{"id":6305,"date":"2018-04-12T18:37:47","date_gmt":"2018-04-12T21:37:47","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6305"},"modified":"2018-04-05T18:39:30","modified_gmt":"2018-04-05T21:39:30","slug":"visita-intima-de-mulheres-lesbicas-nas-prisoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6305","title":{"rendered":"Visita \u00edntima de mulheres l\u00e9sbicas nas pris\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><em><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Os caminhos, os alcances e um pedido de perd\u00e3o estatal reparat\u00f3rio s\u00e3o alguns dos resultados de um longo lit\u00edgio na Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos. Um antecedente do feliz encontro entre o ativismo feminista e a luta de uma mulher l\u00e9sbica na pris\u00e3o.<\/span><\/em><\/p>\n<p><i><strong>Por Marta Tamayo<\/strong><br \/>\nPublicado originalmente na <a href=\"http:\/\/revistabravas.org\/article\/179\/el-caso-marta-%C3%A1lvarez\">Revista Bravas<\/a>, \u00e9 uma revista da Articula\u00e7\u00e3o Feminista MarcoSur que busca transmitir uma vis\u00e3o de mundo combinando jornalismo e enfoque feminista.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Marta \u00c1lvarez \u00e9 procedente do munic\u00edpio de Santuario, Departamento de Resaralda, localizado no centro da Col\u00f4mbia. Tem 58 anos. Vive atualmente em Boston, Massachusetts com sua esposa Martha S. Foi condenada pela justi\u00e7a colombiana por um homic\u00eddio. Por isso, esteve na pris\u00e3o entre 14 de mar\u00e7o de 1994 e 18 de dezembro 2003.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Entendo pelo\u00a0<i>caso<\/i>\u00a0<i>Marta<\/i>\u00a0<i>\u00c1lvarez<\/i>, al\u00e9m do lit\u00edgio adiantado perante a Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), como o desenvolvimento de uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, jur\u00eddicas e pol\u00edticas, que foram realizadas al\u00e9m dos fatos e do per\u00edodo de tempo abarcados por esse \u00f3rg\u00e3o internacional. Como exemplos, s\u00e3o mencionados: o ativismo de \u00c1lvarez no interior das pris\u00f5es lutando para melhorar, no geral, as condi\u00e7\u00f5es das reclusas; a estrat\u00e9gia de lit\u00edgio dom\u00e9stico com duas tutelas apresentadas a favor da visita \u00edntima l\u00e9sbica, como recurso perante o impasse do caso diante da CIDH; as a\u00e7\u00f5es nacionais e a campanha internacional para frear v\u00e1rias das 17 transfer\u00eancias carcer\u00e1rias que sofreu Marta por causa de sua luta pela visita \u00edntima; e as alian\u00e7as estrat\u00e9gicas com organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais especialistas nos temas de direitos LGBTI, entre outros.<\/span><\/p>\n<div class=\"left-article-image article-body-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistabravas.org\/sites\/salada\/files\/u6\/Marta%20actual.jpg?w=640\" alt=\"Marta \u00c1lvarez en la actualidad.\" \/>Marta \u00c1lvarez en la actualidad.<\/div>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u00a0O\u00a0<i>caso<\/i>\u00a0<i>Marta \u00c1lvarez vs. Col\u00f4mbia*<\/i>\u00a0foi admitido pelo \u00f3rg\u00e3o internacional em maio de 1999. A demanda contra a Col\u00f4mbia, elaborada pela Rede Nacional de Mulheres, apresentou diretamente \u00c1lvarez tr\u00eas anos antes, em 18 de maio de 1996. Passaram-se 18 anos para que a CIDH emitisse Informe de Fundo e conclu\u00edsse que, em fatos ocorridos entre 1994 y 2002, relacionados com a negativa das autoridades penitenci\u00e1rias e judiciais, para permitir a visita \u00edntima de \u00c1lvarez com sua companheira sentimental, o Estado colombiano violou seus direitos \u00e0 igualdade e n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o sofrer inger\u00eancias arbitr\u00e1rias ou abusivas em sua vida privada, \u00e0s garantias judiciais e prote\u00e7\u00e3o judicial, e \u00e0 integridade pessoal.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Tanto nacional quanto internacionalmente o\u00a0<i>caso<\/i>\u00a0<i>Marta \u00c1lvarez<\/i>\u00e9 um marco na hist\u00f3ria dos direitos das mulheres l\u00e9sbicas e das pessoas na pris\u00e3o. No h\u00e1 antecedentes, em nenhum dos sistemas internacionais de prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, que trata do direito \u00e0 visita \u00edntima entre mulheres. \u00c9 tamb\u00e9m o primeiro caso no sistema interamericano relacionado com direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBT privada de liberdade. No \u00e2mbito dom\u00e9stico \u00e9 reconhecido por ativistas dos direitos humanos que Marta \u00c1lvarez \u00e9 pioneira na luta pelo reconhecimento judicial dos direitos das pessoas LGBTI na Col\u00f4mbia.