{"id":14037,"date":"2021-04-26T17:24:26","date_gmt":"2021-04-26T20:24:26","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=14037"},"modified":"2021-04-26T17:24:27","modified_gmt":"2021-04-26T20:24:27","slug":"para-seguir-em-frente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=14037","title":{"rendered":"Para seguir em frente"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O DESAFIO DAS FRENTES<\/h5>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para seguir em frente <\/h2>\n\n\n\n<p><em>Por <strong>Silvia Camur\u00e7a<\/strong>,<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/para-seguir-em-frente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> para a Le Monde Diplomatique Brasil<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A falta de tradi\u00e7\u00e3o para formar uma frente de esquerda duradoura no Brasil vem de muito tempo<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No debate sobre os caminhos de supera\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe pol\u00edtica na qual vivemos desde 2016, h\u00e1 algumas disjuntivas relevantes que dificultam constituir frentes com partidos e movimentos, em todos os sentidos. Uma dessas disjuntivas \u00e9 sobre quem ou o que \u00e9 o \u201cinimigo principal\u201d, se Bolsonaro, Bolsonaro e Mour\u00e3o (a chapa) ou o bolsonarismo. Outra \u00e9 o debate em torno de frente ampla e frente de esquerda. E ainda se o golpe de 2016 abriu ou n\u00e3o o caminho para o governo bolsonarista. Tudo isso e muito mais erige barreiras desafiadoras no debate entre lideran\u00e7as partid\u00e1rias, sindicais, analistas pol\u00edticos, no interior e entre diversas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos movimentos sociais, e expressa-se at\u00e9 mesmo num debate sobre eixos do 8 de Mar\u00e7o, em que se espera unidade forte. Na perspectiva de onde vejo, situada no movimento feminista, o dilema tem origem nas pr\u00e1ticas e na cultura pol\u00edtica das esquerdas, mas tamb\u00e9m h\u00e1 quest\u00f5es program\u00e1ticas: o escopo do programa necess\u00e1rio e os modos de constru\u00e7\u00e3o e pactua\u00e7\u00e3o desse programa e da frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em minha opini\u00e3o, o tempo da frente ampla era a elei\u00e7\u00e3o de 2018; esse tempo j\u00e1 passou. J\u00e1 vivenciamos os efeitos das medidas ultraliberais lideradas pela ultradireita, com a coniv\u00eancia de muitos setores \u2013 m\u00eddia, parlamentares e partidos do chamado \u201ccentro democr\u00e1tico\u201d. J\u00e1 vimos a coopta\u00e7\u00e3o de integrantes de partidos autoproclamados de centro e centro-esquerda nas elei\u00e7\u00f5es recentes das mesas diretoras da C\u00e2mara e Senado. O programa Ponte para o Futuro, ultraneoliberal, foi abra\u00e7ado pela <em>frente ampla<\/em> que isolou as esquerdas e imp\u00f4s o golpe, sustentou os 97% de desaprova\u00e7\u00e3o do Temer, n\u00e3o bloqueou a candidatura do admirador declarado de torturador e insuflou antipetismos nas elei\u00e7\u00f5es de 2018. Essa <em>frente ampla<\/em> deu suporte pleno e agora d\u00e1 \u201capoio cr\u00edtico\u201d ao governo Bolsonaro. \u00c9 improv\u00e1vel uma frente ampla simplesmente. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer frente program\u00e1tica com quem tem outra op\u00e7\u00e3o, outras prioridades e outros compromissos, j\u00e1 demonstrados no passado recente e no presente. Portanto, h\u00e1 que ter escalas de programas para gerar a unidade poss\u00edvel e desejada, t\u00e1tica e estrat\u00e9gica, de curto e longo prazo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez dev\u00eassemos pensar numa frente de esquerda que se localize dentro de uma frente ampla, esta com programa rebaixado, certamente. Contudo, as raz\u00f5es apontadas fartamente para dificultar a forma\u00e7\u00e3o de uma frente no Brasil tamb\u00e9m existem na esquerda, o que amplia as barreiras. A falta de tradi\u00e7\u00e3o para formar uma frente de esquerda duradoura no Brasil vem de muito tempo e esteve presente no fim da ditadura quando da sa\u00edda de alguns partidos da clandestinidade. O pr\u00f3prio MDB, uma frente ampla, n\u00e3o foi duradouro como, por exemplo, a Frente Ampla uruguaia e nunca teve uma frente de esquerda duradoura e organizada dentro. Al\u00e9m disso, as vaidades pessoais s\u00e3o fortes em dirigentes partid\u00e1rios. Os homens seguem com controle dos partidos e, para piorar, as inst\u00e2ncias de democracia interna nos partidos, onde havia, est\u00e3o fragilizadas. O mesmo pode-se dizer do n\u00e3o lugar de negros e negras, ind\u00edgenas e trabalhadores\/as informais (grande massa da classe trabalhadora hoje) nos partidos e no movimento sindical.