{"id":6535,"date":"2018-04-25T11:29:24","date_gmt":"2018-04-25T14:29:24","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6535"},"modified":"2018-08-29T13:36:08","modified_gmt":"2018-08-29T16:36:08","slug":"os-feminismos-negros-e-os-significados-das-lutas-das-mulheres-negras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6535","title":{"rendered":"Os feminismos negros e os significados das lutas das mulheres negras"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"6546\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=6546\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/thais-moreira-6_26048085171_o-1.jpg?fit=1000%2C666&ssl=1\" data-orig-size=\"1000,666\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;4.5&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;Thais Moreir@&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;Canon EOS REBEL T3&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1447837483&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;Thais Moreira&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;50&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;1600&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.0005&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"thais-moreira&#8212;6_26048085171_o\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/thais-moreira-6_26048085171_o-1.jpg?fit=640%2C426&ssl=1\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6546\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/thais-moreira-6_26048085171_o-1.jpg?resize=640%2C426&ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/thais-moreira-6_26048085171_o-1.jpg?w=1000&ssl=1 1000w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/thais-moreira-6_26048085171_o-1.jpg?resize=300%2C200&ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/thais-moreira-6_26048085171_o-1.jpg?resize=768%2C511&ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Texto: <strong>Francisca Maria Rodrigues Sena,<\/strong> integrante do Inegra \u2013 CE<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>\u201cComo mulheres, alguns de nossos problemas s\u00e3o comuns, outros n\u00e3o. Voc\u00eas, brancas, temem que seus filhos\u00a0<\/em><em>ao crescer se juntem ao patriarcado e se voltem contra voc\u00eas. N\u00f3s, em contrapartida, tememos que tirem\u00a0<\/em><em>nossos filhos de um carro e disparem contra eles \u00e0 queima-roupa, no meio da rua, enquanto voc\u00eas d\u00e3o as costas para as raz\u00f5es pelas quais eles est\u00e3o morrendo.\u201d<\/em><br \/>\n<em><strong>Audre Lorde<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No momento em que rabisco este texto, sou tomada pelo forte sentimento da premissa j\u00e1 sabida de que ser mulher negra \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social permanente. Olhando\u00a0para a vida das mulheres negras com quem<br \/>\ncompartilho a vida e o ativismo pol\u00edtico e, a partir de algumas leituras sobre nossas trajet\u00f3rias, vejo que a Hist\u00f3ria sempre concorreu para que nossas vozes fossem silenciadas. Por\u00e9m, quando conquistamos espa\u00e7o para pronunciar o verbo, muitas vezes, nossas vozes ecoaram e ecoam de forma dissonante. E que assim seja! Que usemos nossas vozes e nossos corpos para expressarem as leituras de mundo, os referenciais, os desejos, as dores que experimentamos, as rupturas que ousamos fazer, dar continuidade \u00e0s nossas sabedorias ancestrais\u2026 Fazer ecoar estas vozes dissonantes \u00e9 um dos caminhos e ao mesmo tempo um dos nossos objetivos de liberdade e emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nossos passos v\u00eam de longe\u2026 <\/strong><\/p>\n<p>Sempre acho significativo explicitar que a auto-organiza\u00e7\u00e3o e as lutas das mulheres negras nascem nos mais diversos contextos de explora\u00e7\u00e3o e ocorrem a partir de diferentes matrizes: sociedades de mulheres abolicionistas, organiza\u00e7\u00e3o de empregadas dom\u00e9sticas, mulherismo, organiza\u00e7\u00e3o de mulheres pan-africanas, movimentos de mulheres, feministas, feministas negras, l\u00e9sbicas, transexuais\u2026 Esta reflex\u00e3o \u00e9 feita inclusive respeitando as vozes dissonantes daquelas que, mesmo quando lutam contra as opress\u00f5es que marcam as vidas das mulheres, recusam uma identidade feminista.