{"id":6350,"date":"2018-04-18T18:02:04","date_gmt":"2018-04-18T21:02:04","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6350"},"modified":"2018-08-29T13:51:46","modified_gmt":"2018-08-29T16:51:46","slug":"o-algoritimo-e-mais-embaixo-uol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6350","title":{"rendered":"O algor\u00edtimo \u00e9 mais embaixo [UOL]"},"content":{"rendered":"<p><em>Como a promessa de liberdade da internet resultou em invas\u00e3o de privacidade e amea\u00e7as \u00e0 democracia.<\/em><\/p>\n<p>Reportagem Tatiana Dias. Dire\u00e7\u00e3o de Arte: Solenn Robic e Marcelo Gerab<br \/>\nPublicado originalmente <a href=\"https:\/\/tab.uol.com.br\/crise-facebook\/\">aqui<\/a><\/p>\n<p>Foram 1406 horas de monitoramento no Facebook. O suficiente para saberem que eu n\u00e3o tenho religi\u00e3o, n\u00e3o frequento academias e prefiro roupas confort\u00e1veis a estilosas. Tamb\u00e9m fui classificada como extrovertida, aberta a mudan\u00e7as, competitiva e levemente impulsiva. Encontraram desafetos e descobriram interesses. Nenhuma dessas informa\u00e7\u00f5es foi cedida conscientemente. Elas foram resultado de uma coleta de dados invis\u00edvel, incessante, dentro do Facebook, e depois organizadas numa extens\u00e3o para o navegador Chrome chamada Data Selfie.<\/p>\n<p>O projeto foi criado em 2017 pela pesquisadora Hang Do Thi Duc. Enquanto cursava o mestrado, ela descobriu que, com um c\u00f3digo, era poss\u00edvel saber se uma pessoa clicava em algo, movia o mouse, rolava a tela ou digitava. &#8220;Isso mudou a forma como eu navegava na internet&#8221;, conta. &#8220;O meu uso do Facebook come\u00e7ou a ficar estranho. Ficou claro para mim que &#8216;eles realmente sabem o que est\u00e1 na minha mente'&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em vez de ser rastreada pela plataforma, ela preferiu rastrear a si pr\u00f3pria. Criou o Data Selfie como um autoexperimento, mas o projeto se tornou um laborat\u00f3rio de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre privacidade, que faz a mesma leitura e previs\u00f5es que o Facebook faria sobre voc\u00ea. &#8220;Eu fiquei muito surpresa com o quanto os resultados s\u00e3o precisos&#8221;, afirma. &#8220;Apenas pense no tempo todo em que voc\u00ea ficou dando dados para o Facebook&#8221;, completa a pesquisadora.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/familia-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>O modelo de neg\u00f3cios da rede social est\u00e1 em xeque desde que veio \u00e0 tona o vazamento de dados para a consultoria de marketing pol\u00edtico Cambridge Analytica, que levou o mundo inteiro a reconhecer: existe um problema s\u00e9rio de privacidade na maneira como as redes sociais usam a gente (e n\u00e3o necessariamente em como n\u00f3s as usamos).<\/p>\n<p>O pesquisador Alexander Kogan criou um teste de personalidade no Facebook, recolheu dados comportamentais de 87 milh\u00f5es de pessoas e os vendeu para a Cambridge Analytica e para outras consultorias. A ideia era tra\u00e7ar perfis detalhados para identificar pessoas mais vulner\u00e1veis a mudar de opini\u00e3o \u2013 portanto, mais suscet\u00edveis a an\u00fancios apelativos ou fake news com fins pol\u00edticos. A consultoria foi contratada pelas campanhas bem-sucedidas a favor do Brexit, no Reino Unido, e na elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, nos EUA.<\/p>\n<h1>&#8220;At\u00e9 mesmo quando voc\u00ea apenas rola a tela e consome informa\u00e7\u00e3o, como eu fazia, voc\u00ea est\u00e1 cedendo seu dados.