{"id":8861,"date":"2019-09-12T12:07:23","date_gmt":"2019-09-12T15:07:23","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8861"},"modified":"2019-09-11T16:32:30","modified_gmt":"2019-09-11T19:32:30","slug":"noventa-dias-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8861","title":{"rendered":"Noventa dias na \u00c1frica"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Por Antonella Sinacore, na <a href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\/copia-de-90-dias-en-africa\">Revista Bravas<\/a>.<\/strong><\/em>  <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"356\" data-attachment-id=\"8863\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=8863\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?fit=968%2C538&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"968,538\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"CAPA\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?fit=300%2C167&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?fit=640%2C356&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?resize=640%2C356&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-8863\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?w=968&amp;ssl=1 968w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?resize=768%2C427&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>T\u00ednhamos recebido com dois colegas uma men\u00e7\u00e3o de honra no concurso de arquitetura em terra \u201c3rd Earth Arquitecture Competition\u201d realizado pela Funda\u00e7\u00e3o Nka, uma ONG que entre 2011 e 2017, organizou concursos de arquitetura internacionais. Em cada edi\u00e7\u00e3o, os diferentes componentes iam sendo constru\u00eddos com o objetivo de criar uma aldeia art\u00edstica em uma pequena aldeia de Gana, chamada Abetenim. O pr\u00eamio nos deu a possibilidade de construir nosso projeto. Sobre isto \u00e9 este texto, por\u00e9m tamb\u00e9m sobre um projeto que transcendeu a arquitetura.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse concurso sempre tinha sido vencido por arquitetas e arquitetos  residentes na Europa ou nos Estados Unidos e para n\u00f3s foi um grande  desafio poder chegar at\u00e9 ali. Principalmente porque t\u00ednhamos que  financiar nossa viagem e recrutar volunt\u00e1rios que quisessem participar  da oficina para construir nosso projeto. Em fevereiro de 2017, depois de  um ano intenso de gest\u00f5es de todo tipo, conseguimos e partimos com destino a Gana, o primeiro pa\u00eds da \u00c1frica Subsaariana a conquistar independ\u00eancia de seus colonizadores ingleses em 1957. Desde ent\u00e3o, Gana se orgulha de ser uma pa\u00eds pac\u00edfico e seguro, uma refer\u00eancia democr\u00e1tica no continente. Nele, vivem 30 milh\u00f5es de pessoas e segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas quase a metade da popula\u00e7\u00e3o vive em zonas rurais.<\/p>\n\n\n\n<p>Gana me recebeu com uma checagem de rotina e aleat\u00f3ria de bagagem realizada  pela equipe de narc\u00f3ticos. O aleat\u00f3rio foi, provavelmente, porque eu fui a \u00fanica mulher branca que desembarcou do avi\u00e3o. Abriram minha mochila e tiraram tudo que havia dentro, enquanto eu esperava tranquila, sem demonstrar nenhum tipo de inquietude para que terminassem rapidamente com a tarefa e me deixassem ir. Da forma que foi poss\u00edvel, enfiei tudo de volta na mala, \u00e0s pressas, e sa\u00ed do aeroporto para pegar um t\u00e1xi.