{"id":6236,"date":"2018-04-05T11:48:24","date_gmt":"2018-04-05T14:48:24","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6236"},"modified":"2018-08-29T14:57:59","modified_gmt":"2018-08-29T17:57:59","slug":"boaventura-o-colonialismo-e-o-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=6236","title":{"rendered":"Boaventura: o Colonialismo e o s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00c9 hora de declarar incumprida uma das grandes promessas modernas. O homem branco jamais aceitou a igualdade. Novas lutas precisar\u00e3o imp\u00f4-la<\/em><\/p>\n<p>Por\u00a0<strong>Boaventura de Sousa Santos,\u00a0<\/strong>publicado originalmente no site <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/autores\/boaventura-o-colonialismo-e-o-seculo-xxi\/\">Outras Palavras<\/a><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O termo alem\u00e3o\u00a0<em>Zeitgeist<\/em>\u00a0\u00e9 hoje usado em diferentes l\u00ednguas para designar o clima cultural, intelectual e moral de uma dada \u00e9poca, literalmente, o esp\u00edrito do tempo, o conjunto de cren\u00e7as e de ideias que comp\u00f5em a especificidade de um per\u00edodo hist\u00f3rico. Na Idade Moderna, dada a persist\u00eancia da ideia do progresso, uma das maiores dificuldades em captar o esp\u00edrito de uma dada \u00e9poca reside em identificar as continuidades com \u00e9pocas anteriores, quase sempre disfar\u00e7adas de descontinuidades, inova\u00e7\u00f5es, rupturas. E para complicar ainda mais a an\u00e1lise, o que permanece de per\u00edodos anteriores \u00e9 sempre metamorfoseado em algo que simultaneamente o denuncia e dissimula e, por isso, permanece sempre como algo diferente do que foi sem deixar de ser o mesmo. As categorias que usamos para caracterizar uma dada \u00e9poca s\u00e3o demasiado toscas para captar esta complexidade, porque elas pr\u00f3prias s\u00e3o parte do mesmo esp\u00edrito do tempo que supostamente devem caracterizar a partir de fora. Correm sempre o risco de serem anacr\u00f4nicas, pelo peso da in\u00e9rcia, ou ut\u00f3picas, pela leveza da antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por refer\u00eancia aos tr\u00eas principais modos de domina\u00e7\u00e3o da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado ou, mais precisamente, hetero-patriarcado. Nenhuma destas categorias \u00e9 t\u00e3o controversa, quer entre os movimentos sociais, quer na comunidade cient\u00edfica, quanto a de colonialismo. Fomos todos t\u00e3o socializados na ideia de que as lutas de liberta\u00e7\u00e3o anti-colonial do s\u00e9culo XX puseram fim ao colonialismo que \u00e9 quase uma heresia pensar que afinal o colonialismo n\u00e3o acabou, apenas mudou de forma ou de roupagem, e que a nossa dificuldade \u00e9 sobretudo a de nomear adequadamente este complexo processo de continuidade e mudan\u00e7a. \u00c9 certo que os analistas e os pol\u00edticos mais avisados dos \u00faltimos cinquenta anos tiveram a percep\u00e7\u00e3o aguda desta complexidade, mas as suas vozes n\u00e3o foram suficientemente fortes para p\u00f4r em causa a ideia convencional de que o colonialismo propriamente dito acabara, com exce\u00e7\u00e3o de alguns poucos casos, os mais dram\u00e1ticos sendo possivelmente o Sahara Ocidental, a col\u00f4nia hispano-marroquina que continua subjugando o povo saharaui e a ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina por Israel. Entre essas vozes, \u00e9 de salientar a do grande soci\u00f3logo mexicano Pablo Gonzalez Casanova com o seu conceito de colonialismo interno para caraterizar a perman\u00eancia de estruturas de poder colonial nas sociedades que emergiram no s\u00e9culo XIX das lutas de independ\u00eancia das antigas col\u00f4nias americanas da Espanha. E tamb\u00e9m a voz do grande l\u00edder africano, Kwame Nkrumah,\u00a0 primeiro presidente da Rep\u00fablica do Gana, com o seu conceito de neocolonialismo para caracterizar o dom\u00ednio que as antigas pot\u00eancias coloniais continuavam a deter sobre as suas antigas col\u00f4nias, agora pa\u00edses supostamente independentes.