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\">\n<p class=\"Normal1\"><b><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O pedido de perd\u00e3o do Ministro da Justi\u00e7a<\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Em 6 de dezembro de 2017, em um comovente ato realizado na Reclus\u00e3o de Mulheres de Bogot\u00e1, o Ministro da Justi\u00e7a colombiano, Enrique Gil Botero, pediu perd\u00e3o tr\u00eas vezes a Marta durante sua interven\u00e7\u00e3o. Expressou\u00a0<i>\u201co rep\u00fadio total frente a interpreta\u00e7\u00f5es abusivas e discriminat\u00f3rias baseadas na orienta\u00e7\u00e3o sexual das pessoas. Esses fatos s\u00e3o inadmiss\u00edveis e n\u00e3o podem voltar a ocorrer\u201d.<\/i>\u00a0Participaram no ato cerca de 250 pessoas. A maioria eram mulheres LBT privadas de liberdade. Estavam tamb\u00e9m familiares de Marta, ativistas feministas e pela diversidade sexual, funcion\u00e1rios dos minist\u00e9rios da Justi\u00e7a e do Interior, da Ag\u00eancia de Defesa Jur\u00eddica do Estado, da Imprensa Nacional, do Instituto Nacional Penitenci\u00e1rio (INPEC) e da Secretaria da Mulher de Bogot\u00e1, o ex-Defensor do Povo e o ex-presidente da Corte Constitucional Jaime C\u00f3rdoba Trivi\u00f1o, o Conselheiro do Estado William Hern\u00e1dez, o Comit\u00ea de Direitos Humanos da penitenci\u00e1ria de homens \u201cLa Picota\u201d e um grande n\u00famero de meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Marta \u00c1lvarez se sente reparada com o ato de reconhecimento de responsabilidade do Estado e com as palavras do ministro:\u00a0<i>\u201cQue todas as l\u00e9sbicas que foram discriminadas se sintam hoje reivindicadas. H\u00e1 25 anos, uma l\u00e9sbica estava proibida de amar. T\u00ednhamos que reprimir o desejo de dar um beijo em nossas namoradas quando nos visitavam, porque o regulamento nos proibia mostrar afeto em p\u00fablico, e um beijo dava at\u00e9 tr\u00eas meses de pris\u00e3o&#8230; mas no privado tamb\u00e9m n\u00e3o pod\u00edamos.\u00a0<\/i><\/span><i><span lang=\"ES-TRAD\" xml:lang=\"ES-TRAD\">A\u00a0<\/span><\/i><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">privacidade<\/span><\/i><i><span lang=\"ES-TRAD\" xml:lang=\"ES-TRAD\">\u00a0era apenas para as internas<\/span><\/i><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">heterossexuais<\/span><\/i><i><span lang=\"ES-TRAD\" xml:lang=\"ES-TRAD\">.\u00a0<\/span><\/i><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">(\u2026) Foi muito dif\u00edcil e doloroso estar privada da liberdade. Isso \u00e9 algo que os homens e as mulheres heterossexuais n\u00e3o t\u00eam que enfrentar. Somos n\u00f3s, as l\u00e9sbicas, quem fomos obrigadas a pagar duas condena\u00e7\u00f5es em uma, apenas pelo fato de sentir \u2018diferente\u2019\u201d.<\/span><\/i><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A interven\u00e7\u00e3o de Marcela S\u00e1nchez, feminista e diretora da Col\u00f4mbia Diversa, encantou e comoveu o p\u00fablico:\u00a0<i>\u201cN\u00e3o s\u00f3 violaram os direitos de Marta. O estado deve pedir desculpas a todas n\u00f3s mulheres: \u00e0s pirobas, aos chachitos, \u00e0s l\u00e9sbicas, aos machorros, \u00e0s bimbas, \u00e0s cacorras, \u00e0s areperas, \u00e0s masculinas e \u00e0s femininas, as que s\u00e3o notadas, e as que n\u00e3o s\u00e3o notadas<a id=\"_ftnref1\" title=\"\" href=\"http:\/\/revistabravas.org\/article\/179\/el-caso-marta-%C3%A1lvarez#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><b>[1]<\/b><\/a>. Porque, quando se violam os direitos das pessoas privadas da liberdade pelo simples fato de ser o que s\u00e3o, ou por ter uma sexualidade diferente da maioria, tamb\u00e9m violam os direitos de todas n\u00f3s que n\u00e3o estamos privadas de liberdade. (&#8230;) Ainda hoje seguem nos dizendo: n\u00e3o se penteie assim, n\u00e3o se vista assim, n\u00e3o mude de nome, n\u00e3o a chame assim, por que se beija com essa?, por que tem namorada?, solte a m\u00e3o dela&#8230; Em outras palavras, nos controlam e castigam pelo delito de nos apaixonarmos por outra mulher. Voc\u00eas conheciam o delito de se apaixonar? Algumas pessoas parecem que sim!, porque o amor entre mulheres lhes parece question\u00e1vel. As l\u00e9sbicas exigimos igualdade porque nosso amor \u00e9 igualmente digno\u201d.<\/i><\/span><\/p>\n<div class=\"full-article-image article-body-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistabravas.org\/sites\/salada\/files\/u6\/Carcel%20Pereira%201994%202.jpg?w=640\" alt=\"En la c\u00e1rcel Pereira, 1994.\" \/>En la c\u00e1rcel Pereira, 1994.