{"id":8292,"date":"2019-08-01T20:00:49","date_gmt":"2019-08-01T23:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8292"},"modified":"2019-08-02T09:38:39","modified_gmt":"2019-08-02T12:38:39","slug":"doente-de-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8292","title":{"rendered":"Doente de Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>*Por Eliane Brum, Coluna Opini\u00e3o EL Pa\u00eds.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasil.elpais.com\/resizer\/bc_tsUZkQ-EI591J39OxmtFAZ-E%3D\/1500x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/M7WGBM57I3IN35TNMXQB3P6GAA.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-8298\"\/><figcaption> O presidente Jair Bolsonaro durante cerim\u00f4nia de troca da guarda. EVARISTO S\u00c1 (AFP) <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a>\n \u00e9 um perverso. N\u00e3o um louco, nomea\u00e7\u00e3o injusta (e preconceituosa) com os\n efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um \noutro. O presidente do Brasil \u00e9 perverso, um tipo de gente que s\u00f3 mant\u00e9m\n os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem \u00e9 do seu sangue \nou de quem abana o rabo para as suas ideias. Enquanto estiver abanando o\n rabo \u2013 se parar, ser\u00e1 tamb\u00e9m mastigado. Um tipo de gente sem limites, \nque n\u00e3o se preocupa em colocar outras pessoas em risco de morte, mesmo \nque sejam funcion\u00e1rios p\u00fablicos a servi\u00e7o do Estado, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/11\/politica\/1555009346_229285.html\">como os fiscais do IBAMA<\/a>,\n nem se importa em mentir descaradamente sobre os n\u00fameros produzidos \npelas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es governamentais desde que isso lhe convenha, \ncomo tem feito com as estat\u00edsticas alarmantes do <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/29\/opinion\/1564359268_903425.html\">desmatamento da Amaz\u00f4nia<\/a>. O Brasil est\u00e1 nas m\u00e3os deste perverso, que re\u00fane <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/10\/opinion\/1554907780_837463.html\">ao seu redor outros perversos e alguns oportunistas<\/a>.\n Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fen\u00f4meno que \nconverte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destr\u00f3i a \npossibilidade da verdade, os brasileiros t\u00eam adoecido. Adoecimento \nmental, que resulta tamb\u00e9m em queda de imunidade e sintomas f\u00edsicos, j\u00e1 \nque o corpo \u00e9 um s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 desta ordem os relatos que tenho recolhido nos \u00faltimos meses junto a psicanalistas e <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/psiquiatria\">psiquiatras<\/a>,  e tamb\u00e9m a m\u00e9dicos da cl\u00ednica geral, medicina interna e cardiologia,  onde as pessoas desembarcam queixando-se de taquicardia, tontura e falta  de ar. Um destes m\u00e9dicos, cardiologista, confessou-se exausto, porque  mais da metade da sua cl\u00ednica, atualmente, corresponde a queixas sem  rela\u00e7\u00e3o com problemas do cora\u00e7\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o, e, sim, com <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/12\/24\/eps\/1545644753_434921.html\">ansiedade extrema e\/ou depress\u00e3o<\/a>. Est\u00e1 trabalhando mais, em consultas mais longas, e inseguro sobre como lidar com algo para o qual n\u00e3o se sente preparado.