<\/p>\n<p>Uma reflex\u00e3o mais aprofundada dos \u00faltimos 60 anos leva-me a concluir que o que quase terminou com os processos de independ\u00eancia do s\u00e9culo XX foi uma forma espec\u00edfica de colonialismo, e n\u00e3o o colonialismo como modo de domina\u00e7\u00e3o. A forma que quase terminou foi o que se pode designar por colonialismo hist\u00f3rico caracterizado pela ocupa\u00e7\u00e3o territorial estrangeira. Mas o modo de domina\u00e7\u00e3o colonial continuou sob outras formas e, se as considerarmos como tal, o colonialismo est\u00e1 talvez hoje t\u00e3o vigente e violento como no passado. Para justificar esta asser\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio especificar em que consiste o colonialismo enquanto modo de domina\u00e7\u00e3o. Colonialismo \u00e9 todo o modo de domina\u00e7\u00e3o assente na degrada\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica das popula\u00e7\u00f5es dominadas por raz\u00f5es etno-raciais. \u00c0s popula\u00e7\u00f5es e aos corpos racializados n\u00e3o \u00e9 reconhecida a mesma dignidade humana que \u00e9 atribu\u00edda aos que os dominam. S\u00e3o popula\u00e7\u00f5es e corpos que, apesar de todas as declara\u00e7\u00f5es universais dos direitos humanos, s\u00e3o existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, e as suas vidas pouco valor t\u00eam para quem os oprime, sendo, por isso, facilmente descart\u00e1veis. Foram inicialmente concebidos como parte da paisagem das terras \u201cdescobertas\u201d pelos conquistadores, terras que, apesar de habitadas por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas desde tempos imemoriais, foram consideradas como terras de ningu\u00e9m,\u00a0<em>terra nullius<\/em>. Foram tamb\u00e9m considerados como objetos de propriedade individual, de que \u00e9 prova hist\u00f3rica a escravatura. E continuam hoje a ser popula\u00e7\u00f5es e corpos v\u00edtimas do racismo, da xenofobia, da expuls\u00e3o das suas terras para abrir caminho aos megaprojetos mineiros e agroindustriais e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, da viol\u00eancia policial e das mil\u00edcias paramilitares, do tr\u00e1fico de pessoas e de \u00f3rg\u00e3os, do trabalho escravo designado eufemisticamente como \u201ctrabalho an\u00e1logo ao trabalho escravo\u201d para satisfazer a hipocrisia\u00a0 bem-pensante das rela\u00e7\u00f5es internacionais, da convers\u00e3o das suas comunidades de rios cristalinos e florestas id\u00edlicas em infernos t\u00f3xicos de degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Vivem em zonas de sacrif\u00edcio, a cada momento em risco de se transformarem em zonas de n\u00e3o-ser.<\/p>\n<p>As novas formas de colonialismo s\u00e3o mais insidiosas porque ocorrem no \u00e2mago de rela\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas dominadas pelas ideologias do anti-racismo, dos direitos humanos universais, da igualdade de todos perante a lei, da n\u00e3o-discrimina\u00e7\u00e3o, da igual dignidade dos filhos e filhas de qualquer deus ou deusa. O colonialismo insidioso \u00e9 gasoso e evanescente, t\u00e3o invasivo quanto evasivo, em suma, ardiloso. Mas nem por isso engana ou minora o sofrimento de quem \u00e9 dele v\u00edtima na sua vida quotidiana. Floresce em\u00a0<em>apartheids<\/em>\u00a0sociais n\u00e3o institucionais, mesmo que sistem\u00e1ticos. Tanto ocorre nas ruas como nas casas, nas pris\u00f5es e nas universidades como nos supermercados e nos batalh\u00f5es de pol\u00edcia. Disfar\u00e7a-se facilmente de outras formas de domina\u00e7\u00e3o tais como diferen\u00e7as de classe e de sexo ou sexualidade mesmo sendo sempre um componente constitutivo delas. Verdadeiramente s\u00f3 \u00e9 capt\u00e1vel em\u00a0<em>close-ups<\/em>, instant\u00e2neos do dia-a-dia. Em alguns deles, o colonialismo insidioso surge como saudade do colonialismo, como se fosse uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o que tem de ser protegida e multiplicada. Eis alguns desses instant\u00e2neos.<\/p>\n<p><em>Primeiro instant\u00e2neo.<\/em>\u00a0Um dos \u00faltimos n\u00fameros de 2017 da respeit\u00e1vel revista cient\u00edfica\u00a0<em>Third World Quarterly,<\/em>\u00a0dedicada aos estudos p\u00f3s-coloniais, inclu\u00eda um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado \u201cEm defesa do colonialismo\u201d. Eis o resumo do artigo: \u201cNos \u00faltimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. \u00c9 chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objetivamente ben\u00e9fico como subjetivamente leg\u00edtimo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os pa\u00edses que abra\u00e7aram a sua heran\u00e7a colonial tiveram mais \u00eaxito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anti-colonial imp\u00f4s graves preju\u00edzos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. H\u00e1 tr\u00eas formas de estados fracos e fr\u00e1geis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governa\u00e7\u00e3o; recolonizando certas \u00e1reas; e criando novas col\u00f4nias ocidentais\u201d. O artigo causou uma indigna\u00e7\u00e3o geral e quinze membros do conselho editorial da revista demitiram-se. A press\u00e3o foi t\u00e3o grande que o autor acabou por retirar o artigo da vers\u00e3o eletr\u00f4nica da revista, mas permaneceu na vers\u00e3o j\u00e1 impressa. Foi um sinal dos tempos? Afinal, o artigo fora sujeito a revis\u00e3o an\u00f4nima por pares. A controv\u00e9rsia mostrou que a defesa do colonialismo estava longe de ser um ato isolado de um autor tresloucado.