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia muita gente oferecendo-me um t\u00e1xi para meu alojamento e escolhi uma pessoa, n\u00e3o sei com que crit\u00e9rio de fato, possivelmente foi a que  escapuliu melhor da multid\u00e3o e se mostrou mais respeit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>No caminho para o albergue, ia observando pela janela maravilhada com tudo que via, fazia mais de um ano que preparava essa viagem e tinha  projetado esse pa\u00eds\u00a0na minha mente mil vezes, no entanto, tudo superava  minha imagina\u00e7\u00e3o. O clima fatigoso, os cheiros, as cores, o ru\u00eddo  permanente, a sujeira e o caos. Esses negativos tanto negativos quanto  positivos, formavam uma grande coisa com vida que me parecia fant\u00e1stica.  Deixei a bagagem no albergue e sa\u00ed para encontrar o resto da equipe, que havia chegado no dia anterior. Obviamente, n\u00e3o sa\u00ed antes lambuzar-me  inteira de repelente, por todos os temores de ser picada por mosquitos,  inculcados por tantos guias e recomenda\u00e7\u00f5es da internet.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrei-me com meus companheiros em um bar onde tive a minha primeira aproxima\u00e7\u00e3o com a cultura local: o sistema para lavar as m\u00e3os, que inclui um recipiente pl\u00e1stico, um detergente l\u00edquido e uma jarra de \u00e1gua; e a comida local que se come com as m\u00e3os, Til\u00e1pia com Banku, Fuf\u00fa e um pouco mais. Tanto o Banku como o Fuf\u00fa s\u00e3o uma esp\u00e9cie de massa cozida com distintos ingredientes que s\u00e3o servidos ensopados. Para com\u00ea-los,  pega-se peda\u00e7os da massa e os lambuza no ensopado. Qualquer relato ou imagem n\u00e3o faz justi\u00e7a \u00e0 del\u00edcia que esse prato foi para mim.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_db35ef2583644ec6973fbeea00dd4ccf~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_552%2Ch_350%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/IMAGEN-1-Llegu%2B%C2%AC-a-Ghana-por-primera-vez.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"IMAGEN-1-Llegu+\u00ac-a-Ghana-por-primera-vez\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesta oportunidade, s\u00f3 passei uma noite em Acra. Para o jantar, fomos a um  lugar onde comer comida \u201cnormal\u201d. Encontramos uma pizzaria e a\u00ed  jantamos. Hoje me parece estranho pensar como na primeira noite na  \u00c1frica um grupo de seis uruguaios e um tunisiano quiseram escapar da  realidade, ainda que fosse por um momento. Voltei a Acra v\u00e1rias vezes e  sempre a vivi de uma maneira distinta, porque cada vez que retornei, eu  era outra pessoa. Acra foi meu primeiro contato com esse novo mundo que  estava come\u00e7ando a conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p>De Acra fomos a Abetenim, a aldeia que seria nossa casa pelos pr\u00f3ximos  dois meses. Abetenim encontra-se no centro de Gana, pr\u00f3xima a Kumasi,  uma das grandes cidades do pa\u00eds. Seu nome significa \u201cAldeia de \u00e1rvores de palma\u201d e seus cerca de 500 habitantes trabalham tanto na produ\u00e7\u00e3o do  \u00f3leo de palma como na de gr\u00e3os de cacau. A aldeia se desenvolve atrav\u00e9s  de uma estrada de terra de cor laranja intenso que funciona como eixo das distintas fazendas de cacau e palma, e tamb\u00e9m das casas, escola, das oito igrejas e da mesquita. Esta foi a aldeia escolhida pela Funda\u00e7\u00e3o Nka para realizar sua vila art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde crian\u00e7a tinha certeza que queria viver na \u00c1frica, nunca soube o motivo, no entanto, estando ali pude entender: me senti como em casa, conheci minha capacidade de me adaptar a uma realidade totalmente diferente. Em Abetenim n\u00e3o h\u00e1 eletricidade sempre, a roupa \u00e9 lavada a m\u00e3o e o consumismo n\u00e3o existe: n\u00e3o h\u00e1 nada para comprar. \u00c9 poss\u00edvel ser mais ou menos consumista, mas a maioria de n\u00f3s est\u00e1 inserida no mesmo sistema. Ainda que o grupo de trabalho estivesse formado por