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno come\u00e7ou a ser notado nos consult\u00f3rios <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/30\/politica\/1564516182_689279.html\">nos \u00faltimos anos de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/a>,\n que dividiu fam\u00edlias, destruiu amizades e corroeu as rela\u00e7\u00f5es em todos \nos espa\u00e7os da vida, ao mesmo tempo em que a crise econ\u00f4mica se agravava,\n o <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/desempleo\">desemprego<\/a> aumentava e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho se deterioravam. Acirrou-se enormemente a partir da campanha eleitoral <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/24\/opinion\/1540394956_656180.html\">baseada no incitamento \u00e0 viol\u00eancia<\/a>\n produzida por Jair Bolsonaro em 2018. Com um presidente que, desde \njaneiro, governa a partir da administra\u00e7\u00e3o do \u00f3dio, n\u00e3o d\u00e1 sinais de \narrefecer. Pelo contr\u00e1rio. A percep\u00e7\u00e3o \u00e9 de crescimento do n\u00famero de \npessoas que se dizem \u201cdoentes\u201d, sem saber como buscar a cura.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou\n insistir, mais uma vez, neste espa\u00e7o, que precisamos chamar as coisas \npelo nome. N\u00e3o apenas porque \u00e9 o mais correto a fazer, mas porque essa \u00e9\n uma forma de resistir ao adoecimento. N\u00e3o \u00e9 do \u201cjogo democr\u00e1tico\u201d ter \num homem como Jair Bolsonaro na presid\u00eancia. Tanto como n\u00e3o havia \n\u201cnormalidade\u201d alguma em ter <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adolf_hitler\">Adolf Hitler<\/a>\n no comando da Alemanha. N\u00e3o d\u00e1 para tratar o que vivemos como algo que \npode ser apenas gerido, porque n\u00e3o h\u00e1 como gerir a pervers\u00e3o. Ou o que \nmais precisa ser feito ou dito por Bolsonaro para perceber que n\u00e3o h\u00e1 \ngest\u00e3o poss\u00edvel de um perverso no poder? Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 \u201caut\u00eantico\u201d. \nBolsonaro \u00e9 um mentiroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos \u2013 e devemos \u2013 discutir \ncomo chegamos a ter um presidente que usa, como estrat\u00e9gia, a guerra \ncontra todos que n\u00e3o s\u00e3o ele mesmo e o seu cl\u00e3. Como chegamos a ter um \npresidente <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/30\/opinion\/1564520568_228934.html\">que mente sistematicamente sobre tudo<\/a>.\n Podemos \u2013 e devemos discutir \u2013 como chegamos a ter um antipresidente. \nAssim como podemos \u2013 e devemos \u2013 perceber que a experi\u00eancia brasileira \nest\u00e1 inserida num fen\u00f4meno global, que se reproduz, com particularidades\n pr\u00f3prias, em diferentes pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse esfor\u00e7o de \nentendimento do processo, de interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos e de produ\u00e7\u00e3o de \nmem\u00f3ria \u00e9 insubstitu\u00edvel. Mas \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m responder ao que est\u00e1 \nnos adoecendo agora, antes que nos mate.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 10 de julho, o psiquiatra Fernando Ten\u00f3rio escreveu um post no Facebook que viralizou e foi replicado em v\u00e1rios grupos de <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/whatsapp\">Whatsapp<\/a>.  Aqui, um trecho: \u201cAcabei de atender a um homem de 45 anos, negro, sem  escolaridade. Nos \u00faltimos cinco anos, viu seus colegas de setor serem  demitidos um a um e ele passou a acumular as fun\u00e7\u00f5es de todos. Disse-me  que nem reclamou por medo de ser o pr\u00f3ximo da fila. Tem sintomas de  esgotamento que descambam para ansiedade. Qual o diagn\u00f3stico para isso?  Brasil. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/05\/02\/opinion\/1493754832_298868.html\">Adoeceu de Brasil<\/a>.  Se eu tivesse algum poder iria sugerir ao DSM (o manual de transtornos  mentais da psiquiatria) esse novo diagn\u00f3stico. Adoecer de Brasil \u00e9 a  mais prevalente das doen\u00e7as. Entrei agora na Internet e vi que a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/reforma_da_previdencia\">reforma da previd\u00eancia<\/a>  corre para ser aprovada sem sustos. O povo, adoecido de Brasil,  permanece inerte. Vai trabalhar sem direito a aposentadoria at\u00e9 morrer  de Brasil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> N\u00e3o h\u00e1 normalidade nem jogo democr\u00e1tico quando um perverso governa a partir da administra\u00e7\u00e3o do \u00f3dio e da mentira <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Alagoano da pequena Maribondo, Fernando Ten\u00f3rio fez resid\u00eancia e atuou na rede p\u00fablica de sa\u00fade mental do <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rio_de_janeiro\">Rio de Janeiro<\/a>.