{"id":8115,"date":"2019-07-22T17:49:40","date_gmt":"2019-07-22T20:49:40","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8115"},"modified":"2019-07-23T17:26:58","modified_gmt":"2019-07-23T20:26:58","slug":"ivone-gebara-precisamos-rever-a-luta-pelo-estado-laico-e-o-papel-das-religioes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8115","title":{"rendered":"Ivone Gebara: \u201cPrecisamos rever a luta pelo Estado Laico e o papel das religi\u00f5es\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por D\u00e9bora Britto*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>*Este texto faz parte de cobertura colaborativa entre a Marco Zero Conte\u00fado (D\u00e9bora Britto) o <a href=\"https:\/\/medium.com\/@terral.comunicacao\">Terral Coletivo de Comunica\u00e7\u00e3o Popular<\/a> (Catarina de Angola) e o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/\">Brasil de Fato&nbsp;Pernambuco<\/a>&nbsp;(Monyse Ravenna).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Te\u00f3loga, freira e feminista s\u00e3o palavras recorrentes na biografia e  descri\u00e7\u00e3o de Ivone Gebara. No entanto, elas n\u00e3o d\u00e3o ideia de como a  intelectual coloca mais perguntas do que respostas em uma roda de  debates. Gebara acrescenta mais um item em sua ficha pessoal: \u00e9 uma  livre pensadora. Como tal, gera a inquietude de quem coloca em d\u00favida  suas pr\u00f3prias certezas&nbsp; \u2013 e a de quem a escuta. Surpreende pela clareza  com que exp\u00f5e ideias, revisita conceitos e prega pela mudan\u00e7a de  estrat\u00e9gias da luta feminista no di\u00e1logo com as religi\u00f5es, com o Estado e  com a sociedade. \u201cOs conceitos se gastam. Estamos em uma esp\u00e9cie de  c\u00edrculo vicioso, principalmente n\u00f3s, da esquerda. Precisamos come\u00e7ar a  pensar de novo\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das principais provoca\u00e7\u00f5es, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta hist\u00f3rica pelo \nEstado laico, pauta levantada principalmente pelo movimento feminista, \nela prop\u00f5e virar a mesa, ampliando o conceito: \u201cQuando falamos de Estado\n laico, eu tenho receio de que estamos sendo simplistas. O pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 \nlaico, o pa\u00eds \u00e9 religioso. Precisamos rever a luta pelo Estado Laico e o\n papel das religi\u00f5es, a fim de incluir diferentes modos de ver e se \nsituar no mundo\u201d. Para ela, isso pode ajudar o deter a for\u00e7a do \nfundamentalismo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1080\" data-attachment-id=\"8118\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=8118\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?fit=1920%2C1080&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1920,1080\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Ivone-Gebara-3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?fit=300%2C169&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?fit=580%2C326\" alt=\"\" class=\"wp-image-8118\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-3.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Ivone Gerbara em fala na mesa de abertura do curso Caleidosc\u00f3pio.<br \/>Foto: D\u00e9bora Guaran\u00e1\/SOSCorpo.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Convidada para a mesa de abertura do curso Caleidosc\u00f3pio: Corpos \nlivres, Estado Laico \u2013 Feministas contra o fascismo e o fundamentalismo,\n realizado pela organiza\u00e7\u00e3o feminista SOS Corpo, Gebara participou \natentamente de todos os momentos dos tr\u00eas dias de evento. Como se fosse \numa jovem curiosa, n\u00e3o houve um espa\u00e7o em que a senhora de 73 anos n\u00e3o \ntomasse notas e prestasse aten\u00e7\u00e3o a tudo dito \u2013 desde os debates sobre \ncultura perif\u00e9rica e fundamentalismo, a rela\u00e7\u00e3o da religiosidade \nind\u00edgena, de matriz africana e as igrejas neopentecostais.