{"id":3216,"date":"2015-09-14T16:46:12","date_gmt":"2015-09-14T19:46:12","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=3216"},"modified":"2015-09-26T20:13:01","modified_gmt":"2015-09-26T23:13:01","slug":"nos-somos-as-vitimas-do-maior-genocidio-da-humanidade-denuncia-militante-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=3216","title":{"rendered":"\u201cN\u00f3s somos as v\u00edtimas do maior genoc\u00eddio da humanidade\u201d, denuncia militante ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"<h6><strong><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"http:\/\/brasildefato.com.br\/node\/32920?utm_source=emailcampaign579&amp;utm_medium=phpList&amp;utm_content=HTMLemail&amp;utm_campaign=Boletim+Semanal+-+Movimentos+populares+criticam+cortes+anunciados+pelo+governo+federal\" target=\"_blank\"><em>Em entrevista ao<\/em> <em>Brasil de Fato<\/em><\/a><\/span><em>, Daiara Tukano fala sobre a mis\u00e9ria e as amea\u00e7as sofridas dentro dos territ\u00f3rios em que os Guarani-Kaiow\u00e1s vivem e sobre a articula\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios de terra no Congresso.<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6><em>Por Camilla Hoshino, d<\/em><em>e Curitiba <\/em><em>(PR)<\/em><\/h6>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"3217\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=3217\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?fit=800%2C532&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"800,532\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"daiara tukano\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?fit=640%2C426&amp;ssl=1\" class=\"wp-image-3217 alignright\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?resize=414%2C275&#038;ssl=1\" alt=\"daiara tukano\" width=\"414\" height=\"275\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?w=800&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px\" \/><\/a>Um depoimento gravado pela militante ind\u00edgena Daiara Tukano ganhou repercuss\u00e3o nas redes sociais, na \u00faltima semana. O v\u00eddeo fazia um apelo aos movimentos sociais e ativistas para que se unissem \u00e0 luta contra o massacre do povo Guarani-Kaiow\u00e1, v\u00edtima da disputa por terras no munic\u00edpio de Ant\u00f4nio Jo\u00e3o, no Mato Grosso do Sul (MS).<\/p>\n<p>Daiara \u00e9 ind\u00edgena do povo Tukano, formada em artes pela Universidade de Bras\u00edlia, mestranda em direitos humanos, educadora, artista e militante ind\u00edgena e feminista.<\/p>\n<p>Em entrevista ao <strong>Brasil de Fato<\/strong>, ela fala sobre a mis\u00e9ria e as amea\u00e7as sofridas dentro dos territ\u00f3rios em que os Guarani-Kaiow\u00e1s vivem, sobre a articula\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios de terra no Congresso e a dificuldade na media\u00e7\u00e3o de conflitos ligados \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s somos as v\u00edtimas do maior genoc\u00eddio da humanidade\u201d, denuncia a militante, relembrando as pr\u00e1ticas de ocupa\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o no continente americano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato- Na semana passada, um v\u00eddeo publicado por voc\u00ea nas redes sociais denunciando o ataque dos fazendeiros aos Guarani-Kaiow\u00e1s no Mato Grosso do Sul foi amplamente compartilhado. Ele surtiu efeito? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Daiara Tukano <\/strong>&#8211; O v\u00eddeo que eu fiz foi um desabafo e acredito que tenha incomodado. N\u00e3o retiro a minha opini\u00e3o. Ali eu disse que \u2018qualquer pessoa que acha que levanta uma bandeira pedindo democracia e o fim da viol\u00eancia, precisa abra\u00e7ar a causa ind\u00edgena. Caso contr\u00e1rio, ela estar\u00e1 marchando em cima do nosso sangue\u2019. E de repende o v\u00eddeo viralizou de uma forma muito louca e as respostas est\u00e3o aparecendo. Temos recebido o apoio de v\u00e1rios coletivos de mulheres, coletivos negros, LGBT, trans e de trabalhadores. Precisamos nos reunir todos, n\u00e3o apenas em favor da causa ind\u00edgena, mas nos articular muito bem, pois estamos em um momento pol\u00edtico onde h\u00e1 amea\u00e7as de retrocesso. A movimenta\u00e7\u00e3o que acontece hoje no Congresso \u00e9 muito bem articulada, principalmente pela bancada \u201cBBB\u201d [boi, b\u00edblia e bala] que consegue aprovar diversas propostas. A frente parlamentar que ainda defende a democracia neste pa\u00eds est\u00e1 muito reduzida.<\/p>\n<p><strong>Sobre o conflito naquela regi\u00e3o, qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio reivindicado hoje pelos Guarani-Kaiow\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p>Os Guarani-Kaiow\u00e1s tiveram esta terra homologada em 2005 pelo Presidente da Rep\u00fablica, na \u00e9poca o Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. No mesmo ano, uma articula\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rios de terra pressionou o Supremo Tribunal Federal para que o ent\u00e3o ministro Nelson Jobim retrocedesse na decis\u00e3o final. Isso gerou um conflito legal, pois segundo a Constitui\u00e7\u00e3o o \u00fanico poder que tem autoridade para a demarca\u00e7\u00e3o o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas \u00e9 o Executivo. O territ\u00f3rio homologado tinha mais ou menos 9.317 hectares e de repente os ind\u00edgenas foram colocados em 2 hectares somente, sem \u00e1gua, sem terra f\u00e9rtil e sem possibilidade de plantio. Foi um golpe do Judici\u00e1rio na decis\u00e3o presidencial. Vimos a a\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal retirar os ind\u00edgenas da terra que havia sido aprovada no mesmo ano- depois de anos de luta-, e jog\u00e1-los abandonados na beira da estrada, em uma situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria.<\/p>\n<table style=\"height: 294px;\" border=\"0\" width=\"389\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasildefato.com.br\/sites\/default\/files\/u1131\/14-08-15_daiara-tukano-reproducao-fb2.jpg?resize=422%2C280\" alt=\"\" width=\"422\" height=\"280\" \/><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Ouvimos a todo o momento muitos relatos de que a retirada das terras dos ind\u00edgenas acaba afetando as tradi\u00e7\u00f5es, a sa\u00fade e a pr\u00f3pria vida desses povos. Voc\u00ea pode descrever melhor esta situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria em que vivem? <\/strong><\/p>\n<p>Mis\u00e9ria \u00e9 mis\u00e9ria. Isso quer dizer que eles sofrem amea\u00e7a f\u00edsica constante, viol\u00eancia psicol\u00f3gica, viol\u00eancia moral e viol\u00eancia patrimonial o tempo inteiro. Os pistoleiros- pagos pelos fazendeiros-, s\u00e3o criminosos convictos. Eles andam pelas terras e matam livremente. Enquanto isso os ind\u00edgenas s\u00e3o obrigados a morar em barracos de lona de pl\u00e1stico, passando frio, enfrentando geadas e sem \u00e1gua para beber. Os fazendeiros fazem quest\u00e3o de envenenar as fontes de \u00e1gua pr\u00f3ximas, jogando detrito t\u00f3xico. Ou ent\u00e3o passam com os avi\u00f5es de agrot\u00f3xico em cima dos barracos e das crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>\u00cdndice de mortes <\/strong><\/p>\n<p>Como n\u00e3o v\u00e3o existir problemas de sa\u00fade em uma situa\u00e7\u00e3o dessas, onde existe um estado de mis\u00e9ria que \u00e9 provocado de maneira intencional e criminosa? O n\u00famero