{"id":4938,"date":"2017-03-21T22:48:14","date_gmt":"2017-03-22T01:48:14","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=4938"},"modified":"2017-04-01T13:58:57","modified_gmt":"2017-04-01T16:58:57","slug":"o-pensar-a-partir-do-corpo-e-da-cultura-provocacoes-de-ivone-gebara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=4938","title":{"rendered":"O pensar a partir do corpo e da cultura \u2013 provoca\u00e7\u00f5es de Ivone Gebara"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #800080;\">Aberto ontem (20), na Fafire, o curso de extens\u00e3o Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Filosofia Feminista, ministrado por Ivone Gebara, \u00e9 um convite a refletir sobre o que \u00e9 o pensar, \u201co pensar a partir de meu corpo e minha cultura\u201d.<\/span><\/em><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Paula de Andrade*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De onde viemos, quem somos n\u00f3s, por que somos o que somos, essas s\u00e3o perguntas que, segundo Ivone, a filosofia tratou ao longo de sua hist\u00f3ria. Mas essas perguntas, que tiveram respostas diferentes, e at\u00e9 misturaram quest\u00f5es de filosofia e religi\u00e3o, tamb\u00e9m geraram outras quest\u00f5es. Se do \u201cquem somos n\u00f3s\u201d, deriva, por exemplo, \u201csomos animais pol\u00edticos\u201d, ent\u00e3o, o que \u00e9 a pol\u00edtica? Se algu\u00e9m diz \u201c\u00e9 preciso ter \u00e9tica na pol\u00edtica\u201d, quem explicita o que \u00e9 \u00e9tica \u00e9 a filosofia. Mas se esta \u00e9tica for \u201cagir segundo a lei\u201d, quem define a lei? Esse esquente foram pinceladas para o que estar\u00e1 no centro dos debates do curso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"4939\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=4939\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/ivone2.jpg?fit=195%2C259&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"195,259\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"ivone2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/ivone2.jpg?fit=195%2C259&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/ivone2.jpg?fit=195%2C259&amp;ssl=1\" class=\"size-full wp-image-4939 alignright\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/ivone2.jpg?resize=195%2C259&#038;ssl=1\" alt=\"ivone2\" width=\"195\" height=\"259\" \/>Doutora em Filosofia pela Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo e em Ci\u00eancias Religiosas pela Universidade Cat\u00f3lica de Lovaina (B\u00e9lgica), Gebara nos recorda que ao longo dos s\u00e9culos, considerando toda uma hist\u00f3ria do mundo ocidental que come\u00e7a com os gregos, quem fez filosofia foram os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo n\u00e3o come\u00e7ou na Gr\u00e9cia antiga, muito menos a filosofia ou a religi\u00e3o, bem sabe Ivone. Tanto que encerrou a noite chamando ao centro dos debates as tantas \u00c1fricas e tantas \u00c1sias, povos negros e ind\u00edgenas, o pensamento que foi ocultado. Mas \u00e9 ao pensamento dominante que ela dirige seu olhar e a sua cr\u00edtica neste curso introdut\u00f3rio \u00e0 filosofia feminista, questionando s\u00e9culos de afirma\u00e7\u00e3o de uma superioridade ontol\u00f3gica masculina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Superior por qu\u00ea?<\/em>, pergunta. Seria por ser o corpo feminino mais dado \u00e0 materialidade e n\u00e3o propenso ao pensamento? Seriam as mulheres \u201chomens inferiores\u201d? N\u00e3o ter\u00edamos a completude do \u201cser humano\u201d? E qual seria essa parte que nos faltaria? A plateia do curso, quase que completamente composta de mulheres, compartilha de seus pensamentos e com ar cansado (por constatar) responde-lhe: \u201co falo&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essas provoca\u00e7\u00f5es iniciais do curso, Ivone faz a cr\u00edtica a uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que, segundo ela, n\u00e3o apenas afirmou que \u201csomos seres racionais\u201d &#8211; sendo o homem branco, heterossexual como universal. Tamb\u00e9m definiu \u201chomem\u201d como defini\u00e7\u00e3o de uma humanidade composta de seres \u201cracionais e mortais\u201d. E trazer a morte para esta autodefini\u00e7\u00e3o tem e teve profundas consequ\u00eancias para o pensamento filos\u00f3fico sobre o que seria o viver. Ivone questiona: por que n\u00e3o se afirmar, mesmo nos sabendo mortais, que vivemos para a vida? O ser racional definido ao longo de s\u00e9culos de filosofia praticada pelos homens \u00e9 o ser da Raz\u00e3o masculina, e essa Raz\u00e3o pensa a pol\u00edtica, a economia, o genoc\u00eddio, a ra\u00e7a pura, os preconceitos. N\u00f3s, mulheres, somos sujeitos despossu\u00eddos ou n\u00e3o contemplados por essas filosofias. Romper com essa Raz\u00e3o que estabeleceu esse \u201cquem somos n\u00f3s\u201d, \u00e9 o que fazer da filosofia feminista, que menos se at\u00e9m &#8211; ou n\u00e3o se at\u00e9m apenas &#8211; ao &#8220;quem somos n\u00f3s&#8221; ou de onde viemos, para dirigir-se ao \u201co que\u201d queremos, e \u201cquem\u201d quer no Ser &#8211; que \u00e9 aqui, agora, hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar a partir do corpo e da cultura, segundo Ivone, seria reconhecer que meu corpo todo tem racionalidade. Para Ivone, a racionalidade vislumbrada pela filosofia feminista \u00e9 uma racionalidade do corpo, pois a racionalidade n\u00e3o subsiste ao corpo, como nos fizeram crer \u201cos fil\u00f3sofos\u201d. \u201cSe tenho dor de cabe\u00e7a, meu pensamento se atrofia, n\u00e3o \u00e9?