pessoas de diversas nacionalidades, em Abetenim, todos viv\u00edamos nas mesmas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bO projeto se tratava de construir uma resid\u00eancia para artistas, dentro de  um plano mais ambicioso de criar uma aldeia art\u00edstica, onde pessoas de  diferentes disciplinas pudessem ir, desenvolver e aprender arte. Fazia sete ou oito anos que a iniciativa estava em marcha e todos os anos v\u00e1rias equipes iam levantar mais uma constru\u00e7\u00e3o para formar a aldeia art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mal chegamos, percebemos que a aldeia art\u00edstica tinha cerca de 10  constru\u00e7\u00f5es completamente abandonadas. Pior ainda: \u00edamos construir mais  um. Como a cr\u00f4nica de uma morte anunciada. Diante desse panorama, a  primeira coisa que fizemos foi questionarmos qual seria o nosso trabalho  ali, j\u00e1 que n\u00e3o t\u00ednhamos a inten\u00e7\u00e3o de seguir fomentando aquela situa\u00e7\u00e3o. Frank, contato da Nka na aldeia, nos contou que o diretor da ONG queria terminar de construir todos os componentes da aldeia art\u00edstica para come\u00e7ar a utilizar as constru\u00e7\u00f5es para seu fim. No entanto, era dif\u00edcil de entender isso por v\u00e1rias raz\u00f5es: n\u00e3o existia um \u201cplano master\u201d que indicaria uma finaliza\u00e7\u00e3o potencial, os edif\u00edcios estavam muito deteriorados e a cada vez seria pior. <\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer maneira, por alguma raz\u00e3o, a justificativa de poder come\u00e7ar a  utiliz\u00e1- los uma vez que toda a aldeia art\u00edstica estivesse constru\u00edda n\u00e3o parecia estranha. Desde meu primeiro dia em Ghana, observei uma  quantidade enorme de constru\u00e7\u00f5es sem terminar, grandes edifica\u00e7\u00f5es que  tinham s\u00f3 o per\u00edmetro com uma altura de um metro ou menos, sempre  imposs\u00edveis de habitar. Me pareceu muito curioso e comecei a investigar a  raz\u00e3o. Frank me contou que geralmente em Gana, se uma fam\u00edlia planeja  fazer uma casa, come\u00e7a desde o in\u00edcio com uma grande constru\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que  acaba o dinheiro. \u00c0s vezes, passam anos at\u00e9 retomar os trabalhos ou  simplesmente abandonam. Esta forma de conceber a constru\u00e7\u00e3o de uma  moradia me pareceu estranha, j\u00e1 que o mais comum para n\u00f3s \u00e9 que uma  fam\u00edlia construa algo pequeno mas habit\u00e1vel e com o passar dos anos o  amplie.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que houvesse uma justificativa para esse contexto, n\u00e3o nos parecia nada l\u00f3gico somar a nossa constru\u00e7\u00e3o a esse mostru\u00e1rio abandonado que  provavelmente nunca seria utilizado como aldeia art\u00edstica, muito menos  estando a cinco minutos a p\u00e9 de Abetenim. Ent\u00e3o, decidimos construir algo realmente necess\u00e1rio. Depois de falar com o chefe da aldeia e de adaptar o projeto arquitet\u00f4nico, come\u00e7amos a construir um sal\u00e3o para os professores da escola.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_cc69f8ec1ed34ec28f65f42672cb07af~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_416%2Ch_267%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/IMG_2604.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"IMG_2604.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_bf06025ad87b4b6097c898a48b733a00~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_463%2Ch_294%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/IMG_2409.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"IMG_2409.