<\/p>\n<p>Se o feminismo negro nasce da cr\u00edtica ao feminismo branco, sua constitui\u00e7\u00e3o teve por base o ac\u00famulo da nossa pr\u00f3pria Hist\u00f3ria e a trajet\u00f3ria de resist\u00eancia e luta das mulheres negras e nossas ancestrais, tantas<br \/>\nvezes silenciadas e invisibilizadas. No Brasil, as mulheres ind\u00edgenas e as mulheres negras sequestradas de diversas partes do continente africano, al\u00e9m de v\u00edtimas da explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o do processo de coloniza\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas e de escraviza\u00e7\u00e3o dos povos negros, tamb\u00e9m foram sujeitos de resist\u00eancia e luta contra tais regimes, com suas heran\u00e7as malditas at\u00e9 hoje. Al\u00e9m disso, os feminismos negros contribuem para desacomodar os movimentos negros quando reproduzem o sexismo.<\/p>\n<figure style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s2.glbimg.com\/Fkyytp9OzfyDp6gEv3U6GMPzr0E%3D\/620x465\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/05\/21\/alberto_jacob_agencia_o_globo.jpg?resize=620%2C465\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"465\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">L\u00e9lia Gonzalez<\/figcaption><\/figure>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1970 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, o pensamento de L\u00e9lia Gonz\u00e1lez e de Sueli Carneiro s\u00e3o evid\u00eancias das vozes dissonantes em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento hegem\u00f4nico sobre a categoria supostamente universal \u201cmulher\u201d e sobre o feminismo branco, hegem\u00f4nico e euroc\u00eantrico, permitindo lan\u00e7ar outro olhar sobre a realidade brasileira e latinoamericana, a Hist\u00f3ria, as rela\u00e7\u00f5es sociais, as desigualdades, as mulheres negras, a auto-organiza\u00e7\u00e3o das mulheres negras, os feminismos e a import\u00e2ncia de enegrec\u00ealo. Ao fazermos uma leitura \u00e0 luz dessa premissa, \u00e9 poss\u00edvel identificar as diferen\u00e7as e, sobretudo, as desigualdades constru\u00eddas entre as mulheres negras e as n\u00e3o negras.<\/p>\n<p>Se a cr\u00edtica elaborada pelos feminismos negros, enquanto teoria e movimento contra-hegem\u00f4nico, foi e \u00e9 de fundamental relev\u00e2ncia para identificar os limites do feminismo hegem\u00f4nico e elaborar uma cr\u00edtica sobre ele, tensionando e ressignificando o sujeito do feminismo, as suas bandeiras de luta, estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o,\u00a0 metodologias de trabalho, referenciais te\u00f3ricos, isto n\u00e3o significa dizer que \u00e9 sua tarefa \u00fanica. Mulheres negras e brancas vivem de forma diferente e desigual problemas semelhantes. Nossas leituras e viv\u00eancias nos levam a refletir, por exemplo, por que historicamente os movimentos feministas\u00a0t\u00eam acreditado no encarceramento como forma de responsabilizar agressores e barrar a viol\u00eancia contra as mulheres, sem questionar que o encarceramento, estruturado a partir de premissas do sistema escravista, \u00e9 usado para confinar, punir e mais ainda, vingar um \u00f3dio racista e de classe contra homens negros? Em que medida isto afeta a vida das mulheres negras que t\u00eam filhos, companheiros, netos, sobrinhos, pais encarcerados? Que outras alternativas construir para responsabilizar homens pela viol\u00eancia sexista, para al\u00e9m\u00a0dos muros da pris\u00e3o? Em rela\u00e7\u00e3o aos<br \/>\ndireitos reprodutivos das mulheres, como n\u00e3o considerar que o Estado brasileiro adotou pol\u00edticas de esteriliza\u00e7\u00e3o em massa das mulheres negras e empobrecidas como forma de reduzir o contingente populacional, violando seu direito de decidir sobre o seu corpo? Como desconsiderar que a maioria<br \/>\ndas mulheres que abortam n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de faz\u00ea-lo de forma segura, s\u00e3o as negras e por isso sangram, sentem dores no sil\u00eancio mesmo quando gritam e est\u00e3o sujeitas a infec\u00e7\u00f5es que n\u00e3o raras vezes levam a sua morte?<\/p>\n<p>Elaborar estes questionamentos, redefinindo os sujeitos, recontando a Hist\u00f3ria, definindo o que \u00e9 central para as mulheres negras na sua autoorganiza\u00e7\u00e3o foi e \u00e9 poss\u00edvel a partir das feministas negras, gerando pelo menos duas contribui\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>1. Identificando os limites e as contradi\u00e7\u00f5es do feminismo hegem\u00f4nico, que acabou por reduzir sua cr\u00edtica ao patriarcado e \u00e0s desigualdades entre homens e mulheres, sem, no entanto, considerar as opress\u00f5es hist\u00f3ricas de ra\u00e7a\/etnia e de classe social;<\/p>\n<p>2. Deixando de considerar, criticar e combater o racismo, o etnocentrismo e as desigualdades econ\u00f4micas entre homens e mulheres, entre homens negros e mulheres brancas, mas tamb\u00e9m entre as pr\u00f3prias mulheres.