de \u00f3bitos de crian\u00e7as e idosos, por exemplo, causado por intoxica\u00e7\u00e3o, \u00e9 decorrente desse tipo de ataque. Da mesma forma que temos um n\u00famero de suic\u00eddios que \u00e9 decorrente dos ataques psicol\u00f3gicos, inclusive f\u00edsicos. H\u00e1 mulheres da regi\u00e3o que foram estupradas e ap\u00f3s o estupro se suicidaram. Isto consta nos relat\u00f3rios do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio, est\u00e1 nos relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara dos Deputados e do Sendo Federal e tamb\u00e9m consta nos relat\u00f3rios que foram parar no STF e na ONU. E mesmo assim o Estado continua sem conseguir mediar o conflito, porque quem comanda o Brasil s\u00e3o os latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que a sa\u00edda para este conflito passe por qual tipo de media\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma inc\u00f3gnita, mas existem algumas tentativas que est\u00e3o sendo feitas. Tenho muitas ressalvas, mas agora conseguiram aprovar no Senado Federal a PEC 71, que determina o pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o aos propriet\u00e1rios de terra. E \u00e9 claro que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel unicamente demonizar estes pioneiros que foram colonizar a terra dos estados de fronteira, pois l\u00e1 existem fam\u00edlias e trabalhadores. O problema s\u00e3o as pr\u00e1ticas que os acompanham. S\u00e3o gera\u00e7\u00f5es que sofrem incessantemente com a viol\u00eancia. E sempre vemos v\u00eddeos dos netos de fazendeiros dizendo \u2018meu av\u00f4 chegou aqui h\u00e1 80 anos\u2019, clamando seu direito a terra. Mas eu conhe\u00e7o av\u00f4s ind\u00edgenas de mais de 100 anos que viram seus pais serem expulsos das terras, que foram expulsos quando crian\u00e7as, que enterraram seus filhos e netos, que tiveram suas filhas estupradas, que tiveram parte da fam\u00edlia que se suicidou e outra que adoeceu devido \u00e0 viol\u00eancia e que nunca ser\u00e3o indenizados por isso. Essas pessoas resistem orando, fazendo seus cantos sagrados para que seu povo sobreviva. Desse modo, \u00e9 imposs\u00edvel negar que hoje exista um genoc\u00eddio ind\u00edgena.<\/p>\n<p><strong>E sobre o tema do c<\/strong><strong>onflito <\/strong><strong>c<\/strong><strong>ultural?<\/strong><\/p>\n<p>O fazendeiro e o ind\u00edgena t\u00eam rela\u00e7\u00f5es diferentes com a terra. Enquanto que para o fazendeiro a terra \u00e9 produ\u00e7\u00e3o, dinheiro e peda\u00e7o de ch\u00e3o, para o ind\u00edgena a terra \u00e9 esp\u00edrito, cultura, fam\u00edlia, raiz e identidade. Ent\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio mediar o conflito entre esses dois entendimentos de o que significa a terra. Enquanto um v\u00ea a terra apenas como algo a ser explorado, a cultura ind\u00edgena v\u00ea a terra como algo a ser reverenciado, protegido, cultuado e preservado. E \u00e9 complicado encontrar pontes de di\u00e1logo entre duas culturas com valores diferentes. Vale a pena reafirmar que quando h\u00e1 demarca\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio, ele n\u00e3o se torna propriedade de um povo ind\u00edgena e sim da Uni\u00e3o. Ele \u00e9 propriedade do Brasil, de todos n\u00f3s. E ali acontece a preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais conjugada com a prote\u00e7\u00e3o de um patrim\u00f4nio cultural enorme que s\u00e3o nossos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<table border=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasildefato.com.br\/sites\/default\/files\/u1131\/14-08-15_daiara-tukano-reproducao-fb3.jpg?resize=362%2C362\" alt=\"\" width=\"362\" height=\"362\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Voc\u00ea