{"id":15065,"date":"2021-10-20T18:01:14","date_gmt":"2021-10-20T21:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=15065"},"modified":"2021-10-20T18:01:15","modified_gmt":"2021-10-20T21:01:15","slug":"o-caso-joyabaj-uma-performance-racista-e-patriarcal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=15065","title":{"rendered":"O Caso Joyabaj, uma performance racista e patriarcal"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Guatemala 2020: Uma audi\u00eancia em um julgamento de prov\u00edncia de um pa\u00eds empobrecido. V\u00e1rias mulheres ind\u00edgenas e l\u00edderes de organiza\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o acusadas de promover destrui\u00e7\u00e3o e desordem p\u00fablica ap\u00f3s um protesto. H\u00e1 fiscais, advogados, v\u00edtimas, int\u00e9rpretes, policiais, imprensa e assistentes: uma mistura de etnicidades, culturas, classes, g\u00eaneros e idiomas ind\u00edgenas. Por\u00e9m o sistema de justi\u00e7a \u00e9 colonial e, de antem\u00e3o, ignora e despreza os povos ind\u00edgenas e as mulheres.\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"372\" data-attachment-id=\"15066\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=15066\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?fit=1323%2C769&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1323,769\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Sem-titulo-14\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?fit=300%2C174&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?fit=640%2C372&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?resize=640%2C372&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-15066\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?resize=1024%2C595&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?resize=300%2C174&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?resize=768%2C446&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-titulo-14.jpg?w=1323&amp;ssl=1 1323w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Os processos judiciais abertos ao p\u00fablico s\u00e3o novos na Guatemala. A reforma judicial que instaurou o debate oral como n\u00facleo dos mesmos, data de 1994, quando se passou do sistema inquisitorial, escrito, ao debate oral acusat\u00f3rio, onde h\u00e1 exposi\u00e7\u00e3o de fatos, argumenta\u00e7\u00e3o contra e a favor. Gra\u00e7as a isso, pudemos presenciar v\u00e1rias das opini\u00f5es mais importantes da hist\u00f3ria recente e, hoje, em meio \u00e0 terceira onda de Covid-19, duas audi\u00eancias intercalares do Caso Joyabaj onde se imputam delitos a quatro mulheres k\u2019iche\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bJoyabaj ou Xol Ab\u2019aj (\u201cEntre pedras\u201d) \u00e9 um munic\u00edpio do departamento de Quich\u00e9 no planalto guatemalteco, com uma popula\u00e7\u00e3o de mais de cem mil habitantes, predominantemente (83%) ind\u00edgenas falantes do idioma k\u2019iche\u2019, dedicada a trabalhos do campo, com\u00e9rcio, servi\u00e7os e outros, com uma taxa de migra\u00e7\u00e3o das mais altas do pa\u00eds. Conhecida por seus tradicionais bailes do Pau Voador e da Cobra, foi cen\u00e1rio da viol\u00eancia estatal durante os anos da guerra contra-subversiva. Depois vieram os massacres nas aldeias e, posteriormente, a obriga\u00e7\u00e3o a integrar-se e apoiar as Patrulhas de Autodefesa Civil sob o comando do ex\u00e9rcito, que as instrumentalizou como frente de batalha contra as popula\u00e7\u00f5es locais. \u00c9 necess\u00e1rio lembrar que os xoyes tamb\u00e9m foram utilizados como m\u00e3o de obra para fazendas de caf\u00e9 que proliferaram a partir do s\u00e9culo XIX nas terras baixas e na costa, expulsando as comunidades. A pobreza e a extrema pobreza s\u00e3o outros tra\u00e7os dessa popula\u00e7\u00e3o, asfixiada pela desigualdade abismal que afeta de maneira brutal os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bO Caso Joyabaj, como ficou conhecido nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais um exemplo do uso da persegui\u00e7\u00e3o penal e da criminaliza\u00e7\u00e3o contra aqueles que se op\u00f5em aos abusos de funcion\u00e1rios, das empresas extrativistas e outras institui\u00e7\u00f5es que constantemente violam os direitos, sobretudo, dos povos ind\u00edgenas e das mulheres, com maior for\u00e7a. A defesa dos territ\u00f3rios, de rios e