<\/div>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Durante o ato, foi lan\u00e7ado o livro \u201cMinha historia eu a conto\u201d, que cont\u00e9m o di\u00e1rio que Marta escreveu enquanto estava reclusa, publicado pelo Minist\u00e9rio do Interior com uma tiragem de 8 mil exemplares, dos quais 6 mil foram enviados \u00e0s bibliotecas e comit\u00eas de direitos humanos de todas as pris\u00f5es do pa\u00eds. Com o ato de perd\u00e3o se busca reparar o dano causado a Marta \u00c1lvarez, mas tamb\u00e9m prevenir esse tipo de a\u00e7\u00f5es discriminat\u00f3rias contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT privada da liberdade nos estabelecimentos carcer\u00e1rios colombianos.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\">\n<p class=\"Normal1\"><b><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O acordo entre o Estado e as representantes de \u00c1lvarez<\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O reconhecimento da responsabilidade internacional da Col\u00f4mbia, a solicita\u00e7\u00e3o de perd\u00e3o e a publica\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o do di\u00e1rio de Marta s\u00e3o parte do acordo assinado entre o Estado colombiano e as organiza\u00e7\u00f5es representantes de Marta \u00c1lvarez no caso internacional. Depois de tr\u00eas anos de conversas entre as partes, o Acordo de cumprimento das recomenda\u00e7\u00f5es da CIDH ao Estado colombiano foi assinado em 14 de julho de 2017<a id=\"_ftnref2\" title=\"\" href=\"http:\/\/revistabravas.org\/article\/179\/el-caso-marta-%C3%A1lvarez#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Al\u00e9m do ato de perd\u00e3o e da publica\u00e7\u00e3o do di\u00e1rio de \u00c1lvarez, o Acordo inclui outras medidas de repara\u00e7\u00e3o \u00e0 v\u00edtima e de n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o. Um exemplo \u00e9 a modifica\u00e7\u00e3o do regulamento geral penitenci\u00e1rio de dezembro de 2016 do INPEC, e, por consequ\u00eancia, a modifica\u00e7\u00e3o do regulamento interno de todos e cada um dos 132 centros de reclus\u00e3o do pa\u00eds a cargo do INPEC, a fim de garantir o direito \u00e0 diversidade sexual das pessoas presas. Adicionalmente, para garantir estas modifica\u00e7\u00f5es foi constitu\u00edda uma Mesa de Monitoramento (constitu\u00edda pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, a Procuradoria Geral da Na\u00e7\u00e3o, o INPEC, a Defensoria do Povo, o Minist\u00e9rio do Interior e Col\u00f4mbia Diversa). Esse \u00e2mbito verificar\u00e1 tamb\u00e9m\u00a0<i>\u201ca acessibilidade, disponibilidade e condi\u00e7\u00f5es da visita \u00edntima, respeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de casal e manifesta\u00e7\u00f5es de afeto da popula\u00e7\u00e3o LGBTI das pris\u00f5es\u201d<\/i>, criar\u00e1 um mecanismo para identificar e estudar os centros carcer\u00e1rios que a popula\u00e7\u00e3o LGBTI tem em corredores ou p\u00e1tios, e definir\u00e1 vari\u00e1veis de direitos humanos LGBTI para o monitoramento das queixas ou den\u00fancias nas pris\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Ficou acordado tamb\u00e9m o desenho e desenvolvimento de um programa de forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua em direitos de pessoas LGBTI na pris\u00e3o, dirigido ao pessoal diretivo, administrativo e de guarda nas pris\u00f5es e aos internos, homens e mulheres. A fim de retroalimentar seu desenho, Marta \u00c1lvarez e seus representantes visitaram cinco das pris\u00f5es de mulheres na qual ela esteve reclusa: Bucaramanga, Pereira, Armenia, Cali e Medel\u00edn, e acompanharam as jornadas de sensibiliza\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o. O conte\u00fado do programa e a metodologia dever\u00e3o ser acordados entre o Estado e as representantes de \u00c1lvarez.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Outras medidas acordadas foram a cria\u00e7\u00e3o, por parte do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, de um micro site ou observat\u00f3rio virtual de jurisprud\u00eancia a favor das pessoas LGBTI privadas de liberdade; o compromisso do Estado de reparar materialmente Marta pelos preju\u00edzos morais que lhe ocasionou, a\u00e7\u00e3o que se encontra no Tribunal Administrativo de Cundinamarca; e a publica\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o do informe final da CIDH.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\">\n<p class=\"Normal1\"><b><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">CIDH: o informe do fundo<\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A seguir as conclus\u00f5es, as principais considera\u00e7\u00f5es e modelos de direitos humanos que foram tidos como fundamento e as recomenda\u00e7\u00f5es da CIDH.