<\/h1>\n<p>Hang Do Thi Duc, criadora do Data Selfie<\/p>\n<p>Quando veio \u00e0 tona que a consultoria vitoriosa usou informa\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios do Facebook sem consentimento, progressistas e democratas ficaram furiosos. E a press\u00e3o veio tamb\u00e9m pelo bolso: o Facebook perdeu US$ 95 bilh\u00f5es em valor de mercado. At\u00e9 o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Brasil abriu um inqu\u00e9rito para investigar, j\u00e1 que a empresa tinha um bra\u00e7o no pa\u00eds. O Procon-SP, por sua vez, notificou o Facebook e quer explica\u00e7\u00f5es sobre os riscos dos usu\u00e1rios. A empresa estima que 443 mil brasileiros possam ter tido seus dados compartilhados indevidamente. &#8220;Isso representa 0,5% das pessoas que podem ter sido afetadas no mundo todo&#8221;, explicou o Facebook. Quem foi afetado receber\u00e1 uma notifica\u00e7\u00e3o na plataforma.<\/p>\n<p>O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, foi chamado para depor na C\u00e2mara e no Senado dos EUA para esclarecer quest\u00f5es sobre a rede social. Vestindo terno e gravata \u2013 uma mudan\u00e7a que n\u00e3o passou despercebida, j\u00e1 que o bilion\u00e1rio \u00e9 conhecido por usar sempre a mesma cal\u00e7a jeans e blusa preta \u2013 e visivelmente abatido, ele reconheceu que a empresa n\u00e3o tomou os devidos cuidados na prote\u00e7\u00e3o dos dados dos usu\u00e1rios utilizados por terceiros.<\/p>\n<p>Em dez horas de sabatina, Zuckerberg precisou explicar pontos b\u00e1sicos do funcionamento do Facebook para os parlamentares que claramente n\u00e3o entendiam de internet, mas tamb\u00e9m foi pressionado. Reconheceu que a empresa errou, que ela n\u00e3o tem concorrente (o que, a grosso modo, configura um monop\u00f3lio), que monitora a navega\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios mesmo fora do Facebook e que o vazamento foi maior do que o noticiado inicialmente: Kogan vendeu os dados para muitas outras empresas. O caso pode ser o &#8220;esc\u00e2ndalo do s\u00e9culo&#8221;, nas palavras de Giovanni Buttarelli, supervisor de privacidade da Uni\u00e3o Europeia. E n\u00f3s, segundo ele, &#8220;s\u00f3 enxergamos a ponta do iceberg&#8221;.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/mark-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Facebook tentou, sem sucesso, manter a narrativa de que o erro, no caso da Cambridge Analytica, foi dos desenvolvedores que romperam os termos de uso ao repassar as informa\u00e7\u00f5es coletadas adiante. Mas essa vers\u00e3o n\u00e3o se sustentou. Isso porque, embora tenha atingido grandes propor\u00e7\u00f5es, o caso n\u00e3o \u00e9 isolado. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi exatamente um &#8220;vazamento&#8221; \u2013 o Facebook permite que desenvolvedores acessem dados pessoais dos usu\u00e1rios nos aplicativos que rodam na plataforma. Todos os apps que s\u00e3o de alguma forma vinculados \u00e0 rede social coletam dados dos usu\u00e1rios \u2013 alguns mais, outros menos.<\/p>\n<p>&#8220;A gente sabia que um dia ou outro ia acontecer&#8221;, diz Danilo Doneda, professor na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e pesquisador na \u00e1rea de privacidade. &#8220;Foi representativo n\u00e3o s\u00f3 do Zuckerberg, mas de toda uma ind\u00fastria&#8221;, completa.<\/p>\n<p>Embora ningu\u00e9m saiba ao certo se o chamado &#8220;microtargeting&#8221; (ou seja, an\u00fancios direcionados a perfis bastante espec\u00edficos) possam, de fato, alterar o cen\u00e1rio eleitoral, sabe-se que esse tipo de segmenta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e9 bastante eficiente do ponto de vista comercial. &#8220;Ficou muito mais f\u00e1cil aproveitar, inclusive utilizando aspectos subjetivos, inerentes aos sentimentos ou emo\u00e7\u00f5es&#8221;, diz Yasodara C\u00f3rdova, programadora e pesquisadora em internet e democracia no Berkman Klein Center, da Universidade de Harvard.