{"id":6533,"date":"2018-04-25T11:00:52","date_gmt":"2018-04-25T14:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6533"},"modified":"2018-08-29T13:36:17","modified_gmt":"2018-08-29T16:36:17","slug":"caminhos-e-veredas-do-feminismo-antirracista-da-amb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6533","title":{"rendered":"Caminhos e veredas do feminismo antirracista da AMB"},"content":{"rendered":"<p><em><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/scontent.frec5-1.fna.fbcdn.net\/v\/t1.0-9\/14440738_952263678218072_9171242832828908128_n.jpg?_nc_cat=0&amp;oh=341dc488a5b00b5cfa75afb0e72c9e37&amp;oe=5B5B731E\" alt=\"A imagem pode conter: 15 pessoas\" \/><br \/>\nTexto por: <strong>Carmen Silva, Joana D\u2019Arc, Nilde Souza, Vera Silva,<\/strong> integrantes da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras (AMB)<\/em><\/p>\n<p>Somos um movimento nacional, organizado\u00a0na maioria dos estados com agrupamentos estaduais, que re\u00fanem diversos tipos de organiza\u00e7\u00f5es de mulheres: grupos populares, n\u00facleos acad\u00eamicos, secretarias de sindicatos\u00a0e federa\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticoprofissionais, ONGs, coletivos, e ainda muitas\u00a0outras mulheres que n\u00e3o se encontram nestes tipos de organiza\u00e7\u00e3o. Somos jovens e mais velhas; negras e n\u00e3o negras; da capital e do interior; trabalhadoras sempre e, \u00e0s vezes, desempregadas; heterosexuais, l\u00e9sbicas e algumas sem necessidade de defini\u00e7\u00f5es sexuais; com muito tempo neste movimento ou rec\u00e9m-chegadas. Somos todas mulheres feministas, enfrentando no cotidiano a viol\u00eancia, a explora\u00e7\u00e3o do nosso trabalho e a domina\u00e7\u00e3o dos nossos corpos, a maioria enfrentando o racismo cotidiano.<\/p>\n<p>Resistimos sempre, construindo outros modos de vida, compartilhando com outras nossos desejos e reflex\u00f5es, articulando coletivamente nossas lutas, chorando nossas derrotas, comemorando nossas conquistas. Seguimos<br \/>\nem frente, rejeitando toda norma que impe\u00e7a nossa liberdade e todo poder que nos oprima. Seguimos juntas construindo no dia a dia as nossas lutas, mostrando nas ruas nossa cara, exigindo nossos direitos, perseguindo nossos sonhos.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, o racismo \u00e9 o sistema de poder que cria, justifica e legitima a domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o das pessoas brancas sobre as negras e que, para se manter, renova-se continuamente, ordenando todas as dimens\u00f5es da vida em sociedade e se expandindo por toda a sociedade em suas dimens\u00f5es \u2013 econ\u00f4mica, pol\u00edtica, jur\u00eddica,<br \/>\ncultural e religiosa.<\/p>\n<p>O patriarcado \u00e9 o sistema de domina\u00e7\u00e3o dos homens sobre as mulheres em todos os \u00e2mbitos da vida, instituindo normas, valores e bases materiais da domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o das mulheres. A divis\u00e3o sexual do trabalho, o uso da viol\u00eancia como instrumento de domina\u00e7\u00e3o, o controle do corpo e da sexualidade feminina, a heteronormatividade e os obst\u00e1culos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres s\u00e3o alguns dos seus instrumentos.<br \/>\nO capitalismo \u00e9 o sistema que se organiza atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e da apropria\u00e7\u00e3o, por uma minoria, das riquezas produzidas pelo trabalho da maioria. Uma das principais caracter\u00edsticas do capitalismo \u00e9 seu car\u00e1ter expansionista, marcado pela apropria\u00e7\u00e3o privada dos bens naturais para explora\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o de lucro, nega\u00e7\u00e3o e dizima\u00e7\u00e3o das diversidades culturais.