{"id":8094,"date":"2019-07-18T15:26:30","date_gmt":"2019-07-18T18:26:30","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8094"},"modified":"2019-07-18T15:32:22","modified_gmt":"2019-07-18T18:32:22","slug":"recife-lanca-a-escola-livre-de-reducao-de-danos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=8094","title":{"rendered":"Recife lan\u00e7a a Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por <\/strong><a href=\"http:\/\/marcozero.org\/author\/raissa\/\"><strong>Ra\u00edssa Ebrahim<\/strong><\/a><strong> em 18\/07\/2019 Para a <\/strong><a href=\"http:\/\/marcozero.org\/recife-lanca-a-escola-livre-de-reducao-de-danos\/\"><strong>Marco Zero Conte\u00fado<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O presidente Jair Bolsonaro (PSL), com pouca \u2013 ou nenhuma \u2013 base cient\u00edfica, sancionou, em junho, a <a href=\"http:\/\/www.in.gov.br\/en\/web\/dou\/-\/lei-n-13.840-de-5-de-junho-de-2019-155977997\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">nova Lei de Drogas<\/a>\n do pa\u00eds,&nbsp; de autoria do ministro da Cidadania, Osmar Terra. Entre as \nprincipais mudan\u00e7as, est\u00e3o a\u00e7\u00f5es mais r\u00edgidas no combate ao tr\u00e1fico e \u00e0 \n\u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, a possibilidade de interna\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria de \ndependentes e o fortalecimento das comunidades terap\u00eauticas, locais de \ntratamento geralmente isolados, de car\u00e1ter religioso e focados na \nabstin\u00eancia.&nbsp;Agora com mais financiamento, as comunidades passaram a \nfazer parte do Sistema Nacional de Pol\u00edticas P\u00fablicas Sobre Drogas. \nEssas iniciativas v\u00e3o na contram\u00e3o da pol\u00edtica pautada pela redu\u00e7\u00e3o de \ndanos, que, este ano, com muitas dificuldades, completa 30 anos no \nBrasil. Confira entrevista sobre o assunto no final desta mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 diante desse cen\u00e1rio pol\u00edtico, de car\u00eancia de iniciativas efetivas e\n de verbas p\u00fablicas cont\u00ednuas, que um grupo de cinco pernambucanos e \npernambucanas (conhe\u00e7a cada uma e cada um mais abaixo) lan\u00e7a, nesta \nquinta-feira (18), \u00e0 noite, a <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/escolalivrereducaodedanos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos<\/a>,\n no Bairro do Recife. A redu\u00e7\u00e3o de danos (ou simplesmente RD) \u00e9 uma \nabordagem que visa minimizar danos sociais e \u00e0 sa\u00fade numa perspectiva \nampla de promo\u00e7\u00e3o de direitos individuais e sociais e n\u00e3o tem a ver \napenas com o uso de drogas. Est\u00e1 ligada tamb\u00e9m \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, do \nbem-estar social, de pol\u00edticas sociais e de justi\u00e7a assim como \u00e0 redu\u00e7\u00e3o\n da vulnerabilidade e da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pernambuco \u00e9 destaque em sa\u00fade mental e em redu\u00e7\u00e3o de danos, tendo \nsido o primeiro estado do Brasil a efetivar uma Rede de Aten\u00e7\u00e3o \nPsicossocial (Raps), assim como os Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial \n(Caps), as resid\u00eancias terap\u00eauticas, o modelo de consult\u00f3rio de rua e o \nServi\u00e7o de Atendimento M\u00e9dico de Urg\u00eancia (Samu). Foram experi\u00eancias \nlocais que se espalharam nacionalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA quest\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o de danos vem sendo estimulada nos \u00faltimos anos,\n mas, agora, \u00e9 como se n\u00e3o se pudesse nem mais tocar no tema. Como se \nnada disso existisse dentro do SUS. E, na verdade, existe. H\u00e1 recursos \nespec\u00edficos para escolas e para forma\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o chegam ao destino e\n n\u00e3o s\u00e3o efetivados. Eles s\u00e3o fruto de iniciativas que nasceram a partir\n da pol\u00edtica, mas n\u00e3o houve incentivo para efetiva\u00e7\u00e3o. As coisas existem\n muito mais no papel\u201d, explica Priscilla Gadelha, presidente do Conselho\n Estadual de Pol\u00edticas sobre Drogas de Pernambuco, redutora de danos do \nMovimento Brasileiro de Redu\u00e7\u00e3o de Danos e articuladora da Rede Nacional\n de Feministas Antiproibicionistas (Renfa).