{"id":15055,"date":"2021-10-18T15:31:37","date_gmt":"2021-10-18T18:31:37","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=15055"},"modified":"2021-10-18T15:31:38","modified_gmt":"2021-10-18T18:31:38","slug":"terra-desprotegida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=15055","title":{"rendered":"Terra desprotegida"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"366\" data-attachment-id=\"14995\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=14995\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?fit=1280%2C733&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1280,733\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?fit=300%2C172&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?fit=640%2C366&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?resize=640%2C366&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-14995\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?resize=1024%2C586&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?resize=300%2C172&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?resize=768%2C440&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/WhatsApp-Image-2021-09-29-at-10.24.12-1.jpeg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption><em>Foto: Alass Deriva Journalismo e Fotografia<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Patriarcado, Estado e agroneg\u00f3cio avan\u00e7am sobre a vida de meninas e mulheres ind\u00edgenas no Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Por D\u00e9bora Britto* em <strong><a href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\/terra-desprotegida\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cuerpos Pol\u00edticos, na Revista Bravas<\/a><\/strong>, edi\u00e7\u00e3o n\u00ba15. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para os povos ind\u00edgenas do Brasil o genoc\u00eddio iniciado h\u00e1 mais de 521 anos, com a chegada dos colonizadores, nunca acabou. Dois casos brutais de feminic\u00eddio de meninas ind\u00edgenas brasileiras em agosto de 2021 s\u00e3o provas da continuidade da viol\u00eancia que atinge, sobretudo, as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Os casos exp\u00f5em como a coloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda uma amea\u00e7a \u00e0s vidas ind\u00edgenas, atualizada e posta em pr\u00e1tica de diversas maneiras: com as queimadas da Amaz\u00f4nia, a grilagem, minera\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia contra a mulher, o agroneg\u00f3cio e o envenenamento de rios e solos. Mas a rela\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia contra a mulher, desprote\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos origin\u00e1rios e destrui\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas faz mais v\u00edtimas entre os corpos mais fr\u00e1geis e desprotegidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na tarde do dia 4 de agosto, a adolescente da etnia Guarani Kaiow\u00e1 Daiane Gri\u00e1 Sales, de 14 anos, foi encontrada morta na Terra Ind\u00edgena do Guarita, no munic\u00edpio de Redentora, no interior do estado do Rio Grande do Sul. O corpo da menina estava nu, jogado no meio do mato pr\u00f3ximo a uma lavoura. Outros rastros da barb\u00e1rie cometida contra a jovem foram deixadas expostas: ela teve partes do corpo da cintura para baixo arrancadas e dilaceradas, com peda\u00e7os ao lado dela. A investiga\u00e7\u00e3o sobre o assassinato de Daiane segue sob sigilo de justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco dias depois, 9 de agosto, Ra\u00edssa da Silva Cabreira, de apenas 11 anos, foi violentada sexualmente por cinco homens e morta ao ser jogada de altura de mais de 20 metros, em uma pedreira abandonada&nbsp; pr\u00f3xima da aldeia Boror\u00f3, comunidade ind\u00edgena em Dourados, no Mato Grosso do Sul, onde a crian\u00e7a morava com a fam\u00edlia. De acordo com as investiga\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia, Raissa lutou contra os agressores e gritou por ajuda antes de ser jogada da pedreira. Cinco homens suspeitos confessaram o crime, um deles \u00e9 tio da menina, e foram presos.