{"id":6531,"date":"2018-04-25T11:47:01","date_gmt":"2018-04-25T14:47:01","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6531"},"modified":"2018-08-29T13:36:03","modified_gmt":"2018-08-29T16:36:03","slug":"feminismo-campones-e-popular-para-o-mmc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6531","title":{"rendered":"Feminismo camp\u00f4nes e popular para o MMC"},"content":{"rendered":"<p><em><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/catarinas.info\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/imagem.jpg?fit=3000%2C2008\" alt=\"Resultado de imagem para mmc movimento de mulheres camponesas\" \/><\/p>\n<p>Texto:<strong> Catiane Cinelli, Noeli W. Taborda e Sirlei Gasparetto,<\/strong> militantes do Movimento de Mulheres Camponesas<\/em>\u00a0(MMC)<\/p>\n<p>O Movimento de Mulheres Camponesas \u2013 MMC tem seu in\u00edcio na luta pelos direitos que historicamente foram negados \u00e0s mulheres camponesas, muitos deles permanecem negados: o sal\u00e1rio maternidade; a aposentadoria para as camponesas em condi\u00e7\u00f5es que reconhece\u00e7am a dupla jornada de trabalho; a condi\u00e7\u00e3o de seguradas especiais; o reconhecimento de n\u00f3s, camponesas, como trabalhadoras; a import\u00e2ncia de nosso<br \/>\ntrabalho no campo ser visto e valorizado. Foi a partir dessas lutas que nos entendemos como feministas. A constru\u00e7\u00e3o do MMC possibilitou e possibilita o nosso despertar em rela\u00e7\u00e3o a nossa pr\u00f3pria valoriza\u00e7\u00e3o como gente, como mulher camponesa, como portadoras de direitos e vontades.<\/p>\n<p>Mesmo que, quando o MMC estava sendo criado, a palavra feminismo n\u00e3o aparecia, hoje entendemos que a luta pelo reconhecimento do nosso valor e do valor do nosso trabalho \u00e9 uma luta feminista. Temos buscado nos \u00faltimos anos aprofundar nosso conhecimento sobre o feminismo, mesmo sabendo que a nossa luta \u00e9 feminista, precisamos saber de que feminismo falamos.<\/p>\n<p>N\u00f3s, mulheres, n\u00e3o somos iguais e n\u00e3o vivemos uma realidade \u00fanica ou uniforme, nos diferenciamos em classe, em ra\u00e7a, emetnia, em credos. Mesmo dentro da classe trabalhadora, temos diferen\u00e7as que n\u00e3o nos dividem, mas que nos colocam emrealidades diferentes e disso discorrem\u00a0necessidades diferentes. Somos mulheres da ro\u00e7a, das florestas, das \u00e1guas e da cidade. Por isto, entendemos e achamos positivo falar em feminismos, pois o feminismo n\u00e3o pode esconder nossas diferen\u00e7as, mas precisa traz\u00ea-las \u00e0 tona, para nos fazer mais fortes.<\/p>\n<p>Nosso primeiro passo na constru\u00e7\u00e3o\u00a0 do feminismo foi poss\u00edvel a partir do primeiro momento em que, como mulher camponesa, enfrentamos o desafio do \u201csair de casa\u201d em busca de nossa pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o. O sair de casa, que em outras realidades pode parecer t\u00e3o cotidiano, para n\u00f3s, camponesas, representa o grande<br \/>\ninicio da mudan\u00e7a. Somente quando n\u00f3s come\u00e7amos a sair de casa \u2013 para nos reunir, organizar as companheiras, discutir a realidade que todas n\u00f3s vivenciamos e decidimos lutar contra isso \u2013 foi que<br \/>\ncome\u00e7amos a consolidar nosso movimento. Estudando sobre o papel da mulher na sociedade, descobrimos que o lugar de submiss\u00e3o e subalternidade que nos d\u00e3o hoje foi constru\u00eddo pelo patriarcado e aprofundado<br \/>\nno capitalismo, ou seja, foi constru\u00eddo pelos donos do poder e, desta forma, n\u00e3o \u00e9 natural.<\/p>\n<p>O feminismo que estamos construindo parte da an\u00e1lise e discuss\u00e3o do que vivenciamos, enquanto mulheres, em todas as dimens\u00f5es da vida. No nosso caso de camponesas, as dimens\u00f5es da vida comp\u00f5em a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde alimentos saud\u00e1veis, a constru\u00e7\u00e3o da agroecologia, o conhecimento do nosso corpo, dos nossos direitos, a luta contra o agroneg\u00f3cio, sendo esses, entre outros os elementos da constru\u00e7\u00e3o do feminismo campon\u00eas e popular.