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O dia a dia<\/h4>\n\n\n\n<p>\u200bAos  poucos, fui entendendo do que se tratava a vida em Abatenim. Desde o  primeiro dia, nos advertiram sobre escorpi\u00f5es, cobras venenosas que  podiam entrar nos c\u00f4modos se deix\u00e1ssemos a porta aberta, sobre ladr\u00f5es  armados dos quais est\u00e1vamos razoavelmente a salvo por ter um guarda  armado escondido na\u00a0selva. N\u00e3o acreditamos em nada, pensamos que estava simplesmente querendo assustar os Obronis (assim se referem aos brancos) para que segu\u00edssemos suas regras ou at\u00e9 para rir de n\u00f3s. At\u00e9 que com o correr dos dias, tudo foi acontecendo: uma cobra entrou na nossa casa, Ahmed, um rapaz tunisiano da nossa equipe foi picado por um escorpi\u00e3o e internado em um hospital local, depois de ter feito um torniquete na perna, outros dois uruguaios com Mal\u00e1ria e infec\u00e7\u00f5es e um alvoro\u00e7o na aldeia quando mataram um dos ladr\u00f5es armados. Ali foi que vimos um senhor vestido de preto com uma escopeta sair do matagal. Era nosso guardi\u00e3o. Foi a partir da\u00ed que nos demos conta de que n\u00e3o est\u00e1vamos em um povoado do interior do Uruguai e que, ainda que pud\u00e9ssemos nos sentir em casa, havia coisas que n\u00e3o pod\u00edamos ignorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Com dois meses na aldeia, de muito trabalho, calor e emo\u00e7\u00f5es de todo tipo,  terminamos nossa constru\u00e7\u00e3o. Ficou pronto o sal\u00e3o de professores,  constru\u00eddo quase por completo com materiais naturais que conseguimos na  aldeia e completamente integrado \u00e0 comunidade. Quando n\u00e3o era \u00e9poca de  aulas, era utilizado como arquibancada para assistir as partidas de futebol que se jogavam no campo de terra ao lado do edif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Era hora de voltar para casa<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_f9c2157e09aa40278046423858617d52~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_642%2Ch_372%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/IMG_3055.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"IMG_3055.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Projeto Madanfo\u200b<\/h4>\n\n\n\n<p>Em 2017, em Abetenim, conheci Luc\u00eda, uma arquiteta espanhola da qual me  aproximei muito. Foi na estadia em Abetenim que come\u00e7ou a ideia de  seguir trabalhando com essa comunidade. Ao retornar aos nossos  respectivos pa\u00edses, e depois de aprender muito sobre algo que era novo  para n\u00f3s, fundamos o Projeto Madanfo, uma associa\u00e7\u00e3o criada para  colaborar com as crian\u00e7as de pequenas aldeias rurais de Gana. A iniciativa nasceu do forte v\u00ednculo com a comunidade e por ver tudo que pod\u00edamos fazer com pouco. \u00c0 equipe do Projeto Madanfo foram-se somando v\u00e1rias pessoas de pa\u00edses diversos, todas volunt\u00e1rias e cada uma contribuindo com seu interessem, forma\u00e7\u00e3o e conhecimentos. Atualmente, o Projeto Madanfo se financia principalmente com doa\u00e7\u00f5es particulares e de alguma empresa europeia, no entanto, gerencia um or\u00e7amento muito baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de 2019, n\u00f3s voltamos a Gana para come\u00e7ar o projeto \u201cCaminho para a escola\u201d. A segunda vez em Gana foi diferente. Chegava em um lugar que j\u00e1 sabia o que iria encontrar. Ia com outro projeto, em um contexto totalmente distinto e a outra aldeia: Okorase, j\u00e1 que n\u00e3o pod\u00edamos voltar a Albetenim por problemas pol\u00edticos do distrito. Okorase \u00e9 uma aldeia da mesma regi\u00e3o de Abetenim. Tem 700 habitantes, uma escola, tr\u00eas po\u00e7os de \u00e1gua e um \u00fanico sanit\u00e1rio comunit\u00e1rio. O chefe de Okorase, Nana, com seus 75 anos, sempre est\u00e1 a par do que