{"id":2969,"date":"2012-11-05T12:25:31","date_gmt":"2012-11-05T15:25:31","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=2969"},"modified":"2025-07-03T11:33:20","modified_gmt":"2025-07-03T14:33:20","slug":"democratizacao-da-comunicacao-o-que-isso-tem-a-ver-com-a-vida-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=2969","title":{"rendered":"Democratiza\u00e7\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o: o que isso tem a ver com a vida das mulheres?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Paula de Andrade, da equipe do SOS Corpo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a a\u00e7\u00e3o da sociedade civil pela democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, no Brasil, tem se renovado a partir da compreens\u00e3o e de pensar a comunica\u00e7\u00e3o no campo dos direitos humanos, reconhecendo-a como um importante e influente espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e cultura e, nesse sentido, constitui\u00e7\u00e3o de valores, comportamentos e pr\u00e1ticas sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00f3s, mulheres, esse processo passa tanto pela cr\u00edtica, elabora\u00e7\u00e3o e proposi\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados midi\u00e1ticos, como pela atua\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica, reivindicando o exerc\u00edcio da comunica\u00e7\u00e3o como parte dos nossos direitos humanos, reflexo de nosso lugar de sujeitos da transforma\u00e7\u00e3o social. Especificamente, a partir de processos do movimento feminista, e outros movimentos sociais, o direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m significa ter as condi\u00e7\u00f5es para materializar, em diversas m\u00eddias, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento resultante de sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, afirmar a comunica\u00e7\u00e3o como direito humano avan\u00e7a para al\u00e9m do conceito de democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, ampliando o sentido de liberdade de express\u00e3o. Significa reconhecer que \u00e9 direito da sociedade participar da produ\u00e7\u00e3o de sentido (e das disputas que essa participa\u00e7\u00e3o favorece). Participar tendo autonomia para, discursivamente, se inscrever nas arenas p\u00fablicas sem a media\u00e7\u00e3o e instrumentaliza\u00e7\u00e3o dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, mas levando-os em conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feminismo considera que a constru\u00e7\u00e3o do sujeito implica em criar possibilidades para a\u00e7\u00e3o criadora das mulheres que lhes \u00e9 roubada no cotidiano pelo confinamento dom\u00e9stico, pela dupla jornada de trabalho, pela viol\u00eancia, e por outras formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se passa no entorno da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial na forma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de poder. Por isso, n\u00e3o basta monitorar os discursos presentes. \u00c9 preciso observar o que n\u00e3o contam os meios de comunica\u00e7\u00e3o social e apontar as aus\u00eancias: de alternativas, mensagens e opini\u00f5es, sobretudo das mulheres e, entre todas, das mulheres negras e ind\u00edgenas, entendendo a ideia de participar como condi\u00e7\u00e3o para efetiva democratiza\u00e7\u00e3o institucional, informacional, econ\u00f4mica e cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na contemporaneidade, emergem experi\u00eancias alternativas para supera\u00e7\u00e3o do que se pode chamar \u201co sistema passivo de comunica\u00e7\u00e3o e democracia\u201d sob o qual vivemos, segundo Manuel Castells. Um sistema que isola as pessoas e as agrega em fun\u00e7\u00e3o dos que controlam o poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas n\u00e3o s\u00e3o suficientes, estruturalmente, para novas formas de comunica\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1ticas. Acreditamos que agregar sujeitos pelo direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das possibilidades de trilhar sa\u00eddas para os impasses da democracia atual, inclusive do ponto de vista socioecon\u00f4mico. A nosso ver, isso contribuir\u00e1 tamb\u00e9m para visibilizar novas formas de atuar politicamente e para supera\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o da pol\u00edtica estigmatizada. Entre outros aspectos, setores da m\u00eddia tradicional costumam associar pol\u00edtica ao bin\u00f4mio &#8216;corru\u00e7\u00e3o &amp; impunidade&#8217; ou, no m\u00e1ximo, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre &#8216;falhas na condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas &amp; crises econ\u00f4micas&#8217;, de uma forma descontextualizada, sem revelar for\u00e7as pol\u00edticas ou interesses econ\u00f4micos, como se a a\u00e7\u00e3o de governantes fosse uma a\u00e7\u00e3o de &#8216;gerentes&#8217; neutros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fortalecer a atua\u00e7\u00e3o do movimento de mulheres e demais movimentos sociais pelo direito humano \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental para enfrentarmos o atual cen\u00e1rio de uma generaliza\u00e7\u00e3o destrutiva sobre a pol\u00edtica, resgatando o sentido da democratiza\u00e7\u00e3o do poder, inclusive a partir do campo da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>No movimento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito do movimento de mulheres \u00e9 preciso constituir experi\u00eancias de atua\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, capazes de viabilizar e fortalecer formas pr\u00f3prias de comunica\u00e7\u00e3o e para emerg\u00eancia de novas ativistas nesse campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para maior efetividade, acreditamos ser necess\u00e1rio atuar com base em uma elabora\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-pol\u00edtica sobre o contexto da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil e no mundo, o que nos remete \u00e0 necessidade de formular processos que estimulem experi\u00eancias inovadoras, considerando a pluralidade e as singularidades de cada lugar, cada sujeito, e de cada m\u00eddia (as tradicionais e as mais recentes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreendemos que uma a\u00e7\u00e3o voltada para