\n Atualmente, mant\u00e9m consult\u00f3rio na capital fluminense e atende \ntrabalhadores de um sindicato do setor hoteleiro. O psiquiatra me conta,\n por telefone, que cresceu muito o n\u00famero de pessoas que chegavam ao seu\n consult\u00f3rio com sintomas como taquicardia, desmaios na rua, sinais de \nesgotamento corporal, dores de cabe\u00e7a frequentes, sentimentos \ndepressivos. Eram pessoas que estavam objetiva e subjetivamente \nesgotadas pela precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como jornada \nexcessiva, ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es, metas imposs\u00edveis de cumprir, falta de \nperspectivas de mudan\u00e7a, inseguran\u00e7a extrema. Tinham um \u201ctrabalho de \nmerda\u201d e, ao mesmo tempo, medo de perder o \u201ctrabalho de merda\u201d, como \ntestemunharam acontecer com v\u00e1rios colegas.<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra diz que ele mesmo se descobriu adoecido meses atr\u00e1s. \u201cFiquei muito mal, porque me senti quase um <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/23\/ciencia\/1519399587_495425.html\">traficante de drogas legais<\/a>.\n Estava tratando uma crise, que \u00e9 social, no indiv\u00edduo. E, de certo \nmodo, ao dar medicamentos, estava tornando essa pessoa apta a sofrer \nmais, porque a jogava de volta ao trabalho.\u201d Na sua avalia\u00e7\u00e3o, o \nadoecimento est\u00e1 relacionado \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho nos \n\u00faltimos anos, acentuada pela <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/reformas_laborales\">reforma trabalhista aprovada em 2017<\/a>, e foi agravado com a ascens\u00e3o de um governo \u201cque declarou guerra ao seu povo\u201d. \u201cO Brasil hoje \u00e9 t\u00f3xico\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s\n a publica\u00e7\u00e3o do post, Ten\u00f3rio sentiu ainda mais o n\u00edvel da toxicidade \ncotidiana do pa\u00eds: recebeu xingamentos e amea\u00e7as. Um dos agressores \nlembrou que sua filha, cuja foto viu em uma <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\">rede social<\/a>, um dia poderia ser estuprada. A menina \u00e9 um beb\u00ea de menos de 2 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cT\u00f3xico\u201d  \u00e9 palavra de uso frequente de brasileiros ao relatarem o sentimento de  viver em um pa\u00eds onde j\u00e1 n\u00e3o conseguem respirar. Na constata\u00e7\u00e3o de que o  governo Bolsonaro <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/31\/politica\/1564581103_642583.htmlhttps:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/06\/19\/opinion\/1560948146_966466.html\">j\u00e1 aprovou 290 agrot\u00f3xicos<\/a>  em apenas sete meses, o envenenamento ganha uma outra camada. \u00c9 como se  os corpos fossem um objeto atacado por todos os lados. Pa\u00eds que  ultrapassou a possibilidade das met\u00e1foras, a toxicidade do Brasil  abrange todas as acep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas que adoecimento \u00e9 este que Ten\u00f3rio chama de \u201cdoente de \nBrasil\u201d? Um psicanalista que prefere n\u00e3o se identificar por temer \nrepres\u00e1lias explica que aumentou muito nos consult\u00f3rios os quadros \ndepressivos provocados pelo momento vivido pelo Brasil, em que \nespecialmente pessoas ligadas \u00e0 esquerda, mas n\u00e3o necessariamente ao <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pt_partido_trabajadores_brasil\">PT<\/a>, sentem uma total perda de sentido e horizonte. \u201cPara a psiquiatria, a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/depresion\">depress\u00e3o<\/a>\n \u00e9 a tristeza sem contexto. Ou seja, ela \u00e9 relacionada \u00e0 estrutura \nps\u00edquica de cada pessoa, \u00e0s funda\u00e7\u00f5es e alicerces constru\u00eddos na \ninf\u00e2ncia\u201d, explica. \u201cO que temos vivido hoje nos consult\u00f3rios \u00e9 o \naumento da depress\u00e3o com contexto, esta que n\u00e3o tem a ver com a \nestrutura do indiv\u00edduo e que nem vai melhorar no div\u00e3. Esta em que o uso\n de medicamentos s\u00f3 vai servir para obscurecer o esclarecimento das \nquest\u00f5es. Esta que s\u00f3 pode ser sanada por mudan\u00e7as sociais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> Cresce nos consult\u00f3rios os casos de depress\u00e3o provocados e alimentados pelo contexto pol\u00edtico e social <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O\n rompimento dos la\u00e7os, como a divis\u00e3o das fam\u00edlias provocada pela \npolariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tornou as pessoas ainda mais sujeitas ao \nadoecimento mental e com menos ferramentas para lidar com ele. Como \ndisse um fil\u00f3sofo, ningu\u00e9m deixa de dormir porque est\u00e1 tendo uma guerra \nno outro lado do mundo, com exce\u00e7\u00e3o daqueles que vivem a guerra. Com \nisso, ele queria dizer que as pessoas perdiam o sono muito mais por <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/06\/03\/opinion\/1559594866_948491.html\">pequenas dores e preocupa\u00e7\u00f5es comezinhas<\/a>\n com as quais se identificavam, como as relacionadas \u00e0 fam\u00edlia e ao \nmundo dos afetos, do que por enormes barb\u00e1ries que ocorriam no outro \nlado do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que os brasileiros testemunharam foi uma\n invers\u00e3o: a pol\u00edtica, que sempre foi algo do campo p\u00fablico, invadiu o \ncampo privado, passando a ser um fator \u00edntimo, um fator primeiro de \nidentifica\u00e7\u00e3o. Dias atr\u00e1s uma amiga presenciou uma conversa em que duas \ngarotas decidiam quais os crit\u00e9rios para dividir apartamento com uma \noutra. \u201cN\u00e3o suportaria dividir com uma petista\u201d, disse uma delas. Essa \nconversa, exceto no caso de militantes mais radicais, dificilmente \naconteceria anos atr\u00e1s: ningu\u00e9m costumava perguntar qual era a \norienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica antes de dividir a casa com algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A  elei\u00e7\u00e3o, que costumava ser um acontecimento pontual, da esfera p\u00fablica,  tornou-se algo crucial na esfera privada. Do mesmo modo, o inverso  tamb\u00e9m aconteceu. Quest\u00f5es \u00edntimas, como a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/orientacion_sexual\">orienta\u00e7\u00e3o sexual<\/a>  de cada um, como o que acontece na cama de cada um, passaram a ser  discutidas publicamente. Esse fen\u00f4meno atingiu fortemente la\u00e7os que cada  um considerava incondicionais, como os familiares, la\u00e7os com os quais  se contava para enfrentar a dureza da vida. E acentuou ainda mais os  quadros depressivos e persecut\u00f3rios, aumentando ansiedade e ang\u00fastia,  corroendo a sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> O sofrimento \u00e9 agravado pela constata\u00e7\u00e3o de que as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o barram a viol\u00eancia do governo e do governante <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Uma psicanalista de S\u00e3o Paulo, que tamb\u00e9m prefere n\u00e3o se \nidentificar, acredita que o adoecimento do Brasil de 2019 expressa a \nradicaliza\u00e7\u00e3o da impot\u00eancia. As pessoas, hoje, n\u00e3o sabem como reagir \u00e0 \nquebra do pacto civilizat\u00f3rio representada pela elei\u00e7\u00e3o de uma figura \nviolenta como Bolsonaro, que n\u00e3o s\u00f3 prega a viol\u00eancia como violenta a \npopula\u00e7\u00e3o todos os dias, seja por atos, seja por aliar-se a grupos \ncriminosos, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/28\/politica\/1564267856_295777.html\">como faz com desmatadores e grileiros na Amaz\u00f4nia<\/a>,\n seja por mentir compulsivamente. N\u00e3o sabem, tamb\u00e9m, como parar essa \nfor\u00e7a que as atropela e esmaga. Sentem como se aquilo que as est\u00e1 \natacando fosse \u201cimpar\u00e1vel\u201d, porque percebem que j\u00e1 n\u00e3o podem contar com \nas institui\u00e7\u00f5es \u2013 constata\u00e7\u00e3o grav\u00edssima para a vida em sociedade. E \nent\u00e3o passam a sentir-se como ref\u00e9ns \u2013 e, seguidamente, a atuar como \nref\u00e9ns.