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo uma das fundadoras da Teologia Feminista, cat\u00f3lica, e  refer\u00eancia no campo de luta de mulheres religiosas que defendem o  aborto, os direitos sexuais e reprodutivos, convidamos Ivone a refletir  sobre os desafios do presente para as feministas no di\u00e1logo  interreligioso e geracional. Confira na entrevista abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 a teologia feminista e, nos dias \nde hoje, o que a teologia feminista pode trazer para o movimento \nfeminista neste contexto de avan\u00e7o do fundamentalismo, muito vinculado \u00e0\n figura de Bolsonaro, e tendo as religi\u00f5es neopentecostais evang\u00e9licas&nbsp; \ntamb\u00e9m como expoentes?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Teologia Feminista nasce inspirada pelo \nmovimento feminista, ou seja, nasce do momento em que algumas mulheres \ninteressadas pelo feminismo e militando na causa feminista percebem o \nquanto as religi\u00f5es \u2013 especialmente as de corte monote\u00edsta como o \ncristianismo, o islamismo e o juda\u00edsmo \u2013 fundamentam uma opress\u00e3o das \nmulheres, um controle dos corpos femininos. Eu militei muito tempo na \nTeologia da Liberta\u00e7\u00e3o e ela n\u00e3o denunciava isso, e eu n\u00e3o percebia \nenquanto n\u00e3o me aproximei do feminismo. O que a Teologia Feminista faz \u00e9\n mostrar que aquilo que a Teologia oficial, digamos patriarcal, chama de\n Deus, de Ordem, de Natureza s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es que s\u00e3o \nmarcadas por poderes. Um poder de homens sobre homens, mas um poder de \nhomens sobre mulheres. Tamb\u00e9m poderes de ra\u00e7as, por exemplo, etnias \nbrancas contra negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o essa percep\u00e7\u00e3o a gente tinha na \nsociedade, mas a gente n\u00e3o percebia que ela se reproduzia na religi\u00e3o \ntamb\u00e9m. E a religi\u00e3o, por sua vez, d\u00e1 todo um suporte, digamos, te\u00f3rico,\n metaf\u00edsico, transcendental, para a manuten\u00e7\u00e3o de uma ordem injusta.<\/p>\n\n\n\n<p>A Teologia Feminista \u00e9 importante porque ela \ndesconstr\u00f3i essa masculinidade do divino e essa ordem essencializada, de\n que tem que ser assim, a ordem da sexualidade, da maternidade. Ela \ndesconstr\u00f3i os modelos estabelecidos como modelos pr\u00f3prios da natureza \nou modelos queridos por Deus. Evidentemente, essa Teologia n\u00e3o \u00e9 do \nagrado da pol\u00edtica atual, nem mesmo das religi\u00f5es marcadas pelo \npatriarcalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s frisamos muito mais as rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, \nem vez de ficar o tempo todo falando que Jesus \u00e9 a segunda pessoa da \ntrindade, o filho de Deus, \u201cest\u00e1 sentado \u00e0 direita de Deus Pai todo \npoderoso\u201d. Ou seja, \u201ceu tive fome e me deste de comer, eu tive sede e me\n deste de beber\u201d. Isso \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica. \u201cEu estava nu, voc\u00ea me \ncobriu. Eu estava com fome, voc\u00ea partilhou seu p\u00e3o, eu estava sem casa, \nvoc\u00ea me hospedou\u201d. O que n\u00f3s fazemos \u00e9 em vez de relacionar ao aspecto \nm\u00e1gico, pr\u00f3prio muitas vezes da religi\u00e3o, que tem seu valor, o aspecto \nm\u00edtico, mas n\u00f3s reinterpretamos \u00e0 luz de rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, solid\u00e1rias, \nque ajudam as constru\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Observando o mundo hoje, quais seriam