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, o Estado brasileiro \u00e9 um espa\u00e7o contradit\u00f3rio mas tende a favorecer a acumula\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de riquezas e apenas compensar os efeitos negativos que ela produz. Muitas pol\u00edticas e projetos governamentais se voltam para isto, \u00e9 o caso dos benef\u00edcios fiscais para empreendimentos empresariais; projetos de desenvolvimento que causam danos sociais e ambientais; e a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos que favorece os ricos, brancos e a elite masculina.<\/p>\n<p>Nossa luta contra o racismo \u00e9 pauta que vem ganhando for\u00e7a, fruto de uma disposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da a\u00e7\u00e3o das mulheres negras, maioria das mulheres que integram nosso movimento, sendo necess\u00e1rio enfrent\u00e1-lo na sua articula\u00e7\u00e3o com o capitalismo e com o patriarcado. Nosso debate nacional (em Bras\u00edlia, 2011, com 800 participantes) chamou a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia de se divulgar a hist\u00f3ria do povo negro porque muitas pessoas negras ainda n\u00e3o conseguem se ver como tal. As mulheres negras, por sua vez, s\u00e3o guardi\u00e3s de valores civilizat\u00f3rios, embora ainda care\u00e7am do devido reconhecimento.<\/p>\n<p>Do nosso ponto de vista, a democracia s\u00f3 acontecer\u00e1 se incluir na sua pauta a luta contra o racismo,\u00a0 compreendendo que as mulheres negras n\u00e3o s\u00e3o \u2018p\u00fablico para atividades\u2019, e sim sujeitos pol\u00edticos e precisam<br \/>\nser tratadas como iguais. Al\u00e9m disso, foi discutida a necessidade de fazer o debate sobre a hist\u00f3ria do feminismo sem dat\u00e1-lo a partir dos anos 1970, pois isto ajuda a ver o feminismo s\u00f3 a partir das mulheres brancas de classe m\u00e9dia. O feminismo na Am\u00e9rica Latina \u00e9 de muito antes, e as lutas das mulheres negras s\u00e3o dos 500 anos do Brasil. Tamb\u00e9m foi ressaltada a import\u00e2ncia deste debate para as mulheres ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Neste encontro de 2011, se estabeleceu que as lutas antirracistas a serem assumidas por nosso feminismo s\u00e3o: contra a intoler\u00e2ncia religiosa, no sentido da defesa da liberdade de culto; garantia dos territ\u00f3rios quilombolas; cotas para a popula\u00e7\u00e3o negra; implementa\u00e7\u00e3o da Lei 10.639\/03; republica\u00e7\u00e3o da lei que criminaliza o racismo; por uma educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o sexista e antirracista; pela implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas<br \/>\nde sa\u00fade, com \u00eanfase nas doen\u00e7as que acometem a popula\u00e7\u00e3o negra; valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico; aprofundamento da luta pela reforma da previd\u00eancia; entre outras. Na plen\u00e1ria de 2016 e 2017, se acrescentaram as lutas contra o genoc\u00eddio da juventude negra, contra a pol\u00edtica de drogas e o encarceramento das mulheres.<\/p>\n<p>Para viabilizar estas lutas \u00e9 preciso dar visibilidade \u00e0s desvantagens, injusti\u00e7as e explora\u00e7\u00e3o que as mulheres negras sofrem (n\u00famero de assassinadas, as que n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0s pol\u00edticas, etc.); fortalecer as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres negras no interior de nosso movimento; realizar a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas como, por exemplo, a\u00e7\u00e3o<br \/>\nde constrangimento nos shoppings (\u201cdar vexame\u201d) para repudiar as viol\u00eancias sofridas pela popula\u00e7\u00e3o negra naqueles espa\u00e7os; enfrentar o debate do racismo institucional e denunci\u00e1-lo principalmente nas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde trabalho no mercado privado, e manter viva a campanha contra a viol\u00eancia a partir da refer\u00eancia ao cabelo: \u201cSolte seus cabelos e prenda o racismo\u201d. Campanha Nacional da AMB pelo fim da viol\u00eancia contra as<br \/>\nmulheres negras \u201cSolte seus cabelos e prenda o racismo\u201d, constru\u00edda em oficinas nacionais entre militantes da AMB em 2010, lan\u00e7ada em 2011 no Encontro Nacional da AMB e posteriormente na tenda da AMB na III<br \/>\nConfer\u00eancia Nacional de Pol\u00edticas para as Mulheres.