mencionou a PEC 71, mas tamb\u00e9m existe nesse momento uma press\u00e3o da bancada ruralista para votar a PEC 215. Como esta proposta pode afetar ainda mais os direitos ind\u00edgenas? <\/strong><\/p>\n<p>A PEC 215 \u00e9 totalmente anticonstitucional. Ela quer passar do Executivo para o Legislativo o poder de determina\u00e7\u00e3o sobre as terras ind\u00edgenas. Mas o Legislativo demonstra diariamente n\u00e3o ter conhecimento do qu\u00e3o complexo \u00e9 o relacionamento ind\u00edgena com a sua terra de origem, al\u00e9m de subjulgar o jogo de poder dos grandes propriet\u00e1rios, dos grandes industriais, das grandes m\u00eddias e das grandes multinacionais. Ou seja, n\u00e3o s\u00e3o pessoas que est\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o de autonomia pol\u00edtica para poder se dar o trabalho de estudar a viv\u00eancia dos envolvidos em uma situa\u00e7\u00e3o de demarca\u00e7\u00e3o de terras. Essas pessoas t\u00eam um financiamento declarado e v\u00e3o trabalhar a favor do interesse de seus partidos e de seus financiadores, justamente aqueles que n\u00e3o querem ver o ind\u00edgena morando na sua terra e que atualmente est\u00e3o numa campanha escrachada de \u00f3dio contra os povos origin\u00e1rios. Tem at\u00e9 gente dizendo que queremos tomar Copacabana de volta. Isto \u00e9 uma completa alucina\u00e7\u00e3o coletiva. Al\u00e9m disso, a PEC 215 est\u00e1 se tornando um amontoado de v\u00e1rias propostas que atravessam quest\u00f5es j\u00e1 garantidas pela Constitui\u00e7\u00e3o e por tratados internacionais, como o direito \u00e0 consulta, o direito \u00e0 autodemarca\u00e7\u00e3o e o direito \u00e0 autoidentifica\u00e7\u00e3o. Uma PEC adiciona coisas e n\u00e3o anula aquilo que j\u00e1 est\u00e1 garantido.<\/p>\n<p><strong>Marco temporal<\/strong><\/p>\n<p>Outro ponto \u00e9 que est\u00e3o tentando incluir o marco temporal nessa proposta de texto final que foi apresentada na semana passada. O marco temporal foi uma artimanha criada pela AGU [Advocacia-Geral da Uni\u00e3o] para fazer de conta que n\u00e3o existe genoc\u00eddio e que os \u00fanicos territ\u00f3rios a ser demarcados s\u00e3o aquele que t\u00eam ocupa\u00e7\u00e3o permanente desde, pelo menos, 1988. Mas as pr\u00e1ticas de genoc\u00eddio s\u00e3o constantes desde a descoberta do Brasil e, obviamente, existe um \u00eaxodo ind\u00edgena, que \u00e9 o \u00eaxodo pela sobreviv\u00eancia. Se voc\u00ea est\u00e1 em sua casa e chega algu\u00e9m que arromba a sua porta, mata seu pai, estupra a sua m\u00e3e e diz que tamb\u00e9m vai te matar, o que voc\u00ea faz? Voc\u00ea corre. E isso \u00e9 a realidade da maioria das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas do Brasil, principalmente daquelas que ainda n\u00e3o est\u00e3o em territ\u00f3rio demarcado. \u00c9 o caso dos povos do sul, do sudeste e do centro-oeste, que s\u00e3o justamente os povos que est\u00e3o fora do territ\u00f3rio considerado Amaz\u00f4nia Legal.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia as a\u00e7\u00f5es por parte do Estado? Ainda existe a perspectiva da tutela? <\/strong><\/p>\n<p>Nossa constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica derrubou isso em 1988. O \u00edndio n\u00e3o \u00e9 mais considerado incapaz. Temos direito a votar, a casar, \u00e0 cidadania, entre outras coisas. O que temos hoje s\u00e3o atendimentos adequados \u00e0s especificidades da diversidade cultural dos povos origin\u00e1rios. O ind\u00edgena tem como l\u00edngua materna sua l\u00edngua origin\u00e1ria. Para preservar a sua cultura ele precisa de uma educa\u00e7\u00e3o diferenciada e para ter um atendimento m\u00e9dico de qualidade ele vai precisar de atendimento diferenciado. Ele fala outra l\u00edngua, mas n\u00e3o \u00e9 um estrangeiro, pois est\u00e1 em sua terra. Permitir que essa cultura morra \u00e9 um crime enorme. N\u00e3o podemos achar que os povos origin\u00e1rios devam adotar a cultura do colonizador para sobreviver.