as \ngrandes bandeiras que o feminismo, junto com a contribui\u00e7\u00e3o que a&nbsp; \nTeologia Feminista traz, precisam enfrentar? S\u00e3o bandeiras diferentes \ndaquelas que a senhora e outras mulheres que pensaram a Teologia \nFeminista inicialmente? O que mudou e o que permanece desde aquelas \npautas origin\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que mudou porque o contexto dos anos  1980 mudou. Eu comecei a ser te\u00f3loga feminista naquela \u00e9poca, mas antes  de mim havia outras, por exemplo, na Alemanha. Eu li muito uma te\u00f3loga  que se chama Dorothee S\u00f6lle e ela me impressionou muito porque fez uma  cr\u00edtica do nazismo a partir da cr\u00edtica feminista. Quando li um texto  dela, que saiu numa revista que se chama Concilium, eu fiquei  impressionada porque eu nunca pude imaginar o quanto os ditadores da  Am\u00e9rica latina precisavam da imagem de um Deus todo poderoso. Ent\u00e3o, ela  falava da Alemanha, de como muitos crist\u00e3os n\u00e3o fizeram absolutamente  nada. Teve alguns que foram at\u00e9 presos porque criticaram o nazismo, mas  as igrejas crist\u00e3s n\u00e3o se posicionaram de uma maneira categ\u00f3rica, mesmo  sabendo da quantidade de judeus que morreram nos campos de concentra\u00e7\u00e3o,  nas c\u00e2maras de g\u00e1s. E o nazismo \u00e9 crist\u00e3o, imagine isso. Quer dizer,  n\u00f3s come\u00e7amos a perceber que esse esquema de autoridade que se  reproduzia de muitas formas, \u00e0s vezes menos dr\u00e1sticas, mas se reproduzia  no controle dos nossos corpos. E tamb\u00e9m na exclus\u00e3o dos corpos pobres,  miser\u00e1veis e a gente continuava dizendo \u201cDeus pai todo poderoso, criador  do c\u00e9u e da terra\u201d. E olha a\u00ed os favelados, as pessoas que vivem  debaixo de viadutos, crian\u00e7as sem escola, crescimento de in\u00fameros  imigrantes que tem que sair dos seus pa\u00edses. S\u00e3o outras formas  atualizadas de exterm\u00ednio. N\u00e3o \u00e9 mais o campo de concentra\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um  exterm\u00ednio que se move, em que se mata nos mares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sistem\u00e1tico, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mata de fome. \u00c9 outro tipo de exterm\u00ednio. \nEssa luz que ela me deu me fez pensar uma por\u00e7\u00e3o de coisas e me faz \npensar, hoje tamb\u00e9m. Mas \u00e9 interessante, as pessoas n\u00e3o gostam de \nTeologia Feminista porque a gente n\u00e3o situa o poder l\u00e1 em cima. A gente \ndiz assim: o poder est\u00e1 aqui. Quer dizer, se n\u00f3s duas v\u00edssemos cinco \ncrian\u00e7as famintas entrando aqui, o divino entre n\u00f3s est\u00e1 em acolher \nessas crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>O divino \u00e9 a capacidade de sair de mim e \nacolher o outro. Ent\u00e3o \u00e9 o divino humano, mas tamb\u00e9m \u00e9 outra coisa. O \ndivino \u00e9 essa beleza desse sol iluminando essas \u00e1rvores, essas plantas. \u00c9\n divino tamb\u00e9m, de repente, a gente se encontrar e a gente estar \nconversando e sentindo que tem coisas que a gente se entende. Ent\u00e3o, n\u00f3s\n tiramos a verticalidade do divino e colocamos o divino numa \ncircularidade muito maior, a tal ponto de que a gente n\u00e3o v\u00ea, a gente \nn\u00e3o sabe o princ\u00edpio e o fim. E a gente n\u00e3o diz mais as coisas que a \ntradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica dizia, porque a tradi\u00e7\u00e3o da f\u00e9 continua a mesma. \u201cEu\n tive fome e me deste de comer, eu tava nu e\u2026\u201d. Essa \u00e9 a f\u00e9. \u201cEu estava \nna pris\u00e3o e voc\u00ea me visitou\u201d.