<\/p>\n<p>E esse tipo de segmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 feita, tamb\u00e9m, no n\u00edvel econ\u00f4mico \u2013 quem demonstra ter mais dinheiro recebe um tipo de an\u00fancio ou conte\u00fado, quem tem menos v\u00ea outros. &#8220;Essa l\u00f3gica impacta porque estratifica ainda mais a sociedade, cerceia o direito de escolha de pessoas que t\u00eam menor poder aquisitivo, solidifica preconceitos e politicamente ajuda a transformar a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em um ato muito parecido com o de compra.&#8221;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/info1-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>MAL-ESTAR DOS ALGORITMOS<\/h1>\n<p>Em 2011, o pesquisador bielorusso Evgeny Morozov publicou um ensaio alertando para o perigo de se transformar a internet em um &#8220;shopping&#8221;, em vez de uma pra\u00e7a p\u00fablica, o que era a proposta original de seus criadores. Naquela \u00e9poca, as redes sociais n\u00e3o tinham as dimens\u00f5es que t\u00eam hoje e o mundo assistia \u00e0s possibilidades que elas traziam \u2013 a Primavera \u00c1rabe foi a mais emblem\u00e1tica delas.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o de Morozov destoou de outros pensadores mais otimistas. Ele dizia que, se as empresas se voltassem para a publicidade, ficariam \u00e0 merc\u00ea daquele setor \u2013 a personaliza\u00e7\u00e3o era uma delas.<\/p>\n<h2>&#8220;Eu acho que se as pessoas soubessem como a web \u00e9 feita, elas seriam radicalmente contra colocar dados pessoais na m\u00e3o de plataformas como o Facebook&#8221;<\/h2>\n<p>Yasodara C\u00f3rdova, programadora e pesquisadora em internet e democracia no Berkman Klein Center, da Universidade de Harvard<\/p>\n<p>O alerta se tornou quase profecia. A tend\u00eancia de coletar dados para oferecer uma experi\u00eancia personalizada se concretizou e se tornou massiva na internet de hoje. E poucos gigantes concentram grande parte dos servi\u00e7os \u2013 e do nosso tempo \u2013 online.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 o fato de ter ocupado, em escala global, um espa\u00e7o que deveria ser p\u00fablico e aberto, e por consequ\u00eancia, diverso. A empresa mostrou compet\u00eancia em atender o apetite por conveni\u00eancia e facilidade de uso, especialmente entre os usu\u00e1rios com menor conhecimento sobre a rede e suas possibilidades&#8221;, diz Jos\u00e9 Murilo J\u00fanior, ex-coordenador de Cultura Digital do Minist\u00e9rio da Cultura e gestor do Brasil.gov.br. &#8220;Hoje muita gente pelo mundo acha que Facebook e internet \u00e9 a mesma coisa. Isso \u00e9 um problema grande&#8221;, diz ele. Segundo pesquisa da Funda\u00e7\u00e3o Mozilla, hoje 55% dos brasileiros acham que o Facebook \u00e9 a pr\u00f3pria internet.<\/p>\n<p>O Facebook tem atualmente mais de 2 bilh\u00f5es de usu\u00e1rios. Mais de dois ter\u00e7os deles entram na rede social todos os dias. A taxa de crescimento \u00e9 de cerca de 18% ao ano. Seu valor de mercado est\u00e1 na casa dos US$ 450 bilh\u00f5es (mesmo ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo e o preju\u00edzo). O sucesso estrondoso da rede social se deve, principalmente, a dois fatores: a efici\u00eancia tecnol\u00f3gica de seus algoritmos, criados e melhorados para gerar interesse e engajamento, e um modelo de neg\u00f3cios que se beneficia justamente disso.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/info2-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>Nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 um recurso valioso em meio \u00e0 quantidade de informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel na internet \u2013 e, quanto mais personalizada a nossa experi\u00eancia (com algoritmos eficientes), maior a chance de passarmos muito tempo rolando o feed ou interagindo com posts e marcas. Assim, os algoritmos aprendem que tipo de posts ret\u00e9m mais a nossa aten\u00e7\u00e3o e passam a priorizar conte\u00fados semelhantes.