{"id":14625,"date":"2021-07-07T14:23:20","date_gmt":"2021-07-07T17:23:20","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=14625"},"modified":"2021-07-07T14:23:21","modified_gmt":"2021-07-07T17:23:21","slug":"parem-de-nos-matar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=14625","title":{"rendered":"Parem de nos matar!"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">Parem de nos matar!<\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em><a href=\"https:\/\/revistacontinente.com.br\/edicoes\/247\/parem-de-nos-matar-\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">No Brasil pand\u00eamico, junto \u00e0 alarmante quantidade de mortes pela Covid-19, tivemos outra estat\u00edstica tr\u00e1gica: o aumento de feminic\u00eddios<\/a><\/em><\/h2>\n\n\n\n<p>TEXTO <strong>LUCIANA VERAS<\/strong> | OBRAS <strong>L\u00cdVIA AQUINO<\/strong> | <strong>REVISTA CONTINENTE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"426\" data-attachment-id=\"14627\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=14627\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?fit=1222%2C813&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1222,813\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?fit=640%2C426&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-14627\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?resize=1024%2C681&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?resize=768%2C511&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?w=1222&amp;ssl=1 1222w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Obra &#8216;Gritemos&#8217;. Foto: Aline Canassa (MAP\/FAAP)\/ Divulga\u00e7\u00e3o <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Mirella<\/strong> <strong>n\u00e3o compareceu ao trabalho<\/strong> na manh\u00e3 de uma segunda-feira de mar\u00e7o de 2004 e isso alertou a empresa onde ela trabalhava, em S\u00e3o Paulo, que ent\u00e3o ligou para sua fam\u00edlia, no Recife, para indagar: alguma not\u00edcia da funcion\u00e1ria dedicada que at\u00e9 ent\u00e3o nunca faltara a um \u00fanico compromisso profissional? \u00c2ngela estava em B\u00fazios, no litoral do Rio de Janeiro, para as festividades de fim de ano, mas, no pen\u00faltimo dia de 1976, decidiu terminar seu namoro, que durava poucos meses. Daniella havia sa\u00eddo das grava\u00e7\u00f5es no est\u00fadio da emissora onde atuava, na capital carioca, em uma noite de dezembro de 1992, mas nunca chegou em casa. Isabel pediu \u00e0 amiga Socorro para acompanh\u00e1-la em uma conversa com o ex-marido, com quem precisava discutir os pormenores do desenlace a respeito de um empreendimento comercial, no final de 2019, no interior de um estado do sudeste brasileiro.<br \/><br \/>Mirella Bezerra de Melo Martins morreu em 22 de mar\u00e7o; \u00c2ngela Maria Fernandes Diniz, em 30 de dezembro. Causa das mortes: disparos por arma de fogo perpetrados por homens com quem haviam se relacionado \u2013 respectivamente, Rog\u00e9rio Gomes de Faria e Raul Fernando do Amaral Street. Daniella Ferrante Perez Gazolla foi apunhalada v\u00e1rias vezes por Guilherme de P\u00e1dua Thomaz, ator com quem contracenava na novela <em>De corpo e alma<\/em>, e pela esposa dele, Paula Nogueira de Almeida Thomaz. Isabel e Socorro, nomes fict\u00edcios, hoje vivem nas lembran\u00e7as de quem as conheceu e nos autos processuais de uma vara criminal: faleceram em decorr\u00eancia de severas queimaduras, ocasionadas ap\u00f3s o ex-marido de Isabel atear fogo a um colch\u00e3o e coloc\u00e1-lo em frente \u00e0 porta do banheiro onde as amigas haviam se refugiado t\u00e3o logo o homem, violento, come\u00e7ou a espancar a ex-mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com um transeunte que as socorreu quando as duas fugiram do inc\u00eandio, testemunha ouvida na primeira audi\u00eancia deste caso, transcorrida em outubro de 2020, como o colch\u00e3o era composto por um material de alta inflamabilidade, a pele das v\u00edtimas parecia \u201cestar cozida\u201d, desprendendo-se dos ossos. \u00c2ngela levou quatro balas no rosto. Daniella foi atingida com 18 perfura\u00e7\u00f5es no pesco\u00e7o, no pulm\u00e3o e no cora\u00e7\u00e3o \u2013 primeiro, acreditou-se que por uma tesoura, mas depois constatou-se que por um punhal. E Mirella teve seu corpo achado dias depois. O criminoso, que chegara a rezar junto aos pais da pernambucana, foi preso em junho de 2004, acusado n\u00e3o apenas de homic\u00eddio, como atestam os termos do processo, mas tamb\u00e9m de furto: \u201csubtraiu, para si, documentos e telefone celular da v\u00edtima, tentando ainda subtrair valores que estavam depositados em seu nome\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres n\u00e3o apenas <em>morrem<\/em> no Brasil: elas s\u00e3o assassinadas, trucidadas, aniquiladas, massacradas. Na maioria desses casos, com crueldade, como se o corpo fosse um alvo a ser conspurcado com \u00f3dio. S\u00e3o esfaqueadas em uma pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o, como Vyt\u00f3ria Motta, atacada em Niter\u00f3i, no in\u00edcio de junho, por um colega; em um estacionamento, como Viviane Vieira do Amaral Arronenzi, morta na Barra da Tijuca, em dezembro de 2020, pelo ex-marido e diante das tr\u00eas filhas do casal; ou durante uma partida de jogo <em>online<\/em>, como Ingrid Bueno, em Pirituba, na capital paulista, cuja morte foi propagada pelo pr\u00f3prio assassino em v\u00eddeo compartilhado em f\u00f3runs de mensagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas n\u00e3o apenas falecem, mas t\u00eam sua exist\u00eancia abreviada com f\u00faria. S\u00e3o asfixiadas e descartadas, como Patr\u00edcia Roberta Gomes, que saiu de Caruaru at\u00e9 Jo\u00e3o Pessoa para conhecer um rapaz com quem conversava via aplicativo, em abril, cujo corpo foi encontrado em um saco pl\u00e1stico; Emelly Nayane da Silva, esganada em Paulista, na regi\u00e3o metropolitana do Recife, em fevereiro, pelo ex-marido, com quem tinha um filho; e Tatiane Spitzner, que o marido jurou ter despencado da sacada do apartamento, em julho de 2018, em Guarapuava, no Paran\u00e1, mas que foi por ele assassinada \u2013 como apontou o laudo da aut\u00f3psia, por \u201casfixia mec\u00e2nica\u201d, e como evidenciam imagens em v\u00eddeo de agress\u00f5es que sofreu no elevador. Luis Felipe Manvailer foi condenado a 31 anos, 9 meses e 18 dias de pris\u00e3o por um tribunal do j\u00fari em maio.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas s\u00e3o atravessadas por tiros, como Luciene Garra, em Ca\u00e7apava do Sul, no Rio Grande do Sul, em outubro de 2020; Marley Dias, que tombou na sua pr\u00f3pria casa, em janeiro deste ano, em Sobradinho, no Distrito Federal; e Eliane Siolim, alvejada com pelo menos 17 proj\u00e9teis, em janeiro de 2021, em Ponta Por\u00e3, no Mato Grosso do Sul. Em comum, esses tr\u00eas casos possuem dois fatores entristecedores, por\u00e9m comuns no Brasil: quem matou foram os maridos, ou ex-companheiros, que se suicidaram em seguida.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <em>Constitui\u00e7\u00e3o Federal do Brasil<\/em>, promulgada em 1988, o artigo 5\u00ba do cap\u00edtulo I \u2013 Dos direitos e deveres individuais e coletivos \u2013 define: \u201cTodos s\u00e3o iguais perante a lei, sem distin\u00e7\u00e3o de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no pa\u00eds, a inviolabilidade do direito \u00e0 vida, \u00e0 liberdade, \u00e0 igualdade, \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 propriedade\u201d. Na pr\u00e1tica, o cotidiano de uma na\u00e7\u00e3o da qual machismo e misoginia s\u00e3o componentes ontol\u00f3gicos nos leva a crer que os brasileiros, sim, esses com o \u201cO\u201d no final para demarcar bem o g\u00eanero, t\u00eam mais direitos, pois a eles caberia a pr\u00e1tica, muitas vezes impune, de uma viol\u00eancia descomunal contra as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>A julgar pelas estat\u00edsticas, pode-se estender o racioc\u00ednio aos homens da Am\u00e9rica Latina. Dados disponibilizados pela plataforma EVA \u2013 Evid\u00eancias sobre viol\u00eancias e alternativas para mulheres e meninas, lan\u00e7ada pelo Instituto Igarap\u00e9 em 25 de novembro \u2013 Dia Internacional para a elimina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher \u2013 de 2019, constatam: matar mulheres \u00e9 end\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom frequ\u00eancia, mulheres representam as principais v\u00edtimas de todos os tipos de viol\u00eancia, com exce\u00e7\u00e3o do homic\u00eddio. Adicionalmente, assassinatos de mulheres costumam ser a fase final de uma sucess\u00e3o de agress\u00f5es. EVA \u00e9 uma plataforma de visualiza\u00e7\u00e3o que inclui conte\u00fado relevante para informar pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a preven\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra mulheres na Am\u00e9rica Latina. A ferramenta mapeia casos de diversos tipos, inicialmente, em tr\u00eas pa\u00edses: Brasil, Col\u00f4mbia e M\u00e9xico\u201d, informa o <em>site<\/em> do Igarap\u00e9, \u201cuma institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, independente e apartid\u00e1ria, com sede no Rio de Janeiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de 25 mil mulheres foram assassinadas no M\u00e9xico entre 2010 e 2018; na Col\u00f4mbia, foram 10,8 mil, das quais, em 2018, 43% tinham entre 15 e 29 anos. No Brasil, foram 42 mil \u2013 um n\u00famero quase quatro vezes maior do que o pa\u00eds vizinho e 65% maior do que o pa\u00eds da Am\u00e9rica Central. \u00c9 certo que nossa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 maior \u2013 temos quase 212 milh\u00f5es de habitantes, em cotejo aos 126 milh\u00f5es e aos 50 milh\u00f5es, respectivamente, que moram em solos mexicano e colombiano. Por\u00e9m, os n\u00fameros assustam. S\u00e3o as <em>Mulheres empilhadas<\/em>, como explicita o t\u00edtulo do livro mais recente da escritora Patr\u00edcia Melo, lan\u00e7ado em 2019 pela editora Leya, ou as <em>Garotas mortas<\/em>, para aludir \u00e0 obra de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o concebida pela portenha Selva Almada em 2014 (publicada no Brasil pela Todavia em 2018).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu tinha 13 anos e, naquela manh\u00e3, a not\u00edcia da garota morta me chegou como uma revela\u00e7\u00e3o. Minha casa, a casa de qualquer adolescente, n\u00e3o era o lugar mais seguro do mundo. Voc\u00ea podia ser morta dentro da sua pr\u00f3pria casa. O horror podia viver sob o mesmo teto\u201d, recorda Selva em <em>Garotas mortas<\/em>, a prop\u00f3sito do caso de Andrea Danne, que ocorreu em uma cidade pr\u00f3xima \u00e0 da fam\u00edlia da autora. \u201cEu n\u00e3o sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples fato de ser mulher, mas tinha escutado hist\u00f3rias que, com o tempo, fui ligando umas \u00e0s outras. Casos que n\u00e3o terminavam com a morte da mulher, mas em que ela era objeto da misoginia, do abuso, do desprezo\u201d, complementa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMatar mulheres \u00e9 um crime democr\u00e1tico, pode-se dizer\u201d, atesta a narradora de <em>Mulheres empilhadas<\/em>. \u201cEles matam porque gostam de matar mulheres. Da mesma forma que gostam de pescar ou jogar futebol. \u00c9 claro que eles n\u00e3o nascem, assim, com desejo de matar mulheres. Alguns at\u00e9 nascem, os psicopatas. Mas os psicopatas s\u00e3o a elite dos assassinos. J\u00e1 nascem prontos. A grande massa oper\u00e1ria de assassinos, digo, a maioria, tem que aprender o \u00f3dio, antes de sair matando por a\u00ed\u201d, delineia a personagem sem nome, uma advogada que, na trama, ap\u00f3s ser agredida pelo namorado em uma festa, vai at\u00e9 o Acre para participar de um mutir\u00e3o jur\u00eddico para acelerar o julgamento de casos de feminic\u00eddio. \u201cNada mais f\u00e1cil do que aprender a odiar as mulheres. O que n\u00e3o falta \u00e9 professor\u201d, compreende. A propaganda, a cultura, o mercado, a pornografia\u2026 \u201cO pai ensina. O Estado ensina. O sistema legal ensina\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistacontinente.com.br\/public\/uploads\/data\/files\/Livia-Aquino-Vermelho_A.jpg?resize=640%2C345&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"345\"\/><br \/>Vermelho como palavra ainda \u00e9 uma cor fantasma<em>. Foto: L\u00edvia Aquino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1603, Felipe II era rei da Espanha e de Portugal \u2013 em terras lusas, reinava como Felipe I \u2013 e normatizou seu c\u00f3digo de conduta por meio das <em>Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas<\/em>. Durante dois s\u00e9culos, o <em>Livro V<\/em> de tais ordena\u00e7\u00f5es era a lei no ent\u00e3o Brasil col\u00f4nia, pelo Brasil imp\u00e9rio e nos primeiros anos ap\u00f3s o Brasil declarar sua independ\u00eancia. S\u00f3 caducou com a <em>Constitui\u00e7\u00e3o de 1824<\/em>, que determinava a elabora\u00e7\u00e3o de um c\u00f3digo civil e criminal. O <em>C\u00f3digo Criminal<\/em> surgiu em 1830; o <em>Civil<\/em>, apenas em 1916. De acordo com Jos\u00e9 Henrique Pierangeli em<em> C\u00f3digos penais do Brasil: evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/em> (Javoli, 1980), o veredicto das <em>Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas <\/em>com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres era perempt\u00f3rio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE toda mulher, que fazer adult\u00e9rio a seu marido, morra por isso. E se ella para fazer o adult\u00e9rio por sua vontade se f\u00f4r com algu\u00e9m de caza de seu marido, ou donde a seu marido tiver, se o marido della querelar, ou a accusar, morra morte natural\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte natural era o enforcamento. Mais adiante, as <em>Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas <\/em>cristalizam os direitos masculinos, se a mulher ousar cometer adult\u00e9rio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c(\u2026) n\u00e3o somente poder\u00e1 o marido matar sua mulher e o adultero, que achar com ella em adult\u00e9rio, mas ainda os p\u00f3de licitamente matar, sendo certo que lhe cometter\u00e3o adult\u00e9rio; e entendendo assi provar, e provando depois o adult\u00e9rio per prova licita e bastante conforme \u00e1 Direito, ser\u00e1 livre sem pena alguma, salvo nos casos sobreditos, onde ser\u00e3o punidos segundo acima dito he\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, macho, fique \u00e0 vontade para imaginar sua esposa como posse e chacina-la \u00e0 vontade, do jeito que lhe apetecer melhor \u2013 no s\u00e9culo XVII, quando isso lhe era permitido pela legisla\u00e7\u00e3o vigente, ou no s\u00e9culo XXI, quando a sociedade sustenta que a infidelidade masculina \u00e9 praxe e que mulheres que traem merecem puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAt\u00e9 hoje, quando falamos do corpo feminino, parece que os homens andam com um controle remoto na m\u00e3o para controlar a sexualidade da sua mulher\u201d, observa a antrop\u00f3loga Analba Braz\u00e3o, da equipe do SOS Corpo \u2013 Instituto Feminista para a Democracia e integrante do <em>F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco e da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras<\/em>. \u201cN\u00e3o mudou muita coisa, talvez a forma como as mulheres v\u00eam sendo mortas. Com muito mais crueldade agora. Teve um momento em que era \u00e1cido que estava se jogando no rosto das mulheres, para desfigurar. \u2018Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 minha, ent\u00e3o vai morrer, porque a\u00ed n\u00e3o vai ser de mais ningu\u00e9m\u2019. Escrevi um livro sobre isso, propondo uma discuss\u00e3o sobre a constru\u00e7\u00e3o do amor rom\u00e2ntico\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Nunca voc\u00ea sem mim <\/em>\u2013<em> Homicidas-suicidas nas rela\u00e7\u00f5es afetivo-conjugais<\/em> (Annablume, 2009), fruto da sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado defendida da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, analisa casos em que os homens tomam a decis\u00e3o de interromper suas pr\u00f3prias vidas t\u00e3o logo exterminem aquelas que decidiram se separar. \u201cO feminismo coloca o tempo inteiro: lutamos pela autonomia da mulher. Com a constru\u00e7\u00e3o de um amor rom\u00e2ntico, muitas vezes as mulheres sofrem um ciclo de viol\u00eancia, porque o homem \u00e9 violento e bate, mas depois se arrepende, a\u00ed fazem as pazes, eles voltam e a mulher fica presa \u00e0quele relacionamento. Quando as mulheres conseguem dizer \u2018n\u00e3o, n\u00e3o quero mais\u2019, vem essa rebordosa do feminic\u00eddio. Porque, ao se separar, os homens n\u00e3o podem nem imaginar que voc\u00ea vai estar na cama com outro homem. Ele se sente desonrado. E o homem tem honra. Mas a mulher n\u00e3o: ela n\u00e3o tem honra. Ela macula a honra do outro. E a\u00ed temos as teses da \u2018leg\u00edtima defesa da honra\u2019 ou da \u2018violenta emo\u00e7\u00e3o\u2019. Que nem no caso de \u00c2ngela Diniz, que o Brasil todo acompanhou, inclusive n\u00f3s, militantes, no Rio Grande do Norte, pois foi muito importante para o movimento feminista\u201d, pontua Analba.