acontece ali. \u00c9 um senhor muito am\u00e1vel, sempre com um sorriso, e uma grande refer\u00eancia\u00a0na aldeia. A densidade da aldeia \u00e9 muito baixa o que por muitas vezes durante o dia e por causa do calor pesado, parece uma aldeia deserta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que Luc\u00eda e eu sejamos arquitetas, o Projeto Madanfo n\u00e3o nasceu com o fim de construir e fazer arquitetura. Em abril deste ano, colocamos em marcha o projeto \u201cCaminho para a escola\u201d, com a cria\u00e7\u00e3o de pequenas  f\u00e1bricas de sapatos em aldeias rurais para fazer sand\u00e1lias para meninas e  meninos das aldeias. Esta ideia surgiu diante da car\u00eancia de sapatos de  muitas crian\u00e7as e no que isto implicava. Na escola, h\u00e1 regras muito estritas com rela\u00e7\u00e3o ao uniforme e se uma crian\u00e7as n\u00e3o tem sapatos n\u00e3o pode assistir as aulas. Muitas vezes, o \u00fanico par de sapatos que h\u00e1 na fam\u00edlia, o utilizaram para ir \u00e0 escola, por\u00e9m no resto do dia est\u00e3o descal\u00e7os. Por outro lado, muitos habitantes destas aldeias s\u00e3o jovens que n\u00e3o t\u00eam emprego nem of\u00edcio, assim tamb\u00e9m buscamos capacitar estes jovens e oferecer-lhes trabalho na medida do poss\u00edvel. Atualmente, existe uma destas f\u00e1bricas em Okorase: trabalham a\u00ed tr\u00eas jovens, s\u00e3o feitas sand\u00e1lias para as crian\u00e7as que v\u00e3o \u00e0s escola a\u00ed e as sand\u00e1lias s\u00e3o repartidas com outras aldeias pr\u00f3ximas, como Abetenim. As sand\u00e1lias s\u00e3o entregues por um custo baix\u00edssimo que serve para cobrir os materiais enquanto os sal\u00e1rios dos empregados s\u00e3o cobertos atualmente pelo Projeto Mafando. Nana, o chefe da aldeia, nos cedeu um espa\u00e7o para montar a oficina e Frank, contato da Funda\u00e7\u00e3o Nka (ONG que em 2017 deixou de existir) que trabalhava como professor na escola de Abetenim, foi transferido para Kwaso, um povoado a cinco minutos de Okorase. Frank \u00e9 quem est\u00e1 respons\u00e1vel pelo projeto em Okorase, gerindo com nosso apoio \u00e0 dist\u00e2ncia, a oficina de sapatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas trabalhadores come\u00e7aram como aprendizes com Luc\u00eda e eu. Depois de trabalhar alguns dias sem entender porque riam de n\u00f3s e comentavam em Twi, o idioma falado na regi\u00e3o do pa\u00eds, algu\u00e9m que falava ingl\u00eas nos  explicou que em Gana as mulheres n\u00e3o faziam sapatos. Uma semana depois, um dos rapazes n\u00e3o apareceu por algumas jornadas e buscamos uma substitui\u00e7\u00e3o. Fomos diretamente em busca de uma mulher e encontramos Ameda, de 30 anos, m\u00e3e de dois pequenos menores de cinco, com uma vontade incr\u00edvel de trabalhar e que passa todo o tempo cantando e alegrando o ambiente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_43984b02627c464a934e857cf5e68f86~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_600%2Ch_450%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/IMAGEN-3.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"IMAGEN-3.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a da outra vez, em Abatenim, \u00e9 que n\u00e3o t\u00ednhamos que fazer  trabalho f\u00edsico e n\u00e3o est\u00e1vamos o dia inteiro ocupadas, o que nos permitiu conhecer mais sobre o dia a dia das pessoas que viviam ali e ver coisas novas. Em geral, as pessoas jovens dificilmente t\u00eam emprego est\u00e1vel, muitos se v\u00e3o para a cidade em busca de oportunidades, por\u00e9m para os que permanecem n\u00e3o \u00e9 simples, t\u00eam trabalho por safra em fazendas de cacau ou \u00f3leo de palma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bO papel das mulheres na