{"id":8848,"date":"2019-09-11T14:01:07","date_gmt":"2019-09-11T17:01:07","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8848"},"modified":"2019-09-11T14:26:35","modified_gmt":"2019-09-11T17:26:35","slug":"judite-simoa-um-retrato-das-mulheres-que-resistem-aos-empreendimentos-do-capital-no-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8848","title":{"rendered":"Judite Simoa: Um retrato das mulheres que resistem aos empreendimentos do capital no campo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>*Por <\/em><strong><em>Maria Aparecida de Jesus Silva<\/em><\/strong><em>, na coluna Vozes das Mulheres, no site da <\/em><strong><em><a href=\"https:\/\/cptba.org.br\/judite-simoa-um-retrato-das-mulheres-que-vivem-entre-desterritorializacoes-e-r-esistencias-aos-empreendimentos-do-capital-no-campo\/\">Comiss\u00e3o Pastoral da Terra &#8211; CPT\/BA<\/a> <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de dona Judite Simoa, moradora da comunidade de Itapicuru,\n Jacobina (BA), \u00e9 um retrato da vida de muitas mulheres em situa\u00e7\u00e3o de \nconflitos com empreendimentos do capital. Camponesas silenciadas, sob \nprocessos de desigualdades e viol\u00eancias sobrepostas, mas cujas m\u00e3os, \ncarregam as sementes da resist\u00eancia, com o protagonismo nas lutas pelo \nTerrit\u00f3rio-Abrigo, na produ\u00e7\u00e3o de alimentos com pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas e\n contra a retirada de direitos fundamentais, conforme assinalado por \nRaquel Baster, no caderno de <em>Conflitos no Campo Brasil 2018<\/em>, publicado pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9\nsobre os corpos-territ\u00f3rios das mulheres que recai as viol\u00eancias mais extremas\ndo Des-envolvimento, significa que a presen\u00e7a de empreendimentos como\nminera\u00e7\u00e3o, Parques E\u00f3licos, Agrohidroneg\u00f3cio, Portos e outros, com sua a\u00e7\u00e3o\ndestruidora sobre os territ\u00f3rios, afeta com maior impacto a vida das mulheres. &nbsp;Al\u00e9m de retirar as possibilidades das\neconomias comunit\u00e1rias, por se tratar de um modelo predat\u00f3rio, incompat\u00edvel com\nos modos de vida camponesa, promove o adoecimento f\u00edsico e psicol\u00f3gico das\npopula\u00e7\u00f5es do lugar, principalmente das mulheres, como afirma Baster (2018), \u201celas,\nao verem destru\u00eddo seu local de habita\u00e7\u00e3o e trabalho carregam consigo a dor e a\nang\u00fastia das crian\u00e7as que est\u00e3o sob sua responsabilidade [\u2026]\u201d e diz mais, esses\nprojetos de desenvolvimento, amparados pelo Estado, s\u00e3o \u201cum jeito de se desenvolver,\nbaseado no sofrimento de mulheres\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Corroborando\ncom estas afirma\u00e7\u00f5es, a mem\u00f3ria das viol\u00eancias e sofrimentos surgidos com os\nprocessos de desterritorializa\u00e7\u00e3o provocados pela minera\u00e7\u00e3o em Jacobina permeia\npelo menos metade da vida de dona Judite, atualmente, com 114 anos de idade. A mesma\nnasceu no dia 12 de fevereiro de 1905, no entanto, s\u00f3 foi registrada tempos\ndepois, constando uma diferen\u00e7a de sete anos na data do seu registro de\nnascimento. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"225\" width=\"300\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cptba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/141-1-300x225.jpg?resize=300%2C225&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-9582\"\/><figcaption>Dona Judite Simoa no ro\u00e7ado.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Mulher parideira, teve 24 filhos e filhas, destes(as) apenas 8 \nsobreviveram at\u00e9 a idade adulta, 28 netos e netas, 33 bisnetos e \nbisnetas, 13 tataranetos e tataranetas.&nbsp; Al\u00e9m disso, dona Judite tamb\u00e9m \nfoi uma das mais conhecidas parteiras da regi\u00e3o que abrange as \ncomunidades de Itapicuru, Jabuticaba e Canavieiras.