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo reagimos \u00e0 viol\u00eancia de algu\u00e9m como \nBolsonaro, que faz e diz o que quer, sem que seja impedido pelas \ninstitui\u00e7\u00f5es?\u201d, questiona. \u201cToda a nossa experi\u00eancia d\u00e1 conta de que a \nvida em sociedade \u00e9 regulada por inst\u00e2ncias que v\u00e3o determinar o que \npode e o que n\u00e3o pode, que t\u00eam o poder de impedir a quebra do pacto \ncivilizat\u00f3rio, este pacto que permite que a gente possa conviver. Nesta \nexperi\u00eancia de que h\u00e1 um regulador, se uma pessoa \u00e9 <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/06\/politica\/1538859277_033603.html\">racista, ela vai ser processada \u2013 e n\u00e3o virar presidente do pa\u00eds<\/a>.\n O que vivemos agora, com Bolsonaro, \u00e9 a quebra de qualquer regula\u00e7\u00e3o. E\n isso tem um enorme impacto sobre a vida subjetiva. Ningu\u00e9m sabe como \nreagir a isso, como viver numa realidade em que o presidente pode mentir\n e pode at\u00e9 mesmo inventar uma realidade que n\u00e3o corresponde aos fatos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A  documenta\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias de autoritarismo em diferentes \u00e9pocas e  pa\u00edses costuma relatar o sofrimento f\u00edsico e ps\u00edquico das v\u00edtimas, mas  geralmente em condi\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas. Como, por exemplo, um judeu num <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/24\/internacional\/1511539758_597235.html\">campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista<\/a>. Ou uma das mulheres torturadas no Doi-Codi, em S\u00e3o Paulo, durante a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\">ditadura militar do Brasil<\/a>  (1964-1985). Perceber essa viol\u00eancia expl\u00edcita como viol\u00eancia \u00e9  imediato. O que a experi\u00eancia autorit\u00e1ria do bolsonarismo tem  demonstrado \u00e9 o quanto pode ser dif\u00edcil resistir (tamb\u00e9m) \u00e0 viol\u00eancia do  cotidiano, aquela que se infiltra nos dias, nos pequenos gestos, na  paralisia que vira um modo de ser, nas covardias que deixamos de  questionar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> O cotidiano de exce\u00e7\u00e3o tem se infiltrado e realizado em milh\u00f5es de pequenos gestos de autocensura, sil\u00eancio e aus\u00eancia no Brasil <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 milhares, talvez milh\u00f5es de pequenos gestos de \nconforma\u00e7\u00e3o acontecendo neste exato momento no Brasil. Em sil\u00eancio. \nPequenos movimentos de autocensura, aus\u00eancias nem sempre percebidas. Uma\n autora me conta que conseguiu manter seu livro no cat\u00e1logo da editora \nsem usar a palavra sexualidade&#8230;. para falar de sexualidade. Uma \ndiretora me diz que vestiu os corpos de suas atrizes, at\u00e9 ent\u00e3o nuas, \nnuma pe\u00e7a de teatro. A professora de uma das mais importantes \nuniversidades p\u00fablicas do pa\u00eds me relata que muitos colegas j\u00e1 deixaram \nde analisar determinados temas em salas de aula <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/05\/14\/politica\/1557790165_316536.html\">por medo do \u201cpoder de pol\u00edcia\u201d dos alunos<\/a>,\n que t\u00eam gravado as aulas e se comportado de forma ainda mais violenta \nque a pol\u00edcia formal. Um curador de eventos preferiu n\u00e3o fazer o evento.