{"id":14061,"date":"2021-04-28T16:33:40","date_gmt":"2021-04-28T19:33:40","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=14061"},"modified":"2021-04-28T16:36:28","modified_gmt":"2021-04-28T19:36:28","slug":"na-pandemia-nos-mulheres-estamos-de-luto-e-lutando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=14061","title":{"rendered":"Na pandemia, n\u00f3s mulheres \u201cestamos de luto e lutando\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>Na pandemia, n\u00f3s mulheres \u201cestamos de luto e lutando\u201d<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"242\" data-attachment-id=\"14062\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=14062\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?fit=1887%2C713&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1887,713\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"acervo-sos-corpo-8m-2020\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?fit=300%2C113&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?fit=640%2C242&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?resize=640%2C242&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-14062\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?resize=1024%2C387&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?resize=300%2C113&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?resize=768%2C290&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?resize=1536%2C580&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?w=1887&amp;ssl=1 1887w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/acervo-sos-corpo-8m-2020.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por* <strong>Maria Bet\u00e2nia \u00c1vila, M\u00e9rcia Alves e Rivane Arantes<\/strong>, para a <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.coletiva.org\/politica-e-cidadania-n16\" target=\"_blank\">Coluna Pol\u00edtica e Cidadania da Revista Coletiva<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns are-vertically-aligned-center is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">\"<em>Estou  chorando e andando... Estamos de luto e lutando. Luto, luta, luto,  luta. E parece que a gente n\u00e3o descansa, n\u00e3o para nunca.\" \u00a0<\/em>\n \u00a0\n Watatakau Yawalapiti, coordenadora do Departamento de Mulheres da Associa\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena do Xingu\/Atix Mulher-MT<\/pre>\n\n\n\n<p>A pandemia da Covid-19 aprofunda e revela as desigualdades e as injusti\u00e7as sociais. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 um acontecimento que surge como um fen\u00f4meno novo e por acaso. \u00c9 consequ\u00eancia do desenvolvimento desse sistema capitalista, patriarcal e racista, um sistema de destrui\u00e7\u00e3o, que se reproduz pelas rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o, apropria\u00e7\u00e3o, desapossamento, e pela produ\u00e7\u00e3o incessante de desigualdades sociais e destrui\u00e7\u00e3o da natureza. Com isso a pandemia aprofunda muito as desigualdades de classe, ra\u00e7a e sexo\/g\u00eanero, que h\u00e1 muito o feminismo vem analisando criticamente e denunciando seus mecanismos de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Nossa proposi\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, que a pandemia \u00e9 uma consequ\u00eancia desse processo de destrui\u00e7\u00e3o permanente do planeta e de todas as formas de vida nele presentes. Desde antes da pandemia, <a href=\"https:\/\/periodicos.uff.br\/trabalhonecessario\/issue\/view\/2448\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Amaya Orozco, uma economista feminista, afirma que a contradi\u00e7\u00e3o nesse sistema deve ser tamb\u00e9m pensada como uma contradi\u00e7\u00e3o entre a vida e o capital<\/a>. Assim, as causas da trag\u00e9dia atual n\u00e3o podem ser tratadas se n\u00e3o considerarmos a devasta\u00e7\u00e3o causada pelas pol\u00edticas neoliberais em curso nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, que aprofundaram os processos de acumula\u00e7\u00e3o do capital em detrimento da vida humana, da preserva\u00e7\u00e3o da natureza e do planeta como um todo. Mas, \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m considerar que os seus efeitos e a profundidade de seus impactos est\u00e3o diretamente ligados aos contextos sociais de cada pa\u00eds, e as formas como seus governantes enfrentam e tratam essa profunda crise