montanhas, dos idiomas, da mem\u00f3ria e da verdade, assim como dos corpos e da sexualidade, tornou-se motivos para que o Estado persiga, capture e at\u00e9 elimine l\u00edderes de movimentos diversos, nas diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bQuando caracterizo este processo como performance, o fa\u00e7o considerando o cen\u00e1rio onde se realiza, os personagens que interv\u00eam, os s\u00edmbolos, as rela\u00e7\u00f5es, os poderes, as palavras, as interpreta\u00e7\u00f5es e as representa\u00e7\u00f5es que ali s\u00e3o colocados em jogo e entrever\u00e3o por diferentes raz\u00f5es, compartilhando a participa\u00e7\u00e3o de um tribunal de prov\u00edncia em um pa\u00eds empobrecido. O conjunto que constitu\u00edmos e que ocupamos temporariamente esse n\u00e3o-lugar, para protagonizar, observar ou documentar a intera\u00e7\u00e3o de fiscais, advogados, v\u00edtimas, int\u00e9rpretes, policiais, imprensa e assistentes, \u00e9 uma mistura que configura etnicidades, culturas, classes, g\u00eaneros, de maneira complexa, atravessada por profundas brechas que nos impedem de nos aproximarmos e de nos compreendermos. N\u00e3o apenas pelos idiomas ou pelas diferentes posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas, mas pelas m\u00e1scaras e protetores faciais com que nos esbo\u00e7amos como prote\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria em uma zona vermelha de Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bComo dissemos, o processo se realiza em territ\u00f3rio K\u2019iche\u2019; as pessoas incriminadas falam esse idioma, t\u00eam cren\u00e7as, cosmovis\u00f5es e costumes pr\u00f3prios da referida cultura, mas todo o procedimento judicial, auspiciado e amparado pelo Estado da Guatemala, \u00e9 em espanhol ou \u201ccastilha\u201d, como \u00e9 chamado comumente. A partir desse lugar, vemos a injusti\u00e7a do sistema que viola o direito das pessoas de saberem de que est\u00e3o sendo acusadas, de se defenderem em seu idioma e, al\u00e9m disso, nega e desconhece as formas de justi\u00e7a ind\u00edgena que praticam nas comunidades, e impede a busca de solu\u00e7\u00f5es, impondo penas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bO sistema colonialista da Guatemala \u00e9 excludente porque impede a popula\u00e7\u00e3o de ser sujeito dessa justi\u00e7a que, de antem\u00e3o, ignora e despreza os povos ind\u00edgenas e as mulheres. Neste caso, embora as acusadas tenham contado com uma int\u00e9rprete que lhes traduzia ao ouvido o que ali se expunha, \u00e9 imposs\u00edvel traduzir os termos e estilos solenes com voc\u00e1bulos especializados, inintelig\u00edveis para o resto dos mortais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u200b<strong>Sebastiana Pablo<\/strong>, l\u00edder da organiza\u00e7\u00e3o que luta pelos direitos das vendedoras e dos vendedores do mercado de Joyabaj, tamb\u00e9m questionou os atos de corrup\u00e7\u00e3o no manejo dos recursos p\u00fablicos. \u00c9 analfabeta e n\u00e3o fala espanhol, vende produtos b\u00e1sicos no mercado. Nessa qualidade, e como autoridade ind\u00edgena, foi com a Associa\u00e7\u00e3o de Comerciantes \u00e0 prefeitura, no dia 24 de agosto de 2020, para entregar um documento com peti\u00e7\u00f5es ao prefeito <strong>Florencio Carrascoza<\/strong> que, diga-se de passagem, ocupa esse cargo pelo quarto mandato, foi apontado como corrupto em m\u00faltiplas ocasi\u00f5es e aparece na lista Engel publicada pela embaixada dos Estados Unidos como um funcion\u00e1rio que obstaculiza a justi\u00e7a, al\u00e9m de ser acusado de viol\u00eancia contra as mulheres. Dona <strong>Sebastiana<\/strong>, <strong>Petrona Siy<\/strong>, <strong>Micaela Sol\u00eds<\/strong> e <strong>Anastasia Mej\u00eda<\/strong> tamb\u00e9m foram capturadas no ano passado, acusadas de serem causadoras e participantes nas destrui\u00e7\u00f5es provocadas contra o edif\u00edcio municipal nessa ocasi\u00e3o, por parte de pessoas que n\u00e3o se sabe de onde vieram e que, apesar de serem identific\u00e1veis, n\u00e3o est\u00e3o sendo acusadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200b<strong>Anastasia Mej\u00eda Tiriquiz<\/strong> \u00e9 k\u2019iche\u2019, xoy, conhecida como comunicadora, fundadora de Xol Ab\u2019aj TV; \u00e9 Ad q\u2019ij, quer dizer, contadora dos dias ou conhecedora do calend\u00e1rio maia e defensora dos