<\/p>\n\n\n\n<p>A Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos \u00e9 uma iniciativa coletiva da \nsociedade civil para viabilizar novas formas de pensar e construir o \ncuidado, com cinco grandes eixos: forma\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica de redutoras e \nredutores de danos; articula\u00e7\u00e3o e incid\u00eancia pol\u00edtica pela garantia de \ndireitos; apoio na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de pessoas que usam drogas e \nprofissionais da \u00e1rea; realiza\u00e7\u00e3o de eventos, simp\u00f3sios e semin\u00e1rios que\n aprofundem o tema; e produ\u00e7\u00e3o de pesquisa e conhecimentos sobre a \ntem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira atividade da escola ser\u00e1 hoje, com o lan\u00e7amento oficial e \napresenta\u00e7\u00e3o da iniciativa, aberta ao p\u00fablico. A segunda ser\u00e1 o \nlan\u00e7amento de um relat\u00f3rio da Main Line Health, sistema de sa\u00fade sem \nfins lucrativos que atende por\u00e7\u00f5es da Filad\u00e9lfia e seus sub\u00farbios. Esse \nestudo cont\u00e9m sete pr\u00e1ticas de RD no mundo e experi\u00eancias na Am\u00e9rica \nLatina e no Brasil, com destaque para Pernambuco. Algumas pessoas da \nEscola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos participaram da pesquisa. Como parte da\n terceira a\u00e7\u00e3o, a ideia \u00e9 conquistar parcerias e recursos para abrir \nturmas de forma\u00e7\u00e3o mais regular. Haver\u00e1 atividades gratuitas e, diante \ndas necessidade e dos cen\u00e1rios que se apresentarem, a escola ir\u00e1 avaliar\n a possibilidade de cobran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assista ao v\u00eddeo do&nbsp;Centro de Conviv\u00eancia \u00c9 de Lei:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cDVR_NBAfyc?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">30 anos<\/h2>\n\n\n\n<p>A redu\u00e7\u00e3o de danos tem origem no Reino Unido, quando, em 1926, a \ncomiss\u00e3o de sa\u00fade autorizou m\u00e9dicos a prescreverem \u00f3pio a ex-combatentes\n de guerra que desenvolveram depend\u00eancia de morfina. J\u00e1 a primeira a\u00e7\u00e3o \ncoletiva aconteceu em 1984 na Holanda, com o programa de troca de \nseringas em Amsterd\u00e3, uma reivindica\u00e7\u00e3o de pessoas que usavam drogas \ninjet\u00e1veis e o alerta sobre os elevados \u00edndices de contamina\u00e7\u00e3o por \nhepatite do tipo B. No Brasil, a primeira experi\u00eancia em RD data de \n1989, com a distribui\u00e7\u00e3o de seringas est\u00e9reis em Santos (SP) com o \nobjetivo de frear a dissemina\u00e7\u00e3o do HIV\/Aids.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira a cartilha \u201cFique suave\u201d, de redu\u00e7\u00e3o de danos e direitos de  usu\u00e1rias e usu\u00e1rios de drogas, constru\u00edda pela Marcha da Maconha, que  soma diversos coletivos, o mandato estadual coletivo das Juntas (Psol) e  o mandato municipal de Ivan Moraes (Psol).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-issuu wp-block-embed is-type-rich is-provider-issuu\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div data-url=\"https:\/\/issuu.com\/ivanmoraespsol\/docs\/02_cartilha_rd-web\" style=\"width: 640px; height: 453px;\" class=\"issuuembed\"><\/div><script type=\"text\/javascript\" src=\"\/\/e.issuu.com\/embed.js\" async=\"true\"><\/script>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Quem faz a Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/escolaRD.jpeg\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"426\" width=\"640\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/escolaRD-1024x682.jpeg?resize=640%2C426\" alt=\"Equipe da Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos - da esq. para dir.: Arturo, Priscilla, Ingrid, Anamaria e Rafael (cr\u00e9dito: Ernesto de Carvalho)\" class=\"wp-image-17497\"\/><\/a><figcaption> Equipe  da Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos \u2013 da esq. para dir.: Arturo,   Priscilla, Ingrid, Anamaria e Rafael (cr\u00e9dito: Ernesto de