<\/p>\n<p>A partir da constru\u00e7\u00e3o do movimento, vamos percebendo que n\u00f3s mulheres sofremos diferentes formas de opress\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Na imposi\u00e7\u00e3o capitalista\/patriarcal\/racista, mesmo trabalhando em toda a nossa unidade de produ\u00e7\u00e3o, a terra que temos, s\u00f3 \u00e9 entendido como nosso a horta, os pequenos animais, o que for poss\u00edvel produzir no entorno de casa. Nos falta poder de decis\u00e3o. N\u00e3o pod\u00edamos vender, nem mesmo a venda da \u2018nossa\u2019 produ\u00e7\u00e3o nos era permitido realizar, pois no patriarcado, o poder de decidir e administrar o dinheiro compete aos homens.<\/p>\n<p>Na l\u00f3gica patriarcal, aos homens pertence o espa\u00e7o p\u00fablico, enquanto a n\u00f3s, mulheres camponesas, o que resta \u00e9 o espa\u00e7o privado: a casa e arredores, os pequenos animais, a produ\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, as tarefas que est\u00e3o ligadas aos cuidados. Mas \u00e9 na constru\u00e7\u00e3o do feminismo campon\u00eas e popular que n\u00f3s, do MMC, temos desconstru\u00eddo esta realidade e buscado demonstrar que o cuidado \u00e9 tarefa de todos, pois faz parte da vida. Todos fomos cuidados e um dia precisaremos cuidar e depois seremos cuidados novamente.<\/p>\n<p>Ser mulher camponesa feminista e popular \u00e9 estar em atitude vigilante e atenta na luta pela pr\u00f3pria valoriza\u00e7\u00e3o do ser mulher. Essa liga\u00e7\u00e3o que temos com a terra, com a agroecologia, a partir de nossa participa\u00e7\u00e3o no Movimento, vai adquirindo uma identidade nova. No lugar da submiss\u00e3o, a determina\u00e7\u00e3o. No lugar de domina\u00e7\u00e3o do lar, agora nos identificamos como trabalhadoras, n\u00e3o mais submissas, obedientes, servis. N\u00e3o mais objetos, mas sim sujeitos da pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 tudo isso que nos identifica como feministas. Mas \u00e9 mais que isto.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cloud.dino.com.br\/\/img\/122\/d3935736-61a2-4b46-b21e-1b1f9acde312.jpg?w=640\" alt=\"Resultado de imagem para marchad as margaridas\" \/><\/p>\n<p>Nesse processo, ent\u00e3o, vamos entendendo que o feminismo campon\u00eas e popular faz parte do nosso projeto de sociedade que, al\u00e9m de tratar a mulher como gente \u2013 respeitando suas formas de viver a afetividade, a sexualidade, nossa formade produzir \u2013 luta contra todos os tipos de\u00a0viol\u00eancia e pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova<br \/>\nsociedade. Quando dizemos que nosso feminismo campon\u00eas \u00e9 popular, damos uma mensagem clara, que ele \u00e9 composto por mulheres da classe trabalhadora e que faz o enfrentamento ao capitalismo \u2013 que no campo hoje \u00e9 representado pelo agroneg\u00f3cio. Trata-se de um projeto de sociedade que, na pr\u00e1tica cotidiana, busca construir a agroecologia como modo de vida e refer\u00eancia para a constru\u00e7\u00e3o de outras rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No feminismo campon\u00eas e popular, a nossa luta pela preserva\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o das sementes crioulas, das plantas medicinais se mostram n\u00e3o apenas como defesa da natureza, mas vai al\u00e9m disso, \u00e9 uma luta<br \/>\nanticapitalista e feminista, pois reconhece e valoriza o conhecimento acumulado das mulheres e desvalorizado por este sistema capitalista\/patriarcal\/racista.