{"id":8831,"date":"2019-09-10T10:35:00","date_gmt":"2019-09-10T13:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8831"},"modified":"2019-09-09T14:44:06","modified_gmt":"2019-09-09T17:44:06","slug":"desprezivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8831","title":{"rendered":"Desprez\u00edvel"},"content":{"rendered":"\n<p><em> Por <\/em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/priscilafigueiredo\/\"><em>Priscila Figueiredo<\/em><\/a><em>, no site <\/em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/category\/crise-civilizatoria\/\"><strong><em>Outras Palavras<\/em><\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"448\" data-attachment-id=\"8832\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=8832\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/190906-chicote.png?fit=700%2C490&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"700,490\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"190906-chicote\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/190906-chicote.png?fit=300%2C210&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/190906-chicote.png?fit=640%2C448&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/190906-chicote.png?resize=640%2C448&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-8832\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/190906-chicote.png?w=700&amp;ssl=1 700w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/190906-chicote.png?resize=300%2C210&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 1888, j\u00e1 passada a Aboli\u00e7\u00e3o, Machado de Assis cismou \ncom a forma como veio a se noticiar a morte de um carrasco de Minas \nGerais, o qual teria exercido o \u201cdesprez\u00edvel of\u00edcio desde 1835 at\u00e9 \n1858\u201d: \u201cPor que carga d\u2019\u00e1gua h\u00e1 de ser <em>desprez\u00edvel<\/em> um of\u00edcio \ncriado por lei? Foi a lei que decretou a pena de morte, e desde Caim at\u00e9\n hoje, para matar algu\u00e9m \u00e9 preciso algu\u00e9m que mate. A bela sociedade \nestabeleceu a pena de morte para o assassino, em vez de uma razo\u00e1vel \ncompensa\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria aos parentes do morto, como queria Maom\u00e9. Para \nexecutar a pena n\u00e3o se h\u00e1 de ir buscar o escriv\u00e3o, cujos dedos s\u00f3 se \ndevem tingir no sangue do tinteiro. Usamos empregar outro criminoso\u201d (<em>Bons dias!<\/em>, 27\/12\/1888).<\/p>\n\n\n\n<p>Confesso que tamb\u00e9m embatuquei com a primeira nota expedida pelo \nsupermercado Ricoy a prop\u00f3sito de uma sess\u00e3o de tortura nas depend\u00eancias\n de uma de suas filiais, gravada pelos pr\u00f3prios torturadores:<\/p>\n\n\n\n<p>1 \u2013 <em>Ficamos chocados com<\/em> o conte\u00fado de uma <em>tortura gratuita e sem sentido<\/em> <em>em cima<\/em> do adolescente v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>2 \u2013 O Ricoy desde sua funda\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1970 exerce <em>os princ\u00edpios mais r\u00edgidos de valoriza\u00e7\u00e3o do ser humano<\/em>, seja em nossas lojas ou em nossa comunidade. <em>Ficamos muito abalados<\/em> com a not\u00edcia <em>que nos causou repulsa imediata<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>3 \u2013 <em>Os dois seguran\u00e7as acusados de praticarem os atos s\u00e3o de empresa contratada terceirizada<\/em> e n\u00e3o prestam mais servi\u00e7o para nossos supermercados.<\/p>\n\n\n\n<p>4 \u2013 Para manter nossa coer\u00eancia em <em>contribuir com as investiga\u00e7\u00f5es<\/em>, nesta ter\u00e7a-feira (3), um funcion\u00e1rio da loja Yervant Kissajikian, 3384, prestou depoimento no 80\u00ba Distrito Policial.