{"id":2816,"date":"2015-06-28T11:41:07","date_gmt":"2015-06-28T14:41:07","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=2816"},"modified":"2015-07-29T20:23:04","modified_gmt":"2015-07-29T23:23:04","slug":"cultura-machista-ceifa-vida-das-mulheres-todos-os-dias-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=2816","title":{"rendered":"Cultura machista ceifa vida das mulheres todos os dias!"},"content":{"rendered":"<p>Por Analba Braz\u00e3o Teixeira (*)<\/p>\n<p><em>Filmes de terror? N\u00e3o. Apenas a vida real ao longo de cinco dias em nosso pa\u00eds. Todos estes\u00a0casos aconteceram entre os dias 19 a 24 de junho de 2015, e estas cinco mulheres entraram\u00a0nas estat\u00edsticas.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Uma das mais fortes ins\u00edgnias do movimento feminista \u00e9: o Machismo MATA. Nossa luta\u00a0existe para transformar esta realidade na qual, apesar de lutas de anos a fio, o machismo\u00a0continua a matar a n\u00f3s, mulheres. Matam a alma, a dignidade e finalizam tirando-nos o que\u00a0temos de mais caro: a vida!<\/p>\n<p>A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 a forma encarnada da domina\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o patriarcal e a\u00a0sua express\u00e3o se concretiza atrav\u00e9s da combina\u00e7\u00e3o das ideologias conservadoras, machistas\u00a0e mis\u00f3ginas. Materializam as rela\u00e7\u00f5es sociais de poder. O poder patriarcal sobre as mulheres,\u00a0que as atinge em v\u00e1rios contextos de suas vidas.<\/p>\n<p>A luta do movimento feminista tem sido incans\u00e1vel, por isso as formas cru\u00e9is\u00a0como as mulheres est\u00e3o sendo mortas &#8211; estupradas, violadas, trucidadas -, assustam-nos e \u00a0t\u00eam nos desafiado\u00a0cada dia mais a lutar para transformar esta realidade.<\/p>\n<p>Mesmo atuando nesta frente desde que entrei no movimento feminista \u2212 por sinal, entrei por\u00a0esta porta \u2212, movida pela indigna\u00e7\u00e3o diante da morte de uma companheira, \u00e9 duro constatar\u00a0que ainda me indigno da mesma forma. Ainda nos indignamos e continuaremos a nos indignar e\u00a0a lutar pelo fim desta viol\u00eancia, e contra estas cenas de terror que seguem se repetindo a cada dia.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana,\u00a0acompanhamos nos jornais alguns casos estarrecedores. E novamente nos erguemos para dizer que\u00a0n\u00e3o podemos deixar que imagens como essas das manchetes fiquem impunes. Foram dois\u00a0casos entre Para\u00edba e Pernambuco e outro no Esp\u00edrito Santo. Por que &#8220;elas&#8221; foram mortas e\u00a0estupradas? Por serem mulheres.<\/p>\n<p>Mas, os algozes queriam tamb\u00e9m ceifar-lhes a vida. Como se n\u00e3o bastasse todo o sofrimento,\u00a0o medo, a viola\u00e7\u00e3o dos seus corpos, ainda foram condenadas por eles. Tinham que morrer.\u00a0Ap\u00f3s os estupros, passaram por cima dos seus corpos com o carro de uma delas. E o bebe de 9 meses\u00a0que estava no carro foi jogado na mata. Gl\u00f3ria morreu. Caroline sobreviveu. Mas as marcas\u00a0do sofrimento nunca v\u00e3o cicatrizar. O que seria um assalto e roubo de carro, transformou-se em estupro e morte. Eram mulheres e o DESEJO de estupr\u00e1-las foi maior.<\/p>\n<p>Em Pernambuco, Maria Alice, criada por seu padastro desde os quatro anos de idade, aos 19 anos foi\u00a0estuprada e morta por ele. Seu algoz passou a desej\u00e1-la, segundo ele, quando ela completou\u00a016 anos. A menina passou a objeto do DESEJO de seu Padrasto, e este decidiu que iria\u00a0possuir o seu corpo, porque queria. Maria Alice j\u00e1 estava namorando e foi a\u00ed que o\u00a0sentimento de posse se agudizou e o Padrasto resolveu <strong>possu\u00ed-la<\/strong>. Matar o seu desejo\u00a0e\u00a0matar a sua v\u00edtima. Estuprou, assassinou e abandonou o corpo no canavial.<\/p>\n<p>Na Regi\u00e3o Metropolitana de Vit\u00f3ria, no Esp\u00edrito Santo, Mayara Silva de Jesus, 16 anos, foi morta a pauladas e esquartejada pelo seu \u201ccompanheiro\u201d no \u00faltimo dia 19 de junho.\u00a0A morte neste caso foi &#8220;motivada&#8221;, segundo o agressor, por suspeita de trai\u00e7\u00e3o. Mayara trocou\u00a0mensagens com um homem numa rede social e esta foi a sua senten\u00e7a de morte. O acusado\u00a0n\u00e3o \u201csuportou\u201d a suposi\u00e7\u00e3o de ser tra\u00eddo. E como em tantas hist\u00f3rias j\u00e1 contadas, lavou a sua\u00a0honra com o sangue da \u201ccompanheira\u201d.