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no feminismo, que n\u00e3o se movimenta pelo calend\u00e1rio eleitoral, muito al\u00e9m do governo Bolsonaro como inimigo, apontamos para o bolsonarismo. Pois, se o governo Bolsonaro est\u00e1 sustentado pela burguesia, os militares e os fundamentalistas religiosos, o pa\u00eds est\u00e1 sob o comando pol\u00edtico do bolsonarismo, um movimento de caracter\u00edsticas neofacistas. Esse movimento concretiza seu projeto pela apologia a viola\u00e7\u00f5es de direitos, \u00e0 viol\u00eancia pol\u00edtica, ao racismo e ao machismo, promovendo perspectivas neocoloniais nas pol\u00edticas econ\u00f4micas, fortalecendo o fundamentalismo crist\u00e3o e formando quadros: oferecem cursos na modalidade EAD (Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia) voltados para a forma\u00e7\u00e3o \u201cde milit\u00e2ncia conservadora\u201d na internet. Para completar esse car\u00e1ter neofacista, o bolsonarismo conta com base armada, com as pol\u00edcias no interior do Estado e com for\u00e7a paramilitar miliciana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os representantes do bolsonarismo emergiram \u00e0 luz do dia na coaliz\u00e3o que combateu fortemente os termos do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), de 2009, no Congresso Nacional. Ali confrontaram tudo, da Comiss\u00e3o da Verdade aos termos do direito \u00e0 terra; do aborto \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e liberdade de c\u00e1tedra; igualdade de g\u00eanero e todas as pautas de direitos econ\u00f4micos ambientais. A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de R\u00e1dio e TV (Abert) questionava a premissa da comunica\u00e7\u00e3o como direito humano. De l\u00e1 para c\u00e1, pr\u00f3ceres, quadros e lacaios do bolsonarismo enraizaram-se nas institui\u00e7\u00f5es do Estado e nos tr\u00eas poderes, Judici\u00e1rio, Executivo e Legislativo, em todos os planos da federa\u00e7\u00e3o, e ampliaram seu aparato midi\u00e1tico pela concess\u00e3o de r\u00e1dio e TV \u00e0s igrejas neopentecostais e tradicionais, gerando as condi\u00e7\u00f5es de doutrina\u00e7\u00e3o di\u00e1ria nas redes da internet junto a suas bases sociais \u2013 muito dos contornos de um movimento neofacista.<\/p>\n\n\n\n<div id=\"attachment_191567\" class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/pag22_Encarte_pag02-03_Le_Monde_Edicao_164_Douglas_Carlos_Ilustra_Vitor_Atrizes-e1614631863891.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-191567\"\/><figcaption>(Cr\u00e9dito: Vitor Flynn)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O feminismo est\u00e1 entre os inimigos do bolsonarismo. Inimigo pol\u00edtico a ser destru\u00eddo, como \u00e9 pr\u00f3prio do fascismo, seja pela repress\u00e3o e desmantelamento das organiza\u00e7\u00f5es, seja pela viol\u00eancia pol\u00edtica contra as mulheres feministas. O movimento negro tamb\u00e9m, assim como os movimentos ind\u00edgenas, as organiza\u00e7\u00f5es da agroecologia, da economia solid\u00e1ria, das lutas por terra e territ\u00f3rios nas cidades e no campo. A popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e1 sob ataque genocida redobrado; a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena est\u00e1 atacada para fins de exterm\u00ednio, a \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d. Mas as mulheres vivem e viram crescer, al\u00e9m do enorme desemprego e da fome, a viol\u00eancia sexual e o feminic\u00eddio em seus territ\u00f3rios, moradias e espa\u00e7os de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do grav\u00edssimo problema do desmonte do Estado democr\u00e1tico de direito est\u00e1 o esgar\u00e7amento do tecido social e da sociabilidade minimamente democr\u00e1tica e a reestrutura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es sociais em bases autorit\u00e1rias e absurdamente violentas: do modelo de fam\u00edlia patriarcal aos pres\u00eddios, passando pelas escolas e servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade. Muito pior que propagar a ideologia das \u201cbelas, recatadas e do lar\u201d, o bolsonarismo projeta sobre n\u00f3s seu desejo de domina\u00e7\u00e3o total e sua necropol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso, entre setores do feminismo, haja a defesa de uma frente autonomista de movimentos e coletivos, que possa construir um programa desde as margens pol\u00edticas e fronteiras partid\u00e1rias, renovando a pr\u00e1tica de constru\u00e7\u00e3o de programas: faz\u00ea-lo em espa\u00e7os e processos participativos e transformadores das subjetividades, hoje hegemonizadas pelo liberalismo individualista e consumista, como sabemos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do m\u00e9todo, a pr\u00f3pria perspectiva cr\u00edtica de um programa numa frente autonomista precisaria acolher e valorizar novos referenciais de leitura da realidade brasileira, para al\u00e9m da ortodoxia marxista, mas nem por isso antag\u00f4nicas a ela. Uma frente autonomista, se inscrita dentro de uma frente de esquerda duradoura, poderia estar dentro de uma frente ampla, pelo menos nas elei\u00e7\u00f5es, mas iria enfrentar e destruir o bolsonarismo fazendo essa luta pelo tempo que for necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>*<strong>Silvia Camur\u00e7a<\/strong> \u00e9 educadora popular, mestre em Sociologia pela UFPE, integrante do SOSCorpo Instituto Feminista pela Democracia e militante feminista da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A falta de tradi\u00e7\u00e3o para formar uma frente de esquerda duradoura no Brasil vem de muito tempo. 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