{"id":13065,"date":"2020-12-02T12:21:00","date_gmt":"2020-12-02T15:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=13065"},"modified":"2020-11-30T17:03:55","modified_gmt":"2020-11-30T20:03:55","slug":"26-anos-do-filme-priscilla-as-aventuras-de-uma-feminista-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=13065","title":{"rendered":"26 anos do filme Priscilla: As aventuras de uma feminista no deserto"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"359\" data-attachment-id=\"13066\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=13066\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/portada.jpg?fit=980%2C550&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"980,550\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"portada\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/portada.jpg?fit=300%2C168&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/portada.jpg?fit=640%2C359&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/portada.jpg?resize=640%2C359&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-13066\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/portada.jpg?w=980&amp;ssl=1 980w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/portada.jpg?resize=300%2C168&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/portada.jpg?resize=768%2C431&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Relatar minha viv\u00eancia partindo de uma refer\u00eancia audiovisual \u00e9 estimulante e, inclusive, \u00fatil como ponto de partida para pensar que coisas mudaram no deserto australiano, do qual pouco sabemos se n\u00e3o por meio de document\u00e1rios ou hist\u00f3rias sobre animais e insetos mortais. O primeiro que direi \u00e9 que o deserto \u00e9 tudo menos o que imaginamos que \u00e9.<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><em>Por Sof\u00eda Villalba Laborde, em Cuerpos Pol\u00edticos, na <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\/feminista-desierto-por\" target=\"_blank\"><strong>Revista Bravas N\u00ba13<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando estreou o filme As aventuras de Priscilla, rainha do deserto em 1994, eu tinha apenas 4 anos. A vi quando j\u00e1 me encontrava aqui, no mesmo lugar que as personagens e vivendo a experi\u00eancia mais inesperada.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 uma interessante contribui\u00e7\u00e3o audiovisual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta das pessoas LGBT+. A hist\u00f3ria transcorre na Austr\u00e1lia, entre Sidney e o \u201coutback\u201d, o deserto do Territ\u00f3rio do Norte. As personagens s\u00e3o tr\u00eas drag queens e a trama tem a ver com suas trajet\u00f3rias pessoais, com uma permanente remiss\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e, em particular, \u00e0 exclus\u00e3o por parte do entorno familiar em que vivem as pessoas dentro desse coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Igual \u00e0s personagens, atravessei a rota Stuart Highway que une o Estado do Sul com o do Norte e cruzei o pa\u00eds de ponta a ponta. \u00c9 uma rota onde predomina a aridez e as forma\u00e7\u00f5es rochosas. O deserto australiano se caracteriza pela terra de cor vermelha, as altas temperaturas durante o dia e as temperaturas abaixo de zero no inverno. Sim, como bem mostra o filme, \u00e9 verdade que h\u00e1 muit\u00edssimas, muit\u00edssimas moscas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre uma ampla variedade de r\u00e9pteis e aracn\u00eddeos, a rota do deserto tem alguns pequenos povoados, comunidades e tamb\u00e9m os conhecidos hot\u00e9is de rota, chamados em ingl\u00eas \u201croadhouses\u201d. Acho que um dos lugares mais impactantes \u00e9 Coober Pedy, um povoado constru\u00eddo de forma subterr\u00e2nea devido \u00e0s altas temperaturas, onde uma das personagens vive uma cena de viol\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_d42ea12342ca473aa77454a43374df41~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_800%2Ch_500%2Cal_c%2Cq_85%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/b45053_d42ea12342ca473aa77454a43374df41~mv2.