Carvalho) <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Anamaria Carneiro<\/strong>: psic\u00f3loga, terapeuta comunit\u00e1ria e redutora de  danos, comp\u00f5e a Comiss\u00e3o de Sa\u00fade Mental, \u00c1lcool e Outras Drogas, do  Conselho Regional de Psicologia<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Arturo Escobar: <\/strong>doutor em psicologia cognitiva, pesquisador e redutor de danos e presidente do Grupo AdoleScER<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ingrid Farias: <\/strong>redutora de danos, aceleradora social, educadora  popular, licenciada em biologia e graduanda em servi\u00e7o social,  pesquisadora em g\u00eanero e drogas pela UFF e representante da Rede  Latinoamericana e Caribenha de Pessoas que Usam Drogas e do Movimento  Nacional de Redu\u00e7\u00e3o de Danos<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Priscilla Gadelha<\/strong>: psic\u00f3loga cl\u00ednica, presidente do Conselho  Estadual de Pol\u00edticas sobre Drogas de Pernambuco, redutora de danos do  Movimento Brasileiro de Redu\u00e7\u00e3o de Danos e articuladora da Rede Nacional  de Feministas Antiproibicionistas<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rafael West:<\/strong> psic\u00f3logo, redutor de danos, mestre em pol\u00edticas p\u00fablicas, pesquisador na UFPE e colaborador na Fiocruz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br \/>\nLan\u00e7amento da Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos, no Recife<br \/>\nQuinta, 18 de julho<br \/>\n\u00c0s 18h<br \/>\nNo Inciti \u2013 Rua do Bom Jesus, 191 \u2013 Recife Antigo<br \/>\nAberto ao p\u00fablico<\/p>\n\n\n\n<p>O governo Bolsonaro quer empurrar goela abaixo uma narrativa \nproibicionista e que criminaliza usu\u00e1rios e dependentes e defende que \ntratamento eficiente \u00e9 aquele imposto na base da abstin\u00eancia. Mas \u00e9 \npreciso refor\u00e7ar que a pol\u00edtica de drogas n\u00e3o est\u00e1 ligada somente a \nquest\u00f5es de sa\u00fade e seguran\u00e7a. Ela tem reflexos na justi\u00e7a e na \nfragilidade da vida de milh\u00f5es de brasileiros, sobretudo os jovens \nnegros que moram nas periferias.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>Marco Zero Conte\u00fado<\/strong> entrevistou, sobre esse e \nalguns outros, a baiana Luana Malheiro, da Rede Nacional de Feministas \nAntiproibicionistas (Renfa), secretaria executiva da Plataforma \nBrasileira de Pol\u00edticas de Drogas (PBPD), integrante do Movimento \nBrasileira da Redu\u00e7\u00e3o de Danos e da Rede Latinoamericana e Caribenha de \nPessoas que Usam Drogas (Lanpud). Ela \u00e9 graduada em ci\u00eancias sociais, \nespecialista em sa\u00fade coletiva com \u00eanfase em sa\u00fade mental, mestre em \nantropologia e doutorando em ci\u00eancias sociais, tudo pela Universidade \nFederal da Bahia (UFBA).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/luana.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/luana.jpg?w=640\" alt=\"Luana Malheiro (cr\u00e9dito: arquivo pessoal)\" class=\"wp-image-17498\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Luana Malheiro (cr\u00e9dito: arquivo pessoal)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marco Zero: Quais os principais resultados que mostram a efici\u00eancia de uma pol\u00edtica de drogas baseada na redu\u00e7\u00e3o de danos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Luana:<\/strong> A redu\u00e7\u00e3o de danos nos apresenta a \npossibilidade de constru\u00e7\u00e3o do processo de cuidado, partindo do \nprinc\u00edpio da autonomia da pessoa sobre o seu tratamento. Isso quer dizer\n que n\u00e3o existe um modelo \u00fanico a ser aplicado em todos os casos. Cada \npessoa possui as suas necessidades e sua rela\u00e7\u00e3o singular com a droga. \nNo cuidado baseado na redu\u00e7\u00e3o de danos, a pessoa que usa drogas \u00e9 ativa \nno processo de formula\u00e7\u00e3o do seu tratamento, e n\u00e3o mais um objeto \npassivo como em outras abordagens. A mudan\u00e7a promovida pela redu\u00e7\u00e3o de \ndanos utiliza como recurso terap\u00eautico o territ\u00f3rio em que o sujeito \nvive e suas rela\u00e7\u00f5es sociais, para que o sujeito reaprenda a ter uma \nrela\u00e7\u00e3o com a droga dentro do seu contexto e de suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Um princ\u00edpio b\u00e1sico da redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 o acesso a direitos \nsociais:. Por vezes, o racismo e a exclus\u00e3o social produzem situa\u00e7\u00f5es de\n adoecimento ps\u00edquico que se acirram com a aus\u00eancia de acesso a \npol\u00edticas sociais. A partir de um delicado estar junto, o redutor de \ndanos vai acompanhando a pessoa que faz uso abusivo de drogas no seu \ntrajeto por acesso a direitos, fazendo com que ocupe outro lugar social.