humanit\u00e1ria, sanit\u00e1ria e social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Brasil, temos a trag\u00e9dia da pandemia em um contexto de desigualdade social profunda, e de um governo federal absolutamente irrespons\u00e1vel e deliberadamente amea\u00e7ador das garantias de condi\u00e7\u00f5es de vida da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Suas atitudes pessoais se expressam como um deboche e desd\u00e9m, que amea\u00e7am cotidianamente a vida das pessoas, sobretudo a dos trabalhadores\/as, das popula\u00e7\u00f5es negras e ind\u00edgenas, de n\u00f3s mulheres, que somos maioria nesses grupos sociais, e da popula\u00e7\u00e3o LGBTQI+. Por isso podemos considerar que vivemos uma dupla trag\u00e9dia: a sanit\u00e1ria, causada pela pandemia, e a pol\u00edtica, causada pelo governo federal, que aprofunda a primeira.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que escrevemos esse artigo os n\u00fameros catastr\u00f3ficos da pandemia se atualizam em segundos, horas, dias. Vivemos um contexto de crise em m\u00faltiplas dimens\u00f5es, que se agudiza mediante a pol\u00edtica neoliberal em curso, e que promove o sequestro dos bens p\u00fablicos, privatiza\u00e7\u00e3o de estatais e desemprego crescente \u2013<a href=\"https:\/\/censo2021.ibge.gov.br\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/29782-numero-de-desempregados-chega-a-14-1-milhoes-no-trimestre-ate-outubro.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> j\u00e1 estamos com mais de 14,3 milh\u00f5es de pessoas&nbsp; desempregadas e uma configura\u00e7\u00e3o perversa com o novo cen\u00e1rio de pobreza, mis\u00e9ria e fome<\/a> <a href=\"https:\/\/censo2021.ibge.gov.br\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/29782-numero-de-desempregados-chega-a-14-1-milhoes-no-trimestre-ate-outubro.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">(IBGE, 2021)<\/a>. Tais circunst\u00e2ncias atingem mais de 52 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, 13 milh\u00f5es vivendo em extrema pobreza, somado a um cen\u00e1rio de letalidade, uma pol\u00edtica de morte em curso, com cerca de 4 mil mortes\/dia e mais de 325 mil \u00f3bitos at\u00e9 o momento. No terceiro m\u00eas de 2021, mar\u00e7o, a m\u00e9dia de mortes (66.868) \u00e9 duas vezes maior que o pico da pandemia em julho de 2020, acentuada pelo colapso simult\u00e2neo da rede de sa\u00fade p\u00fablica e privada em todo territ\u00f3rio nacional, uma realidade diferenciada e ainda mais grave do que vivemos em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Lidamos cotidianamente com um contexto pol\u00edtico-social e econ\u00f4mico que apresenta como medida imediata de preven\u00e7\u00e3o ao Covid-19 o uso de m\u00e1scaras, \u00e1lcool gel, distanciamento. Ocorre que, pelo contexto de empobrecimento, muitas pessoas da classe que vive do trabalho n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de fazer uso dessas medidas diuturnamente refor\u00e7adas, seja por quest\u00f5es econ\u00f4micas, seja porque temos um governo que minimiza o alcance de tais medidas, seja porque n\u00e3o promove uma c\u00e9lere pol\u00edtica de vacina\u00e7\u00e3o com alcance geral, a fim de contribuir com o processo de imuniza\u00e7\u00e3o coletiva. Ent\u00e3o o \u201cfique em casa\u201d para parte da classe trabalhadora \u00e9 pura ret\u00f3rica. Ou ficam em casa e morrem de fome, ou saem e se arriscam no transporte coletivo. A falta de uma pol\u00edtica de renda b\u00e1sica e aux\u00edlio emergencial, como medida de enfrentamento ao desemprego e para garantir a seguran\u00e7a alimentar dessa popula\u00e7\u00e3o, toma novos contornos neste governo, demonstrando uma n\u00edtida desobriga\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico. Ao contr\u00e1rio, como parte da sua pol\u00edtica de ajuste fiscal, o valor do aux\u00edlio emergencial \u00e9 reduzido de R$ 600,00 para 150,00 a 375,00 por fam\u00edlia, fora a redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de benefici\u00e1rios\/as, que caiu de 66 milh\u00f5es para 45 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>A fome na pandemia bate \u00e0 porta, e com panelas vazias, na vida das mulheres populares e negras. Estas j\u00e1 somam mais de 63% das casas chefiadas no Brasil, lares sem companheiros\/as e com filhos, vivendo abaixo da linha da\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.hypeness.com.br\/tag\/pobreza\/\" target=\"_blank\">pobreza<\/a>.