&nbsp; O mundo vai ter gente que vai para a \npris\u00e3o justa ou injustamente, ali\u00e1s, a gente pode criticar o sistema \nprisional, e eu critico. Tem gente que vai pra pris\u00e3o, mas qual \u00e9 a \nminha obriga\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aqueles que est\u00e3o na pris\u00e3o? Vou deixar \nmorrer de fome? O divino \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de que somos coletividade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o das pautas que tocam\n o corpo da mulher, como voc\u00ea analisa hoje as pautas dos direitos \nreprodutivos das mulheres, do aborto na rela\u00e7\u00e3o com a igreja Cat\u00f3lica. \nHouve avan\u00e7os?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O avan\u00e7o que houve foi na consci\u00eancia das \nmulheres. Houve avan\u00e7o, mas pouqu\u00edssimo na oficialidade das igrejas. Por\n exemplo, na Igreja Cat\u00f3lica, onde me situo, j\u00e1 se fala na possibilidade\n de dar uma segunda chance para divorciados. S\u00e3o migalhas. Mas, do ponto\n de vista das mulheres, houve um crescimento. Muitas mulheres que eu \nconhe\u00e7o, que s\u00e3o divorciadas, que s\u00e3o l\u00e9sbicas, permanecem na igreja \nporque elas querem, porque gostam, porque se sentem bem. Outras n\u00e3o, se \nmandaram. Tem uma diversidade de perten\u00e7as. Tem gente que \u00e9 feminista, \nmas n\u00e3o consegue sair do h\u00e1bito de frequentar celebra\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o tenho,\n n\u00e3o sou ass\u00eddua frequentadora, eu vou quando eu preciso ir por \nsolidariedade a algumas pessoas. Mas o tipo de devo\u00e7\u00e3o que eu tinha \nquando era jovem j\u00e1 n\u00e3o tenho mais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea, que tem a perspectiva hist\u00f3rica de \ndiversas lutas, que conviveu com Dom Helder e morou em Pernambuco, \npercebe o florescimento da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o como um momento \nsingular e muito importante na hist\u00f3ria brasileira de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \ndas bases. Voc\u00ea acha que hoje existe outro movimento que se assemelha?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Eu vivi 34 anos \naqui, trabalhei com Dom Helder, trabalhei no Instituto de Teologia, fiz \nmuitas assessorias pelo campo, pela cidade Nordeste afora e havia, sem \nd\u00favida, n\u00e3o s\u00f3 Dom Helder, mas Dom Jos\u00e9 Maria Pires, Dom Fragoso e \nv\u00e1rios outros. Existiam v\u00e1rios bispos que assumiam a causa da liberta\u00e7\u00e3o\n dos pobres, que liam o evangelho a partir do favorecimento da vida dos \npobres. Recife, por exemplo, foi um foco de luz iluminador. Claro que \ntinha a figura de Helder C\u00e2mara, mas havia v\u00e1rias outras. Tinha o \nInstituto de Teologia liderado pelo padre Humberto Plumen, tinha aqui a \nPastoral Oper\u00e1ria, a Pastoral Rural. Todo mundo muito preocupado. Mas \ntemos que dizer que esse florescimento do movimento mais religioso era \nligado a todo um florescimento dos movimentos sociais contra as \nditaduras militares.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que eu t\u00f4 contando isso para voc\u00ea? Porque\n eu acredito que coisas ruins podem inspirar o nascimento de coisas \nboas. Ent\u00e3o, naquela \u00e9poca, muita coisa ruim estava acontecendo para que\n a gente se organizasse para fazer nascer coisas boas. E muita coisa boa\n nasceu, inclusive, por exemplo, o PT nasce de todos esses movimentos. \nNo Sul, mas evidentemente com lideran\u00e7as nordestinas. Lula \u00e9 \npernambucano, mas grande parte das lideran\u00e7as do PT foram nordestinas. \nQuem s\u00e3o os herdeiros de Dom Helder C\u00e2mara? N\u00e3o sei dizer, tem aqui no \nRecife o movimento que se chama Igreja Nova, que s\u00e3o leigos da minha \ngera\u00e7\u00e3o, que se acham um pouco