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foto: Sherlyn Saadi<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Visibilizando estere\u00f3tipos<\/h3>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas drag queens aceitam o desafio de realizar um show na cidade do meio do deserto sabendo que isso n\u00e3o s\u00f3 implica uma travessia longa e \u00e1rida, mas tamb\u00e9m a possiblidade de que seu show n\u00e3o seja aceito pelo p\u00fablico. E \u00e9 aqui onde me parece interessante me deter e conversar sobre alguns estere\u00f3tipos que atravessam o filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha primeira observa\u00e7\u00e3o a respeito tem a ver com que o filme mostra um claro contraste entre as mulheres e homens da cidade e as pessoas que habitam o deserto. \u00c9 verdade que h\u00e1 determinadas viv\u00eancias, linguagem e inclusive express\u00f5es culturais que s\u00e3o particulares desta regi\u00e3o e n\u00e3o das cidades, por\u00e9m isso n\u00e3o significa que no outback algu\u00e9m tenha que viver, necessariamente, mais discrimina\u00e7\u00e3o que na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro estere\u00f3tipo \u00e9 o de mostrar mulheres ou identidades n\u00e3o hegem\u00f4nicas viajando por longas rotas. O manejo de um autom\u00f3vel, enfrentar um acidente e, inclusive, entrar em um bar para beber se mostra como um desafio para quem opta pela rota do deserto.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro estere\u00f3tipo \u2013 e o mais preocupante \u2013 \u00e9 a forma com que se mostram as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Isso n\u00e3o \u00e9 algo pr\u00f3prio do filme, mas que existe a n\u00edvel geral, e se trata de uma romantiza\u00e7\u00e3o que assenta suas ra\u00edzes na discrimina\u00e7\u00e3o e invisibilidade que estas pessoas sofreram inclusive em espa\u00e7os institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p>No Estado do Norte, 35% da popula\u00e7\u00e3o corresponde aos \u201cAboriginals\u201d \u2013 sua denomina\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas \u2013, que vivem n\u00e3o apenas na cidade de Alice Springs, mas tamb\u00e9m em comunidades das zonas remotas e isoladas do deserto. Essa popula\u00e7\u00e3o teve que sustentar um estado de permanente luta e resist\u00eancia por seus territ\u00f3rios, conseguindo recentemente, em 1992, que fosse oficialmente revogado o princ\u00edpio \u201cTerra nullius\u201d, que estabelecia que o territ\u00f3rio australiano se encontrava desocupado quando chegaram os brit\u00e2nicos. Por\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena sofreu um deslocamento n\u00e3o apenas a n\u00edvel territorial. Em 2007, durante o governo do Primeiro Ministro Kevin Rudd, foi apresentada uma desculpa nacional e, no ano seguinte, uma desculpa \u00e0s \u201cgera\u00e7\u00f5es roubadas\u201d, o sequestro massivo de beb\u00eas que ocorreu entre os anos de 1869 e 1976 por parte do governo australiano. N\u00e3o s\u00f3 neste filme, mas em v\u00e1rias express\u00f5es audiovisuais e art\u00edsticas, \u00e9 poss\u00edvel notar a romantiza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, mostrando somente a parte art\u00edstica e cultural de suas comunidades. Elas s\u00e3o representadas quase exclusivamente realizando cantos que fazem parte de sua tradi\u00e7\u00e3o, fogueiras e dan\u00e7as. N\u00e3o quero dizer com isso que o filme deveria ter abordado esta problem\u00e1tica, mas quero chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre o chamativo e preocupante que \u00e9 este padr\u00e3o de abordagem da vida das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, que se repete em todas as partes do mundo, em todas as \u00e9pocas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, o Estado australiano desenvolve pol\u00edticas p\u00fablicas nas comunidades, tais como a chamada \u201cInterven\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio Norte\u201d ou a \u201cResponsabilidade compartilhada\u201d. Este tipo de interven\u00e7\u00f5es se apresenta como urgentes devido \u00e0 desigualdade que vive esta popula\u00e7\u00e3o em termos educacionais e de sa\u00fade, que resulta na necessidade de estabelecer restri\u00e7\u00f5es no consumo de \u00e1lcool e no acesso a determinados espa\u00e7os recreativos, especialmente visando \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia. Assim, das diversas formas de gerar e implementar pol\u00edticas p\u00fablicas, a escolhida pela Austr\u00e1lia \u00e9 o tipo de pol\u00edtica \u201cde cima\u201d, que