\n Com a criminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, h\u00e1 tamb\u00e9m a criminaliza\u00e7\u00e3o dos seus \nusu\u00e1rios e usu\u00e1rias, que n\u00e3o acessam as redes das pol\u00edticas sociais por \nmedo de ser criminalizado. A a\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o de danos atua no sentido de\n reconhecer as limita\u00e7\u00f5es e singularidades de cada pessoa auxiliando na \ntomada de autonomia e no acesso a direitos fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal ganho trazido, no meu ponto de vista, n\u00e3o foi apenas \ninserir pr\u00e1ticas de uso menos nocivas ou apenas inserir as necessidades \ndas pessoas que usam drogas no \u00e2mbito da sa\u00fade p\u00fablica. A redu\u00e7\u00e3o de \ndanos permite um caminho para que a pessoa que usa drogas se insira na \nluta pol\u00edtica por direitos sociais e pelo direito \u00e0 vida. \u00c9 a partir \ndesse processo simples, mas complexo, que a pessoa que usa drogas n\u00e3o \npode ser considerada como parte do grande problema das drogas, mas como \npe\u00e7a fundamental para a sua solu\u00e7\u00e3o, tendo em vista que \u00e9 essa pessoa \nque deve formular e participar de elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que afetam a \nsua vida. A pessoa que usa drogas sai, ent\u00e3o, do lugar passivo, de \n\u201cmarionete da droga\u201d, para o lugar ativo de um sujeito que pensa o seu \ntratamento a partir da tomada de poder na luta social.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal resultado da redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 criar um m\u00e9todo que \npermita o sujeito que tem um problema com drogas se cuidar a partir da \nsua trajet\u00f3ria, da sua comunidade, da sua identidade e de suas rela\u00e7\u00f5es \nsociais. \u00c9 uma tecnologia social de baix\u00edssimo custo, se contrap\u00f5e a \nmetodologias violentas que n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o a necessidade do \nsujeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu me considero um caso de sucesso da redu\u00e7\u00e3o de danos. Aos 18 anos, \npassei por uma interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria por uso espor\u00e1dico de maconha. \nPassei cerca de tr\u00eas dias amarrada, fui espancada na cl\u00ednica e, em todo \nmomento que quis participar do tratamento, do meu processo de cuidado, \nera convencida de que, na verdade, n\u00e3o era eu quem estava falando, mas a\n droga que ainda fazia efeito na minha tomada de posi\u00e7\u00e3o. Passei cerca \nde dois meses em um tratamento baseado na minha inferioriza\u00e7\u00e3o, na \nhumilha\u00e7\u00e3o e no uso compuls\u00f3rio de medica\u00e7\u00f5es que eu n\u00e3o poderia saber \ndo que se tratava.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00ed impregnada de medica\u00e7\u00e3o e com medo de voltar a ter uma \nexperi\u00eancia t\u00e3o violenta como foi essa interna\u00e7\u00e3o. Foi quando conheci a \nredu\u00e7\u00e3o de danos atrav\u00e9s do professor Edward MacRae, que me convidou a \nparticipar dessa luta a partir da incorpora\u00e7\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o de danos na \nminha vida. A partir da\u00ed, do ano de 2005, iniciei a minha milit\u00e2ncia em \ndefesa do cuidado em liberdade, do direito \u00e0 vida e da redu\u00e7\u00e3o de danos \ncomo alternativa vi\u00e1vel a uma pol\u00edtica de drogas como a brasileira, \npautada na viol\u00eancia genocida que extermina pessoas negras e pobres e \nprotege pessoas brancas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual a avalia\u00e7\u00e3o que voc\u00ea faz sobre a atual pol\u00edtica de drogas do governo Bolsonaro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de drogas proposta pelo governo Bolsonaro obedece a l\u00f3gica\n da agenda da morte. Se a gente junta o pacote anti-crime de Moro com a \nPL 37, de autoria do Osmar Terra, podemos perceber que existe um projeto\n pol\u00edtico que utiliza da pauta da pol\u00edtica de drogas para perseguir e \ncriminalizar pessoas negras e pobres neste pa\u00eds. \u00c9 uma pol\u00edtica pautada \nno medo, no aumento de pena, no recolhimento compuls\u00f3rio de pessoas com \nproblemas com drogas em institui\u00e7\u00f5es como comunidades terap\u00eauticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O governo tem fortalecido as comunidades terap\u00eauticas, a \nmaioria em locais isolados, de car\u00e1ter religioso e focadas na \nabstin\u00eancia. Quais os perigos desse discurso e desse tipo de tratamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A PLC 37 concede ampla possibilidade de financiamento com verba \np\u00fablica a institui\u00e7\u00f5es como as comunidades terap\u00eauticas [CTs]. O grande \nproblema \u00e9 que as CTs s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es amplamente denunciadas em \nrelat\u00f3rios, tanto do Conselho Federal de Psicologia como do Mecanismo de\n Combate \u00e0 Tortura. S\u00e3o institui\u00e7\u00f5es onde ocorrem graves viola\u00e7\u00f5es de \ndireitos. O grande problema desses espa\u00e7os \u00e9 a l\u00f3gica do tratamento que \nsegue um modelo \u00fanico para todas as situa\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de prever a \nconvers\u00e3o religiosa, fazendo com que sejam espa\u00e7os que d\u00e3o seguimento \u00e0 \nevangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma pessoa tem problemas com drogas, \u00e9 l\u00e9sbica e integrante de uma\n religi\u00e3o de matriz africana, nesse espa\u00e7o a primeira coisa que acontece\n \u00e9 uma viol\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o ao direito \u00e0 identidade. Estrat\u00e9gias \nviolentas de coer\u00e7\u00e3o buscam transformar essa pessoa em algu\u00e9m moralmente\n aceito naquela comunidade violentando, assim, o direito \u00e0 livre \nsexualidade e \u00e0 liberdade religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>No texto do PL 37, h\u00e1 a retirada do conceito de redu\u00e7\u00e3o de danos, \ncomo j\u00e1 era de se esperar de um governo totalmente avesso a qualquer \nestrat\u00e9gia emancipat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta das CTs s\u00e3o perigosas de diversas formas. Primeiro porque \ncumprem o projeto de expans\u00e3o de religi\u00f5es evang\u00e9licas e catequiza\u00e7\u00e3o de\n um povo, n\u00e3o h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria com a qualidade de vida do \nsujeito nem com a sua hist\u00f3ria. H\u00e1 in\u00fameras den\u00fancias de trabalho \nescravo, viol\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica, etc. S\u00e3o equipamentos que t\u00eam \nviolado direitos sociais b\u00e1sicos, logo n\u00e3o deveriam receber tanto \ninvestimento. Al\u00e9m disso, trabalham com a ideia da abstin\u00eancia como \nporta de entrada para o tratamento, sem considerar que, por vezes, a \npessoa que faz uso abusivo de drogas n\u00e3o consegue de maneira espont\u00e2nea \nlargar o uso de drogas totalmente para entrar em tratamento. A \nabstin\u00eancia \u00e9 um ideal muito r\u00edgido para se esperar de um sujeito que \ninicia o tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o que um eventual problema com drogas esconde \numa diversidade de situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de lidar. Na minha pesquisa de \nmestrado, acompanhei 20 mulheres negras, com trajet\u00f3ria de rua e que \nfaziam uso abusivo de crack. Buscava entender como essas mulheres \niniciaram o uso abusivo e como conseguiram control\u00e1-lo ao longo de suas \nvidas. O resultado da pesquisa foi assustador: a viol\u00eancia racial e de \ng\u00eanero era a porta de entrada para o uso abusivo de crack. Dezoito das \n20 mulheres foram para a rua porque foram violentadas por