{"id":79,"date":"2014-11-20T13:55:22","date_gmt":"2014-11-20T16:55:22","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=79"},"modified":"2025-07-03T13:06:20","modified_gmt":"2025-07-03T16:06:20","slug":"por-uma-consciencia-feminista-antirracista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=79","title":{"rendered":"Por uma consci\u00eancia feminista antirracista"},"content":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria do 20 de novembro n\u00e3o apenas recorda a resist\u00eancia e os desafios da luta do povo negro. Tamb\u00e9m coloca desafios para n\u00f3s, feministas.<\/p>\n<p>[Por Paula de Andrade*]<\/p>\n<p>No Brasil, a sociedade \u00e9 violentamente racista e estruturada em desigualdades. Mas quando algu\u00e9m \u00e9 acusado\/a de racismo, sempre aparecem rea\u00e7\u00f5es. No m\u00ednimo: &#8220;todos temos sangue negro e somos todos humanos, da ra\u00e7a humana\u201d. Afirmar a luta antirracista feminista significa, antes de tudo, n\u00e3o calar frente a situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o e desigualdade vividas pelo povo negro. N\u00e3o calar e se somar \u00e0s vozes de companheiras negras que sobrevivem diante da dor de perderem filhos jovens por serem negros, ou negros e homossexuais, ou negros e pobres, negros e &#8211; sempre &#8211; suspeitos. Suspeitos de qualquer coisa, suspeitos mesmo quando em nada aparentam s\u00ea-lo e, por isso mesmo, sendo ainda mais.<\/p>\n<p>Fazer a luta antirracista feminista \u00e9 retirar do sil\u00eancio as desigualdades entre n\u00f3s, mulheres. Quem somos\/s\u00e3o aquelas que, entre n\u00f3s, s\u00e3o negras? Como vivemos neste pa\u00eds, o \u00faltimo a abolir legalmente a escraviza\u00e7\u00e3o de pessoas negras? Como este dado hist\u00f3rico se reflete em nossas condi\u00e7\u00f5es de vida, nos lugares que vivemos? E como repercute no acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, nos trabalhos que realizamos, na renda que possu\u00edmos, na viol\u00eancia que sofremos em casa ou nas ruas? A mem\u00f3ria do 20 de novembro n\u00e3o apenas recorda a resist\u00eancia e os desafios da luta do povo negro. Tamb\u00e9m coloca desafios para n\u00f3s, feministas.<\/p>\n<p>A for\u00e7a de in\u00fameras mulheres negras, vis\u00edveis ou an\u00f4nimas, est\u00e1 a servi\u00e7o de milhares e milhares de outras ao longo da hist\u00f3ria. \u201cVem de longe.\u201d Conhec\u00ea-las e reconhec\u00ea-las \u00e9 fazer a luta antirracista, trazendo para o cotidiano exemplos de mulheres que inspiram coragem e poesia, saberes e maestrias n\u00e3o visibilizados. Afirmar essa luta significa difundir hist\u00f3rias que n\u00e3o se contam, falar de lugares que fizeram e fazem a hist\u00f3ria de quem enfrenta a barb\u00e1rie nos pormenores de um cotidiano marcado pelo racismo: uma viol\u00eancia que d\u00e1 as mulheres negras e homens negros em nosso pa\u00eds um n\u00e3o lugar. &#8220;Sobreviva, desde que \u00e0 margem&#8221;.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das mulheres negras no Brasil e nos demais pa\u00edses do continente americano \u00e9 uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia que come\u00e7a desde que seus\/suas ancestrais deixaram \u00e0 for\u00e7a seus territ\u00f3rios. \u00c9 uma hist\u00f3ria que se conecta \u00e0 resist\u00eancia de povos ind\u00edgenas desse continente, que tamb\u00e9m foram e seguem sendo for\u00e7ados a renunciar \u00e0 pr\u00f3pria cosmovis\u00e3o. For\u00e7ados, mas resistindo \u00e0s tentativas para que renunciem a viv\u00eancias ancestrais e \u00e0 forma como constroem seus saberes, como se vestiam ou como usam o cabelo. E hoje, como ontem, resistindo \u00e0 viol\u00eancia que tenta extinguir pr\u00e1ticas religiosas porque &#8220;seria hora de recolher os maracatus&#8221;, seria hora de parar a macumba, ainda que a ci\u00eancia da tradi\u00e7\u00e3o diga o contr\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>A luta das mulheres negras, sendo uma luta contra a opress\u00e3o, como todas as lutas feitas por oprimidxs, \u00e9 uma luta feita com muita dor e com muita coragem, pois \u00e9 dif\u00edcil soltar a voz e os cabelos, enfrentando a vis\u00e3o euroc\u00eantrica que esmaga, desde o momento que uma menina negra adentra, p. ex., na primeira escola. De l\u00e1, at\u00e9 o seu \u00faltimo dia de vida, n\u00e3o apenas enfrentar\u00e1 o sexismo, mas todos os instrumentos do &#8220;embranquecer&#8221; e da objetifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 ainda mais violenta sobre cada mulher negra, em diferentes contextos.<\/p>\n<p>Somando-nos a todas as pessoas que lutam para enfrentar essa cultura patriarcal e racista queremos saudar, no ano de 2015, a realiza\u00e7\u00e3o da Marcha das Mulheres Negras contra o racismo e pelo Bem-Viver. Saudar um ato pol\u00edtico que significar\u00e1 a recupera\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias de lutas contra o racismo e o sexismo, lutas antirracistas que se entrecruzam, que propiciam o transcender das individualidades da trajet\u00f3ria de cada mulher negra, em um resgate coletivo de nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica no espelho do presente, fortalecendo a gana de todas que est\u00e3o na luta para nos sabermos, sabermos quem somos n\u00f3s &#8211; as que entre n\u00f3s s\u00e3o negras mulheres, e somos milh\u00f5es no Brasil.<\/p>\n<p>Queremos saudar um processo que propicia a viv\u00eancia de uma identidade para uma luta libert\u00e1ria: a luta contra o racismo em nosso pa\u00eds. Um ato pol\u00edtico que reinterpreta o passado e o presente. Reconstr\u00f3i a mem\u00f3ria e, assim, j\u00e1 se faz resist\u00eancia, lan\u00e7ando um olhar sobre os tempos e o territ\u00f3rio cotidiano das vidas das mulheres negras, trazendo \u00e0 luz o que tem sido silenciado, desmistificando o que foi naturalizado.<br \/>\n<em>\u201cA utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimens\u00e3o humana e a universalidade ocidental hegem\u00f4nica que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcan\u00e7ar a igualdade de direitos \u00e9 converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para al\u00e9m de sua condi\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a e de g\u00eanero. Esse \u00e9 o sentido final dessa luta.\u201d &#8211;\u00a0Sueli Carneiro, Enegrecer o Feminismo\u00a0<\/em><\/p>\n<p>(*) Paula de Andrade integra o coletivo pol\u00edtico-profissional do SOS Corpo \u2013 Instituto Feminista para a Democracia. Atua no F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco e na Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras.<\/p>\n<p>Publicado em 20\/11\/14<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria do 20 de novembro n\u00e3o apenas recorda a resist\u00eancia e os desafios da luta do povo negro. 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