<\/p>\n<p><em>Segundo instant\u00e2neo.\u00a0<\/em>O\u00a0<em>Wall Street Journal<\/em>\u00a0de 22 de mar\u00e7o passado publicou uma\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/capa-outras-midias\/em-busca-semen-made-in-usa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">reportagem<\/a>\u00a0intitulada \u201cProcura de s\u00eamen americano disparou no Brasil\u201d.\u00a0 Segundo a jornalista, a importa\u00e7\u00e3o de s\u00eamen americano por mulheres solteiras e casais de l\u00e9sbicas brasileiras ricas aumentou extraordinariamente nos \u00faltimos sete anos e os perfis dos doadores selecionados mostram a prefer\u00eancia por crian\u00e7as brancas e com olhos azuis. E acrescenta: \u201cA prefer\u00eancia por dadores brancos reflete uma persistente preocupa\u00e7\u00e3o com a ra\u00e7a num pa\u00eds em que a classe social e a cor da pele coincidem com grande rigor. Mais de 50% dos brasileiros s\u00e3o negros ou mesti\u00e7os, uma heran\u00e7a que resultou de o Brasil ter importado dez vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos; foi o \u00faltimo pa\u00eds a abolir a escravatura, em 1888. Os descendentes de colonos e imigrantes brancos \u2013 muitos dos quais foram atra\u00eddos para o Brasil no final do s\u00e9culo XIX e princ\u00edpio do s\u00e9culo XX quando as elites no governo procuraram explicitamente \u2018branquear\u2019 a popula\u00e7\u00e3o \u2013 controlam a maior parte do poder pol\u00edtico e da riqueza do pa\u00eds. Numa sociedade t\u00e3o racialmente dividida, ter descend\u00eancia de pele clara \u00e9 visto muitas vezes como um modo de providenciar \u00e0s crian\u00e7as melhores perspectivas, seja um sal\u00e1rio mais elevado ou um tratamento policial mais justo\u201d.<\/p>\n<p><em>Terceiro instant\u00e2neo.\u00a0<\/em>Em 24 de mar\u00e7o o mais influente jornal da Africa do Sul,\u00a0<em>Mail &amp; Guardian,<\/em>\u00a0publicou uma reportagem intitulada \u201cGenoc\u00eddio branco: como a grande mentira se espalhou para os Estados Unidos e outros pa\u00edses\u201d. Segundo o jornalista, \u201cO Suidlanders, um grupo sul-africano de extrema direita, tem estabelecido contato com outros grupos extremistas nos Estados Unidos e na Austr\u00e1lia, fabricando uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o sobre genoc\u00eddio branco com o objectivo de conseguir apoio internacional para sul-africanos brancos. O grupo, que se auto-descreve como \u2018uma iniciativa-plano de emerg\u00eancia\u2019 para preparar uma minoria sul-africana de crist\u00e3os protestantes para uma suposta revolu\u00e7\u00e3o violenta, tem-se relacionado com v\u00e1rios grupos extremistas (alt-right) e seus influentes contatos midi\u00e1ticos nos Estados Unidos para erguer uma oposi\u00e7\u00e3o global \u00e0 alegada persegui\u00e7\u00e3o a brancos na \u00c1frica do Sul\u2026 Na semana passada, o, ministro australiano dos Assuntos Internos, disse ao\u00a0<em>Daily Telegraph<\/em>que estava considerando a concess\u00e3o de vistos r\u00e1pidos para agricultores sul-africanos brancos, os quais, alegava o ministro, precisavam de \u2018fugir de circunst\u00e2ncias atrozes\u2019 para \u2018um pa\u00eds civilizado\u2019. Segundo o ministro, os ditos agricultores \u2018merecem aten\u00e7\u00e3o especial\u2019 por causa de ocupa\u00e7\u00e3o de terras e viol\u00eancia \u2026\u00a0 Tem tamb\u00e9m sido dada mais aten\u00e7\u00e3o a agricultores sul-africanos brancos na Europa, onde pol\u00edticos da extrema direita com contatos diretos com a extrema direita (alt-right) nos Estados Unidos t\u00eam solicitado ao Parlamento Europeu que intervenha na \u00c1frica do Sul. Agentes pol\u00edticos contra os refugiados no Reino Unido est\u00e3o igualmente ligados \u00e0 causa\u201d.<\/p>\n<p>A grande armadilha do colonialismo insidioso \u00e9 dar a impress\u00e3o de um regresso, quando o que regressa nunca deixou de estar.<\/p>\n<p><em>Para Marielle Franco, in memoriam<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 hora de declarar incumprida uma das grandes promessas modernas. O homem branco jamais aceitou a igualdade. 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