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">As principais\u00a0<i>conclus\u00f5es<\/i>\u00a0foram:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O Estado da Col\u00f4mbia violou, em preju\u00edzo de Marta \u00c1lvarez, os direitos consagrados em v\u00e1rios artigos<a id=\"_ftnref3\" title=\"\" href=\"http:\/\/revistabravas.org\/article\/179\/el-caso-marta-%C3%A1lvarez#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0da Conven\u00e7\u00e3o Americana de Direitos Humanos.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p class=\"Normal1\">\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Entre 1994 e 2002 o Estado colombiano interferiu de forma arbitr\u00e1ria, abusiva, desproporcional e injustificada na vida privada de Marta \u00c1lvarez ao impedi-la de ter acesso a um direito contemplado na legisla\u00e7\u00e3o interna, com base em preconceitos discriminat\u00f3rios sobre sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. A negativa a Marta \u00c1lvarez de ter direito \u00e0 visita \u00edntima com sua companheira constituiu uma restri\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o Americana. O INPEC realizou uma interpreta\u00e7\u00e3o restritiva do direito \u00e0 visita \u00edntima. N\u00e3o fez uma aprecia\u00e7\u00e3o objetiva sobre o cumprimento dos requisitos estabelecidos na forma, mas analisou a vida sexual de Marta, incluindo sua orienta\u00e7\u00e3o sexual e a express\u00e3o desta como crit\u00e9rio relevante e decisivo para restringir de forma absoluta o exerc\u00edcio desse direito. Essa aprecia\u00e7\u00e3o interferiu arbitrariamente na autonomia de Marta para tomar decis\u00f5es sobre sua vida pessoal.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Os preconceitos e as vis\u00f5es estereotipadas contra as pessoas homossexuais n\u00e3o s\u00f3 legitimaram a atua\u00e7\u00e3o preconceituosa e particularmente discriminat\u00f3ria das autoridades penitenci\u00e1rias, mas foram tamb\u00e9m posteriormente corroboradas pelo Poder Judici\u00e1rio, o qual contribuiu para promover e perpetuar tais preconceitos. Esse Poder n\u00e3o adotou decis\u00f5es baseadas exclusivamente no ordenamento jur\u00eddico vigente nesse momento, mas realizou sob uma pondera\u00e7\u00e3o ileg\u00edtima sobre a transcend\u00eancia dos preconceitos discriminat\u00f3rios e os supostos n\u00edveis de toler\u00e2ncia na sociedade sobre certo tipo de conduta.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A restri\u00e7\u00e3o da visita \u00edntima de forma absoluta e prolongada e com base em estere\u00f3tipos e preconceitos discriminat\u00f3rios se mostrou incompat\u00edvel com o dever do Estado de assegurar que a priva\u00e7\u00e3o de liberdade n\u00e3o cause ang\u00fastias ou dificuldades que excedam o n\u00edvel inevit\u00e1vel de sofrimento intr\u00ednseco \u00e0 deten\u00e7\u00e3o e que a sa\u00fade e bem-estar estejam adequadamente assegurados.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A linguagem utilizada pelas autoridades para justificar assuntos relacionados com a situa\u00e7\u00e3o de Marta \u00c1lvarez denota claramente que existia uma forte avers\u00e3o estigmatizante e discriminat\u00f3ria em seu preju\u00edzo, o que fez com que se encontrasse em uma situa\u00e7\u00e3o de particular impot\u00eancia perante a conduta assumida pelos funcion\u00e1rios e funcion\u00e1rias cuja responsabilidade era garantir e proteger seus direitos. O conjunto dessas circunst\u00e2ncias, analisadas de maneira transversal na situa\u00e7\u00e3o de Marta \u00c1lvarez, permite determinar a exist\u00eancia de um ambiente hostil contra sua identidade, sua orienta\u00e7\u00e3o sexual e a express\u00e3o da mesma, contra as atividades de defesa e promo\u00e7\u00e3o de direitos de gays e l\u00e9sbicas que realizou e contra as reclama\u00e7\u00f5es que formulava, tanto diante das autoridades administrativas, quanto judiciais. Este ambiente hostil foi o marco e a base do tratamento discriminat\u00f3rio que recebeu durante a priva\u00e7\u00e3o de liberdade.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<div class=\"full-article-image article-body-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistabravas.org\/sites\/salada\/files\/u6\/Cali%202008.jpg?w=640\" alt=\"Cali, 2008.\" \/>Cali, 2008.<\/div>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Algumas considera\u00e7\u00f5es e modelos de direitos humanos, reiterados, foram:<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\">\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O direito \u00e0 igualdade e n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 eixo central e fundamental do sistema interamericano de direitos humanos e gera obriga\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o que vinculam todos os Estados. Qualquer tratamento discriminat\u00f3rio gera responsabilidade internacional do Estado.