<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-56584565\" target=\"_blank\"> Pesquisa feita pelo Data Favela em parceria com o Instituto Locomotiva e a Central \u00danica das Favelas (Cufa), em fevereiro de 2021<\/a>, apontou que, \u201centre os 16 milh\u00f5es de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens b\u00e1sicos do or\u00e7amento com o fim do aux\u00edlio emergencial, como comida e material de limpeza. E oito em cada 10 fam\u00edlias disseram que n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas b\u00e1sicas durante os meses de pandemia, se n\u00e3o tivessem recebido doa\u00e7\u00f5es\u201d. Esses dados demonstram a perda do poder aquisitivo e os riscos nesse contexto de pandemia para a popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, pois a fome, a falta de acesso \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de higiene, aos servi\u00e7os urbanos, como \u00e1gua e saneamento, e \u00e0s prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de moradia s\u00f3 acentuam as vulnerabilidades dessas popula\u00e7\u00f5es urbanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, nessa conjuntura de omiss\u00e3o estatal, \u00e9 a solidariedade das organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais (sem-terra, sem-teto, sindical, feminista, negro, urbano, etc.) que torna poss\u00edvel ter comida na mesa dos mais vulnerabilizados\/as, com a doa\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas e at\u00e9 de medicamentos. <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.politize.com.br\/necropolitica-o-que-e\/\" target=\"_blank\">Essa a\u00e7\u00e3o viabiliza sobreviver no imediato e com dignidade a essa pol\u00edtica de morte que o fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achile Mbembe chama de necropol\u00edtica<\/a>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"14067\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=14067\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/mbembe.jpg?fit=649%2C373&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"649,373\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"mbembe\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/mbembe.jpg?fit=300%2C172&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/mbembe.jpg?fit=640%2C368&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/mbembe.jpg?resize=454%2C260&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-14067\" width=\"454\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/mbembe.jpg?w=649&amp;ssl=1 649w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/mbembe.jpg?resize=300%2C172&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 454px) 100vw, 454px\" \/><figcaption>Achille Mbembe criou o termo necropol\u00edtica. FOTO: reprodu\u00e7\u00e3o da Internet | Wikimedia Common<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A pandemia, as mulheres e os movimentos feministas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>E, no front dessa resist\u00eancia e solidariedade, o movimento feminista \u00e9 um dos sujeitos insurgentes, e vem revelando que as restri\u00e7\u00f5es impostas pela pandemia t\u00eam um custo muito mais alto para n\u00f3s mulheres. Uma vez que sua principal forma de preven\u00e7\u00e3o \u00e9 o isolamento social, alimenta\u00e7\u00e3o adequada e cuidados redobrados de higiene e limpeza, numa sociedade patriarcal racista capitalista como a brasileira, essas s\u00e3o atribui\u00e7\u00f5es das mulheres, e de forma muito particular daquelas mais vulnerabilizadas, ou seja, as negras, ind\u00edgenas, quilombolas, pescadoras, LGBTQI+ e empobrecidas, pois \u00e9 sobre elas que ainda recaem, quase que exclusivamente, de forma remunerada ou n\u00e3o, a responsabilidade pelos trabalhos dom\u00e9sticos e os cuidados com as fam\u00edlias. Isso significa que s\u00e3o esses os corpos que suportam o peso invis\u00edvel e n\u00e3o contabilizado da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto da pandemia sobre as condi\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es de trabalho tamb\u00e9m afeta profundamente a vida das pessoas que vivem de seu trabalho e, de maneira desigual, \u00e9 ainda mais forte sobre as mulheres trabalhadoras. As desigualdades das mulheres no Brasil, e em maior grau das mulheres negras, \u00e9 um elemento estrutural da nossa realidade social.