&nbsp; Importante \nsalientar que da comunidade de Canavieiras, hoje, existem apenas \nresqu\u00edcios, registrando-se a presen\u00e7a de algumas fam\u00edlias que \nretornaram, depois de 2010, quando 105 fam\u00edlias foram arrancadas de seu \nlugar, devido a Barragem de Rejeitos da Mineradora <em>Yamana Gold<\/em>, constru\u00edda a poucos quil\u00f4metros da comunidade. <\/p>\n\n\n\n<p>A\nremo\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es e at\u00e9 comunidades inteiras pela minera\u00e7\u00e3o em Jacobina,\nn\u00e3o come\u00e7ou com Canavieiras, desde o in\u00edcio das pesquisas, muitas fam\u00edlias\nforam obrigadas a sair de suas terras, vendendo a pre\u00e7os baixos ou simplesmente\nabandonando suas \u00e1reas de plantio sem qualquer pagamento pela terra ou pelos\nbenef\u00edcios existentes no local, devido as estrat\u00e9gias de expropria\u00e7\u00e3o\nutilizadas pela empresa, a exemplo da danifica\u00e7\u00e3o de planta\u00e7\u00f5es com rejeitos da\nmina, perturba\u00e7\u00e3o cotidiana com riscos de acidentes com pedras removidas no\nprocesso de pesquisa-explora\u00e7\u00e3o, constantes situa\u00e7\u00f5es de humilha\u00e7\u00e3o com revista\naos moradores(as) que, ap\u00f3s instala\u00e7\u00e3o da mina, tiveram acessos as suas \u00e1reas\nparticulares ou de uso comum, monitorados, restringidos ou impedidos pela\nempresa (SILVA, 2015). <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"200\" width=\"300\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cptba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/129-300x200.jpg?resize=300%2C200&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-9584\"\/><figcaption>Serra Jo\u00e3o Belo, 2015.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Quando chegou a regi\u00e3o de Jacobina, dona Judite, tinha 13 anos, por \nconta da seca, migrou com seu marido da regi\u00e3o de Rio Preto-Ventura, \nproximidades de Morro do Chap\u00e9u, instalando-se na comunidade de \nJabuticaba, no p\u00e9 da Serra conhecida como Jo\u00e3o Belo. Segundo relatos, \nque podem ser constatados tamb\u00e9m pela observa\u00e7\u00e3o da geografia do \nentorno, um lugar que antes da minera\u00e7\u00e3o era bonito, sossegado, de terra\n boa, vegeta\u00e7\u00e3o, \u00e1gua e ouro em abund\u00e2ncia, com plantios diversos, \nextrativismo sustent\u00e1vel e pr\u00e1tica de garimpagem artesanal, que \npossibilitava a vida com dignidade naquele espa\u00e7o. <\/p>\n\n\n\n<p>Conforme\nmencionado anteriormente, a realidade come\u00e7a a sofrer altera\u00e7\u00f5es a partir de\n1971, quando a empresa mineradora UniGeo iniciou os processos de pesquisa na\ncomunidade. \u201cAcabou-se o sossego, come\u00e7ou a agonia. Voavam pedras bem grandes,\neu tinha que me esconder debaixo da mesa com meus filhos, com medo\u201d, relata\ndona Judite.&nbsp; Este fato se repetia com\nfreq\u00fc\u00eancia, e a fam\u00edlia foi obrigada a sair de sua casa, entregando suas terras\n\u00e0 empresa, por \u201cmixaria\u201d. \u201cEu criava, trabalhava na serra, plantava, e sa\u00ed de\nl\u00e1 por causa da firma e perdi meus trem tudo\u201d, enfatiza Judite Simoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona\nJudite e sua fam\u00edlia foram morar na comunidade de Itapirucu, a margem do Rio do\nCuia que na \u00e9poca, era um rio limpo. A empresa UniGeo foi substitu\u00edda pela\nJacobina Minera\u00e7\u00e3o e Com\u00e9rcio, atual <em>Yamana\nGold, <\/em>o territ\u00f3rio-abrigo, virou alvo de especula\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o visando o\nlucro para uma empresa multinacional, cujas pr\u00e1ticas sempre foram de\nexpropria\u00e7\u00e3o e \u201cusurpa\u00e7\u00e3o dos bens coletivos\u201d como afirma a escritora Farias em\nseu livro <em>Enredos e tramas nas minas de\nouro de Jacobina (2008)<\/em> e a pr\u00f3pria dona Judite ao lembrar emocionada dos\ndanos sofridos. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o fez nada\npra ningu\u00e9m n\u00e3o, n\u00f3s fazia o ouro, n\u00f3s fazia plantio, n\u00f3s fazia um tudo na\nvida, e acabou tudo assim, virou\u2026 Eu tenho saudade de l\u00e1, de panhar trem de\ndentro da ro\u00e7a, de tanta fartura que eu tinha\u2026 no p\u00e9 da serra eu plantava\ntudo, era andu, feij\u00e3o, batata, ab\u00f3bora, cebola, quiabo, tudo quanto h\u00e1, depois\nque a firma tomou conta \u00e9 que acabou tudo. Os rios eram muito bons, todos satisfeitos,\ntudo cheio de peixe e hoje acabou tudo, eu sinto muito\u2026 chega me inson\u00e1 e\nchoro\u201d, conclui. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"225\" width=\"300\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cptba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/152-300x225.jpg?resize=300%2C225&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-9583\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Conheci dona Judite no ano de 2014, na \u00e9poca com 108 anos de idade, \nela estava trabalhando em sua ro\u00e7a, no meio das \u00e1rvores frut\u00edferas, \nusava um casaco de bolsos fundos onde levava sementes, e apoiava-se em \numa esp\u00e9cie de cajado para subir as ladeiras, no caminho, para a casa de\n farinha antiga que existia em seu quintal, ela ia me contando as \nhist\u00f3rias, volta e meia parava, tirava algumas sementes do bolso e as \ncolocava na terra \u201cPlanto na terra, se chover, nasce\u201d, afirmava.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa\n\u00e9poca, a <em>Yamana Gold<\/em> procurou dona\nJudite para fazer pesquisa na sua terra em Itapicuru, ela ficou muito brava e\nentristecida, temia novo processo de desterritorializa\u00e7\u00e3o e esbravejava contra\na empresa, lembrando vivamente de todo o sofrimento causado pela remo\u00e7\u00e3o de sua\nterra em Jabuticaba. <\/p>\n\n\n\n<p>Essa\nmulher centen\u00e1ria carrega a for\u00e7a dos encantados e a mem\u00f3ria dos ancestrais,\ncomo cuida das sementes da resist\u00eancia, ela cuida dos Santos e chora de saudade\ndo tempo que fazia samba e sambava no ritmo dos tambores. <\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*Maria Aparecida de Jesus Silva \u2013<\/em><\/strong><em> Mulher  negra. Agente da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra. Bacharel em teologia,  pedagoga, especialista em Desenvolvimento e Rela\u00e7\u00f5es Sociais no Campo.\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Colabora\u00e7\u00e3o:<\/strong>\n&nbsp;Claudiana Pereira, moradora da\ncomunidade de Itapicuru, Jacobina (BA) e colaboradora da CPT Ampliada. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias\nBibliogr\u00e1ficas: <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>FARIAS, S. O. <strong>Enredos e Tramas nas Minas de Ouro de\nJacobina<\/strong>. Recife: UFPE, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>SILVA. Maria Aparecida\nde J. <strong>Territorialidades, Conflitos e\nResist\u00eancias a Minera\u00e7\u00e3o na Comunidade de Itapicuru, Jacobina-BA<\/strong><em>. <\/em>Monografia \u2013 UNB, Planaltina \u2013 DF, 2015.\n<\/p>\n\n\n\n<p>BASTER, Raquel. O Silenciamento das mulheres camponesas em situa\u00e7\u00f5es de conflitos no campo e as sementes que anunciam suas resist\u00eancias. In: COMISS\u00c3O PASTORAL DA TERRA. <strong>Conflitos no Campo Brasil 2018<\/strong>. Goi\u00e2nia, Centro de Documenta\u00e7\u00e3o Dom Thomas Baldu\u00edno, CPT Nacional, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Link original da publica\u00e7\u00e3o: <a href=\"https:\/\/cptba.org.br\/judite-simoa-um-retrato-das-mulheres-que-vivem-entre-desterritorializacoes-e-r-esistencias-aos-empreendimentos-do-capital-no-campo\/\">https:\/\/cptba.org.br\/judite-simoa-um-retrato-das-mulheres-que-vivem-entre-desterritorializacoes-e-r-esistencias-aos-empreendimentos-do-capital-no-campo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de dona Judite Simoa, moradora da comunidade de Itapicuru, Jacobina (BA), \u00e9 um retrato da vida de muitas mulheres em situa\u00e7\u00e3o de conflitos com empreendimentos do capital. <\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":8849,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"A hist\u00f3ria de dona Judite Simoa, moradora da comunidade de Itapicuru, Jacobina (BA), \u00e9 um retrato da vida de muitas mulheres em situa\u00e7\u00e3o de conflitos com empreendimentos do capital. 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