direitos humanos. Sua oposi\u00e7\u00e3o ao mencionado prefeito, suas den\u00fancias de atos il\u00edcitos, assim como a fiscaliza\u00e7\u00e3o do referido governo, tornaram-na alvo do \u00f3dio machista e racista, amparado na impunidade. Dessa maneira, <strong>Anastasia<\/strong> esteve presa durante 37 dias, junto a com a senhora <strong>Petrona Siy<\/strong>, parteira, autoridade ancestral, presidenta da associa\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas delas foram liberadas sob fian\u00e7a e choraram tristemente quando tiveram que sair, deixando sua companheira de infort\u00fanio <strong>Sebastiana Pablo<\/strong> na cadeia de Xela, sozinha, temerosa, maltratada, e que depois de onze meses de cativeiro, finalmente, conseguiu medidas alternativas para voltar para sua casa, com a condi\u00e7\u00e3o de ir a cada quinze dias para assinar um termo de responsabilidade, e sem poder sair dos limites do munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_b5a41ff3864d44d5abaa34b38b34de53~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_971%2Ch_614%2Cal_c%2Cq_85\/b45053_b5a41ff3864d44d5abaa34b38b34de53~mv2.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto gentileza de la autora1\/1 <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O sistema judicial na Guatemala raramente funciona como deveria. Segundo denunciou a Comiss\u00e3o Internacional contra a Impunidade na Guatemala, auspiciada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, existe mais ou menos 99% de impunidade nos casos apresentados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. \u00c9 sabido e foi denunciado que magistrados, ju\u00edzes e fiscais se alinharam e s\u00e3o parte das redes de corrup\u00e7\u00e3o que fizeram do Estado seu modo de vida e a estrutura id\u00f4nea para que os grupos criminosos atuem sem pudor e com toda a impunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O atraso daninho, os recursos dilat\u00f3rios, o abuso na apresenta\u00e7\u00e3o de amparos, a manipula\u00e7\u00e3o e a falsidade s\u00e3o alguns dos mecanismos que usualmente utilizam essas redes criminosas para que os processos mostrem v\u00edcios, desde que se apresentem e se prolonguem, ignorando o princ\u00edpio de prover justi\u00e7a r\u00e1pida e cumprida. Esse emaranhado de manobras e subterf\u00fagios se torna um labirinto de pesadelo para aquelas que s\u00e3o perseguidas e acusadas por sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de corrup\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, na Guatemala, v\u00e1rias mulheres e homens se encontram atr\u00e1s das grades, considerados como presos pol\u00edticos por defender os territ\u00f3rios, como \u00e9 o caso do professor <strong>Bernardo Caal<\/strong>, ativista q\u2019eqchi\u2019, que faz oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de mega hidroel\u00e9tricas no rio Cahab\u00f3n do munic\u00edpio de Alta Verapaz.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 vis\u00e3o do processo como performance, \u00e9 importante destacar que a presen\u00e7a de mulheres \u00e9 cada vez mais not\u00f3ria nestes cen\u00e1rios, tanto no papel de reclamantes e testemunhas contra os militares, violadores, criminosos, como acusadas de delitos; advogadas, fiscais, secret\u00e1rias, oficiais, ju\u00edzas s\u00e3o parte central do elenco. Embora quantitativamente a quantidade de mulheres aumenta, isso nem sempre corresponde a sua qualidade. Exemplo lament\u00e1vel disso \u00e9 a atual Fiscal Geral do MP, Consuelo Porras, a servi\u00e7o das redes de corrup\u00e7\u00e3o e escudeira do presidente e seu governo em atos il\u00edcitos, repudiada pela popula\u00e7\u00e3o que exige a sua ren\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como contraparte, h\u00e1 mulheres dignas, valentes, confi\u00e1veis, como as honor\u00e1veis ju\u00edzas <strong>Yassmin Barrios<\/strong> e <strong>\u00c9rika Aif\u00e1n<\/strong>, as ex-fiscais <strong>Claudia Escobar Mej\u00eda<\/strong> e <strong>Thelma Aldana<\/strong>, reconhecidas e valorizadas por seu correto desempenho e trajet\u00f3rias. Tamb\u00e9m no trabalho di\u00e1rio de preparar os casos, est\u00e3o envolvidas advogadas, comunicadoras, peritas, defensoras, lutando em um mar de podrid\u00e3o onde o risco de naufragar \u00e9 grande.