<\/p>\n\n\n\n<p>5 \u2013 O Ricoy j\u00e1 <em>disponibilizou<\/em> uma assistente social para conversar com a v\u00edtima e a fam\u00edlia. Daremos <em>todo o suporte<\/em> que for necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os grifos s\u00e3o meus para real\u00e7ar algumas das conven\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias desse\n tipo de discurso, praticado de tal modo no Brasil que chego a pensar \nnum curso sobre o assunto, pois creio que seria in\u00e9dito e disporei para \nisso de um <em>corpus<\/em> que n\u00e3o para de se ampliar. A estrutura \nb\u00e1sica (verifiquei muitas outras \u201cnotas de pesar e esclarecimento\u201d \nescritas pela assessoria de outros supermercados e lojas a prop\u00f3sito de \ncasos semelhantes) consiste em 1-manifestar espanto e indigna\u00e7\u00e3o, \n2-manifestar que ela mesma, loja, defende princ\u00edpios contr\u00e1rios aos \nsubjacentes no ato que muito a indignou, 3-esclarecer que os seguran\u00e7as \ns\u00e3o terceirizados (o que n\u00e3o \u00e9 apenas um clich\u00ea lingu\u00edstico ou ret\u00f3rico,\n claro), 4-avisar que j\u00e1 os despediu, 5-mostrar-se interessada nas \ninvestiga\u00e7\u00f5es, em que pretende <em>colaborar<\/em>, 6-manifestar que far\u00e1 <em>todo o poss\u00edvel <\/em>para dar <em>suporte<\/em> \u00e0 v\u00edtima (a palavra <em>suporte<\/em>\n \u00e9&nbsp;um faz-tudo emocional, material, espiritual, social e o que mais \ncouber a\u00ed tal sua indefini\u00e7\u00e3o). N\u00e3o se economiza no uso de pronomes \nindefinidos (<em>todo o, todos, tudo, nada<\/em>), adv\u00e9rbios de intensidade (<em>extremamente<\/em>, <em>veementemente<\/em>, <em>muito<\/em>, <em>muit\u00edssimo<\/em>) e tamb\u00e9m no emprego de um repert\u00f3rio j\u00e1 cl\u00e1ssico de verbos e substantivos como <em>repudiar, indignar, indigna\u00e7\u00e3o<\/em>,\n tudo n\u00e3o deixando de ser varia\u00e7\u00f5es da tend\u00eancia superlativista dessa \nforma. Superlativismo que \u00e9, por assim dizer, um ativismo atrasado ou \nrecrudescido, que o com\u00e9rcio empresta das \u201cmo\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio\u201d, pr\u00f3prias \ndeste tempo tamb\u00e9m, quando o leite derramado derrama muitas vezes mais \nque a \u00faltima vez. Como no entanto j\u00e1 s\u00e3o lugares-comuns, o esp\u00edrito que \na\u00ed se manifesta como que tocado por uma enormidade \u00e9 um pouco amortecido\n pelas letras, mesmo que superlativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao primeiro item, \u201cFicamos chocados com o conte\u00fado de uma  tortura gratuita e sem sentido em cima do adolescente v\u00edtima\u201d, cabe  perguntar que tortura n\u00e3o \u00e9 gratuita ou pode ter sentido. Por esse lapso  escapa alguma fuma\u00e7a. Imaginemos que a assessoria de imprensa n\u00e3o saiba  escrever direito, n\u00e3o saiba portugu\u00eas nem tenha no\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de  reg\u00eancia (o que se percebe pelo \u201ctortura em cima\u201d), ainda assim n\u00e3o \u00e9  raro que a exig\u00eancia moral ou o assombro mais franco sempre possam achar  caminho, mesmo entre as ru\u00ednas, para se expressar. Contudo, se n\u00e3o for o  caso de uma indig\u00eancia lingu\u00edstica, teria sido mais adequado formular  algo como: \u201cFicamos chocados com o conte\u00fado de uma tortura \u2014 como tal,  sempre gratuita, sem sentido, al\u00e9m de abomin\u00e1vel ou hedionda, para n\u00e3o  dizer diab\u00f3lica \u2014 praticada com um adolescente etc.\u201d. Tortura \u00e9,  digamos, substantivo absoluto, intransitivo, cujo sentido, sempre macabro,  se encerra em si mesmo, n\u00e3o pass\u00edvel de ser graduado em sua ess\u00eancia  por nenhum adjetivo ou adv\u00e9rbio. A frase original, no entanto, indica  que o mundo dos que escreveram essa nota parece reservar algum lugar  para a sua pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao segundo ponto: \u201cO Ricoy desde sua funda\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de  1970 exerce os princ\u00edpios mais r\u00edgidos de valoriza\u00e7\u00e3o do ser humano,  seja em nossas lojas ou em nossa comunidade. Ficamos muito abalados com a  not\u00edcia que nos causou repulsa imediata\u201d. Como disse, o recurso ao verbo <em>repudiar<\/em>  j\u00e1 \u00e9 um cl\u00e1ssico \u2014 mas quais seriam \u201cos princ\u00edpios mais r\u00edgidos de  valoriza\u00e7\u00e3o do ser humano\u201d que o estabelecimento exerce desde sua  funda\u00e7\u00e3o? Nos \u201cmais r\u00edgidos\u201d, ali\u00e1s, quase leio \u201cincorrupt\u00edveis\u201d \u2013 mas  quais s\u00e3o? Onde acho esses princ\u00edpios? S\u00e3o os mesmos da Declara\u00e7\u00e3o dos  Direitos do Homem? Sem d\u00favida se proclama a\u00ed uma universalidade de  conduta, com princ\u00edpios v\u00e1lidos desde sempre, em