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p class=\"Normal1\">\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A express\u00e3o\u00a0<i>\u201cqualquer outra condi\u00e7\u00e3o social\u201d<\/i>\u00a0do artigo 1.1 da Conven\u00e7\u00e3o Americana deve ser interpretada na perspectiva da op\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel \u00e0 pessoa e da evolu\u00e7\u00e3o dos direitos fundamentais no direito internacional contempor\u00e2neo, como indicou a Corte Interamericana.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A orienta\u00e7\u00e3o sexual e o sexo s\u00e3o categorias suspeitas de discrimina\u00e7\u00e3o e, portanto, toda distin\u00e7\u00e3o baseada nas mesmas deve ser examinada sob um modelo de escrut\u00ednio estrito de proporcionalidade.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Por se tratar de um caso no qual a v\u00edtima \u00e9 mulher, l\u00e9sbica e privada de liberdade, a CIDH reitera o princ\u00edpio de prote\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada consagrado na Conven\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m do Par\u00e1 e na Conven\u00e7\u00e3o sobre a Elimina\u00e7\u00e3o de todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o contra a mulher.\u00a0<i>\u201cQuando certos grupos de mulheres s\u00e3o discriminados com base em \u2018mais de um fator\u2019, podem se ver expostos a um maior risco de viola\u00e7\u00e3o de seus direitos humanos, o que exige da parte do Estado medidas especiais que ofere\u00e7am uma prote\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada\u201d.\u00a0<\/i>Esta prote\u00e7\u00e3o especial exige dos estados obriga\u00e7\u00f5es positivas para assegurar a elimina\u00e7\u00e3o de qualquer pr\u00e1tica ou disposi\u00e7\u00e3o discriminat\u00f3ria contra as mulheres. Trata-se de um dever que busca\u00a0<i>\u201ccondenar as pr\u00e1ticas que t\u00eam o efeito de criar ou perpetuar em nossa sociedade uma posi\u00e7\u00e3o subordinada para certos grupos\u201d.<\/i><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Os direitos humanos da mulher incluem o ter controle sobre as quest\u00f5es relativas \u00e0 sua sexualidade sem se ver sujeita \u00e0 coer\u00e7\u00e3o, \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia.\u00a0<i>\u201cO direito \u00e0 visita \u00edntima n\u00e3o pode ter a reprodu\u00e7\u00e3o humana como \u00fanico objetivo, deixando de lado o exerc\u00edcio da sexualidade em si mesma, independente de fins reprodutivos. Isso tem uma particular relev\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos estere\u00f3tipos negativos sociais associados ao exerc\u00edcio da sexualidade por parte das mulheres, de um lado, e das mulheres l\u00e9sbicas, de outro\u201d.<\/i><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">A orienta\u00e7\u00e3o sexual de uma pessoa constitui um componente fundamental da vida privada de uma pessoa e deve estar livre de inger\u00eancias arbitr\u00e1rias e abusas pelo exerc\u00edcio do poder p\u00fablico. Para a Corte Europeia a justificativa de um tipo tal de inger\u00eancia deve oferecer raz\u00f5es convincentes e de muito peso.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u201cO conceito de vida privada deve ser entendido como de amplo alcance, pois abarca todas as esferas da intimidade e autonomia de um indiv\u00edduo e o desenvolvimento de sua identidade. As decis\u00f5es de uma pessoa sobre sua vida sexual s\u00e3o entendidas como um componente fundamental de sua vida privada, pois a sexualidade \u00e9 uma parte integral da personalidade de todo ser humano e seu desenvolvimento pleno depende da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas b\u00e1sicas como o desejo do contato, intimidade emocional, prazer, ternura e amor\u201d.<\/span><\/i><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Para uma pessoa privada da liberdade o\u00a0<\/span><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">desfrute\u00a0de alguns de seus direitos pode ser afetado. Por isso, n\u00e3o significa que se extingam de forma absoluta. A atividade das autoridades penitenci\u00e1rias est\u00e1 limitada pelos fins que persegue a priva\u00e7\u00e3o da liberdade. Toda pessoa privada da liberdade tem direito a viver com condi\u00e7\u00f5es de deten\u00e7\u00e3o compat\u00edveis com a dignidade inerente do ser humano.