\n Mudou de assunto. Outro deixou de convidar uma pensadora que certamente\n levaria bolsocrentes para a sua porta. Nunca saberemos o que poderia \nacontecer, porque o acontecimento foi impedido para n\u00e3o sofrer o risco \nde ser impedido.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tantos que j\u00e1 preferem \u201cn\u00e3o \ncomentar\u201d. Ou que dizem, simpaticamente: \u201cme deixa fora dessa\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m\n assim que o autoritarismo se infiltra, ou \u00e9 principalmente assim que o \nautoritarismo se infiltra. E \u00e9 tamb\u00e9m assim que se adoece uma popula\u00e7\u00e3o \npor aquilo que ela j\u00e1 tem medo de fazer, porque antecipa o gesto do \nopressor e se cala antes de ser calada. E em breve talvez tenha medo \ntamb\u00e9m de sussurrar dentro de casa, num mundo em que os aparelhos \ntecnol\u00f3gicos podem ser usados para a vigil\u00e2ncia. Chega o dia em que o \npr\u00f3prio pensamento se torna uma doen\u00e7a autoimune. \u00c9 assim tamb\u00e9m que o \nautoritarismo vence antes mesmo de vencer.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos  sintomas do cotidiano de exce\u00e7\u00e3o que vivemos \u00e9 a coloniza\u00e7\u00e3o de nossas  mentes. Mesmo pessoas que viveram a ditadura militar n\u00e3o t\u00eam recorda\u00e7\u00e3o  de algum momento da sua vida em que tenham pensado todos os dias no  presidente da Rep\u00fablica. Bolsonaro administra o horror dos dias, com  suas viol\u00eancias e mentiras, de um modo que o torna onipresente. Fa\u00e7a o  teste: quantas horas voc\u00ea consegue ficar sem pensar em Bolsonaro, sem  citar uma bestialidade de Bolsonaro? \u00c9 isso o autoritarismo. Mas sobre  isso poucos falam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> Bolsonaro encarna a vanguarda messi\u00e2nica-apocal\u00edptica do mundo <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se Bolsonaro encarna a vanguarda messi\u00e2nica-apocal\u00edtica do \nmundo, \u00e9 preciso sublinhar que os brasileiros n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3s. Um amigo \nestrangeiro me conta que, desde que <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/donald_trump\">Donald Trump<\/a> assumiu, a primeira coisa que ele faz ao acordar \u00e9 conferir qual \u00e9 a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/20\/internacional\/1563646669_258627.html\">barbaridade que o presidente americano escreveu no Twitter<\/a>, porque sente que isso afeta diretamente a vida dele. E afeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mario\n Corso, psicanalista e escritor ga\u00facho, aponta que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar\n no que ele chama de \u201cethos depressivo\u201d deste momento fora do contexto \ndo Ocidente. \u201cVeja o Reino Unido. O novo primeiro-ministro (referindo-se\n ao pr\u00f3-Brexit <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/boris_johnson\">Boris Johnson<\/a>)\n \u00e9 um palha\u00e7o. E eles j\u00e1 tiveram Churchill!\u201d, exemplifica. \u201cO problema, \nno Brasil, \u00e9 que al\u00e9m de toda a crise global, elegemos um cretino para \npresidente\u201d, diz o psicanalista. \u201cO que assusta \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 freios para\n impedi-lo. E, assim, ele segue atacando os mais fr\u00e1geis. Como Bolsonaro\n \u00e9 covarde, ele n\u00e3o engrossa com os maiores que ele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Boris  Johnson n\u00e3o chega a ser um Donald Trump. E nem Donald Trump chega a ser  um Jair Bolsonaro. Mas a diferen\u00e7a maior est\u00e1 na qualidade da  democracia. Tanto nos <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\">Estados Unidos<\/a>  quanto no Reino Unido, as institui\u00e7\u00f5es t\u00eam conseguido exercer o seu  papel. No Brasil, n\u00e3o chega a ser perda total \u2013 ou n\u00e3o bastou (ainda)  \u201cum cabo e um soldado\u201d