per\u00edodo muito obscuro: tinha vontade de apagar todas as minhas contas de redes sociais, queria deixar minha carreira jornal\u00edstica. E por sorte n\u00e3o o fiz. Decidi nesse momento que iria lutar contra tudo isso, por\u00e9m n\u00e3o sabia como fazer&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O melhor ponto de partida foi coletar todo esse \u00f3dio dirigido a mim; agora tenho uma cole\u00e7\u00e3o de not\u00edcias, publica\u00e7\u00f5es, v\u00eddeos, amea\u00e7as de morte, muitas coisas. E comecei a us\u00e1-las como provas de toda esta experi\u00eancia e tamb\u00e9m para saber como podemos lutar contra o ass\u00e9dio online, como jornalistas e especialmente como jornalistas mulheres.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em  2016, escrevi meu primeiro artigo sobre os trolls do Azerbaij\u00e3o e  continuo falando e escrevendo sobre a persegui\u00e7\u00e3o online a jornalistas.  No entanto, h\u00e1 alguns meses me pediram que escrevesse uma hist\u00f3ria e n\u00e3o  queria repetir tudo que havia escrito, assim que me coloquei em contato com algumas das pessoas que haviam escrito os coment\u00e1rios mais terr\u00edveis sobre mim. A princ\u00edpio, lhes custou um pouco lembrar-se de quem eu era. Lembram-se do coment\u00e1rio de puta e micr\u00f3bio? Escrevi a essa pessoa e isso \u00e9 o que ele me respondeu: \u201cSe voc\u00ea puder me explicar do que voc\u00ea est\u00e1 falando e em que contexto fiz esse coment\u00e1rio, assim poderei responder sua pergunta de uma maneira melhor\u201d. N\u00e3o deu nenhum tipo de desculpa, pediu uma explana\u00e7\u00e3o! Ent\u00e3o, lhe respondi: \u201cSem  considerar o contexto em que voc\u00ea fez o coment\u00e1rio, n\u00e3o parece que deveria desculpar-se por ter escrito algo desse tipo?\u201dE ele me respondeu um texto muito comprido, que vou resumir. Falava dos arm\u00eanios, dizendo: \u201cestamos dispostos a cortar-lhes a cabe\u00e7a pelas ideias pol\u00edticas que t\u00eam, logo n\u00e3o entendo porque voc\u00ea n\u00e3o compreende. Deveria estar preparada&nbsp;para tudo se as ideias que voc\u00ea tem s\u00e3o uma amea\u00e7a a uma na\u00e7\u00e3o de 10 milh\u00f5es e a viola\u00e7\u00e3o de seus direitos, sem importar sua  nacionalidade ou sua identidade\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Outra das pessoas que haviam escrito uma mensagem terr\u00edvel e com a qual  entrei em contato me afirmou o seguinte: \u201cEu nunca deixo um coment\u00e1rio  sem uma raz\u00e3o (&#8230;) Sim, escrevi \u2018traidora\u2019 ent\u00e3o talvez seja porque a  fotografia cheirava a arm\u00eanio&#8230;\u201d Tenho muitos outros exemplos, mas vou  ser breve. O que me preocupa com respeito ao ass\u00e9dio online e a todas essas mensagens de \u00f3dio \u00e9 que de fato est\u00e3o direcionadas a n\u00f3s porque somos mulheres. E se uma n\u00e3o est\u00e1 familiarizada com estas experi\u00eancias, com este mundo de misoginia online \u00e9 muito dif\u00edcil seguir adiante e \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o render-se porque, afinal, somos humanas. Est\u00e1 bem nos sentirmos perdidas e preocupadas por nossa seguran\u00e7a e a seguran\u00e7a de nossa fam\u00edlia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Assim, uma das li\u00e7\u00f5es mais importantes que aprendi neste caminho \u2013 porque  realmente \u00e9 um caminho \u2013 \u00e9 que eu n\u00e3o posso continuar calada, que devo  falar. Esta atitude faz eu me sentir mais segura, mais protegida? Na  realidade n\u00e3o, por\u00e9m ao menos sei que n\u00e3o estou sozinha e que tenho uma  voz como mulher e jornalista. No entanto, sobretudo, um ser humano com  direito \u00e0 dignidade. Nunca fui uma traidora e nunca serei enquanto viva.  Muito obrigada.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu sabia quais seriam os custos de ser jornalista e de mostrar a situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a que est\u00e1vamos vivendo. Eu vi como alguns dos meus amigos foram enviados \u00e0 pris\u00e3o, vi como algumas colegas minhas foram extorquidas com v\u00eddeos sexuais. O melhor que puderam fazer foi me acusar de traidora e agente que trabalha no exterior. 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