{"id":19666,"date":"2024-03-27T16:12:56","date_gmt":"2024-03-27T19:12:56","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=19666"},"modified":"2025-07-03T15:56:53","modified_gmt":"2025-07-03T18:56:53","slug":"mudancas-climaticas-e-injusticas-territoriais-expressoes-do-racismo-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=19666","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e injusti\u00e7as territoriais: express\u00f5es do racismo ambiental"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>No \u00faltimo artigo da s\u00e9rie Mar\u00e7o de #lutafeminista, M\u00e9rcia Alves faz uma an\u00e1lise interseccional sobre os impactos das injusti\u00e7as socioambientais e as consequ\u00eancias do racismo ambiental na vida das mulheres.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>| Artigo de M\u00e9rcia Alves* | Edi\u00e7\u00e3o e Revis\u00e3o: Fran Ribeiro | Artes: Lara Buitron e Oy\u00e1 Design<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"800\" data-attachment-id=\"19667\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=19667\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?fit=1081%2C1351&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1081,1351\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"RacismoAmbiental\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?fit=240%2C300&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?fit=640%2C800&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?resize=640%2C800&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-19667\" style=\"width:464px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?w=1081&amp;ssl=1 1081w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Nas a\u00e7\u00f5es do movimento feminista em raz\u00e3o do 8 de Mar\u00e7o, Dia Internacional de Luta das Mulheres, o tema do enfrentamento ao racismo ambiental esteve presente como uma das lutas pela dimens\u00e3o que este crime assume na vida das mulheres, conectado \u00e0 dimens\u00e3o estrutural do racismo. E isso \u00e9 real, no campo, na cidade, nas \u00e1guas e nas florestas!<\/p>\n\n\n\n<p>Nos deparamos cotidianamente com as express\u00f5es do racismo ambiental e seus impactos em raz\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. S\u00e3o altera\u00e7\u00f5es na temperatura e no clima, que vem se complexificando nos \u00faltimos tempos como resultado de um modelo de desenvolvimento predat\u00f3rio, explorat\u00f3rio nos territ\u00f3rios e das riquezas naturais. Esse \u00e9 um problema mundial que atrav\u00e9s de empresas multinacionais promove interven\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios que contaminam o solo, as \u00e1guas, as florestas, impactando os modos de vida da popula\u00e7\u00e3o de forma desigual e diferente. Seja nas \u00e1reas urbanas ou rurais, s\u00e3o impactos que tem como consequ\u00eancia deslizamentos, enchentes, contamina\u00e7\u00f5es de rios e mares. Uma a\u00e7\u00e3o humana que incide, pela fa\u00e7anha do capital, sobre a vida nos territ\u00f3rios e que associada aos eventos naturais como as chuvas, torna-se um desastre socioambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos visualizar essas consequ\u00eancias nas ondas de calor com aumento da temperatura, na desertifica\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es no nordeste e sul do pa\u00eds, nas inunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos de encostas, enchentes, envenenamento de frutos e rios, dentre outros. E ao incidir nesse processo predat\u00f3rio \u00e0 luz de um modelo de \u201cdesenvolvimento\u201d desigual, as consequ\u00eancias afetam popula\u00e7\u00f5es que pela constru\u00e7\u00e3o social do racismo, moradores e moradoras de periferias urbanas, s\u00e3o majoritariamente de negros e negras, cerca de 56%<sup>1<\/sup> da popula\u00e7\u00e3o brasileira. 89%<sup>2<\/sup> da popula\u00e7\u00e3o brasileira vivem em \u00e1reas pobres e destas, 67% s\u00e3o moradoras de \u00e1reas perif\u00e9ricas \u2013 favelas, comunidades, ZEIS (Zonas Especiais de Interesse social) nas regi\u00f5es metropolitanas do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>E por que falamos de racismo ambiental? O racismo \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social que incide nas rela\u00e7\u00f5es sociais em suas diferentes dimens\u00f5es e o ambiental \u00e9 um desses campos onde visualizamos na vida concreta, a degrada\u00e7\u00e3o territorial diante da falta de investimento de recursos p\u00fablicos ou pela anu\u00eancia para realiza\u00e7\u00e3o de empreendimentos em diferentes escalas. Eles imprimem impactos nos territ\u00f3rios ocupados pela maioria de popula\u00e7\u00e3o negra, ind\u00edgena, tradicional \u2013 pescadores e pescadoras. O que demonstra que nestes espa\u00e7os onde se produzem danos e crimes ambientais que resultam em trag\u00e9dias, s\u00e3o lugares ocupados por pessoas que t\u00eam determinada cor e sexo. A partir de uma an\u00e1lise interseccional, \u00e9 poss\u00edvel perceber que o racismo ambiental est\u00e1 na vida real de mulheres negras e pobres moradoras de territ\u00f3rios precarizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Os crimes ambientais como Brumadinho, como o derramamento de petr\u00f3leo no litoral nordestino e as chuvas de norte ao sul do pa\u00eds cada vez mais volumosas s\u00e3o diretamente, consequ\u00eancias da explora\u00e7\u00e3o desmedida por empresas nacionais, multinacionais e grandes construtoras, que com suas interven\u00e7\u00f5es promovem altera\u00e7\u00f5es, com anu\u00eancia do estado, do desenho dos territ\u00f3rios, ampliando a