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse per\u00edodo de crise t\u00e3o profunda, no qual os riscos \u00e0 vida se tornam uma realidade cotidiana e cada vez mais avassaladora, essas amea\u00e7as v\u00eam diretamente pelo cont\u00e1gio do v\u00edrus, como tamb\u00e9m pela ainda maior deteriora\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de vida da maioria da popula\u00e7\u00e3o. E a falta de renda, pelo desemprego e impossibilidades de gerar renda atrav\u00e9s dos trabalhos por conta pr\u00f3pria, se tornam fatores important\u00edssimos de amea\u00e7a \u00e0 sobreviv\u00eancia dos\/as trabalhadores\/as. Para quem continua empregado\/a, ou tem uma ocupa\u00e7\u00e3o de alguma forma, e precisa se locomover para os seus locais de trabalho, a primeira amea\u00e7a est\u00e1 no pr\u00f3prio deslocamento, atrav\u00e9s de transportes coletivos que, como podemos ver em reportagens di\u00e1rias de \u00f3rg\u00e3os da imprensa, est\u00e3o sempre superlotados e sucateados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, destacaremos algumas quest\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o das mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, sa\u00fade e viol\u00eancia no contexto da pandemia. Longe de ser uma an\u00e1lise mais geral dessa problem\u00e1tica, nosso intuito \u00e9 incluir essa dimens\u00e3o que consideramos de fundamental import\u00e2ncia, e real\u00e7ar aspectos que de maneira incontorn\u00e1vel ajudam a exemplificar a profundidade da trag\u00e9dia social em curso.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/periodicos.uff.br\/trabalhonecessario\/article\/view\/45884\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Segundo as pesquisadoras Hildete Pereira de Melo e Lucilene Morandi<\/a>, \u201cA pandemia colaborou para agravar o quadro de baixo crescimento econ\u00f4mico e com alto n\u00edvel de desemprego, ampliando as desigualdades j\u00e1 bastante severas [\u2026]\u201d em uma conjuntura na qual \u201c[&#8230;] parte significativa da for\u00e7a de trabalho (41,6% em 2019) estava na informalidade\u201d. <a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/outraspublicacoes\/2021\/graficosMulheresBrasilRegioes2021.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O DIEESE nos apresenta dados que mostram um quadro grave para as mulheres trabalhadoras<\/a>. De acordo com o DIEESE,\u201c o contingente de mulheres fora da for\u00e7a de trabalho aumentou 8.6 milh\u00f5es, a ocupa\u00e7\u00e3o feminina diminui 5.7 milh\u00f5es [&#8230;]\u201d. Esses dados, ainda segundo o DIEESE, s\u00e3o da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (PNADC) referentes ao per\u00edodo entre o terceiro trimestre de 2019 e 2020. E as taxas de desemprego das mulheres expressam as desigualdades entre elas, \u201c[&#8230;] a taxa de desemprego das mulheres negras e n\u00e3o negras cresceu 3,2 e 2,9 pontos percentuais, respectivamente, sendo que a das mulheres negras atingiu a alarmante taxa de 19,8%\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados sobre a situa\u00e7\u00e3o das trabalhadoras dom\u00e9sticas revelam tanto os problemas atuais dessa categoria, como devem tamb\u00e9m ser entendidos como determinados por rela\u00e7\u00f5es sociais de classe, ra\u00e7a e sexo\/g\u00eanero, que conformam a forma\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds e reproduzem as formas de explora\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o das mulheres, e da sua for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"14070\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=14070\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CUT-1.jpg?fit=743%2C471&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"743,471\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"CUT-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CUT-1.jpg?fit=300%2C190&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CUT-1.jpg?fit=640%2C406&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CUT-1.jpg?resize=594%2C377&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-14070\" width=\"594\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CUT-1.jpg?w=743&amp;ssl=1 743w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/CUT-1.jpg?resize=300%2C190&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 594px) 100vw, 594px\" \/><figcaption>FOTO: Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) | Reprodu\u00e7\u00e3o