toda parte, para todos,  mas gostaria de v\u00ea-los descritos, e n\u00e3o s\u00f3 a eles como tamb\u00e9m os  momentos particulares em que o Ricoy teria a oportunidade de \u201cempunhar  essa bandeira\u201d, para manter o tom de seu enunciado muito digno \u2014  convenhamos, aqui ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 supermercado, mas, desde sua funda\u00e7\u00e3o,  ali\u00e1s durante a ditadura militar, estaria mais para uma esp\u00e9cie de  organiza\u00e7\u00e3o que milita em favor dos direitos humanos, e a atividade  comercial talvez biombo ou fachada para a valoriza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o do dinheiro  mas do esp\u00edrito. Do humano clientela ou do humano empregado? E do humano  terceirizado? Haveria a\u00ed uma escala? E, sendo sempre \u201ca mais r\u00edgida  valoriza\u00e7\u00e3o\u201d, como se mostraria de um caso a outro? Quase j\u00e1 vou  esquecendo que ela \u00e9 universal e n\u00e3o desce a tais vulgaridades.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro ponto traz outra conven\u00e7\u00e3o t\u00edpica desse g\u00eanero \u2013 que de \nt\u00e3o praticado produzir\u00e1 algum g\u00eanio, mesmo que permane\u00e7a an\u00f4nimo \u2013, al\u00e9m\n da insist\u00eancia sempre presente em <em>reiterar<\/em> (eles s\u00e3o infatig\u00e1veis) que n\u00e3o aceitam <em>qualquer ato de viol\u00eancia<\/em> e <em>n\u00e3o v\u00e3o se eximir! (<\/em>um \u00f3timo verbo, pois a repeti\u00e7\u00e3o do<em> i<\/em>\n \u00e9 sempre galvanizante e desperta credibilidade). A t\u00f3pica presente aqui\n \u00e9 o an\u00fancio de que j\u00e1 despediram os seguran\u00e7as, que sempre ser\u00e3o de uma\n empresa contratada, clich\u00ea desta \u00e9poca tamb\u00e9m. S\u00e3o portanto, como o \ncarrasco de Minas Gerais, <em>desprez\u00edveis<\/em>. N\u00e3o vou dizer, \nassistindo ao v\u00eddeo com o menino cercado por caixas de tomate e outros \nalimentos, com a cal\u00e7a arriada at\u00e9 os tornozelos e chicoteado com fios \nel\u00e9tricos (o instrumento <em>vintage&nbsp;<\/em>foi&nbsp;um&nbsp;pouco&nbsp;atualizado,&nbsp;mas&nbsp;n\u00e3o&nbsp;perdeu\n resson\u00e2ncias antigas), al\u00e9m de impedido de gritar, pois estava \namorda\u00e7ado, e proibido severamente de se proteger por qualquer forma dos\n golpes sucessivos, n\u00e3o vou dizer que essas figuras n\u00e3o sejam s\u00e1dicas, \nmas lembrar que s\u00e3o terceirizadas e em seguida avisar que j\u00e1 foram \ndespedidas tem muito daquele <em>desprez\u00edvel<\/em>, parecendo um pouco \ninjusto ou ingrato. Afirmar que esses homens n\u00e3o t\u00eam v\u00ednculo \nempregat\u00edcio com o lugar onde cometeram as viola\u00e7\u00f5es permite um \nsubterf\u00fagio que n\u00e3o tivera o Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele verdugo, \ncontratado por ele diretamente e buscado entre assassinos para exercer o\n of\u00edcio de matar, fazendo-o se deslocar da marginalidade para o centro \nda ordem ou da manuten\u00e7\u00e3o da ordem social. Lembremos ainda que profiss\u00e3o\n corrente at\u00e9 o fim da escravid\u00e3o como a de capit\u00e3o do mato ou apresador\n de escravos urbanos era muitas vezes, ao contr\u00e1rio do posto de \ncarrasco, trabalho aut\u00f4nomo, n\u00e3o menos requisitado e indescart\u00e1vel, \nainda que tamb\u00e9m considerado abjeto pela sociedade do s\u00e9culo 19, \nespecialmente depois de 1850, e mesmo pelos que o remuneravam depois que\n se levava a presa. J\u00e1 ent\u00e3o fedia como o trabalho de um traficante \nnegreiro, mas por feder n\u00e3o era menos solicitado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que a carta oficial de Ouro Preto, que tinha reportado o \nfato que interessara ao cronista, mencionava que o sujeito exercera o \nof\u00edcio entre 1835 e 1858, portanto umas d\u00e9cadas antes de sua morte; seja\n como for, a pena de morte continuava a existir ainda naquela altura, e \ncom ela a tarefa do carrasco. \u201cDeus meu, n\u00e3o digo que o of\u00edcio seja dos \nmais honrosos: \u00e9 muito inferior ao do meu engraxador de botas (\u2026); mas \nse o carrasco sai a matar um homem, \u00e9 porque o mandam\u201d. E o executor n\u00e3o\n deixa de ser um pobre-diabo, a quem no entanto o Estado deveria \nagradecer