{"id":7140,"date":"2018-10-10T19:08:55","date_gmt":"2018-10-10T22:08:55","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=7140"},"modified":"2018-10-11T13:59:33","modified_gmt":"2018-10-11T16:59:33","slug":"o-poder-politico-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=7140","title":{"rendered":"O poder pol\u00edtico das mulheres"},"content":{"rendered":"<p><em>texto de Graciela Rodriguez, integrante da Equit e militante da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras (AMB).\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que vimos nas ruas do Brasil ontem [29 de setembro, 2018] \u00e9 um novo modo do poder pol\u00edtico. O corpo das mulheres enfrentando o medo que querem impor \u00e0s sociedades, e dizendo que n\u00e3o queremos mais ser tuteladas, invisibilizadas, amea\u00e7adas e assassinadas. Uma nova forma de construir democracia nas ruas, apesar das vetustas institui\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica onde as mulheres n\u00e3o ultrapassam 10% de presen\u00e7a nos parlamentos corrompidos pelo poder patriarcal, deslegitimados pelas pr\u00e1ticas corruptas e por uma pol\u00edtica que s\u00f3 se legitima como express\u00e3o da hierarquia de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas por que n\u00e3o temos medo?, porque logramos a incorpora\u00e7\u00e3o sens\u00edvel dos corpos quando se sabem acompanhados no espa\u00e7o comum, o \u201cacorpamento\u201d do qual falam as companheiras latinas quando saem as ruas. O comum, uma pr\u00e1tica e constru\u00e7\u00e3o antiga das mulheres, de antes das bruxas, vinda da experi\u00eancia comunit\u00e1ria, amassada junto com os cantos coletivos das trabalhadoras, mas ainda latentes nos modos de fazer das quebradeiras de coco baba\u00e7u e outras no Brasil. E as mulheres podemos faz\u00ea-lo porque, recuperando nossa mem\u00f3ria arcaica,\u00a0<em>n\u00e3o precisamos reproduzir o pertencimento a nenhuma institucionalidade da guerra e da viol\u00eancia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aqui est\u00e1-se engendrando uma nova forma do \u201cfazer pol\u00edtico\u201d, desde as redes sociais \u00e0s ruas, as mulheres nos mostramos como uma for\u00e7a horizontal, como um desejo solid\u00e1rio para com a sociedade, com total despudor na exibi\u00e7\u00e3o das diversidades, e com alegria contagiante: Uma forma que rompe o medo!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A presen\u00e7a de milhares de mulheres nas ruas das cidades do pa\u00eds, exibindo a rejei\u00e7\u00e3o da sociedade ao fascismo, foi a forma de um fazer pol\u00edtico transbordante dos canais institucionais, das maneiras engessadas do disciplinamento que h\u00e1 s\u00e9culos nos imp\u00f5em. O fascismo como a express\u00e3o mais acabada do individualismo, da nega\u00e7\u00e3o do outro como diferen\u00e7a, do rebaixamento e invisibiliza\u00e7\u00e3o do diverso, da naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra as mulheres, da domestica\u00e7\u00e3o dos corpos das mulheres, dos negros e negras, da diversidade sexual, dos e das migrantes, e dos empobrecidos por um poder econ\u00f4mico patriarcal cada vez mais concentrador das riquezas produzidas por toda a sociedade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_7141\" aria-describedby=\"caption-attachment-7141\" style=\"width: 580px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"7141\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=7141\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?fit=1280%2C848&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1280,848\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?fit=300%2C199&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?fit=640%2C424&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-7141 size-large\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?resize=580%2C384&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?resize=1024%2C678&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?resize=300%2C199&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?resize=768%2C509&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7141\" class=\"wp-caption-text\">Mulheres de todo pa\u00eds v\u00e3o as ruas em dia hist\u00f3rico, 29 de novembro de 2018. Foto divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As elites n\u00e3o podem impor o brutal modelo de explora\u00e7\u00e3o, desemprego massivo, precariza\u00e7\u00e3o da vida, despossess\u00e3o e espolia\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios rurais e urbanos sem usar da viol\u00eancia, da trucul\u00eancia, sem a criminaliza\u00e7\u00e3o dos mais pobres. A pol\u00edtica de combate \u00e0s drogas se tornando o \u00e1libi para o genoc\u00eddio dos jovens negros das periferias urbanas. A militariza\u00e7\u00e3o das cidades como o modo de viver em medo. O fascismo como resultado desse processo de clivar as sociedades pelo \u00f3dio e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas o fascismo tamb\u00e9m \u00e9 o resultado da sofistica\u00e7\u00e3o, cada dia maior, das formas de controle social e dos territ\u00f3rios, e da modula\u00e7\u00e3o das subjetividades, a partir das religi\u00f5es de mercado, do consumo, do senso comum da dupla moral, do manejo das vontades e desejos mais \u00edntimos, da explora\u00e7\u00e3o de cora\u00e7\u00f5es e mentes&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por isso as mulheres, a partir de um longo processo de liberta\u00e7\u00e3o que j\u00e1 dura v\u00e1rios s\u00e9culos, estamos enfrentando o fascismo com formas n\u00e3o violentas de express\u00e3o, de valoriza\u00e7\u00e3o das diversidades, de respeito aos corpos e suas sexualidades, de insubmiss\u00e3o aos padr\u00f5es est\u00e9ticos, de cuidado com a vida cotidiana, ou seja simplesmente, de enxergar o outro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s, que desde o feminismo temos sido capazes de construir outros territ\u00f3rios dom\u00e9sticos de valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho invis\u00edvel das mulheres, de denunciar e combater \u2013 irmanadas \u2013 as viol\u00eancias que sofremos no cotidiano, que sa\u00edmos a construir a igualdade no vasto campo do trabalho e dos estudos, que estamos fazendo a revolu\u00e7\u00e3o mais triunfante do \u00faltimo s\u00e9culo, agora tomamos as ruas para enfrentar o fascismo pela sua raiz de \u00f3dio e domina\u00e7\u00e3o patriarcal,\u00a0 racista e de classe. E o fazemos a partir de uma pr\u00e1tica de politiza\u00e7\u00e3o feminista, das greves internacionais nos \u00faltimos 8 de Mar\u00e7o, que abrem novos entendimentos sobre o conceito do trabalho, a partir do direito \u00e0 escolha para nossas sexualidades, da nossa liberdade para ter ou n\u00e3o filhos, de viver a maternidade como um ato pol\u00edtico e de composi\u00e7\u00e3o de afetos e rela\u00e7\u00f5es, de caminhar para uma divis\u00e3o sexual do trabalho igualit\u00e1ria, da for\u00e7a do agir coletivo nas ruas que tomamos, e que agora n\u00e3o queremos mais abandonar; do desejo, enfim, de construir um mundo de iguais e amorosamente diversos&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Expressamos o pol\u00edtico reinventado, descolonizado, libertado em sua pot\u00eancia de express\u00e3o do desejo de igualdade, solidariedade e paz. Frente \u00e0 puls\u00e3o de morte, e \u00e0 espetaculariza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia que exacerba o fascismo, opomos essa pot\u00eancia que surge da necessidade de inventar outras pr\u00e1ticas, outros saberes e outros mundos. Criar di\u00e1logos, v\u00ednculos, argumenta\u00e7\u00f5es politizando a vida no seu sentido social, cooperativo e amoroso \u00e9 a forma de fugir das ansiedades, ang\u00fastias e do sofrimento ps\u00edquico a que nos condena o frenesi capitalista.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O movimento das mulheres faz vis\u00edvel a \u201cpedagogia da crueldade\u201d[1]\u00a0que imp\u00f5e o fascismo, expondo os corpos em luta como um modo de vida sem medo. E isso \u00e9 o sens\u00edvel, que toca as emo\u00e7\u00f5es e que tanto incomoda ao poder, porque vai direto ao corpo e \u00e0 alma do ser.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As nossas pr\u00e1ticas, nossas roupas, consignas, cores, dan\u00e7as e a nossa alegria pintam o ar de forma diferente para desafiar o \u00f3dio, e para permitir re-apropriar-nos das sensibilidades.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Como diz o soci\u00f3logo Franco Berardi, \u201ca felicidade \u00e9 subversiva quando ela dev\u00e9m coletiva\u201d: ontem, em muitas cidades do Brasil e do mundo, fomos subversivamente felizes&#8230;<\/p>\n<p>_______________________________________________<\/p>\n<p>[1]\u00a0Da qual nos fala Rita Segato<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>texto de Graciela Rodriguez, integrante da Equit e militante da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras (AMB).\u00a0 O que vimos nas ruas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":7141,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"O poder pol\u00edtico das mulheres","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[586,592],"class_list":["post-7140","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lutafeminista","tag-antifascismo","tag-feminism"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/5bbb8ae3-5566-4d51-a428-b25a871452f9.jpg?fit=1280%2C848&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-1Ra","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7140","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7140"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7140\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7143,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7140\/revisions\/7143"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7141"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}