herdeiros. Podem ser herdeiros porque \npublicam cartas de Dom Helder, mas eu n\u00e3o acredito que essas coisas \nest\u00e3o revivendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que vai acontecer, mas o qu\u00ea, eu n\u00e3o\n sei. Provavelmente o que vir\u00e1, n\u00e3o vir\u00e1 mais de n\u00f3s. Vir\u00e1 da sua \ngera\u00e7\u00e3o e das novas gera\u00e7\u00f5es. A gente encerrou um ciclo, que foi muito \nlegal, mas que agora come\u00e7a um outro super desagrad\u00e1vel, mas que vai \nexigir das pessoas uma retomada do que querem fazer nesse mundo. O que \nessa nova gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 pretendendo? E a\u00ed entra tamb\u00e9m o feminismo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Curso-Caleidosc%C3%B3pio-SOS-Corpo-Foto-Catarina-de-Angola-4.jpeg\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"224\" width=\"300\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Curso-Caleidosc%C3%B3pio-SOS-Corpo-Foto-Catarina-de-Angola-4-300x224.jpeg?resize=300%2C224\" alt=\"Curso Caleidosc\u00f3pio SOS Corpo Foto Catarina de Angola (4)\" class=\"wp-image-17460\"\/><\/a><figcaption> Te\u00f3logo feminista no curso Caleidosc\u00f3pio, organizado pela ONG feminista SOS Corpo. Foto: Catarina de Angola\/Terral Coletivo <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como combater o des\u00e2nimo do aparente \nretrocesso que existe muito forte, principalmente, numa gera\u00e7\u00e3o mais \njovem, que n\u00e3o \u00e9 a sua?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A gente n\u00e3o volta para tr\u00e1s. A gente vai \nsempre para a frente. Eu acho que a hist\u00f3ria \u00e9 essa espiral. Nem sempre \nela vai para cima. A espiral pode ter v\u00e1rios movimentos ascendentes e \ndescendentes, mas n\u00e3o volta para o mesmo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que voc\u00eas j\u00e1 est\u00e3o dando resposta a \nesse des\u00e2nimo. Eu trabalhei muito ano passado partilhando reflex\u00f5es \nmensais com um grupo de teatro jovem que se chama Companhia do Tijolo \nque, inclusive, apresentou uma pe\u00e7a sobre Dom Helder C\u00e2mara. Foi assim \nque me aproximei deles. Fui assistir \u00e0 pe\u00e7a e n\u00e3o aparecia figuras \nfemininas desse processo que se deu no Recife. Quando acabou, eles \ncome\u00e7aram a conversa, tipo teatro de Arena, e eu falei que eu vivi no \nrecife mais de 30 anos e que havia mulheres em torno de Dom Helder \u2013 \naqui tinha v\u00e1rios movimentos liderados por mulheres \u2013 quer dizer, as \npar\u00f3quias n\u00e3o eram lideradas por mulheres, mas muitas catequeses eram. \nDom Helder tinha um monte de amigas e, quando estava no Conc\u00edlio, ele \nescrevia para elas e n\u00e3o para os padres. Aqui mesmo, quantas mulheres \ntrabalham com ele? Tinha a secret\u00e1ria dele, tinha a que cuidava das \nfinan\u00e7as, a bibliotec\u00e1ria, at\u00e9 o final da vida dele esse homem \u00e9 o que \u00e9\n porque havia muitas mulheres extraordin\u00e1rias que estavam junto. Da\u00ed \neles come\u00e7aram a reformular a pe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A novidade \u00e9 essa. De repente eles est\u00e3o \naparecendo, eles est\u00e3o fazendo teatro de rua. O que eu quero dizer \u00e9 que\n est\u00e1 existindo na arte, no teatro, nas m\u00fasicas, nas universidades, nos \nsecundaristas. N\u00e3o vai ser depressa, mas voc\u00eas est\u00e3o fazendo. Voc\u00ea \nfazendo um tipo de jornalismo engajado, comprometido. Isso \u00e9 trabalho de\n formiguinha, mas voc\u00eas est\u00e3o construindo outra p\u00e1gina que vai ser \ndiferente da minha. N\u00e3o d\u00e1 para ver ainda tudo, mas alguma coisa j\u00e1 d\u00e1 \npara ver, sim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O tema do curso traz as bandeiras do \n\u201cEstado laico, Corpos Livres\u201d e a senhora fez pontua\u00e7\u00f5es importantes \nsobre essas duas pautas. Ainda \u00e9 estrat\u00e9gico reivindicar o Estado laico \nno contexto atual?