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 2020, o <em>podcast<\/em> <em>Praia dos Ossos<\/em>, produzido pela R\u00e1dio Novelo, narrou em oito epis\u00f3dios a hist\u00f3ria de \u00c2ngela Diniz, a pantera de Minas Gerais, assim descrita por colunistas sociais, e contextualizou sua morte no enclave entre a heran\u00e7a medieval das Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas e a ascens\u00e3o do movimento feminista, espelhado na frase que tomou o Brasil: \u201cQuem ama n\u00e3o mata\u201d. Morta por Raul \u201cDoca\u201d Street numa casa em B\u00fazios, instantes depois de comunic\u00e1-lo da sua decis\u00e3o de encerrar o relacionamento, \u00c2ngela seguiu sob intenso escrut\u00ednio p\u00fablico por tr\u00eas anos at\u00e9 o primeiro julgamento, em outubro de 1979. \u201cAquela mo\u00e7a continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras\u201d, sentenciou o poeta Carlos Drummond de Andrade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o era o crime que mais nos interessava, era a defesa do Evandro Lins e Silva, da leg\u00edtima defesa da honra. Isso nos intrigou e deu vontade de contar melhor a hist\u00f3ria dessa mulher, que sempre foi apontada de forma sensacionalista e machista na \u00e9poca. Sentimos essa responsabilidade\u201d, situa Flora Thomson-DeVeaux, pesquisadora e coordenadora de produ\u00e7\u00e3o do <em>Praia dos Ossos<\/em> e diretora de pesquisa da R\u00e1dio Novelo. No epis\u00f3dio 2, a apresentadora Branca Vianna descortina o advogado de defesa contratado pela fam\u00edlia Street: \u201cO Evandro fez fama como criminalista e defendeu mais de mil presos pol\u00edticos durante o Estado Novo. Foi nomeado ministro do Supremo pelo presidente Jo\u00e3o Goulart, e foi cassado pelo regime militar em 1969. Depois disso, ele ficou um tempo sumido, o que s\u00f3 aumentou a expectativa pela volta da \u2018lenda\u2019 aos tribunais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Praia dos Ossos<\/em> foi idealizado ainda no final de 2018, por Branca, que tamb\u00e9m \u00e9 a presidente da R\u00e1dio Novelo. Norte-americana de nascen\u00e7a, Flora n\u00e3o conhecia a hist\u00f3ria. \u201cGostei da perspectiva do longo prazo, de ter tempo para a apura\u00e7\u00e3o cuidadosa e para contar a hist\u00f3ria no formato de uma grande reportagem\u201d, comentou \u00e0 <strong>Continente<\/strong> em uma conversa por telefone em junho. Se n\u00e3o \u201ctudo\u201d, porque \u201ctudo\u201d \u00e9, afinal, uma quimera, ela leu \u201cquase tudo\u201d que existe nas hemerotecas e nos arquivos dos jornais mineiros, paulistanos e cariocas a respeito de \u00c2ngela, do crime e dos julgamentos. Em cada epis\u00f3dio, percebe-se a aten\u00e7\u00e3o para com os fatos e, em especial, o zelo com a representa\u00e7\u00e3o da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>No cap\u00edtulo de estreia, o <em>podcast<\/em> introduz a figura de Gabrielle Dyer, uma alem\u00e3 que estava em B\u00fazios e que, segundo o notici\u00e1rio de janeiro de 1977, nos primeiros dias do p\u00f3s-crime, era apontada como um elemento do crime, pois \u00c2ngela teria flertado com ela na manh\u00e3 de 30 de dezembro de 1976, na praia, na frente de Doca. \u201cIsso pegou muito para mim quando estava fazendo a pesquisa, o qu\u00e3o pesada era essa acusa\u00e7\u00e3o. Pois, se eles conseguissem provar que ela tinha dado em cima da Gabrielle, era um crime de execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. Sendo uma mulher casada com outra mulher, achei muito triste. Ao mesmo tempo, era fascinante essa busca por um piv\u00f4 imagin\u00e1rio \u2013 a Gabrielle, depois Pierre, o franc\u00eas, que nunca existiu. Eram as tentativas de justificar, de alguma forma, o que tinha acontecido\u201d, comenta Flora. A pr\u00f3pria Gabrielle, assediada de todas as formas pela imprensa, teve um fim tr\u00e1gico: caiu no mar durante uma trilha. Seu corpo nunca foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta \u00e0 tese da \u201cleg\u00edtima defesa da honra\u201d, eis alguns trechos da argumenta\u00e7\u00e3o proferida por Evandro Lins e Silva no tribunal do j\u00fari, em outubro de 1979. Sobre Doca: \u201cHoje \u00e9 um farrapo, um homem que se arrasta lambendo os restos da vida, aos frangalhos. Humilhado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, mas um candidato a morrer; se sobreviver viver\u00e1 sempre povoado de fantasmas. (\u2026) Ele \u00e9 neto de um dos homens que tiveram a maior influ\u00eancia no Brasil, na legisla\u00e7\u00e3o social do Brasil, porque inclusive participou da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, no seu in\u00edcio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre \u00c2ngela: \u201c\u00c2ngela era uma mulher sedutora, bel\u00edssima. A Pantera de Minas. Mas, desgra\u00e7adamente, ela seguiu um caminho diferente daquele que n\u00f3s, homens menos avan\u00e7ados nesse tema, procuramos seguir. \u00c9 uma realidade. Ela n\u00e3o podia admitir certos princ\u00edpios. Ela queria a vida livre, libertina, depravada. Desgra\u00e7adamente, fez uma op\u00e7\u00e3o, fez uma escolha naquele instante, deixou os filhos, veio para o Rio de Janeiro. Eu pergunto \u00e0s senhoras do conselho, n\u00e3o sei se s\u00e3o m\u00e3es, mas abandonariam tr\u00eas crian\u00e7as, uma pequenina de quatro anos? (\u2026) Ela pr\u00f3pria construiu as condi\u00e7\u00f5es para n\u00e3o ter a simpatia da Justi\u00e7a, quando arrancou sua filha de Belo Horizonte para vir para o Rio de Janeiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia que era a v\u00edtima, e n\u00e3o o r\u00e9u confesso, que estava em julgamento. \u201cEssa era a estrat\u00e9gia do Evandro. O comportamento da \u00c2ngela era uma amea\u00e7a pra honra do Doca. Lembra: ela teria dado em cima de uma mulher na frente de todo mundo, depois terminado com ele e ainda chamado ele de corno. A reputa\u00e7\u00e3o dela de \u2018pantera\u2019 era mais do que conhecida. E, por isso, a culpa n\u00e3o era dele de ter feito o que fez\u201d, narra Branca Vianna. \u201cReportagens da \u00e9poca diziam que o Evandro Lins e Silva tinha inventado a tese da \u2018leg\u00edtima defesa da honra\u2019, como se fosse uma grande novidade jur\u00eddica, mas \u00e9 poss\u00edvel rastrear a genealogia dessa ideia j\u00e1 nas Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas, que justificavam a pena de morte para a mulher que sai da linha em termos de fidelidade conjugal. Da\u00ed a import\u00e2ncia da Gabrielle e da vida de \u00c2ngela, ou melhor, do ataque \u00e0 sua reputa\u00e7\u00e3o\u201d, ratifica Flora.