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cNa luta pela transpar\u00eancia\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>A audi\u00eancia intercalar fixada para a sexta-feira, tr\u00eas de setembro de 2021, no Tribunal de Primeira Inst\u00e2ncia de Nebaj, um povoado localizado a 1900 metros sobre o n\u00edvel do mar, composto predominantemente por ind\u00edgenas ixiles, tem in\u00edcio com a retirada do caso do senhor <strong>Manuel Hern\u00e1ndez<\/strong>, um homem supostamente implicado, que faleceu recentemente. O tr\u00e2mite \u00e9 resolvido com a exposi\u00e7\u00e3o da certid\u00e3o de \u00f3bito. Logo, os fiscais do MP exp\u00f5em \u2013 de maneira torpe e mal intencionada \u2013 as razoes pelas quais acusam a jornalista Anastasia <strong>Mej\u00eda<\/strong>, cujos v\u00eddeos s\u00e3o utilizados como prova contra ela, e a senhora <strong>Petrona Siy<\/strong>, ambas acusadas de conspira\u00e7\u00e3o e atentado grave.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho que fazer um esfor\u00e7o enorme, do mesmo modo que outras pessoas presentes, para n\u00e3o rir, bater as pernas ou gritar diante dos argumentos falsos, subjetivos, absurdos, esgrimidos pelos acusadores: que suas testemunhas afirmam que <strong>Anastasia<\/strong> \u201cse fez passar por jornalista\u201d; que estava filmando no lugar dos fatos e que n\u00e3o fez nada para deter a multid\u00e3o; que continuou narrando o saque e queima de \u201cla muni\u201d<a href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\">[1]<\/a>, que n\u00e3o usava crach\u00e1 de identifica\u00e7\u00e3o como jornalista; que no v\u00eddeo sussurra algo&#8230; Dona <strong>Petrona<\/strong> \u00e9 acusada de ter planejado e organizado a manifesta\u00e7\u00e3o e do subsequente vandalismo, assim como de agredir uma policial municipal, embora nas tomadas exibidas se v\u00ea claramente que ela n\u00e3o est\u00e1 na cena nesse momento. Muito est\u00fapido e incr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_cdc421e4835d4dbe87eb5eda9d1e73db~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_874%2Ch_529%2Cal_c%2Cq_85%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/b45053_cdc421e4835d4dbe87eb5eda9d1e73db~mv2.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto gentileza de la autora1\/1 <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A equipe que acompanha as acusadas est\u00e1 composta por advogadas como <strong>Ana L\u00f3pez Sales<\/strong> e <strong>Ingrid Ajsivinac<\/strong>, fundadoras da Associa\u00e7\u00e3o Chomija\u2019 que re\u00fane advogadas ind\u00edgenas, que trabalharam e contribu\u00edram para o processo de maneira estrat\u00e9gica. As peritagens culturais, de jornalismo e de g\u00eanero, realizadas por especialistas, sustentam os argumentos que demonstram que Anastasia \u00e9 uma jornalista comunit\u00e1ria que levou informa\u00e7\u00e3o ao seu povo, cujo trabalho \u00e9 objetivo e respons\u00e1vel. Este conceito permite fundamentar a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o como um direito dos povos na defesa de seus territ\u00f3rios e, al\u00e9m disso, a situa como atora chave da democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>As advogadas <strong>Dinora Rodr\u00edguez<\/strong> e <strong>Floridalma Aquilar<\/strong>, com experi\u00eancia nessa regi\u00e3o do pa\u00eds, e que atuaram como defensoras na audi\u00eancia, foram contundentes ao apontar falhas da argumenta\u00e7\u00e3o, os v\u00edcios do processo, as contradi\u00e7\u00f5es dos fiscais e, inclusive, demonstraram que o prefeito provavelmente propiciou o ataque \u00e0 prefeitura, com a finalidade de que certos documentos que pudessem compromet\u00ea-lo fossem destru\u00eddos. S\u00e3o contrastantes a atitude, a conduta e o desempenho delas, frente a esses tipos grotescos que mostram desprezo pelas partes, e at\u00e9 dormem na audi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O juiz <strong>Gilmar Barrios<\/strong>, um advogado anteriormente questionado por sua atua\u00e7\u00e3o em processos de Direitos Humanos, que em sua interven\u00e7\u00e3o citou de mem\u00f3ria artigos e conven\u00e7\u00f5es internacionais, depois de haver concedido a palavra \u00e0s partes, faz uma ilustrada argumenta\u00e7\u00e3o \u2013 que nos mant\u00e9m na expectativa \u2013 para chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios nem meios suficientes que demonstrem que as acusadas cometeram