<\/p>\n<p>Aldenize Firmino da Hora (PE) 36 anos, desapareceu no \u00faltimo domingo 21 de junho e seu\u00a0corpo foi encontrado dentro de um balde, em 24 de junho, na casa em que seu companheiro\u00a0morava. Estes dois \u00faltimos casos configuram enredos repetitivos de assassinatos violentos\u00a0entre pessoas que tinham uma rela\u00e7\u00e3o afetivo-conjugal.<\/p>\n<p>Filmes de terror? N\u00e3o. Apenas a vida real ao longo de cinco dias em nosso pa\u00eds. Todos estes\u00a0casos aconteceram entre os dias 19 a 24 de junho de 2015, e estas cinco mulheres entraram\u00a0nas estat\u00edsticas.<\/p>\n<p>Os dados sobre a viol\u00eancia no pa\u00eds s\u00e3o gritantes e assustam ainda mais por sabermos que\u00a0este tipo de crime historicamente \u00e9 marcado pela subnotifica\u00e7\u00e3o. Segundo o IPEA (pesquisa\u00a0de 2013), 15 mulheres s\u00e3o mortas por dia no pa\u00eds. Estima-se que ocorram 527 mil estupros\u00a0no Brasil a cada ano. Estes casos tamb\u00e9m t\u00eam cor. O \u00edndice de mortes de mulheres negras\u00a0tem aumentado.<\/p>\n<p>Apesar de grandes conquistas contra o sil\u00eancio e a impunidade na aprova\u00e7\u00e3o da Lei Maria da\u00a0Penha e, mais recentemente, da do Feminic\u00eddio, a puni\u00e7\u00e3o dos agressores ainda demanda\u00a0mobiliza\u00e7\u00e3o social. Precisamos entender que as leis n\u00e3o findam em si mesmas. Este \u00e9 um\u00a0problema estrutural de uma cultura machista, racista e homo-lesbo-transf\u00f3bica.<\/p>\n<p>Se deixamos por conta da morosidade da justi\u00e7a e da falta de sensibiliza\u00e7\u00e3o do sistema, a\u00a0impunidade se perpetua. Temos que cobrar puni\u00e7\u00f5es, e de imediato. Em paralelo aos avan\u00e7os\u00a0nas legisla\u00e7\u00f5es, que precisam ser implementadas verdadeiramente, temos tamb\u00e9m que lutar\u00a0por uma transforma\u00e7\u00e3o das mentalidades de homens e mulheres. De toda a sociedade. \u00c9\u00a0preocupante o que vimos nesta \u00faltima semana: a orquestra\u00e7\u00e3o nas casas legislativas Brasil\u00a0afora para a retirada, nos Planos de educa\u00e7\u00e3o, do tema \u201cg\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o das mentalidades passa pela educa\u00e7\u00e3o. Sobretudo pelo ensino b\u00e1sico, na\u00a0escola. Esse processo de incid\u00eancia conservadora no ensino, sem qualquer justificativa\u00a0plaus\u00edvel e deslegitimando o pensamento cr\u00edtico de educadores comprometidos com mudan\u00e7as\u00a0na sociedade, leva ao recrudescimento de um pensamento tamb\u00e9m conservador, que acirra a\u00a0desigualdade e a discrimina\u00e7\u00e3o, impedindo a forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e jovens para a toler\u00e2ncia\u00a0e o respeito.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que \u00e9 repetitivo alardear sempre que o Brasil est\u00e1 em s\u00e9timo lugar entre os pa\u00edses onde\u00a0mais ocorrem assassinatos de mulheres? Ser\u00e1 que a popula\u00e7\u00e3o brasileira ainda n\u00e3o se deu\u00a0conta desta situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o consegue reconhecer que as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres\u00a0s\u00e3o estabelecidas sob c\u00f3digos desiguais de poder, que admitem a perspectiva de que\u00a0mulheres devem viver sob o mando de um dono? Esta mentalidade traz estas consequ\u00eancias\u00a0grav\u00edssimas. Ser\u00e1 que n\u00e3o conseguimos enxergar que as mulheres est\u00e3o sendo v\u00edtimas,\u00a0dentro e fora de casa? Que por maiores que sejam os avan\u00e7os que conquistamos, ainda n\u00e3o\u00a0temos o direito de ir e vir?<\/p>\n<p>Ler estas not\u00edcias e acompanhar estes casos nos cansa e nos maltrata. Mas n\u00e3o nos paralisa.\u00a0Nossa REVOLTA n\u00e3o permite que silenciemos. Temos cada vez mais convic\u00e7\u00e3o do quanto o\u00a0movimento feminista \u00e9 necess\u00e1rio na luta incessante pelo fim da viol\u00eancia contra as mulheres.<\/p>\n<p>Assim como \u00e9 necess\u00e1rio que esta luta n\u00e3o seja s\u00f3 nossa. Mas de toda a sociedade brasileira.\u00a0Temos que continuar indo para as ruas denunciar esta viol\u00eancia que assola o pa\u00eds e grava no\u00a0nosso corpo dor e revolta.\u00a0Iniciamos este texto-desabafo com uma ins\u00edgnia do movimento e terminamos com outra: POR\u00a0MIM, POR N\u00d3S E PELAS OUTRAS! Esta \u00e9 a nossa luta pelo fim da viol\u00eancia contra as\u00a0mulheres no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<h6><em>(*) Analba Braz\u00e3o Teixeira \u2013 Militante da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras e Educadora do SOS\u00a0Corpo &#8211; Instituto Feminista para a Democracia<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Analba Braz\u00e3o Teixeira (*) Filmes de terror? N\u00e3o. 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