pelos servi\u00e7os prestados. \u00c9 ingratid\u00e3o chamar-lhe de \nrepugnante, assim como despedir os seguran\u00e7as e, mais ainda, se tornar \num \u201ccolaboracionista\u201d. Convenhamos que esses supermercados est\u00e3o n\u00e3o \napenas lavando as m\u00e3os pelo artif\u00edcio de buscarem carrascos de outras \nempresas, mas tamb\u00e9m infringindo uma esp\u00e9cie de \u00e9tica, de lealdade \nafinal devida \u00e0queles de quem se serviu \u2013 est\u00e3o colaborando com o \ninimigo, ou seja, a justi\u00e7a que queira julgar o crime cometido contra um\n rapaz, no caso morador de rua. Uma justi\u00e7a a cuja suposta equanimidade \nse recorreu \u2013 n\u00e3o primeiro o supermercado, mas seus detratores, seus \ninimigos afinal, a quem logo se juntou \u2013, justi\u00e7a que em princ\u00edpio (o \nqual esperamos ser \u201co mais r\u00edgido\u201d) \u00e9 inimiga dos que apreciam a tortura\n ou a prescrevem, especialmente para determinada classe de pessoas. N\u00e3o \nh\u00e1 d\u00favida de que esses empres\u00e1rios se degradam numa esp\u00e9cie de \ncolaboracionismo \u2013 \u00e9 que de tanto ver o verbo <em>colaborar<\/em> andar \npor essas notas fica mais f\u00e1cil acrescentar o \u201cismo\u201d. Seria como se os \ngenerais da ditadura militar se referissem a um torturador como \n\u201cdesprez\u00edvel\u201d \u2014 ter\u00edamos ent\u00e3o a mesma \u201cdisson\u00e2ncia cognitiva\u201d, como \ngostava de dizer FHC. Nesse sentido, \u00e9 preciso admitir que o atual \npresidente da Rep\u00fablica n\u00e3o presta colabora\u00e7\u00f5es desse tipo, isto \u00e9, que \npossam ir contra sua pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Na informa\u00e7\u00e3o da rede Extra escrita recentemente por sua assessoria a  prop\u00f3sito da morte de Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, consequ\u00eancia  de uma mata-le\u00e3o aplicado por um de seus seguran\u00e7as, tamb\u00e9m constava que  fora \u201cimediatamente e definitivamente\u201d afastado o elemento desprez\u00edvel,  e a companhia ent\u00e3o se mostrava interessada em ajudar, instaurara \u201cuma  sindic\u00e2ncia interna\u201d e acompanhava \u201cjunto \u00e0 empresa de seguran\u00e7a e aos  \u00f3rg\u00e3os competentes o andamento das investiga\u00e7\u00f5es\u201d. Como fatos desse tipo  se repetem, conclu\u00edmos que os terceirizados n\u00e3o cessam de ser  afastados, o que ali\u00e1s j\u00e1 caracteriza sua condi\u00e7\u00e3o, como se a empresa os  estivesse sempre trocando para aperfei\u00e7oar seus \u201cprinc\u00edpios mais  r\u00edgidos de valoriza\u00e7\u00e3o do humano\u201d. Estando nisso empenhados, nos d\u00e3o o  conforto de avisar que se desvencilhar\u00e3o de todos os obst\u00e1culos que a  constrangem, mesmo que estes venham a ser seus empregados, embora por  sorte raramente o sejam tamb\u00e9m, avisam. Em todo caso, \u201cnada justifica a  perda de uma vida\u201d, e a \u201ca rede Extra n\u00e3o vai se eximir das  responsabilidades diante do ocorrido\u201d. <em>Eximir-se das\u2026<\/em> <em>diante<\/em>\u2026  Eis outra disson\u00e2ncia cognitiva, semelhante \u00e0quela que Machado viu no  necrol\u00f3gio do assassino de Estado. Uma preposi\u00e7\u00e3o mudaria tudo: \u201cA rede  Extra n\u00e3o vai se eximir das responsabilidades <em>pelo<\/em> ocorrido\u201d. Na verdade suas assessorias n\u00e3o escrevem t\u00e3o mal e perceberam que <em>diante<\/em>  realizaria o milagre de metamorfosear um narrador em primeira pessoa  (talvez doloso, mas isso foi o que imaginaram) na pessoa de um mero  observador ou mesmo de algu\u00e9m ausente da cena, embora muito condo\u00eddo  pelo que ouviu contar. Isso se n\u00e3o se aplicar aqui a \u201cteoria do dom\u00ednio  do fato\u201d, aquela que imputa os que sabem, embora n\u00e3o fa\u00e7am. Mas por  certo ela n\u00e3o dever\u00e1 valer nesse caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Link original: <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desprezivel\/\">https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desprezivel\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s a sess\u00e3o de tortura em um de seus supermercados, a Ricoy escreveu uma nota. 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