<\/p>\n\n\n\n<p>O intervalo de uma mesma semana e o requinte de crueldade geraram revolta dos povos ind\u00edgenas. O envolvimento de homens ind\u00edgenas e familiares tamb\u00e9m chamam aten\u00e7\u00e3o para um problema que segue ignorado pelas pol\u00edticas p\u00fablicas. Segundo o relat\u00f3rio Estupro no Brasil, dados coletados entre 2011 e 2014 revelam um alto \u00edndice de registros de estupro de ind\u00edgenas. O mesmo relat\u00f3rio [&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/nota_tecnica\/140327_notatecnicadiest11.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/nota_tecnica\/140327_notatecnicadiest11.pdf<\/a>&nbsp;] aponta que, em 2011, ind\u00edgenas sofreram 0,7% dos crimes registrados. Para crian\u00e7as, esse \u00edndice foi ainda maior: 0,9%.<\/p>\n\n\n\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o das vidas ind\u00edgenas segue ao lado da devasta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e da natureza. O assassinato das duas meninas, infelizmente, n\u00e3o s\u00e3o casos isolados. Desde que assumiu a presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro se tornou o inimigo n\u00famero um dos ind\u00edgenas. Seja&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-22\/salles-ve-oportunidade-com-coronavirus-para-passar-de-boiada-desregulacao-da-protecao-ao-meio-ambiente.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cpassando a boiada\u201d<\/a>&nbsp;para aprovar retrocessos na legisla\u00e7\u00e3o ou obstruindo as demarca\u00e7\u00f5es de Territ\u00f3rios Ind\u00edgenas (TIs), o Governo de Bolsonaro cumpriu o que prometeu na campanha eleitoral: n\u00e3o demarcou&nbsp; \u201c1 cm de terras ind\u00edgenas\u201d e paralisou demarca\u00e7\u00f5es j\u00e1 realizadas, devolvendo \u00e0&nbsp; Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (FUNAI) 27 processos de demarca\u00e7\u00e3o para revis\u00e3o, s\u00f3 no primeiro semestre de 2019, de acordo com relat\u00f3rio&nbsp;<a href=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=12973\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">As mulheres ind\u00edgenas na pandemia do Covid-19<\/a>, do Instituto Feminista para a Democracia SOS Corpo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando eu digo que o territ\u00f3rio representa algo de muito valor para n\u00f3s \u00e9 porque nos tiram o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade. Como n\u00f3s iremos viver \u00e0 beira da estrada ou em um espa\u00e7o onde os colonizadores chegaram e cada vez mais foram tirando os nossos direitos? Da nossa pr\u00f3pria casa, do nosso pr\u00f3prio territ\u00f3rio?&#8221;, questiona a lideran\u00e7a ind\u00edgena Telma Taurepang, Coordenadora Geral da Uni\u00e3o das Mulheres Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira (UMIAB).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_213f504082124b34aac7eb4204fd7158~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_767%2Ch_485%2Cal_c%2Cq_85%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/b45053_213f504082124b34aac7eb4204fd7158~mv2.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption> Performance \u201cCorpo Territ\u00f3rio &#8211; Cabe\u00e7a Bicho realizada en la II Marcha de Mulheres Indigenas &#8211; Foto: Patrick Raynaud1\/1 <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Segundo relat\u00f3rio do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI) de 2020, as viol\u00eancias contra os povos ind\u00edgenas est\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 disputa pela terra e v\u00eam aumentando rapidamente. Em 2019, foram registrados 276 casos de viol\u00eancia, mais que o dobro do observado em 2018, que foi de 110 situa\u00e7\u00f5es\/casos. Os registros s\u00e3o de 113 casos de assassinatos, 33 de amea\u00e7a de morte, 20 homic\u00eddios culposos, 24 tentativas de assassinatos e 10 casos de viol\u00eancia sexual contra mulheres ind\u00edgenas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00eas anterior ao Acampamento Luta pela Vida (22 a 28 de Agosto), a maior mobiliza\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas para impedir a aceita\u00e7\u00e3o do marco temporal, que definir\u00e1 o futuro das