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o como n\u00f3s estamos reivindicando. N\u00f3s temos\n que reivindicar, mas n\u00e3o dessa forma. Vamos dizer assim: achar que, \ningenuamente, os governantes n\u00e3o s\u00e3o guiados por suas op\u00e7\u00f5es religiosas.\n \u00c9 imposs\u00edvel. Eu se fosse presidente da rep\u00fablica, eu sei que eu guardo\n sim as minhas op\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, que me vieram do cristianismo. A gente \npode falar de Estado Laico, mas a gente tem que insistir tamb\u00e9m numa \noutra rela\u00e7\u00e3o com as religi\u00f5es. As religi\u00f5es est\u00e3o na sociedade. As \nreligi\u00f5es constituem comunidades que buscam sentido, e essas comunidades\n t\u00eam o direito de se expressar. Ent\u00e3o, eu diria assim: conservar essa \nluta pelo Estado Laico, por\u00e9m ressignific\u00e1-la introduzindo nessa quest\u00e3o\n do Estado Laico uma participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica das diferentes religi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, a representante dos Pankararus \nfala dos encantados, e ela tem que falar. Ela n\u00e3o pode dizer que a luta \ndela tem que ser laica. A luta dela n\u00e3o \u00e9 laica no sentido que a gente \nd\u00e1 para laico. Ou seja, as lutas s\u00e3o marcadas por express\u00f5es pol\u00edticas, \nmas tamb\u00e9m por express\u00f5es religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os quilombolas tamb\u00e9m t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o \nAfricana que voc\u00ea n\u00e3o pode negar. Por exemplo, tem uma soci\u00f3loga \nboliviana que se chama Silvia Rivera Cusicanqui que mostra os limites \nque, \u00e0s vezes, o mundo ocidental tem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cren\u00e7as. Ela vive \nfalando e \u201cmascando erva\u201d [coca], ela masca isso, ela usa o chap\u00e9u. Ela \nreaprendeu o aymara, ela \u00e9 aymara. Ent\u00e3o, voc\u00ea pode desligar isso das \ncren\u00e7as? Na for\u00e7a das plantas, do sol? N\u00e3o, n\u00e3o pode. Existem cren\u00e7as \nque fazem parte. Ent\u00e3o, acho que a forma como n\u00f3s, \u00e0s vezes, inclusive \nn\u00f3s feministas, falamos do Estado Laico \u00e9 para reivindicar algumas \ncoisas, como a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, corpos livres, a diversidade \nsexual, mas isso n\u00e3o significa que voc\u00ea esteja excluindo as cren\u00e7as \nreligiosas. Ent\u00e3o, eu diria assim, conserva, mas alarga. Alarga como a \nnecessidade de uma discuss\u00e3o democr\u00e1tica plural, que n\u00e3o existe, mas tem\n que come\u00e7ar a existir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como as Cat\u00f3licas pelo Direito a Decidir \nest\u00e3o inseridas hoje no debate e luta pelos direitos reprodutivos? \nExiste persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 institui\u00e7\u00e3o e \u00e0s mulheres que integram o movimento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As Cat\u00f3licas pelo Direito a Decidir \u00e9 uma \ninstitui\u00e7\u00e3o, ONG feminista, mas n\u00e3o \u00e9 aceita como&nbsp; institui\u00e7\u00e3o da igreja\n cat\u00f3lica. Ent\u00e3o, n\u00f3s somos cat\u00f3licas, sem reconhecimento da \ninstitui\u00e7\u00e3o, da igreja cat\u00f3lica, liderada por figuras masculinas. T\u00eam \nalgumas figuras masculinas, digo do clero, que mant\u00e9m um certo contato \nconosco, mas, institucionalmente, t\u00eam alguns bispos que fazem quest\u00e3o de\n exigir que a gente retire o nome \u201ccat\u00f3licas\u201d