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Um dos direitos b\u00e1sicos das pessoas privadas de liberdade \u00e9 que lhe seja permitido o contato com o mundo exterior. Uma das formas nas quais se materializa o exerc\u00edcio do direito \u00e0 vida privada e familiar \u00e9 atrav\u00e9s do regime de visitas peri\u00f3dicas. Dentro deste conceito do direito de receber visitas e sob uma acep\u00e7\u00e3o mais ampla do direito \u00e0 vida privada, em alguns ordenamentos internos \u2013 como o do Estado colombiano \u2013 se reconheceu especificamente o direito \u00e0 visita \u00edntima, sendo esta a forma de garantir o exerc\u00edcio da sexualidade, como o \u00e2mbito mais \u00edntimo da pessoa que n\u00e3o pode absolutamente ser suprimido.\n<p><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<div class=\"right-article-image article-body-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistabravas.org\/sites\/salada\/files\/u6\/ACTO%20PERDONponer%20hacie%20el%20final.jpg?w=640\" alt=\"Marta durante el acto de pedido de perd\u00f3n del Estado.\" \/><strong><em>Marta durante el acto de pedido de perd\u00f3n del Estado.<\/em><\/strong><\/div>\n<p class=\"Normal1\">\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">As recomenda\u00e7\u00f5es ao Estado colombiano s\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\">\n<ol>\n<li class=\"Normal1\"><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u201cReparar integralmente Marta Luc\u00eda \u00c1lvarez Giraldo, tanto no aspecto material quanto moral, incluindo medidas de satisfa\u00e7\u00e3o pelos danos ocasionados.<\/span><\/i><\/li>\n<li class=\"Normal1\"><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Assegurar, por meio do Instituto Nacional Penitenci\u00e1rio (INPEC), que se garanta o direito das mulheres e das mulheres l\u00e9sbicas privadas de liberdade o acesso \u00e0 visita \u00edntima, conforme o estabelecido no direito interno. Em particular, adotar protocolos e diretivas dirigidas \u00e0s funcion\u00e1rias e aos funcion\u00e1rios estatais, incluindo autoridades penitenci\u00e1rias e carcer\u00e1rias em todos os n\u00edveis, a fim de garantir este direito; al\u00e9m disso, estabelecer mecanismos de controle e supervis\u00e3o de cumprimento neste sentido.<\/span><\/i><\/li>\n<li class=\"Normal1\"><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Adotar a reforma de acordo com normas regulamentares do INPEC em mat\u00e9ria de regime dos estabelecimentos penitenci\u00e1rios e carcer\u00e1rios, a fim de garantir o direito \u00e0 n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o de pessoas privadas de liberdade com base em sua orienta\u00e7\u00e3o sexual, em cumprimento ao estabelecido na senten\u00e7a T-062 de 2011 emitida pela Corte Constitucional.<\/span><\/i><\/li>\n<li class=\"Normal1\"><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Adotar as medidas estatais necess\u00e1rias, incluindo capacita\u00e7\u00e3o em direitos humanos a funcion\u00e1rios estatais, e o estabelecimento de mecanismos de controle, para garantir que as pessoas privadas de liberdade n\u00e3o se vejam submetidas a tratamentos discriminat\u00f3rios \u2013 incluindo san\u00e7\u00f5es disciplinares por demonstra\u00e7\u00f5es de afeto entre mulheres em estabelecimentos carcer\u00e1rios penitenci\u00e1rios \u2013 por parte das autoridades estatais ou parte de outras pessoas privadas de liberdade em raz\u00e3o de sua orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/span><\/i><\/li>\n<li class=\"Normal1\"><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Tomar as medidas estatais necess\u00e1rias para que as pessoas privadas de liberdade na Col\u00f4mbia que, de acordo com a normativa interna t\u00eam o direito \u00e0 visita \u00edntima, conhe\u00e7am o presente informe da CIDH, assim como as disposi\u00e7\u00f5es internas relacionadas com o direito \u00e0 visita \u00edntima sem discrimina\u00e7\u00e3o alguma com base na orienta\u00e7\u00e3o sexual ou o sexo\u201d.<\/span><\/i><\/li>\n<\/ol>\n<p class=\"Normal1\">\n<p class=\"Normal1\"><b><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O encontro entre o ativismo feminista e as mulheres presas<\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u201cH\u00e1 25 anos a Dra. Marta Tamayo e eu and\u00e1vamos buscando uma a outra, e para ela apareceu a \u2018virgem\u2019 e para mim apareceu um \u2018Anjo\u2019&#8230; Encontramo-nos para come\u00e7ar a dar forma a algo inconceb\u00edvel, a algo que s\u00f3 existia em nossa imagina\u00e7\u00e3o, algo que, depois de anos de trabalho, de dedica\u00e7\u00e3o, de sustos, de sacrif\u00edcios, por fim deu seus frutos hoje\u201d.\u00a0<\/span><\/i><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Essas foram as palavras de Marta \u00c1lvarez no ato de perd\u00e3o do Estado colombiano.