<\/p>\n<p>Acabamos consumindo apenas informa\u00e7\u00f5es parecidas com as nossas, que confirmam a nossa vis\u00e3o de mundo, e nem ficamos sabendo o que acontece do lado de fora. \u00c9 o que o jornalista Eli Pariser chamou de &#8220;filtros-bolha&#8221;, em que os usu\u00e1rios s\u00f3 t\u00eam acesso a opini\u00f5es semelhantes \u00e0s suas. Nessa l\u00f3gica, fica mais f\u00e1cil \u2013 e faz mais sentido para os nossos mecanismos cerebrais \u2013 compartilhar conte\u00fados que gerem likes nas nossas redes.<\/p>\n<p>Assim, conte\u00fados sensacionalistas ou falsos encontram terreno f\u00e9rtil para se espalhar. Em um estudo com 200 mil releases e posts no Facebook de congressistas americanos, o instituto Pew Research Center percebeu que conte\u00fados que apresentaram &#8220;discord\u00e2ncia indignada&#8221; \u2013 ou seja, pol\u00eamicos \u2013 recebiam tr\u00eas vezes mais coment\u00e1rios e eram duas vezes mais compartilhados do que os outros.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/info3-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 por isso, tamb\u00e9m, que not\u00edcias falsas se espalham rapidamente. Em uma pesquisa publicada na revista \u201cScience\u201d, pesquisadores do MIT (sigla em ingl\u00eas para Instituto de Tecnologia de Massachusetts) perceberam que not\u00edcias falsas t\u00eam 70% mais chance de serem compartilhadas do que as verdadeiras. Isso acontece, segundo os pesquisadores, porque os usu\u00e1rios gostam de passar a sensa\u00e7\u00e3o que est\u00e3o &#8220;por dentro&#8221;. E as not\u00edcias falsas s\u00e3o feitas justamente para despertar gatilhos emocionais, que funcionam para prender a aten\u00e7\u00e3o e gerar likes.<\/p>\n<p>Grande parte dos detalhes das redes sociais, ali\u00e1s, s\u00e3o voltados para esse mesmo objetivo: prender a nossa aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 a din\u00e2mica do like, que estimula mecanismos cerebrais de recompensa e prazer. &#8220;As tecnologias que usamos se tornaram compuls\u00f5es&#8221;, escreve Nir Eyal, autor de &#8220;Hooked: How to Build Habit-Forming Products&#8221;. \u00c9 poss\u00edvel falar at\u00e9 em &#8220;v\u00edcio&#8221;. N\u00e3o \u00e9 acidente que os usu\u00e1rios sintam o tempo todo um impulso de checar as redes sociais atr\u00e1s de notifica\u00e7\u00f5es. &#8220;Foi exatamente a inten\u00e7\u00e3o dos designers.&#8221;<\/p>\n<h2>&#8220;O controle sobre a vida das pessoas afeta o livre-arb\u00edtrio e diminui as escolhas poss\u00edveis para uma pessoa fazer. E isso est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do sistema democr\u00e1tico<\/h2>\n<p>Danilo Doneda, professor na Uerj.<\/p>\n<p>&#8220;O Facebook tem 14 anos e durante todo esse tempo foi moldando muito a forma como interagimos online. A l\u00f3gica dos likes e compartilhamentos se tornou massiva por causa dessa plataforma&#8221;, diz Joana Varon, mestre em Direito e fundadora da Coding Rights, organiza\u00e7\u00e3o de defesa de direitos humanos na internet. &#8220;Isso molda n\u00e3o s\u00f3 a intera\u00e7\u00e3o online, como tamb\u00e9m a psicologia humana. O que significa crescer em uma sociedade que busca aceita\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas em gestos cotidianos de afeto, mas principalmente em exposi\u00e7\u00e3o, likes e shares?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>Prender a aten\u00e7\u00e3o tem um pre\u00e7o. Em um estudo publicado em 2017 no American Journal of Epidemiology, pesquisadores mostraram que o uso do Facebook est\u00e1 relacionado a uma diminui\u00e7\u00e3o de 5% a 8% no n\u00edvel de bem-estar geral dos usu\u00e1rios.