<\/p>\n\n\n\n<p>Doca foi condenado por \u201cexcesso culposo de leg\u00edtima defesa\u201d, em uma decis\u00e3o que at\u00e9 hoje \u00e9 citada, tanto para sublinhar a for\u00e7a ret\u00f3rica do seu advogado como o malabarismo jur\u00eddico para lhe enquadrar em uma tipifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a de homic\u00eddio. Em 1981, contudo, voltou a ser julgado: o veredicto havia sido anulado por um tribunal superior. Saiu condenado a 15 anos de reclus\u00e3o por homic\u00eddio qualificado. Em uma passagem emblem\u00e1tica do epis\u00f3dio 6, ele discorre: \u201c\u00c2ngela dormiu, quando ela acordou, a gente teve discuss\u00e3o, peguei o carro pra ir embora, a\u00ed voltei pra falar que isso, a\u00ed\u2026 (\u2026) Ela atirou minha bolsa na minha cara, a bolsa abriu, o rev\u00f3lver caiu\u2026 Eu j\u00e1 levantei atirando, nem sei por qu\u00ea, nem qual era a\u2026 (\u2026) Eu nunca tinha dado um tiro em ningu\u00e9m, n\u00e9. (\u2026). Eu dei cinco tiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Perto do fim da conversa com Branca, incitado a falar sobre \u00c2ngela, ele responde: \u201c\u00c2ngela \u00e9 mito. \u00c9 o que eu digo, tem que respeitar. Ela \u00e9 uma mulher linda, corajosa, fazia o que queria\u2026 Quem n\u00e3o gostasse que se danasse, n\u00e9. \u00c9\u2026 mulher decidida, nunca vou deixar de ter admira\u00e7\u00e3o por ela\u201d. Quem ama mata, mas n\u00e3o perde a admira\u00e7\u00e3o? No epis\u00f3dio seguinte, uma esp\u00e9cie de contraponto vem com trechos de uma carta escrita por Maria Diniz, m\u00e3e dela: \u201cJamais poderei dizer que estou feliz, pois a perda de um filho n\u00e3o permite que se desfrute mais dessa palavra maravilhosa. \u00c9 um sentimento inexplic\u00e1vel, um vazio eterno, uma saudade que aumenta a cada dia. As cal\u00fanias e inj\u00farias que o indiv\u00edduo que dizia amar \u00c2ngela jamais se apagar\u00e3o de minha mem\u00f3ria. Minha filha era uma mulher desquitada, portanto, livre\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao todo, <em>Praia dos Ossos <\/em>teve mais de dois milh\u00f5es de <em>downloads<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistacontinente.com.br\/public\/uploads\/data\/files\/Li%CC%81via-Aquino---Reparo_A.jpg?resize=640%2C356&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"356\"\/><br \/>Reparo<em>. Foto: L\u00edvia Aquino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta anos depois, em mar\u00e7o de 2021, \u201cpor unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) firmou entendimento de que a tese da leg\u00edtima defesa da honra \u00e9 inconstitucional, por violar os princ\u00edpios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e da igualdade de g\u00eanero\u201d, como noticiou o <em>site<\/em> do STF. O ministro Gilmar Mendes destacou que a tese era alicer\u00e7ada \u201cpor ran\u00e7os machistas e patriarcais, que fomentam um ciclo de viol\u00eancia de g\u00eanero na sociedade\u201d ao ser utilizada \u201cpelas defesas de acusados de feminic\u00eddio ou agress\u00f5es contra mulher para imputar \u00e0s v\u00edtimas a causa de suas pr\u00f3prias mortes ou les\u00f5es, contribuindo para a naturaliza\u00e7\u00e3o e a perpetua\u00e7\u00e3o da cultura de viol\u00eancia contra as mulheres no Brasil\u201d, no frasear do STF.<\/p>\n\n\n\n<p>A tipifica\u00e7\u00e3o criminal do feminic\u00eddio no Brasil se deu em 2015. \u201cO feminic\u00eddio \u00e9 um homic\u00eddio qualificado. Quando uma das raz\u00f5es para esse crime contra a vida s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es do sexo feminino da v\u00edtima, esse crime passa a ser hediondo. Essa qualificadora foi introduzida no <em>C\u00f3digo Penal<\/em> pela lei 13.104. O homic\u00eddio existiu desde sempre no nosso ordenamento jur\u00eddico, mas a partir de uma campanha do movimento feminista, em um processo que vem do surgimento da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, em 2006, veio o contexto de uma lei criminal mais severa quando o crime \u00e9 contra a mulher. A pena de um homic\u00eddio varia de 6 a 20 anos de reclus\u00e3o. J\u00e1 a do feminic\u00eddio, de 12 a 30 anos\u201d, explica Simone Nacif, que h\u00e1 quatro anos ocupa a magistratura na I Vara Criminal de Nova Friburgo do Tribunal de Justi\u00e7a do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ensina os tr\u00e2mites legais da sua comarca, que tem compet\u00eancia para julgar os feminic\u00eddios: \u201cNos ritos processuais, a primeira fase \u00e9 a de admissibilidade e serve para que o Minist\u00e9rio P\u00fablico apresente as provas. \u00c9 quando ocorre a primeira audi\u00eancia. Se existirem ind\u00edcios de autoria e materialidade suficientes para levar ao julgamento, vamos para a segunda fase, que \u00e9 o tribunal do j\u00fari. O j\u00fari \u00e9 uma grande audi\u00eancia, em que os jurados v\u00e3o determinar se o r\u00e9u cometeu ou n\u00e3o um crime doloso contra a vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDia desses eu tive uma audi\u00eancia, em primeira fase, na qual o r\u00e9u era um marido que chegou em casa b\u00eabado, pegou uma porta e meteu na cabe\u00e7a da mulher, que sangrou pelo nariz. \u00c9 viol\u00eancia o tempo inteiro, muitas vezes praticada da forma mais absurda que voc\u00ea possa imaginar. Aparece muito estrangulamento com as pr\u00f3prias m\u00e3os, faca, espancamento, os modos mais cru\u00e9is de viol\u00eancia. Tiro \u00e9 o que menos aparece, pois n\u00e3o \u00e9 cruel o suficiente. O que tenho observado \u00e9 que, muitas vezes, o homem n\u00e3o tem nem arma, mas quer destruir por completo aquela mulher que est\u00e1 na sua frente. \u00c9 puro \u00f3dio. E sabe o que tem aparecido muito? Mulheres incendiadas. Sim, as bruxas est\u00e3o sendo queimadas. \u00c9 medieval\u201d, percebe a ju\u00edza, que integra a Associa\u00e7\u00e3o de Ju\u00edzes para a Democracia \u2013 AJD.<\/p>\n\n\n\n<p>As magistradas Patr\u00edcia Maeda e Roselene Taveira, tamb\u00e9m da AJD, corredigiram um dos artigos do livro <em>Sororidade em pauta<\/em> (Livramento, 2019). \u201cA objetifica\u00e7\u00e3o do corpo feminino mata mulheres todos os dias. Ela se utiliza de estere\u00f3tipos constru\u00eddos socialmente para colocar a mulher como algo n\u00e3o humano, mas como coisa que \u00e9 utilizada por homens\u201d, ressaltam. Esta descri\u00e7\u00e3o se aplicaria a qualquer epis\u00f3dio do seriado <em>The handmaid\u2019s tale<\/em>, adapta\u00e7\u00e3o de <em>O conto da aia<\/em>, distopia escrita por Margaret Atwood em 1985 sobre uma rep\u00fablica machista e mis\u00f3gina que escraviza suas mulheres. \u201cO homem n\u00e3o se enxerga igual \u00e0 mulher. Ele precisa de alguma forma reproduzir em seu meio a opress\u00e3o do sistema em que vive. Necessita de algo que se envolve em uma apar\u00eancia de sua propriedade em um sistema em que as pessoas s\u00e3o propriet\u00e1rias das coisas e nelas se transformam para o exerc\u00edcio do poder de domina\u00e7\u00e3o umas sobre as outras\u201d, apontam as autoras, nesta compila\u00e7\u00e3o de textos escritos para a coluna hom\u00f4nima no <em>site<\/em> <em>Justificando<\/em> (hoje alocada na <em>Carta Capital online<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Simone, uma das autoras de <em>Sororidade em pauta<\/em>, acredita que a viol\u00eancia de g\u00eanero est\u00e1 no DNA do Brasil. \u201cPela subalterniza\u00e7\u00e3o da mulher no sistema capitalista, pelas rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o que existem na nossa sociedade, que se reproduzem dentro do ambiente familiar, pelo patriarcado arraigado, pela viol\u00eancia que se aproxima de problemas sociais, como a fome, a mis\u00e9ria, o alcoolismo, a drogadi\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o fatores que tamb\u00e9m influenciam as agress\u00f5es dom\u00e9sticas. N\u00e3o estou justificando nada, apenas constatando, da mesma forma que acredito que a viol\u00eancia contra as mulheres tamb\u00e9m est\u00e1 ligada aos direitos que nos s\u00e3o negados. O direito ao aborto legal e seguro, que existe desde os anos 1940, est\u00e1 amea\u00e7ado, por exemplo. Com a ascens\u00e3o de Jair Bolsonaro ao poder, todos n\u00f3s t\u00ednhamos a impress\u00e3o de que isso aconteceria: o aumento da viol\u00eancia contra as mulheres, contra o p\u00fablico LGBTQIA+, contra os ind\u00edgenas e movimentos negros. \u00c9 o patriarcado se aprofundando\u201d, condensa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o dominical de 6 de junho, a <em>Folha de S.Paulo<\/em> divulgou uma pesquisa sobre os feminic\u00eddios registrados no pa\u00eds em 2020: 1.338 mulheres mortas \u201cpor sua condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, assassinatos praticados em sua maioria por companheiros, ex-companheiros ou pretensos companheiros\u201d. \u201cOs dados consolidados do ano passado, que tiveram 10 de seus 12 meses sob o efeito da pandemia da Covid-19, foram colhidos pela <em>Folha<\/em> nas secretarias de Seguran\u00e7a P\u00fablica dos 26 estados e do Distrito Federal. Em rela\u00e7\u00e3o a 2019, houve uma alta de 2%, mas a viol\u00eancia contra as mulheres cresceu em n\u00edveis mais alarmantes no Centro-Oeste (14%) e no Norte (37%). Nordeste (+3) e Sudeste (-3) apresentaram pequenas varia\u00e7\u00f5es. No Sul, houve queda de 14%\u201d, detalhou o rep\u00f3rter Ranier Bragon.