demarca\u00e7\u00f5es de Terras Ind\u00edgenas (TIs) no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 uma viol\u00eancia estrutural, que sai de todos os \u00e2ngulos. A gente vive em um pa\u00eds capitalista, que oprime os povos ind\u00edgenas e as mulheres s\u00e3o as mais atingidas, sem direito a nada. Sem direito at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3pria vida. Esse governo n\u00e3o est\u00e1 preocupado com os povos ind\u00edgenas, n\u00e3o est\u00e1 preocupado em trazer uma pol\u00edtica p\u00fablica para as mulheres ind\u00edgenas. Nenhum governo olhou. Cada dia mais fica dif\u00edcil viver sem as nossas terras&#8221;, relata Telma Taurepang.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o assassinato de Raissa, redes de apoio passaram a apoiar a fam\u00edlia da crian\u00e7a, que vive em condi\u00e7\u00f5es extremamente prec\u00e1rias, \u00e0 beira de uma rodovia, sem acesso \u00e0 \u00e1gua, a um teto e comida. A devasta\u00e7\u00e3o estava ali antes. Assim como a fam\u00edlia de Ra\u00edssa, milhares de ind\u00edgenas est\u00e3o jogados \u00e0 pr\u00f3pria sorte e na mira de diversas amea\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jaqueline Ku\u00f1a Aranduh\u00e1, do povo Kaiow\u00e1, mesmo territ\u00f3rio em que Ra\u00edssa vivia, no estado do Mato Grosso do Sul, lembra que o estado \u00e9 onde mais se fez experi\u00eancias com agrot\u00f3xicos. &#8220;As consequ\u00eancias das planta\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio em torno da comunidade s\u00e3o doen\u00e7as que afetam em sua maioria as mulheres. A diabetes, o corpo obeso, por\u00e9m desnutrido, c\u00e2ncer de \u00fatero, doen\u00e7as de pele s\u00e3o comuns&#8221;, relata. A reserva ind\u00edgena mais populosa do pa\u00eds \u00e9 um laborat\u00f3rio a c\u00e9u aberto de venenos do agroneg\u00f3cio.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que os povos ind\u00edgena passam hoje, todo mundo vai passar amanh\u00e3, alertam os povos ind\u00edgenas. &#8220;Nessa \u00e9poca de colheita voc\u00ea v\u00ea imensos caminh\u00f5es, um atr\u00e1s do outro, para pegar o milho que foi colhido. Voc\u00ea v\u00ea a imensa, infinita terra que n\u00e3o tem uma \u00e1rvore. Voc\u00ea sente o calor da terra. Os especialistas j\u00e1 falam que daqui a dez anos a terra vai cobrar. Daqui a dez anos vai ser imposs\u00edvel respirar o oxig\u00eanio&#8221;, alerta Jaqueline.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">LEMBREM O NOME DELAS&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Daiane Gri\u00e1 Sales Kaingang. Ra\u00edssa da Silva Cabreira Guarani-Kaiow\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um pedido das mulheres ind\u00edgenas \u00e9 de que lembremos os nomes das meninas. N\u00e3o permitir que sejam esquecidas &#8211; ou lembradas apenas pela viol\u00eancia que sofreram &#8211; \u00e9 uma forma de lutar pela mem\u00f3ria. Mesmo depois da morte, elas s\u00e3o parte da ancestralidade. Na cosmologia ind\u00edgena, s\u00e3o parte de um todo e s\u00e3o uma s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma foi encontrada numa planta\u00e7\u00e3o de soja, outra sequer teve direito de completar 15 anos. Al\u00e9m de terem sido mortas e violentadas, depois de tombarem nessa terra ainda s\u00e3o v\u00edtimas da fala do pr\u00f3prio homem, que disse que teve consentimento delas. Uma tentou de todas as formas se defender, mas ela foi jogada, calada, de um penhasco.\u00a0<strong>\u00c9 dif\u00edcil para n\u00f3s mulheres vivermos em territ\u00f3rios n\u00e3o demarcados porque os colonizadores est\u00e3o l\u00e1 e trazem consigo o feminic\u00eddio<\/strong>&#8220;, diz Telma Taurepang. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, a den\u00fancia e indigna\u00e7\u00e3o de mulheres ind\u00edgenas nas redes sociais foram respons\u00e1veis por romper com o silenciamento sobre os crimes na m\u00eddia e sociedade. Depois de intensa repercuss\u00e3o nos meios digitais, jornais de grande circula\u00e7\u00e3o noticiaram os casos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jaqueline Ku\u00f1a Aranduh\u00e1, que \u00e9 tamb\u00e9m conselheira da Grande Assembleia das Mulheres Kaiow\u00e1 e Guarani, mestranda em antropologia pela UFGD e m\u00e3e de Jajazinha, a revolta com o silenciamento e racismo da sociedade, e m\u00eddia se somam ao governo anti ind\u00edgena. O caso de Ra\u00edssa foi noticiado e distorcido, ela alerta. &#8220;O jornal \u00e9 reflexo de uma sociedade machista, racista que vem com esses discursos coloniais. Ela foi dilacerada. A gente acompanhou mais a fundo a fam\u00edlia e sabemos que s\u00e3o tantas Ra\u00edssas por a\u00ed. Mas quando explode um caso como esse na m\u00eddia, todos dizem que querem fazer algo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres ind\u00edgenas, desde cedo, est\u00e3o expostas a diferentes formas de viol\u00eancia, entre elas a explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes; a inexist\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas de apoio a v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica; a dificuldade do acesso \u00e0 sa\u00fade e atendimento em servi\u00e7os p\u00fablicos pela dificuldade do idioma; a retirada de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos pelo Estado por suposta neglig\u00eancia &#8211; geralmente associados a condi\u00e7\u00f5es de extrema pobreza; e o silenciamento de den\u00fancias de viol\u00eancia e ass\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Jaqueline, a Lei Maria da Penha n\u00e3o foi feita pensando na realidade das mulheres ind\u00edgenas. &#8220;O que significa uma mulher com medida protetiva dentro da comunidade? Quem vai garantir que o agressor, o abusador fique a alguns metros de dist\u00e2ncia? O que significa aquele peda\u00e7o de papel? J\u00e1 houve casos em que a mulher foi assassinada em frente a sua fam\u00edlia. A gente grita nos quatro cantos desse mund\u00e3o, vamos construir um par\u00e1grafo que atenda as mulheres ind\u00edgenas. Precisamos fazer algo por muitas outras meninas que est\u00e3o vivas&#8221;, provoca, sem esconder a revolta e urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_d9ab6034c35f4a699ea6bd7557c6aa1a~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_312%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/b45053_d9ab6034c35f4a699ea6bd7557c6aa1a~mv2.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas1\/1 <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A VIOL\u00caNCIA ESTRUTURAL VEIO COM INVASORES<\/h2>\n\n\n\n<p>Em um relat\u00f3rio de 2016, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas tamb\u00e9m apontou a gravidade da viol\u00eancia contra ind\u00edgenas no mundi: de acordo com os dados, estima-se que uma a cada tr\u00eas mulheres ind\u00edgenas sofrer\u00e1 estupro ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados do Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o (Sinan), do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, entre 2007 e 2017 foram registradas 8.221 notifica\u00e7\u00f5es de casos de viol\u00eancia contra mulheres ind\u00edgenas. Em um ter\u00e7o deles, o agressor \u00e9 uma pessoa pr\u00f3xima, como o ex ou atual companheiro. A viol\u00eancia localizada dentro das aldeias \u00e9 outro problema silenciado. As ind\u00edgenas v\u00eam questionando as estruturas que permitem a continuidade dessa viol\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 um trabalho simples.<\/p>\n\n\n\n<p>Em refer\u00eancia a Rita Segato e Julieta Paredes, Elisa Pankararu, ind\u00edgena professora, mestre em antropologia e coordenadora da APOINME (Articula\u00e7\u00e3o dos Povos e Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas do Nordeste, Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo), resgata a import\u00e2ncia do entroncamento patriarcal e de outro tipo de v\u00edrus, o patriarcal, disseminado pelos invasores das terras brasileiras. &#8220;Se faz necess\u00e1rio que n\u00f3s mulheres estejamos \u00e0 frente da luta, e sempre estivemos, para pontuar que o machismo, racismo e a misoginia n\u00e3o pertencem \u00e0 nossa cultura. \u00c9 parte de um entroncamento patriarcal que vem com o colonizador&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">II MARCHA DAS MULHERES IND\u00cdGENAS &#8211; REFLORESTAR MENTES E CURAR