comunidade n\u00e3o passa despercebido. S\u00e3o as  encarregadas de coletar \u00e1gua, muitas vezes arriscando a gravidez ou desenvolvendo problemas de coluna por carregar tanto peso diariamente em suas cabe\u00e7as. S\u00e3o encarregadas do trabalho nas fazendas, da venda nos  mercados e nos pequenos quiosques, e obviamente, das crian\u00e7as e das  tarefas dom\u00e9sticas. As tarefas dom\u00e9sticas implicam bastante mais tempo e  esfor\u00e7o do que podemos imaginar. Para cozinhar \u201cFufu\u201d, uma das comidas  mais tradicionais, \u00e9 necess\u00e1rio moer em um pil\u00e3o uma mistura de mandioca com inhame com um pau de cerca de dois metros, que exige uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria. Ent\u00e3o, deve-se buscar \u00e1gua no po\u00e7o mais pr\u00f3ximos e  carreg\u00e1-la at\u00e9 a casa, acender o fogo no ch\u00e3o, ferver a \u00e1gua em um  caldeir\u00e3o e cozinhar. O mesmo se repete todos os dias e durante as horas  de dol, j\u00e1 que ao anoitecer a jornada termina. <\/p>\n\n\n\n<p>Gana me capturou em todos os sentidos desde o primeiro momento. As cores intensas que formam a paisagem, o laranja da terra, o verde da vegeta\u00e7\u00e3o, os tecidos multicoloridos, a amabilidade e alegria das pessoas, o  dinamismo, os cheiros, a intensidade, o calor, os sons: crian\u00e7as gritando, r\u00e1dios no volume m\u00e1ximo, pregadores com microfones na rua, conversas que sempre parecem discuss\u00f5es mas que nunca s\u00e3o. Tudo isto junto e t\u00e3o diferente da minha realidade foi o que me fez sentir mais uma vez, e o que me abriu as portas deste continente t\u00e3o tentador para conhecer, explorar, e viver, sabendo que \u00e9 infinito. Como bem expressa Ryszard Kapusci\u00f1ski, \u201ceste continente \u00e9 demasiado grande para descrev\u00ea-lo. \u00c9 todo um oceano, um planeta \u00e0 parte, todo um cosmos heterog\u00eaneo e de uma riqueza extraordin\u00e1ria. S\u00f3 uma conven\u00e7\u00e3o reducionista, por comodidade, dizemos \u2018\u00c1frica\u2019. Na realidade, salvo pelo nome geogr\u00e1fico, \u00c1frica n\u00e3o existe\u201d. [1]<\/p>\n\n\n\n<p>[1] De \u00c9bano, Ryszard Kapusci\u00f1ski. 1998, Editorial Anagrama.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Antonella Sinacore &#8211; &#8220;Mal chegamos, percebemos que a aldeia art\u00edstica tinha cerca de 10  constru\u00e7\u00f5es completamente abandonadas. Pior ainda: \u00edamos construir mais  um. Como a cr\u00f4nica de uma morte anunciada. Diante desse panorama, a  primeira coisa que fizemos foi questionarmos qual seria o nosso trabalho  ali, j\u00e1 que n\u00e3o t\u00ednhamos a inten\u00e7\u00e3o de seguir fomentando aquela situa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":8863,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Por Antonella Sinacore - \"Mal chegamos, percebemos que a aldeia art\u00edstica tinha cerca de 10  constru\u00e7\u00f5es completamente abandonadas. Pior ainda: \u00edamos construir mais um. Como a cr\u00f4nica de uma morte anunciada.\" ","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[14,4],"tags":[142,716],"class_list":["post-8861","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-latinoamerica","tag-articulacao-feminista-marcosul","tag-bravas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CAPA-1.jpg?fit=968%2C538&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-2iV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8861"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8861\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8865,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8861\/revisions\/8865"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8863"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}