n\u00e3o incluem em seu desenho a voz da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o sobre a que ser\u00e1 implementada. Isso d\u00e1 conta do paternalismo e indiferen\u00e7a que sente o pa\u00eds para com sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, que se traduz em uma vulnerabilidade dos direitos humanos hist\u00f3rica e alarmante. Quando pensamos no conceito de desenvolvimento, \u00e9 poss\u00edvel colocar a Austr\u00e1lia dentro da lista de pa\u00edses candidatos a cumprir com esse modelo. Contudo, deveria realizar-se urgentemente uma revis\u00e3o do que isso significa, j\u00e1 que a forma de fazer pol\u00edtica p\u00fablica \u2013 especialmente em torno desta popula\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m deveria fazer parte do que se entende como \u201cdesenvolvimento\u201d na hora de pensar na organiza\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds. O desenvolvimento n\u00e3o deveria ser medido apenas em termos econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_fa80904f74d842c39133a325bc32b39b~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_600%2Ch_750%2Cal_c%2Cq_85%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/b45053_fa80904f74d842c39133a325bc32b39b~mv2.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foto: Sherlyn Saadi<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">26 anos e v\u00e1rios quil\u00f4metros mais tarde<\/h3>\n\n\n\n<p>Terminar 26 anos depois, de forma inesperada, dormindo nos mesmos lugares que as personagens do filme \u2013 no hotel Lasseters, por exemplo \u2013 foi para mim emocionante, mas, sobretudo, foi uma experi\u00eancia que me interpelou muito. Se o destino n\u00e3o me trouxesse at\u00e9 aqui, nunca teria me dado conta da hist\u00f3rica e sustentada vulnerabilidade de direitos da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena australiana.<\/p>\n\n\n\n<p>O isolamento do deserto \u00e9 algo latente todos os dias, que se acentua quando pegas a carteira e te das conta de que aqui o dinheiro n\u00e3o se usa no cotidiano, porque o capitalismo n\u00e3o resiste com facilidade \u00e0s altas temperaturas e \u00e0 aridez do meio do nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 algo a que estejamos acostumadas. Cada noite, quando as luzes se apagam e se acende o c\u00e9u, ver a via l\u00e1ctea me lembra onde est\u00e3o as prioridades. Cada lugar considerado reserva natural tem uma mistura de mist\u00e9rio geogr\u00e1fico com hist\u00f3ria e espiritualidade; cada lugar sagrado conserva intacta uma energia que pode ser sentida, como em Devils Marbles, quando o p\u00f4r do sol ilumina as forma\u00e7\u00f5es rochosas e os \u201csonhadores\u201d que ali descansam se entregam para a noite.<\/p>\n\n\n\n<p>A 26 anos deste filme, n\u00e3o tenho nenhuma d\u00favida de que as situa\u00e7\u00f5es de abuso, discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia vividas pelas personagens poderiam se repetir hoje em dia. Por\u00e9m isso n\u00e3o acontece s\u00f3 no deserto: essa \u00e9 a parte mais interessante. Priscilla \u00e9 um filme que mostra, com uma colora\u00e7\u00e3o estereotipada, o antagonismo da cidade com o outback. Mas \u00e9 um relato bastante fiel sobre o direito de ser quem somos e de transitar pelas rotas que queiramos.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres e dissid\u00eancias sexuais e de g\u00eanero podemos viajar sozinhas, podemos consertar carros que se quebrem na rota, podemos entrar em um bar no meio do deserto para tomar uma cerveja embora, 26 anos mais tarde, continuem nos olhando duas vezes quando nos veem chegar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relatar minha viv\u00eancia partindo de uma refer\u00eancia audiovisual \u00e9 estimulante e, inclusive, \u00fatil como ponto de partida para pensar que coisas mudaram no deserto australiano, do qual pouco sabemos se n\u00e3o por meio de document\u00e1rios ou hist\u00f3rias sobre animais e insetos mortais.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":13066,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Relatar minha viv\u00eancia partindo de uma refer\u00eancia audiovisual \u00e9 estimulante e, inclusive, \u00fatil como ponto de partida para pensar que coisas mudaram no deserto australiano. 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