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/smartphone-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>AL\u00d4, CAPITALISMO DE DADOS<\/h1>\n<p>A sofistica\u00e7\u00e3o para prender a aten\u00e7\u00e3o tem uma raz\u00e3o. O Facebook \u2013 e grande parte da internet moderna \u2013 tem o seu modelo de neg\u00f3cios baseado na coleta, agrega\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise e monetiza\u00e7\u00e3o de dados dos usu\u00e1rios. \u00c9 o que pesquisadores chamam de &#8220;capitalismo de dados&#8221; \u2013 ou &#8220;capitalismo de vigil\u00e2ncia&#8221;, na defini\u00e7\u00e3o da pesquisadora da Universidade de Harvard Shoshana Zuboff. Segundo ela, o Google foi a primeira empresa a perceber, em larga escala, o potencial lucrativo do ac\u00famulo e an\u00e1lise de dados dos usu\u00e1rios para a publicidade.<\/p>\n<p>Zuboff diz que, nessa l\u00f3gica, as tecnologias usadas para esse fim s\u00e3o feitas para serem muito r\u00e1pidas e indetect\u00e1veis \u2013 dessa forma, ficam impercept\u00edveis para a grande maioria dos usu\u00e1rios. &#8220;Assimetrias estruturais de conhecimento e direitos torna imposs\u00edvel para as pessoas tomarem conhecimento sobre essas pr\u00e1ticas&#8221;, ela escreveu. &#8220;Nenhuma experi\u00eancia do passado nos preparou para essas novas pr\u00e1ticas, e h\u00e1 muito poucas barreiras para prote\u00e7\u00e3o.&#8221; Em uma sociedade competitiva, estressante e estratificada, as pessoas se tornam cada vez mais dependentes dessas novas ferramentas para se informar e se comunicar.<\/p>\n<p>&#8220;O grande ac\u00famulo de dados das corpora\u00e7\u00f5es a longo prazo podem prejudicar economias inteiras&#8221;, diz Yasodara C\u00f3rdova. Nessa \u00f3tica, o esc\u00e2ndalo de privacidade do Facebook \u2013 e suas consequ\u00eancias \u2013 s\u00e3o um sintoma. O problema \u00e9 maior. &#8220;N\u00f3s precisamos nos perguntar por que n\u00f3s permitimos que tanto do espa\u00e7o p\u00fablico hoje \u00e9 controlado por empresas privadas&#8221;, questiona Wael Ghonim em seu artigo. Ex-l\u00edder da Primavera \u00c1rabe no Egito, movimento principalmente organizado pela internet e que derrubou o ditador Hosni Mubarak em 2011, Ghonim hoje pesquisa sobre a rede em Harvard e v\u00ea com ceticismo os rumos da era digital.<\/p>\n<p>&#8220;Agora n\u00f3s somos todos ratos em um labirinto constru\u00eddo por magos que s\u00f3 respondem aos seus investidores. Se quisermos sair disso, precisamos reconhecer que temos de refazer a internet como uma pra\u00e7a p\u00fablica, de todos n\u00f3s&#8221;, escreveu Michael Sifry, autor de &#8220;The Big Disconnect: Why the Internet Hasn\u2019t Changed Politics&#8221; (\u201cA Grande Desconex\u00e3o: Por que a Internet N\u00e3o Mudou a Ool\u00edtica\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/polvo-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 bem conhecida a m\u00e1xima de que &#8220;se voc\u00ea n\u00e3o paga pelo produto, voc\u00ea \u00e9 o produto&#8221;. Quando tudo \u00e9 gr\u00e1tis, \u00e9 voc\u00ea que est\u00e1 sendo vendido a anunciantes e desenvolvedores. Mas o cen\u00e1rio fica ainda mais sombrio se essa informa\u00e7\u00f5es forem cedidas a governos, por exemplo, n\u00e3o muito afeitos a processos democr\u00e1ticos. &#8220;Na medida em que tudo que a gente fala ou pensa est\u00e1 sendo registrado, interpretado e utilizado por poucos monop\u00f3lios para manipular nossas percep\u00e7\u00f5es, e que esses monop\u00f3lios podem ser acionados por Estados para dar acesso a esses dados, a coisa fica complicada. Ainda mais em um momento em que vivemos uma polariza\u00e7\u00e3o de discursos&#8221;, alerta Joana Varon.