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m dos Guarani-Kaiow\u00e1s, quais outras etnias est\u00e3o amea\u00e7adas no Brasil? <\/strong><\/p>\n<p>O genoc\u00eddio ind\u00edgena \u00e9 generalizado. No Mato Grosso do Sul tamb\u00e9m h\u00e1 os Terena que sofrem o mesmo tipo de persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. No Brasil tamb\u00e9m \u00e9 muito simb\u00f3lica a luta dos Mundurukus, que est\u00e3o resistindo a Belo Monte. Os Kariri Xoc\u00f3s no nordeste enfrentam um dos genoc\u00eddios mais violentos que existem e eles resistem at\u00e9 hoje. Tem os Maxakali que, apenas no ano passado, foram v\u00edtimas de 100 assassinatos. A gente est\u00e1 dando apoio nesse momento \u00e0 luta Guarani-Kaiow\u00e1, porque consideramos que ela \u00e9 extremamente simb\u00f3lica. Nos consideramos todos uma fam\u00edlia, por isso \u00e9 importante que essa luta seja vencida para que todas as outras tamb\u00e9m possam ser. N\u00f3s fazemos parte da constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, da identidade nacional, do patrim\u00f4nio cultural, do patrim\u00f4nio humano vivo e se quiserem nos matar, n\u00f3s iremos enfrent\u00e1-los. Se retomarmos a hist\u00f3ria do nosso continente veremos que n\u00f3s somos as v\u00edtimas do maior genoc\u00eddio da humanidade. E essas pr\u00e1ticas s\u00e3o incessantes, institucionais, categ\u00f3ricas e cotidianas.<\/p>\n<p><strong>E o que pode ser feito pela sociedade civil e movimentos solid\u00e1rios \u00e0 causa ind\u00edgena para ajudar essas lutas? <\/strong><\/p>\n<p>Nosso grande desafio h\u00e1 dezenas de anos continua sendo a quest\u00e3o da visibilidade. Os movimentos sociais s\u00e3o oprimidos quando s\u00e3o invisibilizados. As pessoas se comovem com as situa\u00e7\u00f5es fora do territ\u00f3rio nacional- e, realmente, n\u00e3o \u00e9 uma coisa pequena, porque os conflitos no Oriente M\u00e9dio s\u00e3o realmente desastrosos e horr\u00edveis-, mas n\u00e3o podemos fechar os olhos para situa\u00e7\u00f5es semelhantes que acontecem no Brasil. O que pode ser feito \u00e9 dar visibilidade aos nossos problemas internos, pois ainda existem coisas que est\u00e3o ao alcance de nossas m\u00e3os e outras que n\u00e3o est\u00e3o. N\u00f3s devemos conhecer melhor a hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds, revisar a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria e identidade para podermos nos orgulhar da nossa raiz ind\u00edgena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista ao Brasil de Fato, Daiara Tukano fala sobre a mis\u00e9ria e as amea\u00e7as sofridas dentro dos territ\u00f3rios em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3217,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[80,93],"class_list":["post-3216","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conjuntura","tag-povos-indigenas","tag-racismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/daiara-tukano.jpg?fit=800%2C532&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-PS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3216","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3216"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3216\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3219,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3216\/revisions\/3219"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3217"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}