da Internet<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ressaltando que a categoria das trabalhadoras dom\u00e9sticas \u00e9 majoritariamente formada por mulheres negras. E, como nos aponta o referido estudo do DIEESE, \u201c[&#8230;] as trabalhadoras dom\u00e9sticas sentiram o forte efeito da pandemia em suas ocupa\u00e7\u00f5es, uma vez que 1,6 milh\u00e3o de mulheres perderam seus trabalhos, sendo que 400 mil tinham carteira assinada e 1,2 milh\u00e3o n\u00e3o tinham v\u00ednculo formal de trabalho\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa mesma fonte podemos ver que essa perda \u00e9 mais geral, uma vez que, sem contar com aquelas inseridas no trabalho dom\u00e9stico, o contingente de trabalhadoras informais, segundo nossa leitura, inseridas em trabalhos prec\u00e1rios, decresceu de \u201c13,5 milh\u00f5es para 10,8 milh\u00f5es. Os resultados para este contingente de mulheres, na sua maioria negras e mais pobres refletiram um agravamento da situa\u00e7\u00e3o de pobreza e de exclus\u00e3o social\u201d, como aponta o supracitado estudo do DIEESE. Outro dado desse estudo \u00e9 que foi refor\u00e7ada \u201ca dist\u00e2ncia salarial entre homens e mulheres, em 2020\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro remarque importante \u00e9 salientar que as mulheres comp\u00f5em a maioria do contingente de trabalhadores\/as da sa\u00fade, setor t\u00e3o fundamental para a popula\u00e7\u00e3o evidenciado de forma contundente na travessia da atual crise sanit\u00e1ria. E os relatos que se tornam p\u00fablicos a partir de v\u00e1rios meios de comunica\u00e7\u00e3o indicam como tem sido extenuante e dilacerante as condi\u00e7\u00f5es de trabalho para esse segmento, o que para as mulheres significa tamb\u00e9m ter que reorganizar suas vidas familiares dom\u00e9sticas e contar com outras mulheres para sustentar suas tarefas de trabalho reprodutivo, e atividades de cuidado no caso das fam\u00edlias com crian\u00e7as, pessoas idosas e com mobilidade reduzida e\/ou impossibilitadas de se auto cuidarem. Por isso, \u00e9 importante dizer, o que sustenta os deslocamentos das mulheres entre o espa\u00e7o\/tempo do trabalho remunerado e n\u00e3o remunerado \u00e9 uma rede entre mulheres que se move cotidianamente, onde uma ocupa o lugar da outra no espa\u00e7o dom\u00e9stico. Essa rela\u00e7\u00e3o entre mulheres est\u00e1 determinada pelas rela\u00e7\u00f5es sociais de classe e de ra\u00e7a, uma vez que pode se realizar atrav\u00e9s de uma rela\u00e7\u00e3o de trabalho remunerado, no caso das empregadas dom\u00e9sticas e suas patroas, ou como forma de apoio e solidariedade entre mulheres do mesmo grupo familiar e\/ou comunit\u00e1rio. No atual momento, pelas necess\u00e1rias exig\u00eancias de distanciamento social, essa rede entre mulheres tamb\u00e9m est\u00e1 bastante dificultada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, para demarcar tais impactos, queremos relembrar que, no in\u00edcio da pandemia no pa\u00eds, <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/sororidade-em-pauta\/na-pandemia-por-que-servico-domestico-e-classificado-como-essencial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a primeira v\u00edtima letal do Covid-19 foi uma trabalhadora dom\u00e9stica, mulher negra, empregada na casa de um casal que havia retornado naquele momento da Europa<\/a>, de uma viagem na qual haviam contra\u00eddo o v\u00edrus. Mesmo assim foi mantida a presen\u00e7a da trabalhadora dom\u00e9stica na resid\u00eancia e, consequentemente, aconteceu o cont\u00e1gio que a levou \u00e0 morte. \u00c9 um fato, ao mesmo tempo grave e revelador das rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o as quais est\u00e3o sujeitas as mulheres trabalhadoras, majoritariamente formada por mulheres negras. Na fun\u00e7\u00e3o de trabalhadoras dom\u00e9sticas, no contexto da pandemia, essas mulheres enfrentaram a normatiza\u00e7\u00e3o, por parte de alguns estados, que transformaram a categoria parte dos servi\u00e7os essenciais como forma de atender aos interesses do setor patronal. Tal defini\u00e7\u00e3o, parte do processo de desumaniza\u00e7\u00e3o desta categoria, colocou essas trabalhadoras em ainda mais riscos, seja no seu percurso cotidiano ao trabalho, seja nas situa\u00e7\u00f5es em que foram obrigadas ao confinamento dom\u00e9stico na casa dos empregadores\/as, revelando