<\/p>\n\n\n\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o, feita pelo Instituto Datafolha em parceria com o <em>F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica \u2013 FBSP<\/em>, era a terceira rodada da pesquisa <em>Vis\u00edvel e invis\u00edvel: a vitimiza\u00e7\u00e3o de mulheres no Brasil<\/em>, feita anteriormente em 2017 e 2018. \u201cPegamos os dados referentes ao ano da pandemia, de maio de 2020 a maio de 2021, e observamos que a viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o vem diminuindo no Brasil, muito pelo contr\u00e1rio: s\u00f3 vemos um aumento. A pesquisa traz que essa viol\u00eancia acontece especialmente dentro de casa, o local onde as mulheres est\u00e3o mais vulner\u00e1veis, geralmente por um companheiro, ou ex-companheiro, algu\u00e9m com quem ela tem um v\u00ednculo afetivo, de confian\u00e7a, ent\u00e3o isso para n\u00f3s \u00e9 um desafio enorme. Como prevenir e enfrentar essa viol\u00eancia dentro de casa? Mas, ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que, apesar da pandemia e das restri\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o, as mulheres continuam sofrendo ass\u00e9dios nos espa\u00e7os p\u00fablicos, no transporte p\u00fablico, no trabalho. N\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 lugar seguro para as mulheres. Elas est\u00e3o vulner\u00e1veis em todos os espa\u00e7os\u201d, lamenta Juliana Martins, coordenadora institucional do FBSP, que existe desde 2006 e congrega policiais, pesquisadores, acad\u00eamicos e membros da sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>A pot\u00eancia feminista ou o desejo de transformar tudo<\/em> (Elefante, 2020), a cientista social Ver\u00f3nica Gago, professora da Universidade de Buenos Aires, pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Cient\u00edficas y T\u00e9cnicas \u2013 Conicet e integrante do Coletivo #NiUnaMenos, articulador fundamental na luta cotidiana contra o feminic\u00eddio, discorre sobre o simbolismo dos crimes que saem da esfera privada: \u201cNa Am\u00e9rica Latina, a realidade do feminic\u00eddio exige voltar \u00e0 pergunta sobre seu significado: que mensagem \u00e9 transmitida por esses crimes que, agora, parecem n\u00e3o mais se restringir ao \u00e2mbito dom\u00e9stico, podendo acontecer no meio de um bar, em um jardim de inf\u00e2ncia ou na pr\u00f3pria rua? O feminic\u00eddio desencadeia essa \u2018pedagogia da crueldade\u2019, indissoci\u00e1vel da intensifica\u00e7\u00e3o de uma \u2018viol\u00eancia midi\u00e1tica\u2019, que opera espalhando as agress\u00f5es contra as mulheres ao mesmo tempo que difunde a mensagem do assassino e confirma um c\u00f3digo de cumplicidade relativo a um modo de exerc\u00edcio da masculinidade. A isso se refere Rita Segato, quando encara o feminic\u00eddio como portador de uma \u2018viol\u00eancia expressiva\u2019, j\u00e1 n\u00e3o instrumental\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s conclus\u00f5es de <em>Vis\u00edvel e invis\u00edvel: a vitimiza\u00e7\u00e3o de mulheres no Brasil<\/em>, somam-se os dados do <em>Anu\u00e1rio brasileiro de seguran\u00e7a p\u00fablica 2020<\/em>, outra publica\u00e7\u00e3o do FBSP. S\u00e3o aterrorizantes: um estupro a cada 8 minutos, 66.123 v\u00edtimas de estupro e estupro de vulner\u00e1vel, das quais 85,7% eram do sexo feminino e 57,9% tinham no m\u00e1ximo 13 anos. Foram 1.326 v\u00edtimas de feminic\u00eddio em 2019, com um crescimento de 7,1% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior: 66,6% eram negras, 56,2% tinham entre 20 e 39 anos e 89,9% foram mortas pelo companheiro ou ex-companheiro. A preval\u00eancia de mulheres negras entre as v\u00edtimas se denota nos dois comp\u00eandios de dados. \u201cEm <em>Vis\u00edvel e invis\u00edvel<\/em>, percebemos que as mulheres mais jovens, de 16 a 24 anos, pobres e negras, est\u00e3o ainda mais vulner\u00e1veis nesse contexto de pandemia\u201d, aponta Juliana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela enxerga um padr\u00e3o na viol\u00eancia de g\u00eanero praticada no pa\u00eds: \u201cQuando a mulher rompe com os pap\u00e9is sociais \u2013 a da esposa submetida ao marido, que fica em casa, que cuida dos filhos e do lar, que n\u00e3o trabalha fora \u2013, \u00e9 o momento em que mais sofre viol\u00eancia. E esse tipo de viol\u00eancia n\u00e3o conseguiremos combater apenas com pol\u00edticas p\u00fablicas de enfrentamento, mas, sim, com uma mudan\u00e7a de cultura sobre a percep\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is de g\u00eanero. Infelizmente, hoje, no Brasil, o debate sobre g\u00eanero est\u00e1 interditado, mas \u00e9 preciso desnaturalizar os preconceitos e os estere\u00f3tipos que, muitas vezes, amea\u00e7am a mulher apenas pela ruptura com os pap\u00e9is que s\u00e3o esperados dela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assassinada a tiros em mar\u00e7o de 2018, a vereadora carioca Marielle Franco era uma das mulheres que colocavam as conven\u00e7\u00f5es em xeque. Se \u00c2ngela Diniz \u00e9 a v\u00edtima de feminic\u00eddio que marca o Brasil na segunda metade do s\u00e9culo XX, Marielle \u00e9 a aus\u00eancia que escancara a profundidade do abismo a nos mirar no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla rompeu com v\u00e1rias barreiras, como a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na pol\u00edtica, onde normalmente s\u00e3o v\u00edtimas de silenciamento e viol\u00eancias de g\u00eanero no cotidiano. Marielle se colocou em um lugar de enfrentamento que, de certa forma, era permitido somente aos homens, atrav\u00e9s da sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E era uma mulher negra, vinda do Complexo da Mar\u00e9, quebrando padr\u00f5es e estere\u00f3tipos, casada com uma outra mulher. O caso da Marielle, assim como o que aconteceu nessa semana, torna evidente para mim que as mulheres n\u00e3o est\u00e3o seguras, nem dentro de casa, nem no espa\u00e7o f\u00edsico da rua\u201d, lamenta Juliana Martins, aludindo, na entrevista \u00e0 <strong>Continente<\/strong>, \u00e0 morte de Kathlen Romeu, gr\u00e1vida de 24 semanas, baleada durante opera\u00e7\u00e3o policial tamb\u00e9m no Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Imposs\u00edvel pensar no feminic\u00eddio, como de resto tudo, no Brasil sem o recorte de ra\u00e7a. Analba Braz\u00e3o considera de extrema relev\u00e2ncia a atua\u00e7\u00e3o do movimento feminista no caso \u00c2ngela Diniz, mas lan\u00e7a um questionamento pertinente: \u201cSe fosse uma mulher negra da periferia, morta nas mesmas condi\u00e7\u00f5es e naquela mesma \u00e9poca, teria essa repercuss\u00e3o? A sociedade se mobilizaria da mesma forma se aquele caso tivesse acontecido em Natal, em Jo\u00e3o Pessoa, no Piau\u00ed ou em Manaus? N\u00e3o estou desqualificando, em hip\u00f3tese alguma, um momento que acho muito importante na hist\u00f3ria do movimento feminista no Brasil, s\u00f3 estou fazendo uma reflex\u00e3o\u201d. E se Marielle fosse branca, seus assassinos j\u00e1 teriam sido julgados? Ou j\u00e1 saber\u00edamos quem deu a ordem para sua execu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 um denominador comum para quem nasce no Brasil. Embora a generaliza\u00e7\u00e3o seja sempre delicada e, por vezes, exagerada, \u00e9 dif\u00edcil pensar o nosso pa\u00eds a partir de uma perspectiva de algu\u00e9m do sexo feminino que nunca tenha passado por situa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio, abuso e\/ou viol\u00eancia sexual. H\u00e1 as hist\u00f3rias enterradas sob a \u00e9gide da vergonha \u2013 a cunhada assassinada pelo marido, da qual todos lembram, mas ningu\u00e9m fala, a sobrinha assediada pelo tio, a filha l\u00e9sbica que se suicida por causa da opress\u00e3o paterna \u2013 e h\u00e1, por outro lado, a avalanche de relatos desencadeada por campanhas como #MeuPrimeiroAss\u00e9dio, em 2015, ou o movimento #<em>MeToo<\/em>, em 2017. Se \u201catribuir linguagem a uma coisa para a qual voc\u00ea n\u00e3o tem linguagem n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil\u201d, como