\u201d Para Ivone, embora alguns \u00f3rg\u00e3os sejam mais vitais que outros para esta racionalidade, a racionalidade \u00e9 do corpo em sua integralidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Ivone vai mais adiante. Pensa a cultura e insere as mulheres a partir da filosofia feminista n\u00e3o apenas questionando o humano, mas o seu contraponto, o \u201cdesumano\u201d. Ela diz: ao exclamar, numa desgra\u00e7a, por exemplo, \u201ccomo \u00e9 desumano!\u201d implicitamente dizemos que o ser humano \u00e9 bom. Mas n\u00e3o \u00e9. Para Ivone, o melhor seria dizer simplesmente: \u00e9 \u201ctamb\u00e9m bom\u201d. Assim, propor uma filosofia feminista implicaria em reconhecer o ser, os seres humanos, como \u201cmisturados\u201d.\u00a0Ver-nos constitu\u00eddos por essa \u201cmistura\u201d, segundo Ivone, \u00e9 que vai fazer avan\u00e7ar a hist\u00f3ria. Esse reconhecimento \u00e9 uma das reflex\u00f5es que pontuou na noite de ontem e que dever\u00e1 aprofundar nas pr\u00f3ximas sess\u00f5es do curso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Gebara, a percep\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as como uma percep\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque todos n\u00f3s, mulheres e homens, compreendemos em nossas entranhas o que \u00e9 a viol\u00eancia, porque somos capazes de ser violentos, mesmo que em nossas vidas consigamos manter o controle ou n\u00e3o reagir com viol\u00eancia diante de uma situa\u00e7\u00e3o que nos revolte profundamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizer \u201cbasta\u201d seria uma rea\u00e7\u00e3o ao me sentir violentada, mas quando sou contra a viol\u00eancia, sou produtora de outras viol\u00eancias, afirma Ivone. Pol\u00eamica em sua reflex\u00e3o, ela provocou diversas quest\u00f5es vindas das participantes e prosseguiu seus argumentos. Um deles ressaltou que n\u00e3o \u00e9 de forma alguma agrad\u00e1vel um pensamento feminista frente ao mundo. N\u00e3o \u00e9 mesmo um pensamento que agrada a todos, antes um pensamento que desarranja as l\u00f3gicas das opress\u00f5es. \u201cSer feminista n\u00e3o \u00e9 ser agrad\u00e1vel\u201d, nas palavras de Ivone. Dizer que o ser humano \u00e9 racional e violento seria mais confi\u00e1vel como reflex\u00e3o ontol\u00f3gica, se bem compreendemos sua percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de sua experi\u00eancia pessoal, Ivone tamb\u00e9m refletiu sobre a viol\u00eancia a partir de um outro prisma: \u201cPor exemplo, a viol\u00eancia que sofri me disse interiormente: \u2018vai adiante, porque que quem est\u00e1 contra voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 contra os pobres e contra as mulheres\u2019. E, com isso, essa viol\u00eancia se transformou numa for\u00e7a positiva para mim\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste percurso de sua reflex\u00e3o, Ivone Gebara destaca ainda que a filosofia feminista, assim como o feminismo, n\u00e3o significa uma oposi\u00e7\u00e3o aos homens, mas sim que n\u00e3o mais nos ajustamos \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do que seria &#8220;ser humano&#8221; no dizer dos &#8220;fil\u00f3sofos&#8221;. Seria reconhecer que nossos corpos pensam \u2013 sim pois pensamos com o corpo, relembra-nos Ivone. E nossos corpos exigem outra forma de conceber \u00e9tica, democracia, pol\u00edtica, economia, rela\u00e7\u00e3o com a natureza, entre outras quest\u00f5es do existir em si e de si com o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O curso Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia feminista prossegue at\u00e9 esta sexta, 24, no audit\u00f3rio da Fafire, onde pode ser encontrado o livro de mesmo t\u00edtulo, de Ivone Gebara.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>Leia mais sobre as reflex\u00f5es de Ivone em textos dispon\u00edveis da Web<\/em>, como este <span style=\"color: #800080;\"><strong>aqui<\/strong><\/span>:<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2n5M6xx\"> http:\/\/bit.ly\/2n5M6xx<\/a><\/h6>\n<p>Fotos: reprodu\u00e7\u00e3o \/internet \/ <a href=\"http:\/\/www.itf.org.br\/os-meninos-foram-ao-circo-uma-cronica-instantanea-ivone-gebara.html\">ITF<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aberto ontem (20), na Fafire, o curso de extens\u00e3o Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Filosofia Feminista, ministrado por Ivone Gebara, \u00e9 um convite [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4940,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[50,24],"class_list":["post-4938","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conjuntura","tag-feminismo","tag-pernambuco"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/ivone1.jpg?fit=750%2C500&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-1hE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4938"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4938\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4948,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4938\/revisions\/4948"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4940"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}