<\/p>\n<p>Precisamos criar espa\u00e7os, no \u00e2mbito de nosso movimento, para as militantes fortaleceremsua identidade racial, discutindo a experi\u00eancia do racismo; buscando forma\u00e7\u00e3o para resistir ao racismo individualmente<br \/>\ne para saber lidar coletivamente com este problema; desenvolver estrat\u00e9gias pedag\u00f3gicas sobre como abordar a quest\u00e3o da negritude na pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o de nosso movimento; discutir o poder no \u00e2mbito<br \/>\norganizacional da AMB para saber onde est\u00e3o as mulheres negras e qual a estrat\u00e9gia de amplia\u00e7\u00e3o deste poder nas organiza\u00e7\u00f5es e movimentos; aprofundar o di\u00e1logo e alian\u00e7as com as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres negras e apoiar tamb\u00e9m participando de encontros entre mulheres ind\u00edgenas e negras\u00a0(di\u00e1logos), pois h\u00e1 organiza\u00e7\u00f5es negras e militantes negras em nosso movimento, que \u00e9 misto quanto \u00e0 ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Um desafio importante \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o entre antirracismo e luta feminista anticapitalista. O capitalismo \u00e9 um sistema baseado na explora\u00e7\u00e3o. Ele se realiza de forma imbricada com o patriarcado e o racismo. Enquanto<br \/>\nperdurar a contradi\u00e7\u00e3o capital\/trabalho, n\u00e3o h\u00e1 como haver liberdade e autonomia para as mulheres, mas a supera\u00e7\u00e3o desta contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos d\u00e1 nenhuma garantia de supera\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o das mulheres. Por<br \/>\nisto, articular o feminismo antirracista com a discuss\u00e3o de classe \u00e9 condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para impulsionar as lutas feministas de enfrentamento ao capitalismo e formular, a partir do feminismo, qual a sociedade que a<br \/>\ngente quer.<\/p>\n<p>Nossa \u00e9tica anticapitalista caminha no sentido de que queremos ser o que queremos ver na sociedade, da\u00ed a proposi\u00e7\u00e3o de sintetizarmos as lutas anticapitalistas num projeto popular feminista para a defesa da vida das mulheres. Isto inclui o debate sobre o consumismo, a produ\u00e7\u00e3o da pobreza, e a explora\u00e7\u00e3o existente tamb\u00e9m<br \/>\nentre mulheres, por conta do racismo e das rela\u00e7\u00f5es de classe. Precisamos construir o car\u00e1ter antipatriarcal, antirracista e anticapitalista em cada uma de nossas lutas, de forma articulada, no plano local at\u00e9 o plano<br \/>\ninternacional. \u00c9 neste processo de lutas e auto-organiza\u00e7\u00e3o que fortaleceremos o feminismo antirracista da AMB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto por: Carmen Silva, Joana D\u2019Arc, Nilde Souza, Vera Silva, integrantes da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras (AMB) Somos um movimento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":4279,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[448,69,50],"class_list":["post-6533","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lutafeminista","tag-anticapitalista","tag-amb","tag-feminismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/nota-da-AMB_estuprocoletiva270516.png?fit=721%2C381&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-1Hn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6533","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6533"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6533\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6551,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6533\/revisions\/6551"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6533"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6533"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6533"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}