parentes \npr\u00f3ximos, fazendo com que passassem a estar em condi\u00e7\u00e3o de rua muito \ncedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez na rua, as mulheres relatavam in\u00fameros casos de viol\u00eancia que\n foram respons\u00e1veis pela entrada no uso abusivo de crack: epis\u00f3dios de \nestupro coletivo de policiais, estupro de traficantes, retirada de filho\n j\u00e1 na maternidade por conta do uso. As mulheres relatavam de diversas \nformas que o crack aliviava a dor de perder um filho ou aliviava a \nhumilha\u00e7\u00e3o de um estupro coletivo. O crack era ent\u00e3o o que possibilitava\n que essas mulheres conseguissem viver em um contexto de morte. O \nabandono da droga nesses casos n\u00e3o \u00e9 simples nem vem de uma hora para a \noutra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 poss\u00edvel, no atual contexto, fortalecer a pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos manter acesa a chama da redu\u00e7\u00e3o de danos. Tentar encontrar\n brechas para manter a redu\u00e7\u00e3o de danos presente na vida das pessoas que\n usam drogas e tamb\u00e9m na institucionalidade. Precisamos unir as lutas e \nentender que a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 sobre a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de \npessoas historicamente violentadas, \u00e9 a tomada de poder da organiza\u00e7\u00e3o \npol\u00edtica nos territ\u00f3rios de guerra. Precisamos seguir mantendo presen\u00e7a \nnas cenas de uso, construindo pol\u00edtica com as popula\u00e7\u00f5es que t\u00eam sido \nacessadas pela redu\u00e7\u00e3o de danos. Nesse sentido, a Escola Livre de RD do \nRecife \u00e9 para n\u00f3s um farol que nos guia nesse mar de desesperan\u00e7a. \nEnquanto houver usu\u00e1rios e usu\u00e1rias de drogas organizados politicamente,\n haver\u00e1 redu\u00e7\u00e3o de danos, em nossas vidas e tamb\u00e9m na disputa do nosso \nprojeto de sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual o papel da esquerda diante dessa nova pol\u00edtica de drogas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 crucial que a esquerda possa avaliar suas contribui\u00e7\u00f5es ao longo de\n todos esses anos para o campo da redu\u00e7\u00e3o de danos. Tivemos a primeira \nexperi\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o de danos na cidade de Santos (SP) na prefeitura \nda petista Telma de Souza. Precisamos que a esquerda volte a ter a \ncoragem de pautar a redu\u00e7\u00e3o de danos. Na cidade de Salvador, contamos \ncom parcerias importantes na C\u00e2mara Municipal que t\u00eam nos proporcionado \nconstruir um Projeto de Lei que formaliza o trabalho da redu\u00e7\u00e3o de danos\n na cidade, bem como o cargo do redutor de danos. A vereadora Marta \nRodrigues (PT) tem nos auxiliado a levar a pauta da RD para a c\u00e2mara, \nesse \u00e9 o papel de toda a esquerda: investir em linhas de fuga, propor \nprojetos de lei que recriem a RD em todas as cidades e estados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ra\u00edssa Ebrahim em 18\/07\/2019 Para a Marco Zero Conte\u00fado O presidente Jair Bolsonaro (PSL), com pouca \u2013 ou nenhuma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":8102,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[10],"tags":[497,338,680,679],"class_list":["post-8094","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pontos-de-vista","tag-antiproibicionismo","tag-politica-de-drogas","tag-politicas-de-cuidado","tag-reducao-de-danos"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/luana-malheiro.jpg?fit=960%2C640&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-26y","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8094","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8094"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8094\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8103,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8094\/revisions\/8103"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8094"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8094"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8094"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}