porque n\u00e3o condiz com a \nigreja cat\u00f3lica. Mas n\u00f3s discutimos muito se coloc\u00e1vamos crist\u00e3s pelo \ndireito a decidir em vez de cat\u00f3licas, mas at\u00e9 agora n\u00e3o, a gente est\u00e1 \nquerendo guardar o nome cat\u00f3licas para dizer assim: na comunidade das \npessoas que cresceram no meio cat\u00f3lico, que algumas ainda frequentam \nesses meios cat\u00f3licos, tem gente que \u00e9 pela diversidade sexual, tem \ngente que \u00e9 pelo direito ao aborto, tem gente que \u00e9 pela legaliza\u00e7\u00e3o do \naborto, tem gente que \u00e9 pelo casamento gay. Embora fa\u00e7a uma ades\u00e3o \u00e0 \ntradi\u00e7\u00e3o de Jesus, a gente adere tamb\u00e9m \u00e0 essas novas reivindica\u00e7\u00f5es da \ncultura, a gente adere \u00e0 essa diversidade, a gente adere a esses apelos \nnovos do mundo. Ent\u00e3o, a gente guarda o nome de Cat\u00f3licas porque a gente\n n\u00e3o v\u00ea uma contradi\u00e7\u00e3o. A gente v\u00ea a contradi\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o, mas eu\n sendo cat\u00f3lica e admitir, por exemplo, que uma transexual possa \npresidir uma celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, eu n\u00e3o tenho problema com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o tenho problema com o casamento gay, eu\n posso discutir se \u00e9 necess\u00e1rio, \u00e0s vezes eu acho que pode n\u00e3o ser \nnecess\u00e1rio, mas tudo isso \u00e9 discut\u00edvel. Eu posso admitir tranquilamente a\n homossexualidade. Ent\u00e3o, esse espa\u00e7o n\u00e3o contradiz a minha \n\u201ccatolicidade\u201d. Por isso, eu digo que somos cat\u00f3licas pelo direito a \ndecidir como ONG, mas n\u00f3s n\u00e3o somos reconhecidas como uma institui\u00e7\u00e3o ou\n como um grupo pela igreja institucionalizada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea sofre ainda algum tipo de persegui\u00e7\u00e3o pelo trabalho que faz?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o diria persegui\u00e7\u00e3o, diria ocultamento em todas essas discuss\u00f5es\n sobre aborto etc. Os bispos n\u00e3o nos chamam como pessoas representativas\n que refletiram e refletem sobre essas quest\u00f5es da sexualidade. \nProvavelmente v\u00e3o chamar um padre moralista para discutir. Ent\u00e3o, n\u00e3o \nnos perseguem. O meu caso foi diferente, eu n\u00e3o fui condenada porque era\n das cat\u00f3licas pelo direito a decidir, mas porque publicamente eu dei \numa entrevista na Veja e isso criou aquelas confus\u00f5es todas e me \nsilenciaram e me fizeram retomar meus estudos, passei um tempo na \nEuropa. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o fui condenada pelas Cat\u00f3licas, mas pela minha \natua\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por D\u00e9bora Britto* *Este texto faz parte de cobertura colaborativa entre a Marco Zero Conte\u00fado (D\u00e9bora Britto) o Terral Coletivo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":8117,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,14,8],"tags":[676,159,453,678],"class_list":["post-8115","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lutafeminista","category-destaques","category-entrevista","tag-cristianismo","tag-estado-laico","tag-fundamentalismo","tag-teologia-feminista"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Ivone-Gebara-no-Caleidosc%C3%B3pio_-1078x516.jpg?fit=1078%2C516&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-26T","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8115"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8153,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8115\/revisions\/8153"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8117"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}