a dimens\u00e3o colonial e escravocrata da nossa forma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"280\" data-attachment-id=\"14071\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=14071\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?fit=1073%2C469&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1073,469\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"PANDEMIA\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?fit=300%2C131&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?fit=640%2C280&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?resize=640%2C280&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-14071\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?resize=1024%2C448&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?resize=300%2C131&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?resize=768%2C336&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/PANDEMIA.jpg?w=1073&amp;ssl=1 1073w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>FOTO: Fouad Choufany UNICEF | Reprodu\u00e7\u00e3o da Internet<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Pesquisas tamb\u00e9m j\u00e1 revelam que \u201ca carga emocional, ps\u00edquica e f\u00edsica\u201d do cuidado, igualmente recai sobre as mulheres, porque s\u00e3o essas as encarregadas pelo planejamento e gerenciamento da casa, do cotidiano e at\u00e9 da pobreza, estando atentas \u00e0s necessidades e a sa\u00fade de toda a fam\u00edlia, e at\u00e9 de suas comunidades. <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2020\/03\/24\/Quais-os-impactos-da-pandemia-sobre-as-mulheres\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que \u201co Covid-19 tem deixado as mulheres sem tempo para respirar\u201d<\/a>. As responsabilidades, decorrentes das constru\u00e7\u00f5es de sexo\/g\u00eanero na sociedade patriarcal racista capitalista, \u201cn\u00e3o nos deixa viver o luto\u201d, j\u00e1 que somos as que cuidam dos doentes, da alimenta\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es de solidariedade \u00e0s nossas comunidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a medida de isolamento social aplicada numa sociedade violenta e patriarcal como a nossa, exp\u00f4s mais mulheres a outras viol\u00eancias, como o estupro, ainda que os dados oficiais, por conta da subnotifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o revelem isso diretamente. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-30\/abortos-legais-em-hospitais-referencia-no-brasil-disparam-na-pandemia-e-expoem-drama-da-violencia-sexual.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">E, justo nesse momento, os servi\u00e7os de aborto legal no pa\u00eds diminu\u00edram consideravelmente<\/a> (apenas 42 hospitais mantiveram os servi\u00e7os) e o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, emitiu a Portaria 2.282\/20, que interditou ainda mais o acesso das mulheres a esse direito atrav\u00e9s do SUS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa medida foi adotada logo ap\u00f3s a resist\u00eancia feminista ter garantido a realiza\u00e7\u00e3o do aborto legal \u00e0 menina de 10 anos de idade do Esp\u00edrito Santo, v\u00edtima de sucessivos estupros incestuosos de familiar adulto, e que engravidou durante o isolamento da pandemia. O procedimento foi viabilizado pela rede p\u00fablica de sa\u00fade do Recife, ap\u00f3s o direito ter sido negado no Esp\u00edrito Santo e ap\u00f3s a absurda investida de fundamentalistas crist\u00e3os, inclusive parlamentares, que se prostraram de joelhos, na porta de emerg\u00eancia da unidade hospitalar no Recife.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A hipocrisia social e dos\/as pseudocrist\u00e3os, que protagonizaram essa cena horrenda na frente do hospital (e tamb\u00e9m no seu interior), contra a menina\/mulher indefesa, evidenciou qu\u00e3o mis\u00f3ginas podem ser suas teologias e pr\u00e1ticas profissionais. O fato \u00e9 que essa mesma sanha conservadora mis\u00f3gina fundamentalista acirrou os \u00e2nimos no Congresso Nacional, a ponto de mais de 24 projetos de lei sobre aborto terem sido apresentados somente ap\u00f3s esse caso, somando-se na ocasi\u00e3o, pelo menos 69 PLs, a maioria propondo elevar o tom punitivista sobre n\u00f3s mulheres e apenas um, o PL 882\/2015, apresentado pelo ent\u00e3o deputado federal Jean Wyllys (PSOL\/RJ), propondo