<\/p>\n<p>Ela lembra, tamb\u00e9m, que o pr\u00f3prio Estado tamb\u00e9m tem os seus mecanismos de coleta de dados \u2013 alguns deles atrelados a servi\u00e7os fundamentais, como as elei\u00e7\u00f5es com cadastro biom\u00e9trico. Nos EUA, h\u00e1 a possibilidade de ser obrigat\u00f3rio ceder dados de redes sociais para conseguir visto; na China, cidad\u00e3os est\u00e3o sendo ranqueados (no melhor estilo \u201cBlack Mirror\u201d) para ter acesso a cr\u00e9dito e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8220;A exposi\u00e7\u00e3o da intimidade \u00e9 apenas um aspecto nessa discuss\u00e3o de privacidade&#8221;, diz Doneda. &#8220;O grande efeito sobre todos n\u00f3s \u00e9 de a pessoa se prestar a ser manipulada a partir de suas caracter\u00edsticas \u00edntimas, suas fraquezas.&#8221; Para o pesquisador, entre esses desdobramentos mais profundos, est\u00e1 a possibilidade de ter menos espa\u00e7o para se movimentar e para fazer escolhas \u2013 em outras palavras, menos liberdade. E a tend\u00eancia \u00e9 que, com deep learning &#8211; uma t\u00e9cnica usada para implementar o machine learning \u2013 e mecanismos cada vez mais sofisticados de an\u00e1lise de dados \u2013 e os usu\u00e1rios produzindo dados o tempo todo, do rel\u00f3gio conectado ao aplicativo com intelig\u00eancia artificial Alexa, passando por TVs e geladeiras inteligentes \u2013, a situa\u00e7\u00e3o se torne ainda mais cr\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/trump-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 apenas no Facebook. A rede social teve avan\u00e7os em suas configura\u00e7\u00f5es de privacidade e tem controles claros para o usu\u00e1rio sobre quem pode visualizar fotos e posts, por exemplo. &#8220;Qualquer plataforma \u00e9 capaz de ter informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre a pessoa e pode se tornar uma alternativa caso o Facebook seja menos atrativo&#8221;, diz Danilo Doneda. &#8220;At\u00e9 plataformas aparentemente inocentes, como o Kindle, podem saber coisas sobre a pessoa, como a velocidade como ela vira as p\u00e1ginas, press\u00e3o no dedo etc.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um problema reclamar do Facebook enquanto seu CPF est\u00e1 passeando nas farm\u00e1cias, seguradoras de ve\u00edculos etc. desde que voc\u00ea nasce. O Brasil n\u00e3o tem estrat\u00e9gia digital para refor\u00e7ar a democracia, e sim uma colcha de retalhos que atende \u00e0s necessidades e desejos de empresas como bancos, formadoras de cadastros positivos, plataformas privadas de educa\u00e7\u00e3o, seguradoras e empresas que realizam \u2018an\u00e1lises antifraude\u2019. Precisamos urgentemente do nosso primeiro \u2018smart\u2019 governo\u201d, diz Yasodara C\u00f3rdova.<\/p>\n<p>Danilo Doneda vai na mesma linha: ele acha que \u00e9 um erro estrat\u00e9gico colocar o &#8220;Facebook como culpado exclusivo&#8221;. &#8220;\u00c9 ilus\u00e3o pensar que, resolvendo o problema do Facebook, vamos resolver o problema do modelo de neg\u00f3cio \u00e0 medida que sensores e qualquer equipamento que a gente use v\u00e3o obtendo cada vez mais informa\u00e7\u00f5es sobre a gente.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/info4-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>NOVOS E VELHOS PODERES<\/h1>\n<p>Na l\u00f3gica do capitalismo de vigil\u00e2ncia, pesquisadores acreditam que a solu\u00e7\u00e3o que realmente protegeria os usu\u00e1rios n\u00e3o poderia vir das empresas \u2013 porque esse \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de seu modelo de neg\u00f3cios \u2013 mas em regula\u00e7\u00e3o governamental, como uma lei de prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais, projetos de educa\u00e7\u00e3o digital e apoio a iniciativas alternativas, baseadas em outros modelos de neg\u00f3cio. As palavras-chave s\u00e3o descentraliza\u00e7\u00e3o e transpar\u00eancia \u2013 ou seja, dar aos governos e cidad\u00e3os clareza sobre os processos e suas consequ\u00eancias, e a possibilidade de mudar a maneira como o sistema funciona.