implica Carmen Maria Machado em <em>Na casa dos sonhos<\/em> (Companhia das Letras, 2021), estamos a navegar, entre luto e luta, na complexidade da enuncia\u00e7\u00e3o. Porque falar \u00e9 preciso, disso sabemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua tese <em>Como morre uma mulher? Configura\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia letal contra mulheres em Pernambuco<\/em>, apresentada no programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal de Pernambuco, em 2014, a soci\u00f3loga Ana Paula Portella explica que \u201co termo <em>femicide<\/em> foi utilizado pela primeira vez por Diane Russel, em 1976, para sugerir que o fato mesmo de ser mulher \u00e9 um fator determinante para o homic\u00eddio de mulheres\u201d. Uma palavra de apenas 45 anos de idade, portanto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo campo acad\u00eamico, \u00e9 a pr\u00f3pria Russel, junto com Jane Caputi, quem primeiro utiliza o conceito, no livro <em>Femicide: The politics of woman killing<\/em>, de 1992, definindo-o como o assassinato mis\u00f3gino de mulheres\u201d, completa Ana Paula, que foi coordenadora, entre 2005 e 2009, do Observat\u00f3rio da Viol\u00eancia contra as Mulheres em Pernambuco, desenvolvido no SOS Corpo. \u201cEssa interpreta\u00e7\u00e3o representa uma nova compreens\u00e3o pol\u00edtica do problema da viol\u00eancia contra as mulheres e, por isso, requer a constru\u00e7\u00e3o de um novo conceito, capaz de refletir a nova abordagem. Esse conceito \u00e9 <em>femic\u00eddio<\/em>\u201d. Dicionarizada pelo <em>Houaiss<\/em> em 2012, e tipificada como crime em 2015, a palavra foi popularizada como <em>feminic\u00eddio<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso, ent\u00e3o, de explorar novos conceitos, novas abordagens, novos signos\u2026 \u201cA linguagem tamb\u00e9m \u00e9 um lugar de luta\u201d, escreve bell hooks em <em>Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra<\/em> (Elefante, 2019). A arte \u00e9 um caminho prof\u00edcuo para expandir a linguagem, burilando-a em v\u00e1rios suportes, erigindo uma teia para reverberar \u2013 rememorando todas as v\u00edtimas que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais aqui \u2013 e para n\u00e3o mais calar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Gritemo<\/em>s: este \u00e9 o convite que a obra da artista visual L\u00edvia Aquino nos faz. Pensada para a exposi\u00e7\u00e3o <em>Palavras somam<\/em>, ocorrida no Museu da Arte Brasileira, em S\u00e3o Paulo, em 2019, a obra usa \u201ca express\u00e3o em 1\u00aa pessoa do plural do imperativo afirmativo\u201d e \u201csugere uma a\u00e7\u00e3o coletiva diante das estat\u00edsticas presentes no mapa da viol\u00eancia de 2018, produzido pela Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano anterior, L\u00edvia havia concebido tr\u00eas trabalhos a partir da leitura do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, instaurada em 2011 pela presidenta Dilma Rousseff para apurar os crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar de 1964 a 1985. \u201cEu j\u00e1 tinha come\u00e7ado uma pesquisa em que me propus a ler toda a parte dos crimes sexuais do relat\u00f3rio quando fui chamada para uma exposi\u00e7\u00e3o que aconteceria em Berlim. O convite era para estabelecer um di\u00e1logo com um escritor de l\u00edngua portuguesa e eu quis apostar no di\u00e1logo com uma autora contempor\u00e2nea jovem, mulher como eu, e que estivesse olhando para o mundo na perspectiva do feminismo e com o desejo de revis\u00e3o sobre a presen\u00e7a das mulheres no mundo. Ent\u00e3o, chamei a Adelaide Iv\u00e1nova, pernambucana que mora na Alemanha, pois eu tinha lido <em>O martelo<\/em> e pensei que olharia para esse relat\u00f3rio com a atualidade e o di\u00e1logo com a obra dela\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>Para <em>\u00c1gua da palavra: quando mais dentro aflora<\/em>, montada na HilbertRaum Gallery, em Berlim, e depois no Instituto Adelina (SP), a artista idealizou <em>Vermelho como palavra ainda \u00e9 uma cor fantasma<\/em>, um neon com a frase \u201cMenina, n\u00f3s queremos saber a verdade, pelo amor de Deus, o que esse homem fez com voc\u00ea?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 a pergunta cretina de um general para L\u00e1zara, uma mulher, muito provavelmente uma novi\u00e7a, que apenas passa na rua no momento da sua pris\u00e3o. A hist\u00f3ria dela \u00e9 narrada por outras pessoas no relat\u00f3rio que a Comiss\u00e3o da Verdade divulgou em 2014. Ela foi presa, depois solta, mas quando o militar encarregado de solt\u00e1-la volta \u00e0s instala\u00e7\u00f5es, hesita ao responder se havia ou n\u00e3o \u2018comido a menina\u2019. Os militares ent\u00e3o resolvem voltar l\u00e1 e prender L\u00e1zara de novo, para que ela ou\u00e7a essa pergunta e se torne uma jovem v\u00edtima de um estupro coletivo. \u00c9 uma pergunta amb\u00edgua, que pode ser tomada como uma preocupa\u00e7\u00e3o sincera, como se eu perguntasse a voc\u00ea, por exemplo, mas que naquele contexto diz muito de como o Brasil n\u00e3o est\u00e1 livre de algumas ditaduras \u2013 as da pol\u00edtica e as que incidem sobre o corpo feminino\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em Berlim, na a\u00e7\u00e3o <em>Entre duas linhas h\u00e1 sangue e l\u00e1grima<\/em>, ela e Adelaide caminharam 10 km da galeria at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o Charlottenburg, onde Maria Auxiliadora Barcellos, a Dorinha, tirou sua pr\u00f3pria vida em 1976, ap\u00f3s ser impedida de retornar ao pa\u00eds onde havia sido presa e torturada pela repress\u00e3o militar. Portanto, a g\u00eanese de <em>Gritemos<\/em> remete \u00e0 leitura do relat\u00f3rio, ao desejo de alargar o trabalho com documentos e desdobr\u00e1-lo em pot\u00eancia art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQueria construir uma obra que tivesse uma percep\u00e7\u00e3o corporal distinta entre o longe e o perto. Que voc\u00ea visse algo ao chegar mas, ao se aproximar, observasse outras camadas. Tinha acontecido o assassinato da Marielle Franco e havia uma movimenta\u00e7\u00e3o em torno de ter sido um feminic\u00eddio. Fiz os trabalhos em Berlim e entrei em contato com o mapa da viol\u00eancia produzido pela C\u00e2mera dos Deputados com os dados de 2018, mesmo ano em que a Marielle morreu. Fiquei atenta a esse di\u00e1logo e pensei em <em>Gritemos<\/em>. Um grupo de luta, de indaga\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 que a gente faz com tanta informa\u00e7\u00e3o sobre a viol\u00eancia praticada contra as mulheres?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Carimbada na parede, <em>Gritemos<\/em> \u00e9, na verdade, composta pelo amontoado de v\u00e1rias outras frases assinaladas com a prosaica tinta da almofada de carimbo \u2013 \u201cQuem matou Marielle?\u201d \u00e9 uma delas. A obra amplifica estat\u00edsticas horrendas.&nbsp; \u201cA cada 17 minutos, uma mulher \u00e9 agredida, a cada tr\u00eas horas uma mulher relata um caso de c\u00e1rcere privado, a cada semana 33 mulheres s\u00e3o assassinadas por parceiros e, naquele ano de 2018, houve 3.349 casos de estupro. Como lidar com isso? As informa\u00e7\u00f5es por si s\u00f3 j\u00e1 eram um susto. O que restava era gritar\u201d, resume a artista.