para fechar o STF, como sugeriu o <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/22\/internacional\/1563822867_797050.html\">futuro poss\u00edvel embaixador do pa\u00eds nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro<\/a>,  o garoto zerotr\u00eas. Mas a precariedade \u2013 e com frequ\u00eancia a omiss\u00e3o \u2013  das institui\u00e7\u00f5es \u2013 quando n\u00e3o coniv\u00eancia \u2013 s\u00e3o evidentes. \u201cEnquanto  Bolsonaro n\u00e3o consegue uma ditadura total, porque isso ele quer, mas  ainda n\u00e3o conseguiu, ele antecipa a ditadura pelas palavras\u201d, diz Corso.  \u201cBolsonaro usa aquilo que voc\u00ea definiu como autoverdade para antecipar a  ditadura. Os fatos n\u00e3o importam, o que \u2018eu\u2019 digo \u00e9 o que \u00e9.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> \u201cA guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu\u201d <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para Rinaldo Voltolini, professor de psican\u00e1lise da Universidade de S\u00e3o Paulo, a autoverdade \u00e9 <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/06\/20\/opinion\/1466431465_758346.html\">a amputa\u00e7\u00e3o da palavra<\/a>\n no sentido pleno. \u201cEste \u00e9 um grande disparador do sofrimento das \npessoas, ao constatarem que est\u00e3o fora no n\u00edvel mais importante. N\u00e3o \u00e9 \nque voc\u00ea est\u00e1 fora porque n\u00e3o tem uma casa ou um carro, hoje voc\u00ea est\u00e1 \nfora das possibilidades de leitura do mundo. O que voc\u00ea diz n\u00e3o tem \nvalor, n\u00e3o tem sentido, n\u00e3o tem significado. \u00c9 como se, de repente, voc\u00ea\n j\u00e1 n\u00e3o tivesse lugar na gram\u00e1tica\u201d, diz o psicanalista. \u201cO que \u00e9 a \nguerra? A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se \nextinguiu. Isso acontece entre duas pessoas, entre pa\u00edses. Sem a \nmedia\u00e7\u00e3o da palavra, se passa diretamente ao ato violento.verdade, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/16\/politica\/1531751001_113905.html\">como escrevi neste espa\u00e7o<\/a>, determinou a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. E seguiu moldando sua forma de governar pela guerra, o que implica <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/12\/06\/politica\/1544113288_218824.html\">a destrui\u00e7\u00e3o da palavra<\/a>.\n Assim, desde o in\u00edcio do governo, Bolsonaro tem chamado os \u00f3rg\u00e3os \noficiais de mentirosos sempre que n\u00e3o gosta do resultado das pesquisas. \nComo quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica mostrou \nque o n\u00famero de desempregados tinha aumentado no seu governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos\n \u00faltimos dias, por\u00e9m, o antipresidente levou a pervers\u00e3o da verdade, \nesta que torna a verdade uma escolha pessoal, \u00e0 radicalidade. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/19\/politica\/1563563566_553897.html\">Decidiu que a jornalista M\u00edriam Leit\u00e3o n\u00e3o foi torturada<\/a>\n \u2013 e ela foi. Insinuou que o pai do presidente da Ordem dos Advogados do\n Brasil teria sido executado pela esquerda, quando ele desapareceu por \nobra de agentes do Estado na ditadura militar. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/19\/politica\/1563547685_513257.html\">Decidiu que ningu\u00e9m mais passa fome no Brasil<\/a>\n \u2013 o que \u00e9 desmentido n\u00e3o s\u00f3 pelas estat\u00edsticas como pela experi\u00eancia \ncotidiana dos brasileiros. Decidiu que os dados que apontaram a explos\u00e3o\n do desmatamento na Amaz\u00f4nia, produzidos pelo conceituado Instituto \nNacional de Pesquisas Espaciais, eram mentirosos. Isso porque apenas no \nm\u00eas de julho de 2019 foi desmatada uma \u00e1rea de floresta maior do que a \ncidade de S\u00e3o Paulo, com \u00edndices tr\u00eas vezes maiores do que no mesmo m\u00eas \nno ano passado. E Bolsonaro decidiu ainda que \u201cs\u00f3 os veganos que comem \nvegetais\u201d se importam com o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro \ncontrola o cotidiano porque fora de controle. Bolsonaro domina o \nnotici\u00e1rio porque criou um discurso que n\u00e3o precisa estar ancorado nos \nfatos. A verdade, para Bolsonaro, \u00e9 a que ele quer que seja. Assim, al\u00e9m\n da palavra, Bolsonaro destr\u00f3i a democracia ao usar o poder que \nconquistou pelo voto para destruir n\u00e3o s\u00f3 direitos conquistados em \nd\u00e9cadas e todo o sistema de prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente, mas tamb\u00e9m para \ndestruir a possibilidade da verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNarrar a hist\u00f3ria \u00e9  sempre o primeiro ato de domina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Bolsonaro quer  adulterar a hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria da ditadura \u00e9 constru\u00edda por muitos  documentos, \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o coletiva. Mas ele decide que aconteceu outra  coisa e n\u00e3o apresenta nenhum documento para comprovar o que diz\u201d,  analisa Voltolini. \u201cN\u00e3o \u00e9 que estamos vivendo o mal-estar na  civiliza\u00e7\u00e3o. Isso sempre houve. A quest\u00e3o \u00e9 que, para ter mal-estar \u00e9  preciso civiliza\u00e7\u00e3o. E hoje, o que est\u00e1 em jogo, \u00e9 a pr\u00f3pria  civiliza\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 da ordem do mal-estar, mas da ordem do horror.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote style=\"text-align:center\" class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> O que vivemos n\u00e3o \u00e9 mal-estar, mas horror <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como enfrentar o horror? Como barrar o adoecimento provocado\n pela destrui\u00e7\u00e3o da palavra como mediadora? Como resistir a um cotidiano\n em que a verdade \u00e9 destru\u00edda dia ap\u00f3s dia pela figura m\u00e1xima do poder \nrepublicano? Rinaldo Voltolini lembra um di\u00e1logo entre <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/albert_einstein\">Albert Einstein<\/a>\n e Sigmund Freud. Quando Einstein pergunta a Freud como seria poss\u00edvel \ndeter o processo que leva \u00e0 guerra, Freud responde que tudo o que \nfavorece a cultura combate a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Os bolsonaristas \nsabem disso e por isso est\u00e3o atacando a cultura e a educa\u00e7\u00e3o. A cultura \nn\u00e3o \u00e9 algo distante nem algo que pertence \u00e0s elites, mas sim aquilo que \nnos faz humanos. Cultura \u00e9 a palavra que nos apalavra. Precisamos \nrecuperar a palavra como mediadora em todos os cantos onde houver gente.\n E fazer isso coletivamente, conjugando o n\u00f3s, reamarrando os la\u00e7os para\n fazer comunidade. O \u00fanico jeito de lutar pelo comum \u00e9 criando o comum \u2013\n em comum.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso dizer: n\u00e3o vai ficar mais f\u00e1cil. N\u00e3o estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eliane Brum<\/strong> \u00e9 escritora, rep\u00f3rter e documentarista. Autora dos livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o <em>Coluna Prestes &#8211; o Avesso da Lenda, A Vida Que Ningu\u00e9m v\u00ea, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos,<\/em> e do romance <em>Uma Duas<\/em>. Site: <strong>desacontecimentos.com<\/strong> Email: <strong>elianebrum.coluna@gmail.com<\/strong> Twitter: <strong>@brumelianebrum\/ Facebook: <\/strong>@brumelianebrum<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como resistir ao adoecimento num pa\u00eds (des)controlado pelo perverso da autoverdade<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":8307,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Doente de Brasil - Como resistir ao adoecimento num pa\u00eds (des)controlado pelo perverso da autoverdade. Por Elaine Brum. 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