<\/p>\n<p>&#8220;As plataformas n\u00e3o deveriam mais usar algoritmos orientados para o engajamento para aumentar seus lucros&#8221;, escreveu Wael Ghonim. &#8220;Precisamos de mais transpar\u00eancia sobre as consequ\u00eancias geradas por eles\u201d.<\/p>\n<p>No livro &#8220;New Power&#8221; (&#8220;Novo poder&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), os escritores Jeremy Heimans and Henry Timms definem o Facebook como uma empresa que representa o &#8220;novo poder&#8221; \u2013 ou seja, d\u00e1 poder aos usu\u00e1rios de poderem produzir sua pr\u00f3pria informa\u00e7\u00e3o e decidirem que conte\u00fado consumir de forma descentralizada \u2013 constru\u00edda em uma estrutura baseada no &#8220;velho poder&#8221; \u2013 hier\u00e1rquica, fechada, centralizada em uma enorme institui\u00e7\u00e3o que concentra toda a informa\u00e7\u00e3o coletada. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, algumas solu\u00e7\u00f5es propostas por pesquisadores passam por API p\u00fablicas (APIs s\u00e3o a interface para acessar os dados da rede social e se criar aplicativos sobre a plataforma), audit\u00e1veis, em que as pessoas \u2013 e n\u00e3o necessariamente apenas funcion\u00e1rios do Facebook \u2013 pudessem identificar posts p\u00fablicos, tend\u00eancias e poss\u00edveis fraudes. &#8220;A transpar\u00eancia n\u00e3o pode mais ser uma escolha. Precisamos de uma mudan\u00e7a radical na abordagem da ind\u00fastria da tecnologia e como n\u00f3s nos comunicamos. N\u00e3o \u00e9 mais aceit\u00e1vel construir produtos cegamente, que trazem enormes impactos para a sociedade, sem transpar\u00eancia&#8221;, diz Ghonim.<\/p>\n<h2>Com a concentra\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial &#8211; um intermedi\u00e1rio que provavelmente acabar\u00e1 se infiltrando em todos os \u00e2mbitos da vida e do governo &#8211; nas m\u00e3os de poucas empresas privadas, em sua maioria americanas, \u00e9 prov\u00e1vel que assistamos a uma imensa perda de responsabilidade e controle cidad\u00e3o em \u00e1reas chave da sociedade<\/h2>\n<p>Evgeny Morozov, escritor e pesquisador, em ensaio publicado em 2017<\/p>\n<p>Outra alternativa proposta \u00e9 criar um protocolo aberto para redes sociais \u2013 como o e-mail \u2013 capaz de funcionar com apps e empresas independentes. \u00c9 mais ou menos como funciona a Mastodon. &#8220;No lugar de um Facebook centralizado haveria uma rede social federada, que seria como clusters (conjunto de computadores conectados que funcionam como um \u00fanico sistema) em n\u00f3s independentes&#8221;, exemplifica o jornalista Kevin Roose no \u201cThe New York Times\u201d. Cada um desses n\u00f3s independentes teria regras espec\u00edficas, e os usu\u00e1rios poderiam escolher o servi\u00e7o que melhor se adaptasse \u00e0s suas necessidades. E todos eles se comunicariam em um protocolo comum.<\/p>\n<p>Para Yasodara C\u00f3rdova, simplesmente tirar a internet das m\u00e3os das empresas que hoje a dominam \u00e9 ut\u00f3pico e ing\u00eanuo. &#8220;Algu\u00e9m vai querer controlar&#8221;, ela avalia. &#8220;Por isso tantas comunidades tentam construir redes realmente descentralizadas, se baseando em protocolos de descentralizac\u00e3o completa que devolvam a autonomia e a liberdade de express\u00e3o preservando os direitos humanos&#8221;. Um exemplo \u00e9 o Open Bazar, servi\u00e7o de e-commerce peer-to-peer, em que os usu\u00e1rios montam suas lojas online sem intermedi\u00e1rios.