<\/p>\n\n\n\n<p>Um grito, em outro timbre, mas decerto impactante \u00e9 o que tamb\u00e9m se depreende da leitura de <em>Garotas mortas<\/em>, de Selva Almada. Uma inquiri\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, um ensaio pessoal, um livro de mem\u00f3rias, tanto da pr\u00f3pria Selva, que se recorda das mortes de Andrea Danne, Maria Lu\u00edsa Quevedo e Sarita Mundin na Argentina dos anos 1980, como de tantas outras v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGosto da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, sou leitora do g\u00eanero. Conhecia o caso de Andrea, porque havia ocorrido perto da minha cidade. O que tinha acontecido? Por que a mataram? Os casos de feminic\u00eddio come\u00e7aram a se suceder nas not\u00edcias todos os dias e cada vez que aparecia um novo, pensava nela. Pois aquilo que havia acontecido a Andrea tinha sido, tamb\u00e9m, um feminic\u00eddio, ainda que na \u00e9poca n\u00e3o tiv\u00e9ssemos uma palavra espec\u00edfica para nome\u00e1-lo. Quando comecei a dar forma \u00e0 ideia de escrever, pensei que nunca poderia ser um romance, pois queria que os leitores soubessem, desde a primeira p\u00e1gina, que aquilo que estavam lendo havia acontecido, de fato, \u00e0quelas mulheres e que seus assassinos tinham decidido apag\u00e1-las do mapa propositalmente e seguiram livres com suas vidas, nunca pagando por essas mortes\u201d, comentou Selva, em entrevista por <em>e-mail<\/em> \u00e0 <strong>Continente<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A escritora reflete sobre a necessidade de criar uma mem\u00f3ria coletiva: \u201cH\u00e1 pouco saiu o livro <em>El invencible verano de Liliana<\/em>, da mexicana Cristina Rivera Garza. Ela conta o feminic\u00eddio da sua irm\u00e3, em 1990, e fala justamente dessa mem\u00f3ria coletiva, fazer um pacto coletivo para p\u00f4r em palavras essas mortes, que \u00e0s vezes nem sabemos como nomear, e a falta de justi\u00e7a \u2013 o caso da irm\u00e3 dela permanece impune. Creio que um livro pode ajudar a pensar sobre certos temas que s\u00e3o tabus na nossa sociedade, onde a misoginia \u00e9 cultural e onde \u00e9 dif\u00edcil desmontar o aparato machista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuase todos os \u00e2mbitos das nossas vidas est\u00e3o atravessados pelo machismo, pelo patriarcado\u201d, continua Selva. \u201cOs meninos s\u00e3o criados com a ideia de que as mulheres s\u00e3o objetos de sua propriedade, que podem nos matar se n\u00e3o fizermos o que eles esperam \u2013 e sempre se buscar\u00e1, na vida das v\u00edtimas, argumentos ou desculpas para que tenha morrido. Quando publiquei o livro, em 2014, nem sequer existia o movimento #<em>NiUnaMenos<\/em>. N\u00e3o sabia o que aconteceria \u2013 se algu\u00e9m se interessaria, o que as feministas pensariam\u2026 E hoje acredito que <em>Garotas mortas<\/em> contribuiu e segue trazendo muito para o tema. \u00c9 um livro que as professoras dividem com seus alunos e que lhes abre a porta para discutir o tema com os adolescentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mulheres empilhadas<\/em>, de Patr\u00edcia Melo, bem que poderia ser adotado tamb\u00e9m nas escolas brasileiras. Porque, apesar de ficcional, \u00e9 uma hist\u00f3ria amalgamada na brutal realidade. Provocada pela editora Leya a inventar um romance com protagonismo feminino, a escritora tomou um susto na hora. \u201cPensei que minha literatura, que sempre fez uma cartografia da viol\u00eancia no Brasil, at\u00e9 por acreditar que a viol\u00eancia \u00e9 uma caracter\u00edstica estrutural da nossa sociedade, de uma certa forma tinha uma dic\u00e7\u00e3o masculina. Aquilo era um fato. Ent\u00e3o aceitei o convite e comecei a pensar que a viol\u00eancia n\u00e3o tem nacionalidade, nem classe social, nem ra\u00e7a, mas tem g\u00eanero e \u00e9 masculino\u201d, contou, em uma conversa pelo Google Meet, em junho.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme a autora de <em>O matador<\/em> (Companhia das Letras, 1995) e <em>Fogo-f\u00e1tuo<\/em> (Rocco, 2014) foi avan\u00e7ando na pesquisa, vislumbrou que o resultado seria mais encorpado: \u201cQueria trazer a dimens\u00e3o da realidade, ent\u00e3o fui colhendo os crimes que me chamavam a aten\u00e7\u00e3o na leitura dos jornais brasileiros, que me davam essa consci\u00eancia do que acontecia. S\u00e3o os textos que abrem cada cap\u00edtulo, quase como uma esp\u00e9cie de poesia, crimes colhidos da realidade que viram exemplos da narrativa que se alinhava a partir da jovem advogada, que foge de uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e vai parar no Acre. S\u00e3o como ilustra\u00e7\u00f5es dos casos que ela v\u00ea no tribunal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAo mesmo tempo\u201d, pontua a escritora, \u201cqueria trazer o mito fundador do estado do Amazonas, uma tribo de mulheres guerreiras que, teoricamente, foram respons\u00e1veis pelo batismo da regi\u00e3o. Andavam nuas, carregando no corpo as flechas e o arco, lutavam pelo poderio e contra a opress\u00e3o masculina. Consta que o rei Carlos, da Espanha, quando ficou sabendo dessa narrativa, decidiu dar o nome desse lugar de Amazonas. No livro, as guerreiras entram atrav\u00e9s do ritual do <em>ayahuasca<\/em>, numa dimens\u00e3o on\u00edrica. Uso o mito da cria\u00e7\u00e3o para fazer justi\u00e7a \u2013 esses homens que escapam do tribunal pela porta da frente, tendo cometido crimes horrorosos, v\u00e3o ser capturados pelas guerreiras, num acerto de contas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionada sobre se \u00e9 poss\u00edvel tecer um comparativo entre a Su\u00ed\u00e7a, onde mora, e o pa\u00eds onde nasceu, Patr\u00edcia vaticina: \u201cA Su\u00ed\u00e7a n\u00e3o tem nem 9 milh\u00f5es de habitantes, que \u00e9 um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo. A viol\u00eancia de g\u00eanero existe, sim, mas as estat\u00edsticas s\u00e3o outras\u201d. O que nos distingue \u00e9 um horizonte de soturnas vari\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que faz do Brasil o quinto pa\u00eds no <em>ranking<\/em> dos feminic\u00eddios \u00e9 a assimetria entre os g\u00eaneros que existe na nossa cultura patrimonialista e de estrutura patriarcal. De um lado, temos os muitos avan\u00e7os obtidos no plano jur\u00eddico, como a Lei Maria da Penha, a implementa\u00e7\u00e3o das delegacias da mulher e a legisla\u00e7\u00e3o tipificada do feminic\u00eddio; mas, do outro, temos a quest\u00e3o da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher. Quanto mais ela se emancipa, mas \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia. Um presidente de discurso machista e mis\u00f3gino, que acha que a mulher n\u00e3o \u00e9 merecedora de igualdade, n\u00e3o ajuda em nada. \u00c9 preciso continuar as conquistas, e fazer com que a lei funcione, garantindo que os feminic\u00eddios sejam investigados dentro de uma perspectiva de g\u00eanero dentro da pol\u00edcia, por exemplo. Ainda temos um longo caminho a andar\u201d, opina.<\/p>\n\n\n\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistacontinente.com.br\/public\/uploads\/data\/files\/Li%CC%81via-Aquino---Sussurro_A.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\"\/><br \/>Sussuro<em>. Foto: L\u00edvia Aquino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Brasil, junho de 2021: a Secretaria da Mulher da Prefeitura do Recife informa \u00e0 <strong>Continente<\/strong> que o Centro de Refer\u00eancia Clarice Lispector, que desde 2002 acolhe mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia, vai passar a funcionar por 24h, com estrutura para que as mulheres possam pernoitar. \u201cTemos um WhatsApp que funciona o tempo inteiro, que \u00e9 o 99488.6138, e j\u00e1 tivemos casos em que a mulher nos contactou e a pol\u00edcia chegou a tempo de salv\u00e1-la do agressor. Temos tamb\u00e9m o Liga Mulher \u2013 0800.2810107 \u2013 e agora teremos o Clarice aberto dia e noite, para garantir que qualquer mulher que precise tenha como recorrer. Cada passo dado \u00e9 uma vida que podemos salvar\u201d, sintetiza Glauce Medeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>A Secretaria de Defesa Social do Governo de Pernambuco nos envia os dados mais recentes relativos a feminic\u00eddio no estado: nos quatro primeiros meses deste ano, foram 38 v\u00edtimas, \u201c10 a mais do que no mesmo per\u00edodo de 2020\u201d. Entre janeiro e dezembro do ano passado, 75 mulheres, ao todo, perderam suas vidas em feminic\u00eddios; em 2019 e 2018, respectivamente, haviam sido 57 e 74 v\u00edtimas. \u201cEm 2017, quando o crime de feminic\u00eddio come\u00e7ou a ser notificado em Pernambuco, computaram-se 76 mulheres mortas por essa motiva\u00e7\u00e3o no Estado. No primeiro ano de registro desse tipo de crime, o governador Paulo C\u00e2mara assinou decreto que determinou a retirada do termo \u2018crime passional\u2019 dos boletins de ocorr\u00eancia\u201d, reitera a nota assinada pelo Centro Integrado de Comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a jornalista e documentarista Mariana Lacerda era crian\u00e7a, na d\u00e9cada de 1980, ainda n\u00e3o existia o Centro de Refer\u00eancia Clarice Lispector e, mesmo