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Eram os \u00faltimos anos da d\u00e9cada de oitenta e os primeiros da d\u00e9cada de noventa, e eu participava ativamente de reuni\u00f5es e debates de grupos feministas em Bogot\u00e1, primeiro em torno da necessidade de uma reforma constitucional do pa\u00eds e, posteriormente, no processo da Assembleia Nacional Constituinte, que resultou na Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica de 1991, vigente atualmente. Paralelamente era servidora p\u00fablica vinculada \u00e0 Procuradoria Geral da Na\u00e7\u00e3o, como advogada assessora.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Nessa entidade, na rec\u00e9m-criada Delegacia de Direitos Humanos, a cargo de Jaime C\u00f3rdoba Trivi\u00f1o, fui respons\u00e1vel por desenvolver um projeto de monitoramento dos direitos humanos nas pris\u00f5es do pa\u00eds. As visitas praticadas na maioria dos estabelecimentos de reclus\u00e3o do pa\u00eds mostraram a exist\u00eancia de grandes diferen\u00e7as no tratamento que se dava a homens e a mulheres. Particularmente foi uma grande surpresa o que encontrei nos lugares de isolamento e calabou\u00e7os de castigo. Enquanto os homens eram isolados ou castigados por fatos muito graves cometidos no interior da pris\u00e3o ou porque voluntariamente pediam para se isolar por seguran\u00e7a por problemas no p\u00e1tio ou no pavilh\u00e3o, nas pris\u00f5es de mulheres, elas eram sancionadas com medida de isolamento porque tinham sido flagradas beijando outra mulher.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Embora a administra\u00e7\u00e3o da maioria das pris\u00f5es de mulheres do pa\u00eds j\u00e1 n\u00e3o estivesse a cargo da comunidade religiosa do Bom Pastor, era evidente que se mantinham no regime disciplinar muitas de suas pr\u00e1ticas de controle, do corpo, da sexualidade, do modo de se vestir, sobre a maneira de falar, as san\u00e7\u00f5es que se impunham, a separa\u00e7\u00e3o dos dormit\u00f3rios dos espa\u00e7os de visita, entre outros.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O reconhecimento de uma ampla carta de Direitos Humanos inclu\u00edda na nova Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica era uma oportunidade para impulsionar a\u00e7\u00f5es judiciais para a prote\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres l\u00e9sbicas ou com pr\u00e1ticas l\u00e9sbicas nas pris\u00f5es, mas precisava de mulheres presas dispostas a fazer parte dessa luta. Propus a v\u00e1rias que us\u00e1ssemos a a\u00e7\u00e3o de tutela, mas tinham medo.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">No in\u00edcio de 1993 fui nomeada Defensora do Departamento da Regional Risaralda e me mudei para viver na cidade de Pereira. Uma de minhas primeiras a\u00e7\u00f5es foi apresentar uma tutela a favor de uma mulher sancionada com isolamento por beijar outra reclusa. A senten\u00e7a de tutela protegeu o direito \u00e0 dignidade humana. No ano seguinte, recebemos na Defensoria a solicita\u00e7\u00e3o de uma mulher presa que pedia que fosse garantido o seu direito \u00e0 visita \u00edntima com sua parceira do mesmo sexo, nas mesmas condi\u00e7\u00f5es que disfrutavam as mulheres heterossexuais.\u00a0<\/span><span lang=\"ES-TRAD\" xml:lang=\"ES-TRAD\">Neste momento disse: \u201cMe apareceu a virgem\u2026! Milagre!\u201d Tratava-se de Marta \u00c1lvarez.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Com a convic\u00e7\u00e3o \u00e9tica, pol\u00edtica e jur\u00eddica de que as mulheres \u00e9ramos aut\u00f4nomas para decidir sobre nossa sexualidade; com o conhecimento da lei penitenci\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o aos alcances de igualdade da visita \u00edntima nas pris\u00f5es; com os pouqu\u00edssimos avan\u00e7os doutrin\u00e1rios e jurisprudenciais, nacionais e internacionais, existentes nessa \u00e9poca sobre os direitos das pessoas hoje nomeadas como LGB; com as luzes da IV Confer\u00eancia Mundial sobre as Mulheres de Beijing; e com a inspira\u00e7\u00e3o que dava a coragem, a disciplina e a intelig\u00eancia de Marta \u00c1lvarez e seu sentido inquebrant\u00e1vel de lutar pelo direito a amar outras mulheres, repito, com tudo isso, empreendi faz 23 anos sua defesa, combinando meus deveres de servidora p\u00fablica e meu ativismo feminista, como integrante da Rede Nacional de Mulheres, a qual apenas nascia naquela \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">Como o fiz em outros cen\u00e1rios: o\u00a0<i>caso<\/i>\u00a0<i>Marta<\/i>\u00a0<i>\u00c1lvarez<\/i>\u00a0\u00e9 parte das lutas das mulheres, e em particular das feministas, pela conquista de nossos direitos. Nenhum dos direitos que hoje temos formalmente as mulheres nos foi dado de gra\u00e7a. Todos os nossos direitos hoje reconhecidos, nacional ou internacionalmente, s\u00e3o fruto de muitos anos de lutas pac\u00edficas das mulheres contra as discrimina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, e Marta \u00c1lvarez \u00e9 uma das protagonistas dessa longa hist\u00f3ria, que ainda n\u00e3o termina.