<\/p>\n<p>&#8220;Enxergo boa oportunidade para a pol\u00edtica p\u00fablica, em caminho oposto \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o de Gmail pelas universidades federais&#8221;, diz Jos\u00e9 Murilo. &#8220;Projetos de redescentraliza\u00e7\u00e3o da internet se alinham naturalmente com pol\u00edticas p\u00fablicas digitais, com o software livre e licen\u00e7as de acesso aberto, com o desenvolvimento de infraestrutura digital p\u00fablica, e com o apoio a uma economia digital centrada em dados&#8221;. Ele cita como exemplo o projeto Decode, criado na Uni\u00e3o Europeia, que explora maneiras de dar aos usu\u00e1rios controle sobre suas informa\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/tab\/crise-facebook\/info5-desktop.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>O FACEBOOK P\u00d3S-CRISE<\/h1>\n<p>Depois que o esc\u00e2ndalo atingiu uma grande propor\u00e7\u00e3o \u2013 e o preju\u00edzo atingiu a casa dos bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013, o Facebook se mexeu. Prometeu mais controle para os usu\u00e1rios sobre sua privacidade, mais rigor com os desenvolvedores que criam apps na plataforma, tentou tornar os termos de uso mais claros, prometeu mais transpar\u00eancia com an\u00fancios pol\u00edticos e apoio para pesquisas sobre a rela\u00e7\u00e3o o uso das redes sociais nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s n\u00e3o tivemos uma vis\u00e3o ampla da nossa responsabilidade&#8221;, reconheceu Zuckerberg em seu depoimento no dia 10 de abril. &#8220;N\u00e3o basta apenas conectar as pessoas. Temos de ter certeza que essas conex\u00f5es s\u00e3o positivas. N\u00e3o basta dar voz \u00e0s pessoas. Temos ter certeza de que isso n\u00e3o \u00e9 usado para prejudicar os outros ou espalhar informa\u00e7\u00f5es erradas. E n\u00e3o foi suficiente dar \u00e0s pessoas controle sobre suas informa\u00e7\u00f5es. Precisamos garantir que os desenvolvedores que as acessam as protejam tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Para a Electronic Frontier Foundation, ONG que trabalha na promo\u00e7\u00e3o de liberdade e privacidade na internet, a abordagem do Facebook \u00e9 problem\u00e1tica. Afirmando que o problema s\u00e3o as outras pessoas que usam os dados dos usu\u00e1rios (e as pr\u00f3prias pessoas que n\u00e3o entendem os termos de uso), a empresa sugere concentrar ainda mais o controle sobre as informa\u00e7\u00f5es. S\u00f3 acessam as informa\u00e7\u00f5es os desenvolvedores aprovados pelo Facebook.<\/p>\n<p>Para a ONG, isso \u00e9 um erro porque daria aos grandes empres\u00e1rios poderes de decidir o que fazer com a nossas informa\u00e7\u00f5es, enquanto os usu\u00e1rios permaneceriam sem op\u00e7\u00f5es, dependendo da autorregula\u00e7\u00e3o das empresas. &#8220;Mas h\u00e1 uma alternativa: n\u00f3s poder\u00edamos empoderar as pessoas, e n\u00e3o as grandes empresas de internet, para decidirem o que elas querem fazer com as suas informa\u00e7\u00f5es privadas&#8221;, defende a EFF.<\/p>\n<p>Do ponto de vista empresarial, os depoimentos de Zuckerberg foram bem-sucedidos em curto prazo. Depois do primeiro deles, as a\u00e7\u00f5es da rede social tiveram alta de 4,5%, a maior dos \u00faltimos dois anos. No dia seguinte, a alta foi mais discreta \u2013 menos de 1% \u2013, mas o saldo ainda foi positivo. Do ponto de vista pol\u00edtico e social, as consequ\u00eancias ainda s\u00e3o desconhecidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a promessa de liberdade da internet resultou em invas\u00e3o de privacidade e amea\u00e7as \u00e0 democracia. Reportagem Tatiana Dias. Dire\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":6351,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"O algor\u00edtimo \u00e9 mais embaixo. 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