presen\u00e7a de f\u00e1bricas, condom\u00ednios de luxo, pr\u00e9dios, gentrificando as cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso olhar o presente e compreender a nossa forma\u00e7\u00e3o social, que em se tratando da popula\u00e7\u00e3o negra no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, foi expulsa dos seus locais de trabalho e moradias. Sem uma pol\u00edtica estatal de apoio ou transi\u00e7\u00e3o, migraram para \u00e1reas urbanas e foram for\u00e7adas a reconstru\u00edrem modos de vida nas periferias das cidades, nas encostas, nos leitos dos rios. Essa dimens\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o social colonial-racista do Brasil \u00e9 uma chave de leitura para analisarmos a negritude que habita em locais com moradias prec\u00e1rias, sem \u00e1gua e saneamento ou coleta regular de lixo, sem pavimenta\u00e7\u00e3o de ruas, transporte prec\u00e1rio, sem o direito \u00e0 terra urbanizada. Em s\u00edntese \u00e9 o racismo ambiental pela a\u00e7\u00e3o do capital e do estado, que de forma perversa coloca para esta popula\u00e7\u00e3o a responsabilidade pelas consequ\u00eancias dos desastres ambientais por estarem morando em \u00e1reas de riscos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, termos o conceito de racismo ambiental como lente para analisarmos os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 fundamental, numa perspectiva s\u00f3cio-hist\u00f3rica, para desvelar o discurso de que os problemas e consequ\u00eancias da crise clim\u00e1tica s\u00e3o exclusivamente pela a\u00e7\u00e3o individual dos sujeitos com o meio ambiente. H\u00e1 um modelo de desenvolvimento em curso desde a coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que \u00e9 predat\u00f3rio, de explora\u00e7\u00e3o das riquezas e de corpo, sobretudo ind\u00edgenas e negros(as), de forma violenta. E essa rela\u00e7\u00e3o se reconfigura em tempos atuais atrav\u00e9s de empresas, donas do capital, que promovem a explora\u00e7\u00e3o dos bens comuns e naturais, sobre o pretenso discurso da sustentabilidade ambiental, mas que ao final promove o sequestro destas riquezas, promove danos \u00e0s terras produtivas e de maneira subjetiva, promove danos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que vive e tem modos de vida naquele local.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pa\u00eds que estrutura suas rela\u00e7\u00f5es na divis\u00e3o de classe, no racismo e no sexismo revela na sua din\u00e2mica territorial essas rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o violentas sobre corpos racializados e feminilizados. E o ambiental \u2013 como modos de vida \u2013 \u00e9 a materialidade, o concreto dessas rela\u00e7\u00f5es perversas que nega e naturaliza a pobreza urbana e rural que se configura nos territ\u00f3rios, seja pela precariedade dos servi\u00e7os sociais e p\u00fablicos urbanos, seja pela explora\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o dos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a> Essa realidade perversa do racismo ambiental \u00e9 enfrentada diariamente pela luta organizativa e \u00e9 secular, porque desde do processo de coloniza\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o deste pa\u00eds que essa quest\u00e3o se apresenta e se reconfigura no tempo. Nossa luta di\u00e1ria \u00e9 por um modelo de desenvolvimento menos predat\u00f3rio, compartilhado coletivamente pelo que se produz. Mas o que estrutura esse sistema \u00e9 a individualidade e o lucro. Por isso nossa luta \u00e9 todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*M\u00e9rcia Alves \u00e9 doutora em servi\u00e7o social, educadora e pesquisadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia. \u00c9 militante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e do F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco\/AMB.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>1. Dados do CENSO\/IBGE 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Dados da pesquisa do Instituto Locomotiva, em parceria com o Data Favela e a Centra \u00danica das Favelas (Cufa). Acesso em: <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/nacional\/cerca-de-8-da-populacao-brasileira-mora-em-favelas-diz-instituto-locomotiva\/\">https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/nacional\/cerca-de-8-da-populacao-brasileira-mora-em-favelas-diz-instituto-locomotiva\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________________<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo artigo da s\u00e9rie Mar\u00e7o de #lutafeminista, M\u00e9rcia Alves faz uma an\u00e1lise interseccional sobre os impactos das injusti\u00e7as socioambientais e as consequ\u00eancias do racismo ambiental na vida das mulheres. <\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":19667,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1,11,14],"tags":[1573,1580,702],"class_list":["post-19666","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lutafeminista","category-artigos","category-destaques","tag-8m2024","tag-racismo-ambiental","tag-territorio"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/RacismoAmbiental.png?fit=1081%2C1351&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-57c","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19666"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19666\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22720,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19666\/revisions\/22720"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/19667"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}