a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ataques da bancada conservadora, teocr\u00e1tica e fundamentalista no Congresso vem se revelando um retrocesso na garantia dos direitos sexuais e reprodutivos de mulheres e meninas e que, recentemente, veio \u00e0 tona com mais for\u00e7a com o PL 5.435\/20, que visa impedir a interrup\u00e7\u00e3o da gesta\u00e7\u00e3o em qualquer circunst\u00e2ncia, mesmo as j\u00e1 garantidas na Lei. Ou seja, mais um dos sucessivos ataques \u00e0 autonomia reprodutiva das mulheres, e que gerou uma a\u00e7\u00e3o nacional articulada pela Frente Nacional contra a Criminaliza\u00e7\u00e3o das Mulheres e pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, e por justi\u00e7a reprodutiva.<\/p>\n\n\n\n<p>As viol\u00eancias de g\u00eanero praticadas por esse governo s\u00e3o tamb\u00e9m racistas e elitistas, e s\u00e3o objetos de den\u00fancias nacionais e internacionais em raz\u00e3o de reiterados pronunciamentos e medidas do presidente e sua equipe, que objetificam as mulheres e meninas, muitas vezes culpabilizando-nos pelas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancias sexista que sofremos. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es ele exemplificou, ao longo desses dois anos de mandato, os problemas pol\u00edticos como de \u201cordem feminina\u201d e, em muitos casos, nos infantiliza e disponibiliza nossos corpos ao turismo sexual ou \u00e0 mera fun\u00e7\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e cuidados com a fam\u00edlia e trabalho dom\u00e9stico, reafirmando o modelo de fam\u00edlia heteropatriarcal. Isso contribui,&nbsp; nesse contexto de distanciamento e isolamento social, ainda mais para a reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e da ideia do poder dos homens sobre as mulheres, o adestramento dos nossos corpos e a depend\u00eancia das mulheres \u00e0 chamada figura masculina (pai, marido, pastor, religioso, tio), tratando-nos como n\u00e3o cidad\u00e3s e objeto sexual, o que se afirma pelos discursos mis\u00f3ginos, destituindo as mulheres do seu lugar de sujeito pol\u00edticos, refor\u00e7ando preconceitos e estigmas e, o mais grave, incentivando e autorizando a viol\u00eancia contra n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9, portanto, um governo mis\u00f3gino, que produz diariamente ataques \u00e0s sexualidades dissidentes ao padr\u00e3o heteropatriarcal, que acaba gerando consensos e padroniza\u00e7\u00f5es que normalizam situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia sexistas nos espa\u00e7os da casa e da rua, privado e p\u00fablico. E os ataques s\u00e3o sucessivos, entre um pronunciamento e outro, numa coletiva jornal\u00edstica, em uma reuni\u00e3o ministerial. Sempre n\u00f3s mulheres somos alvos do \u00f3dio sexista expresso em falas p\u00fablicas, mas tamb\u00e9m em a\u00e7\u00f5es,<a href=\"https:\/\/catracalivre.com.br\/cidadania\/13-anos-da-lei-maria-da-penha-entenda-quando-ela-pode-ser-usada\/#:~\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> como as altera\u00e7\u00f5es legislativas que asseguram prote\u00e7\u00e3o e direitos \u00e0s mulheres, e em programas e pol\u00edticas que buscam coibir ou enfrentar as in\u00fameras express\u00f5es de viol\u00eancia contra \u00e0s mulheres<\/a>, a exemplo da Lei 11.340\/2006, a lei Maria da Penha.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a viol\u00eancia contra as mulheres no contexto da pandemia no primeiro semestre de 2020 cresceu 1,9% em compara\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019 <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/anuario-14-2020-v1-interativo.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">segundo dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, com a divulga\u00e7\u00e3o do seu anu\u00e1rio<\/a>. Foram 648 feminic\u00eddios no primeiro semestre de 2020, com uma queda nos registros em 9,9% de den\u00fancias de casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, e desse percentual 60% eram mulheres negras. Tal diminui\u00e7\u00e3o, se avalia pela situa\u00e7\u00e3o de medo e amea\u00e7a vivida pelas mulheres na conviv\u00eancia com o agressor, no contexto de isolamento social da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>A incans\u00e1vel a\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, dentre os quais destacamos a for\u00e7a das mulheres e do feminismo, \u00e9 