A TERRA<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a pandemia da covid-19,\u00a0 Jaqueline Ku\u00f1a Aranduh\u00e1 lembra que as ind\u00edgenas sequer tiveram direito de ficar em casa. &#8220;N\u00e3o tivemos o privil\u00e9gio de ficar em casa porque tinham muitas fam\u00edlias com fome, muitas companheiras precisando de socorro. E n\u00f3s colocando nossos corpos para chegar onde o estado n\u00e3o chega. Nesse meio muitas de n\u00f3s partiram&#8221;. Nem por isso a luta \u00e9 menos importante. Pelo contr\u00e1rio, o chamado vem crescendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Movidas pelo desejo de transformar a realidade dos povos ind\u00edgenas brasileiros, as mulheres foram protagonistas na mobiliza\u00e7\u00e3o de outro momento hist\u00f3rico de luta: a II Marcha de Mulheres Ind\u00edgenas, que aconteceu entre os dias 7 e 11 de setembro de 2021. &#8220;Mulheres origin\u00e1rias: Reflorestando mentes para a cura da Terra&#8221; foi o lema sob o qual mais de 6 mil mulheres de 170 diferentes povos se reuniram em Bras\u00edlia. Depois de muita tens\u00e3o nos primeiros dias por conta das amea\u00e7as de grupos bolsonaristas, defensores do projeto de destrui\u00e7\u00e3o do Estado, negacionismo e racismo, as mulheres realizaram uma grande marcha pelas ruas da capital pol\u00edtica brasileira no dia 10, pressionando os poderes p\u00fablicos nacionais pela demarca\u00e7\u00e3o das terra ind\u00edgenas, contra o avan\u00e7o da viol\u00eancia do agroneg\u00f3cio, minera\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es ilegais nos territ\u00f3rios dos povos origin\u00e1rios. A prote\u00e7\u00e3o da Terra, do territ\u00f3rio e dos corpos das meninas e mulheres ind\u00edgenas est\u00e3o conectados com a defesa da pr\u00f3pria fonte da vida, segundo a cosmologia ancestral ind\u00edgena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O territ\u00f3rio \u00e9 nosso corpo, nosso esp\u00edrito. Tem tudo a ver com o cuidado com a vida e com a m\u00e3e terra. Esses dois casos b\u00e1rbaros v\u00eam para a pauta da marcha e tem que vir. A gente n\u00e3o pode ver a viol\u00eancia contra nossos povos como literatura, como m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o, como neglig\u00eancia. Tem que ir nas estruturas, \u00e9 racismo mesmo. E a face mais perversa do projeto de genoc\u00eddio ind\u00edgena \u00e9 contra as mulher&#8221;, diz Elisa Pankararu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O racismo tem vi\u00e9s cosmol\u00f3gico, vem com o fundamentalismo religioso, crist\u00e3o, patriarcal. Como diz Ailton Krenak, esses vizinhos est\u00e3o doentes, est\u00e3o com a mente polu\u00edda. \u00c9 preciso reflorestar, pois eles est\u00e3o doentes, n\u00e3o est\u00e3o conseguindo enxergar&#8221;. Ela convida os povos ind\u00edgenas, mulheres negras, brancas e de outras etnias a resistirem e lutarem junto a elas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O chamado das mulheres ind\u00edgenas \u00e9 um para romper com o mundo capitalista e patriarcal. \u00c9 preciso resistir para existir, reflorestar e curar a sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_28b6fe86e810488eb901ca70efa7c39e~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_260%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/b45053_28b6fe86e810488eb901ca70efa7c39e~mv2.webp?resize=640%2C169&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"169\"\/><figcaption> to: Patrick Raynaud1\/1 <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>*D\u00e9bora Britto: jornalista antirracista, mulher negra e feminista, ativista pelos direitos huamnos e direito humano \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Reportagem especial para Revista BRAVAS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patriarcado, Estado e agroneg\u00f3cio avan\u00e7am sobre a vida de meninas e mulheres ind\u00edgenas no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":14995,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Patriarcado, Estado e agroneg\u00f3cio avan\u00e7am sobre a vida de meninas e mulheres ind\u00edgenas no Brasil. 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