<\/p>\n<p>Outro elemento central do feminismo campon\u00eas e popular \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da mulher, sendo esta participa\u00e7\u00e3o condi\u00e7\u00e3o para a supera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em suas diversas faces, seja ela relacionada \u00e0 vida dom\u00e9stica, ao modelo qu\u00edmico de padroniza\u00e7\u00e3o dos alimentos, que retira o direito da produ\u00e7\u00e3o natural, invade as unidades da produ\u00e7\u00e3o, criminaliza os conhecimentos da mulheres (benzedeiras, curandeiras, entre outras).<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do feminismo campon\u00eas e popular pressup\u00f5e uma mulher que ama a vida, arrebenta as correntes e amarras de seu tempo e luta pela liberta\u00e7\u00e3o de todas as formas de escravid\u00e3o, viol\u00eancia e opress\u00e3o. E, em luta, esta mulher feminista vai construindo a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade sempre em defesa da vida das mulheres, mesmo que isto ocorra lentamente, mas segue evoluindo gradativamente.<\/p>\n<p>O feminismo campon\u00eas e popular liga nossas lutas principais em uma s\u00f3, a luta classista, a luta feminista e a luta contra o modelo do agroneg\u00f3cio. Uma das a\u00e7\u00f5es mais importantes que representa esta constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi a a\u00e7\u00e3o das mulheres camponesas contra a Aracruz Celulose em 2006. N\u00f3s, mulheres, questionamos as consequ\u00eancias dos pinos e eucaliptos substituindo a possibilidade de uma produ\u00e7\u00e3o de alimentos capaz de<br \/>\ngarantir vida saud\u00e1vel, questionamos o deserto verde. E, com esta a\u00e7\u00e3o constru\u00edda pelas mulheres, demonstramos a capacidade das mulheres em pensar, organizar, mobilizar e fazer enfrentamentos.<\/p>\n<p>O feminismo campon\u00eas e popular que o MMC vem construindo tem rompido com barreiras e provado que a luta das mulheres \u00e9 fundamental para o avan\u00e7o da luta de classes. Avan\u00e7amos na luta feminista e socialista e acreditamos que as mulheres se assumirem numa organiza\u00e7\u00e3o camponesa e feminista \u00e9 uma afronta direta ao sistema capitalista e patriarcal.<\/p>\n<p>O feminismo campon\u00eas e popular \u00e9 constru\u00eddo por n\u00f3s, mulheres camponesas participantes do MMC e pelas mulheres camponesas, ind\u00edgenas, extrativistas organizadas nos movimentos que comp\u00f5em a Coordenadoria Latino-americana de Organiza\u00e7\u00f5es do Campo \u2013 CLOC. E est\u00e1 presente na luta e constru\u00e7\u00e3o di\u00e1ria pela liberta\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas e destas com a natureza. Al\u00e9m de ser o caminho para a transforma\u00e7\u00e3o social de uma sociedade capitalista e patriarcal para uma sociedade humana, justa, igualit\u00e1ria e solid\u00e1ria entre todos os seres vivos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"6549\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=6549\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/margaridas1-1.jpg?fit=776%2C530&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"776,530\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"margaridas1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/margaridas1-1.jpg?fit=300%2C205&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/margaridas1-1.jpg?fit=640%2C437&amp;ssl=1\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6549\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/margaridas1-1.jpg?resize=640%2C437&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"437\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/margaridas1-1.jpg?w=776&amp;ssl=1 776w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/margaridas1-1.jpg?resize=300%2C205&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/margaridas1-1.jpg?resize=768%2C525&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Catiane Cinelli, Noeli W. 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