refor\u00e7ar este debate na sociedade, e em particular no movimento de mulheres, precisa colocar em curso iniciativas de forma\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o (a\u00e7\u00f5es em rede) que contribuam para essa elabora\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-pol\u00edtica e para a constru\u00e7\u00e3o de discurso midi\u00e1tico. Al\u00e9m de iniciativas espec\u00edficas que fortale\u00e7am a capacidade de divulga\u00e7\u00e3o das causas e a\u00e7\u00f5es das organiza\u00e7\u00f5es de mulheres e do pensamento feminista, em conex\u00e3o com uma est\u00e9tica cheia de ousadia e criatividade, pr\u00f3prias do feminismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso na perspectiva de mais mulheres feministas desenvolvendo novas formas de circular informa\u00e7\u00e3o, e \u2013 pela pr\u00f3pria inser\u00e7\u00e3o na comunica\u00e7\u00e3o, e por se firmarem (e serem reconhecidas) como produtoras e agregadoras de novos conte\u00fados \u2013 contribu\u00edrem para mudan\u00e7as rumo \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mulheres feministas com capacidade para se comunicar de forma mais colaborativa, com possibilidade de inovar, sem se prender a um centro, mas expandindo suas conex\u00f5es por serem tamb\u00e9m construtoras de \u201cinfovias\u201d: caminhos de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o. E assim, pelo fortalecimento obtido atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o, poderem tamb\u00e9m conquistar maior capacidade para sustentar suas organiza\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es coletivas em contextos adversos. Contextos semelhantes ao atual, marcados pelo conservadorismo, recrudescimento do fundamentalismo religioso, restri\u00e7\u00e3o do acesso aos bens comuns, perda de direitos e de prote\u00e7\u00e3o social no \u00e2mbito do trabalho, e restri\u00e7\u00e3o de recursos para a\u00e7\u00f5es em defesa dos direitos humanos.<\/p>\n<p><strong>Por onde estamos indo?<\/strong><\/p>\n<p>Na sociedade civil mundial, a novidade dos \u00faltimos anos \u00e9 o fortalecimento da movimenta\u00e7\u00e3o social a partir de uma multiplicidade de meios que ampliam a comunica\u00e7\u00e3o em rede, diferenciando-se da \u201ccomunica\u00e7\u00e3o de massas\u201d pelas possibilidades de intera\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o, descentraliza\u00e7\u00e3o, desintermedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conjuntura brasileira, como um dos exemplos de a\u00e7\u00f5es em rede para o fortalecimento desse debate no movimento de mulheres, temos a Carta aberta das mulheres em luta pelo direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, redigida a partir da articula\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es feministas, e que contou com a ades\u00e3o de muitas redes do movimento, o que propiciou sua divulga\u00e7\u00e3o em boletim do F\u00f3rum Social Mundial. Entre outros conte\u00fados, a <span style=\"color: #0000ff;\">Carta (1)<\/span> foi um dos subs\u00eddios retomados na Reuni\u00e3o de Mulheres pela Liberdade de Express\u00e3o e Por Mecanismos Democr\u00e1ticos da Regula\u00e7\u00e3o dos Meios de Comunica\u00e7\u00e3o, aberta hoje (05\/11\/12), em S\u00e3o Paulo, pelo Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o, em parceria com o Intervozes, o Geled\u00e9s e o SOS Corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o temos d\u00favida: dessa reuni\u00e3o devem sair algumas boas e novas a\u00e7\u00f5es em rede, voltadas para expans\u00e3o da campanha por liberdade de express\u00e3o. S\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres buscando igualdade e liberdade no campo da comunica\u00e7\u00e3o. Participe! Como diz o pessoal do Intervozes: <em>Levante sua voz!<\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">&#8211; &#8211; &#8211;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><em>(1)\u00a0<\/em><\/span><em>Este documento foi resultado da <span style=\"text-decoration: underline;\">Reuni\u00e3o Estrat\u00e9gica sobre Banda Larga e Marco Regulat\u00f3rio das Comunica\u00e7\u00f5es realizada pelo Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o, Geled\u00e9s \u2013 Instituto da Mulher Negra e Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/span>, com o apoio da Funda\u00e7\u00e3o Ford,\u00a0 nos dias 3 a 5 de junho de 2011, em S\u00e3o Paulo, que teve como objetivo a constru\u00e7\u00e3o de uma agenda feminista de atua\u00e7\u00e3o de curto e m\u00e9dio prazo para a incid\u00eancia no debate p\u00fablico e tamb\u00e9m na 3a Confer\u00eancia Nacional das Mulheres em torno desses dois temas: banda larga e marco regulat\u00f3rio das comunica\u00e7\u00f5es. Essa reuni\u00e3o contou com a participa\u00e7\u00e3o de ativistas e especialistas de v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds, de diversas organiza\u00e7\u00f5es feministas e do movimento pelo direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Veja mais detalhes no site: www.patriciagalvao.org.br<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; &#8211; &#8211; &#8211; &#8211;<br \/>\nPaula de Andrade \u00e9 jornalista, integra a coletiva de comunica\u00e7\u00e3o da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado originalmente em: <a href=\"http:\/\/www.intervozes.org.br\/direitoacomunicacao\/?p=27208\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Intervozes<\/a>, em 05\/11\/2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paula de Andrade, da equipe do SOS Corpo Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a a\u00e7\u00e3o da sociedade civil pela democratiza\u00e7\u00e3o da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3065,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,11],"tags":[69,160,50],"class_list":["post-2969","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lutafeminista","category-artigos","tag-amb","tag-democratizacao-da-comunicacao","tag-feminismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/avatarsosparaWP.jpg?fit=1124%2C625&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-LT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2969"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22612,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2969\/revisions\/22612"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}