que existisse, talvez n\u00e3o fizesse diferen\u00e7a para os crimes passionais que lhe tocaram. \u201cForam duas trag\u00e9dias e o fato de serem duas mulheres mortas n\u00e3o parecia ser um ponto t\u00e3o assustador nelas. Uma foi um assassinato muito violento: o pai da minha melhor amiga matou a esposa e depois tirou sua vida. A outra, um suic\u00eddio. Por\u00e9m, na minha cabe\u00e7a, consigo pensar que aquela que se suicidou simplesmente n\u00e3o aguentou os par\u00e2metros sociais masculinos que lhe eram impostos\u201d, relembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o, m\u00eas em que Mariana completou 45 anos, surgiu o Levante Feminista contra o Feminic\u00eddio. Segundo Analba Braz\u00e3o, do <em>F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco<\/em>, SOS Corpo e da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras, a ideia \u00e9 de insurrei\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 uma campanha pelo fim do feminic\u00eddio, em uma grande articula\u00e7\u00e3o com todos os movimentos e com as mulheres dos partidos de esquerda contra um governo genocida que gastou apenas 4,4% do or\u00e7amento destinado \u00e0s pol\u00edticas de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres. Pensamos o Levante para dois anos \u2013 em mar\u00e7o de 2023, onde \u00e9 que vamos estar?\u201d. Para agora, o Levante (@levantefeminista) quer \u201cpressionar o Executivo, o Legislativo e o Judici\u00e1rio para darem um basta \u00e0 matan\u00e7a e sensibilizar a sociedade para rever a cultura feminicida\u201d, como diz o seu manifesto. <em>#NemPenseEmMeMatar<\/em>, esse \u00e9 o mote.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as mulheres ouvidas nesta reportagem, dar um basta \u00e0 matan\u00e7a e rever a cultura feminicida convergem para v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es cotidianas. Para n\u00e3o sermos reduzidas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cmais uma mulher de fulano\u201d ou \u201cnenhuma a menos\u201d\u2026 Para que a fala n\u00e3o nos desumanize. \u201cTem uma passagem da Grada Kilomba em <em>Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o <\/em>em ela que diz: bell hooks usa estes dois conceitos de \u2018sujeito\u2019 e \u2018objeto\u2019, argumentando que sujeitos s\u00e3o aqueles que \u2018t\u00eam o direito de definir suas pr\u00f3prias realidades, estabelecer suas pr\u00f3prias identidades, nomear suas hist\u00f3rias\u2019. Como objetos, no entanto, nossa realidade \u00e9 definida por outros, nossas identidades s\u00e3o criadas por outros, e nossa \u2018hist\u00f3ria designada somente de maneiras que definem (nossa) rela\u00e7\u00e3o com aqueles que s\u00e3o sujeitos\u2019\u201d, exp\u00f5e Mariana.<\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00e7o tamb\u00e9m marcou os 17 anos da morte de Mirella Bezerra de Melo Martins. Sua irm\u00e3 ca\u00e7ula, Manuela, hoje mora em Portugal. Quando a irm\u00e3, sete anos mais velha, foi assassinada pelo ex-noivo, Manu e ela estavam come\u00e7ando a firmar uma rela\u00e7\u00e3o de maior proximidade. \u201cMirella era aquela mulher muito alta, bonita e cheia de si que eu admirava muito. Uma mulher totalmente \u00e0 frente do tempo. A gente dividiu o quarto a vida toda, at\u00e9 ela sair do Recife, mas como havia essa diferen\u00e7a de idade, tinha muita briga tamb\u00e9m na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia. Quando ela foi morta, a marca que ficou para mim foi que me tiraram a possibilidade de ter uma irm\u00e3. De poder dividir a vida com ela, sabe? \u00c9 curioso porque, inevitavelmente, \u00e0s vezes eu estou falando e abro a boca de um jeito e esse jeito me lembra Mirella\u201d, testemunha.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, Manu Bezerra de Melo, jornalista e pesquisadora em Literatura, postou um longo desabafo em seu perfil numa rede social, em que falava da irm\u00e3 e de como, durante muito tempo, as pessoas agiam como se ela tivesse morrido em um acidente. \u201cLembro que fiquei chocada quando uma prima que era muito pr\u00f3xima de Mirella, da mesma gera\u00e7\u00e3o dela, tipo que cresceram juntas e tal, declarou voto a Jair Bolsonaro. Aquilo me deixou triste e revoltada. Como \u00e9 que pessoas n\u00e3o enxergam que, quando legitimam esse discurso, est\u00e3o contribuindo para matar ainda mais mulheres? \u00c9 como se as pessoas tratassem o feminic\u00eddio como uma fatalidade. E n\u00e3o \u00e9. Mirella n\u00e3o caiu e bateu a cabe\u00e7a na cal\u00e7ada. Ela foi assassinada pelo cara que n\u00e3o aceitou o fim do relacionamento\u201d, situa.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte dela n\u00e3o entrou para a cr\u00f4nica policial pernambucana, como os assassinatos de Maria Eduarda Dourado e Tarsila Gusm\u00e3o, do Caso Serrambi, em 2003. Ou para os anais da televis\u00e3o brasileira, como a atriz Daniella Perez, lembrada, a cada 11 de agosto, pela m\u00e3e, a novelista Gl\u00f3ria Perez, no dia do anivers\u00e1rio com \u201ca conta de um tempo que ela n\u00e3o viveu\u201d. \u201cN\u00e3o existia a internet como \u00e9 hoje e ela n\u00e3o saiu na m\u00eddia\u201d, observa Manu, m\u00e3e de um filho que nunca poder\u00e1 ouvir a risada da tia.<\/p>\n\n\n\n<p>Que as hist\u00f3rias de Mirella, Daniella, \u00c2ngela, Isabel, Socorro, Vyt\u00f3ria, Viviane, Ingrid, Patr\u00edcia, Emelly, Tatiane, Luciene, Marley, Eliane, Marielle, Kathlen, L\u00e1zara, Dorinha, Andrea, Sarita, Maria Lu\u00edsa e tantas outras, milhares de outras, transcendam os autos, ultrapassem as estat\u00edsticas e transformem-se em outras reportagens, manifestos, <em>podcasts<\/em>, filmes e livros. E que, como sementes, fecundem o solo para a luta feminista por uma equidade de g\u00eanero na pr\u00e1tica, e n\u00e3o na utopia, e por um mundo onde ser mulher n\u00e3o constitua uma amea\u00e7a aos nossos pr\u00f3prios corpos, mas que, sim, expresse a b\u00ean\u00e7\u00e3o de for\u00e7a e esperan\u00e7a que de fato \u00e9.<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistacontinente.com.br\/public\/uploads\/data\/files\/c-continente.jpg?resize=13%2C18&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"13\" height=\"18\"\/>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>LUCIANA VERAS, <\/strong>rep\u00f3rter especial da <strong>Continente<\/strong>.<br \/><br \/><strong>L\u00cdVIA AQUINO, <\/strong>pesquisadora do campo da cultura e das artes visuais, professora e artista. Sua pr\u00e1tica opera conex\u00f5es entre a imagem, a escrita e a leitura, explorando seus significados e os sentidos que produzem no espa\u00e7o e com o outro, como participador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil pand\u00eamico, junto \u00e0 alarmante quantidade de mortes pela Covid-19, tivemos outra estat\u00edstica tr\u00e1gica: o aumento de feminic\u00eddios. Leia mais na reportagem da Revista Continente.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":14627,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"No Brasil pand\u00eamico, junto \u00e0 alarmante quantidade de mortes pela Covid-19, tivemos outra estat\u00edstica tr\u00e1gica: o aumento de feminic\u00eddios. Leia mais na reportagem da Revista Continente.","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1299,691,145,983,25],"class_list":["post-14625","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lutafeminista","tag-campanha-nacional-contra-os-feminicidios","tag-feminicidio","tag-lei-maria-da-penha","tag-pandemia-do-coronavirus","tag-violencia-contra-a-mulher"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Obra-Gritemos-Foto-Aline-Canassa-MAP-FAAP-DIVULGACAO.jpg?fit=1222%2C813&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5mcIC-3NT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=14625"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14625\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14628,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14625\/revisions\/14628"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/14627"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=14625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=14625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=14625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}