<\/p>\n<p>Essas contribui\u00e7\u00f5es ajudam a desvelar que mesmo o feminismo hegem\u00f4nico, mesmo que pretensamente radical, constitui-se como teoria e movimento racista. Explicitar as contradi\u00e7\u00f5es e os limites do feminismo hegem\u00f4nico a partir de questionamentos como estes \u00e9 tarefa pol\u00edtica necess\u00e1ria e urgente. Por\u00e9m, seria um equ\u00edvoco considerar que os feminismos negros encerram seu papel emancipat\u00f3rio aqui. Se assim fosse, ao elaborarmos a cr\u00edtica ao feminismo hegem\u00f4nico e desconstru\u00ed-lo estar\u00edamos rompendo com o processo de<br \/>\ndomina\u00e7\u00e3o a n\u00f3s imposta, como heran\u00e7a maldita do processo de coloniza\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o e que a cada per\u00edodo hist\u00f3rico se atualiza. Mas nosso projeto pol\u00edtico \u00e9 muito maior. Ele se prop\u00f5e a romper com as opress\u00f5es e explora\u00e7\u00f5es fundamentadas na ra\u00e7a, no patriarcado, na classe social, na sexualidade que<br \/>\nestruturam as desigualdades sociais, pol\u00edticas, econ\u00f4micas, culturais, ambientais\u2026 Opress\u00f5es e explora\u00e7\u00f5es<br \/>\nque se materializam a partir da a\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas que afetam diretamente a vida das mulheres negras, em \u00e1reas como a educa\u00e7\u00e3o, o mundo do trabalho, o acesso a bens dur\u00e1veis e \u00e0s tecnologias digitais, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a viol\u00eancia, como apontado pelo Dossi\u00ea de Mulheres Negras (2013).<\/p>\n<p>Nesse debate, uma pergunta nos inquieta:O que \u00e9 mais determinante na defini\u00e7\u00e3o das desigualdades? Ra\u00e7a? Classe? G\u00eanero? Sexualidade? A imbrica\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a, classe, g\u00eanero e sexualidade \u00e9 t\u00e3o profunda e complexa, na determina\u00e7\u00e3o da vida das mulheres negras e nas nossas condi\u00e7\u00f5es de vida, que impossibilita a dissocia\u00e7\u00e3o desses elementos para uma leitura mais ampla e coerente com a realidade, mesmo que para efeitos de an\u00e1lise, bem como uma suposta hierarquiza\u00e7\u00e3o de cada uma dessas opress\u00f5es. Essas opress\u00f5es s\u00e3o estruturantes das desigualdades socioecon\u00f4micas e se articulam de forma sistem\u00e1tica e interdependente.<\/p>\n<p>Essa interseccionalidade n\u00e3o ocorre apenas no campo das opress\u00f5es, mas tamb\u00e9m das nossas possibilidades de resist\u00eancia e na nossa capacidade de criar e recriar a vida, o mundo, as rela\u00e7\u00f5es, a nossa presen\u00e7a nele,<br \/>\ncom nossa milit\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m com a nossa arte, produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mem\u00f3ria e sabedorias ancestrais, dom\u00ednio das ervas e processos de cura, jeito de fazer pol\u00edtica, preserva\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios tradicionais, nas<br \/>\nreligi\u00f5es de matrizes africanas\u2026<\/p>\n<p>No atual contexto de retrocessos, de recrudescimento da viol\u00eancia racista e sexista, fortalecimento do capital,\u00a0 o se apropriar e mercantilizar nossos recursos naturais e nossa m\u00e3o-de-obra para prestar servi\u00e7os e produzir aquilo que jamais teremos acesso; onde oito homens brancos\u00a0e ricos det\u00eam uma renda maior do que 50%<br \/>\nda popula\u00e7\u00e3o mundial mais pobre; e do avan\u00e7o do conservadorismo, os feminismos negros t\u00eam um dever hist\u00f3rico de fazer o enfrentamento com vozes dissonantes e pr\u00e1ticas que podem gerar uma desordem na<br \/>\nestrutura racista, sexista, heteronormativa e capitalista da sociedade. Que a partir da nossa auto-organiza\u00e7\u00e3o, nossas vozes dissonantes, nossas palavras de desordem e nossa rebeldia inspirem e fa\u00e7am prevalecer a<br \/>\nliberdade, a cor, a alegria, o prazer, a justi\u00e7a!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Francisca Maria Rodrigues Sena, integrante do Inegra \u2013 CE \u201cComo mulheres, alguns de nossos problemas s\u00e3o comuns, outros n\u00e3o. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":6546,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Nossos passos vem de longe. 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