<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">O que foi alcan\u00e7ado na CIDH e com o Acordo assinado com o Estado Colombiano \u00e9 um ponto de partida. Como Marta o expressou na Reclus\u00e3o de Bogot\u00e1:\u00a0<i>\u201cMulheres, aqui est\u00e1. Cuidem, apreciem, respeitem e, sobretudo, fa\u00e7am valer. Que o calabou\u00e7o por um beijo e as transfer\u00eancias por solicitar a visita \u00edntima ou por ter uma namorada no p\u00e1tio sejam coisas do passado e que esse passado nunca volte a se repetir\u201d.<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\">\n<p class=\"Normal1\"><a id=\"_gjdgxs\" name=\"_gjdgxs\"><\/a><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">*Os documentos mencionados anteriormente podem ser consultados em:<\/span><\/p>\n<p class=\"Normal1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><a href=\"http:\/\/casomartaalvarez.rednacionaldemujeres.org\/\">http:\/\/casomartaalvarez.rednacionaldemujeres.org\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\"><a href=\"http:\/\/colombiadiversa.org\/caso-marta-alvarez\/index.html#secci%C3%B3n2\">http:\/\/colombiadiversa.org\/caso-marta-alvarez\/index.html#secci%C3%B3n2<\/a><\/span><\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div id=\"ftn1\">\n<p><a id=\"_ftn1\" name=\"_ftn1\"><\/a><a title=\"\" href=\"http:\/\/revistabravas.org\/article\/179\/el-caso-marta-%C3%A1lvarez#_ftnref1\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">[1]<\/span><\/a><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u00a0Nota do Tradutor: Optamos por preservar os termos\u00a0<i>pirobas, chachitos, machorros, bimbas, cacorras, areperas<\/i>\u00a0por se tratarem de regionalismos utilizados para insultar as mulheres l\u00e9sbicas. S\u00e3o termos depreciativos que equivalem em portugu\u00eas \u00e0 sapata, sapat\u00e3o, saboeira, mulher-macho, entre outros.<\/span><\/p>\n<p><a id=\"_ftn2\" name=\"_ftn2\"><\/a><a title=\"\" href=\"http:\/\/revistabravas.org\/article\/179\/el-caso-marta-%C3%A1lvarez#_ftnref2\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">[2]<\/span><\/a><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u00a0Pelo Estado, os participantes nas conversas foram: a Ag\u00eancia de Defesa Jur\u00eddica do Estado, como entidade l\u00edder; o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e do Direito; o Minist\u00e9rio do Interior e o INPEC. Pela parte peticion\u00e1ria, as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais Rede Nacional de Mulheres, Col\u00f4mbia Diversa e CEJIL.<\/span><\/p>\n<p><a id=\"_ftn3\" name=\"_ftn3\"><\/a><a title=\"\" href=\"http:\/\/revistabravas.org\/article\/179\/el-caso-marta-%C3%A1lvarez#_ftnref3\"><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">[3]<\/span><\/a><span lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\">\u00a0Os artigos violados s\u00e3o 5.1, 11,2, 8,1, 24 e 25.1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os caminhos, os alcances e um pedido de perd\u00e3o estatal reparat\u00f3rio s\u00e3o alguns dos resultados de um longo lit\u00edgio na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":6304,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Visita \u00edntima de mulheres l\u00e9sbicas nas pris\u00f5es: Os caminhos, os alcances e um pedido de perd\u00e3o estatal reparat\u00f3rio s\u00e3o alguns dos resultados de um longo lit\u00edgio na Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,4],"tags":[50,385,386,228,13,135],"class_list":["post-6305","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lutafeminista","category-latinoamerica","tag-feminismo","tag-homossexualidade","tag-lesbianidade","tag-lesbicas","tag-mulheres","tag-prisao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/marta-alvarez.png?fit=1428%2C804&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-1DH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6305","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6305"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6305\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6306,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6305\/revisions\/6306"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6304"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6305"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6305"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6305"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}