os delitos imputados, e determina arquivamento do processo, com o qual n\u00e3o podem voltar a acus\u00e1-las por esses supostos delitos. Encerrado o caso, ambas ficam em total liberdade, como afirmou <strong>Anastasia<\/strong>, \u201cna luta pela transpar\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Reprimidos a vontade de aplaudir e celebrar, mas as l\u00e1grimas correm por conta pr\u00f3pria. A justi\u00e7a, essa institui\u00e7\u00e3o racista e patriarcal, funcionou a favor das companheiras. S\u00e3o estas as fa\u00edscas de esperan\u00e7a que nos fazem seguir trabalhando para que na Guatemala flores\u00e7a o bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edmos para a fria chuva de Nebaj e recebemos outra boa not\u00edcia: nessa mesma manh\u00e3, em um tribunal da Antiga Guatemala, foi determinada a pris\u00e3o preventiva contra um empres\u00e1rio acusado de viola\u00e7\u00e3o sexual, denunciado pela jovem <strong>Ver\u00f3nica Molina<\/strong>, apoiada por grupos e organiza\u00e7\u00f5es de mulheres que celebram este pequeno passo a favor da justi\u00e7a, repetindo #N\u00e3o\u00c9Nao e #EuAcreditoEmVoc\u00ea. Resta pela frente outro longo processo que pode, inclusive, deixar em liberdade o estuprador.<\/p>\n\n\n\n<p>De Nebaj at\u00e9 em casa, h\u00e1 mais de seis horas de estrada, se por sorte n\u00e3o houver algum acidente ou percal\u00e7o, comuns na Guatemala. Com minha companheira de viagem e colega jornalista, comentamos os detalhes da audi\u00eancia, celebramos a resolu\u00e7\u00e3o e enfrentamos com serenidade e paci\u00eancia os desafios de viajar por rodovias descuidadas que atravessam paisagens lindas. Nos animam as hist\u00f3rias compartilhadas pelas advogadas maias, nos estimula saber que mulheres de diferentes idades e proced\u00eancias, livrando grandes obst\u00e1culos, seguem lutando contra a impunidade. E apesar da pandemia e do fantasma que a acompanha, nos felicitamos e agradecemos por termos sido testemunhas de um momento hist\u00f3rico como este.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A performance de hoje terminou, n\u00e3o assim o caminho das mulheres por uma justi\u00e7a que ponha um ponto final na viol\u00eancia contra as mulheres. <strong>Anastasia<\/strong> deu in\u00edcio a um tr\u00e2mite de pr\u00e9-julgamento contra o prefeito, por viol\u00eancia contra as mulheres, processo que pode ficar engavetado por anos. Da mesma forma, ter\u00e1 que dar continuidade ao julgamento de dona <strong>Sebastiana Pablo<\/strong>, acusada de conspira\u00e7\u00e3o, um delito que pode ser imputado segundo a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo caso, parece-me admir\u00e1vel que pessoas criminalizadas e encarceradas, amea\u00e7adas e golpeadas, continuem em resist\u00eancia pela rota da defesa dos territ\u00f3rios, construindo uma Iximulew (\u201cTerra de Milho\u201d) onde todas as pessoas possam viver dignamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Antiga Guatemala, 6 de setembro de 2021<\/p>\n\n\n\n<p>[1] A prefeitura de Joyabaj<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_9824bde46e9d4c61bab75dd3aaeef440~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_874%2Ch_536%2Cal_c%2Cq_85%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/b45053_9824bde46e9d4c61bab75dd3aaeef440~mv2.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>El juez Gilmar Barrios. Intervenci\u00f3n sobre fotos de la autora1\/1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Caso Joyabaj, como ficou conhecido nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais um exemplo do uso da persegui\u00e7\u00e3o penal e da criminaliza\u00e7\u00e3o contra aqueles que se op\u00f5em aos abusos de funcion\u00e1rios, das empresas extrativistas e outras institui\u00e7\u00f5es que constantemente violam os direitos, sobretudo, dos povos ind\u00edgenas e das mulheres, com maior for\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":15066,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"O Caso Joyabaj, como ficou conhecido nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais um exemplo do uso da persegui\u00e7\u00e3o penal e da criminaliza\u00e7\u00e3o contra aqueles que se op\u00f5em \u00e0s viola\u00e7\u00f5es de direitos dos povos ind\u00edgenas e das mulheres, com maior for\u00e7a. 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