que tem enfrentado tais abusos, ataques e aumento da viol\u00eancia mesmo na pandemia. Eles se mant\u00eam vigilantes e ativos, desafiados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas metodologias e estrat\u00e9gias para lidar com as tecnologias de informa\u00e7\u00e3o num contexto de pobreza e criminaliza\u00e7\u00e3o dos sujeitos das lutas; denunciando as arbitrariedades; informando a sociedade; produzindo saberes, propostas, metodologias e a\u00e7\u00f5es contra-hegem\u00f4nicas, mobilizando e articulando as for\u00e7as pol\u00edticas, num esfor\u00e7o de converg\u00eancia, para enfrentar a avalanche conservadora fundamentalista que se acentuou na sociedade e fragilizou as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e os pr\u00f3prios movimento sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esses s\u00e3o alguns apontamentos que nos desafiam na luta feminista anticapitalista, antipatriarcal e antirracista atualmente, que s\u00f3 se efetivar\u00e1 mediante uma a\u00e7\u00e3o coletiva e em coletivos, agrupamentos, em alian\u00e7as nas redes e nas ruas, com seguran\u00e7a pol\u00edtica e sanit\u00e1ria contra o conservadorismo\/genoc\u00eddio em curso. A n\u00f3s, resta-nos mantermo-nos \u201catentas e fortes, porque n\u00e3o h\u00e1 tempo de temermos a morte\u201d. Como nos inspira Caetano Veloso, na m\u00fasica, Divino&nbsp; Maravilhoso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, como parte do movimento feminista, nos mantemos na resist\u00eancia, na luta em defesa dos direitos das mulheres, da vida e da democracia!<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>AS AUTORAS<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Maria Bet\u00e2nia \u00c1vila, doutora em Sociologia, \u00e9 pesquisadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, Membro do GT-CLACSO \u201cFeminismos, Resist\u00eancias e Emancipa\u00e7\u00e3o, Ativista da Articula\u00e7\u00e3o Feminista Marcosul (AFM) e da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras (AMB).<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e9rcia Alves, Assistente Social, integra o coletivo pol\u00edtico profissional SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia; militante feminista do F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco, da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras, e da Rede de Mulheres Negras de PE; comp\u00f5e a atual gest\u00e3o do CRESS-PE \u201cOnde queres sil\u00eancio, somos resist\u00eancia\u201d; \u00e9 doutoranda do PPGSS-UFPE.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Rivane Arantes, educadora e pesquisadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, \u00e9 mestra em Direitos Humanos pela UFPE e ativista da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras\/AMB, Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e integrante do Comit\u00ea Latino Americano e do Caribe para os direitos da Mulher (CLADEM\/BR).<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>COMO CITAR ESTE TEXTO<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>\u00c1VILA, Maria Bet\u00e2nia; ALVES, M\u00e9rcia; ARANTES, Rivane. Na pandemia, n\u00f3s mulheres \u201cestamos de luto e lutando\u201d (Artigo). In: <em>Coletiva<\/em>. Publicado em 31 mar 2021. Dispon\u00edvel em\u00a0<object height=\"0\">. ISSN 2179-1287.\u00a0<\/object><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia da Covid-19 aprofunda e revela as desigualdades e as injusti\u00e7as sociais. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 um acontecimento que surge como um fen\u00f4meno novo e por acaso. \u00c9 consequ\u00eancia do desenvolvimento desse sistema capitalista, patriarcal e racista, um sistema de destrui\u00e7\u00e3o\u201d. Por Maria Bet\u00e2nia \u00c1vila, M\u00e9rcia Alves e Rivane Arantes (SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia), para a Coluna Pol\u00edtica e Cidadania da Revista Coletiva <\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":14062,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"A pandemia aprofunda e revela as desigualdades e as injusti\u00e7as sociais. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 um acontecimento que surge como um fen\u00f4meno novo e por acaso. Por Maria Bet\u00e2nia \u00c1vila, M\u00e9rcia Alves e Rivane Arantes, do SOS Corpo, para a Revista Coletiva. 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