{"id":11743,"date":"2020-08-07T13:20:00","date_gmt":"2020-08-07T16:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11743"},"modified":"2020-08-12T17:04:06","modified_gmt":"2020-08-12T20:04:06","slug":"as-novas-lutas-feministas-no-pos-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11743","title":{"rendered":"As novas lutas feministas no p\u00f3s-pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Modelo patriarcal j\u00e1 intensifica explora\u00e7\u00e3o dos corpos por meio de d\u00edvidas, chantagem por habita\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia machista e mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida. Economia feminista pode ser resposta: ela articula o Cuidado, o Comum e o Compartir.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\" data-attachment-id=\"11757\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=11757\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-t%C3%ADtulo-2-1024x576-1.jpg?fit=1024%2C576&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1024,576\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Sem-t\u00edtulo-2-1024&amp;#215;576-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-t%C3%ADtulo-2-1024x576-1.jpg?fit=300%2C169&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-t%C3%ADtulo-2-1024x576-1.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-t%C3%ADtulo-2-1024x576-1.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11757\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-t%C3%ADtulo-2-1024x576-1.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-t%C3%ADtulo-2-1024x576-1.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Sem-t%C3%ADtulo-2-1024x576-1.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por <strong>Luci Cavallero<\/strong> e <strong>Ver\u00f3nica Gago<\/strong>, no<a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/\"> <em>Sul21<\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O que acontece hoje \u00e9 uma renovada batalha pela propriedade. No meio da pandemia? Sim. Portanto, sem fazer r\u00e1pidas defini\u00e7\u00f5es grandiloquentes do que est\u00e1 por vir, nos interessa\u200b pensar no que est\u00e1 acontecendo. Nos detenhamos em como o futuro est\u00e1 sendo fabricado. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que existem quest\u00f5es feministas fundamentais para intervir na discuss\u00e3o atual sobre a propriedade. Queremos propor tr\u00eas. Por um lado, estamos testemunhando um novo impulso da <em>viol\u00eancia propriet\u00e1ria<\/em>, justamente porque a propriedade est\u00e1 representada como a fronteira que atravessa cada conflito na pandemia. Nem sempre \u00e9 t\u00e3o n\u00edtido. Ent\u00e3o, essa discuss\u00e3o aparece concentrada nos territ\u00f3rios da reprodu\u00e7\u00e3o social (espa\u00e7os visibilizados como fundamentais pelos feminismos) e no comando do futuro trabalho que o endividamento dom\u00e9stico procura controlar. E, em terceiro, que nesta crise a divis\u00e3o entre propriet\u00e1rixs e n\u00e3o propriet\u00e1rixs \u00e9 aprofundada atrav\u00e9s de l\u00f3gicas familiaristas, as quais vinham sendo fortemente questionadas em favor da constru\u00e7\u00e3o de espacialidades feministas. Vejamos uma de cada vez.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Viol\u00eancia propriet\u00e1ria<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Na Argentina, na \u00faltima semana aconteceram dois conflitos fundamentais a esse respeito: por um lado, o sancionamento de uma lei que regula os alugu\u00e9is e, por outro, a discuss\u00e3o sobre a expropria\u00e7\u00e3o (ou n\u00e3o) por parte do Estado de uma das principais exportadoras de gr\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>A lei para a regulamenta\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos alugu\u00e9is foi aprovada em meio a uma discuss\u00e3o parlamentar sobre se esse assunto era ou n\u00e3o parte da emerg\u00eancia sanit\u00e1ria. Quando o slogan #QuedateEnCasa (#FiqueEmCasa) mostrou a sobreposi\u00e7\u00e3o de crise habitacional e aumento da viol\u00eancia de g\u00eanero, por meio do coletivo Ni Una Menos em alian\u00e7a com o sindicato de Inquilinxs Agrupadxs, impulsionamos o slogan \u201ca casa n\u00e3o pode ser um lugar de viol\u00eancia machista nem de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria\u201d. As viol\u00eancias econ\u00f4micas que se expressam no acesso \u00e0 moradia e seu envolvimento com a viol\u00eancia de g\u00eanero s\u00f3 se aceleraram com a pandemia, colocando os holofotes no espa\u00e7o dom\u00e9stico entendido como \u201ca casa\u201d. Esta viol\u00eancia se concretiza no abuso direto de propriet\u00e1rios e imobili\u00e1rias que se aproveitam da situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica para amea\u00e7ar, aterrorizar, n\u00e3o renovar contratos ou diretamente despejar inquilinxs, descumprindo um decreto que o pro\u00edbe. O que aparece hoje como uma pergunta inevit\u00e1vel \u00e9 quem s\u00e3o os propriet\u00e1rios das habita\u00e7\u00f5es e hot\u00e9is dos quais s\u00e3o despejadas principalmente mulheres, l\u00e9sbicas, travestis e pessoas trans (algo que \u00e9 tamb\u00e9m indicado na nova lei, com a obrigatoriedade de declarar os contratos de loca\u00e7\u00e3o perante a ag\u00eancia tribut\u00e1ria).<\/p>\n\n\n\n<p>Em v\u00e1rios lugares do mundo, a valoriza\u00e7\u00e3o financeira da habita\u00e7\u00e3o tem o ritmo acentuado pela voracidade dos fundos de investimento que se aproveitam da crise para comprar casas. Sabemos disso por exemplo gra\u00e7as ao trabalho da PAH (Plataforma de Afetadxs pela Hipoteca) no Estado espanhol. \u00c9 o que est\u00e3o dizendo as organiza\u00e7\u00f5es sociais que buscam prorrogar a morat\u00f3ria contra os despejos para um milh\u00e3o de lares em Nova York, os quais afetam majoritariamente a popula\u00e7\u00e3o afro-americana e latina, a mesma que impulsionou a recente revolta hist\u00f3rica. Em pa\u00edses como a Argentina, \u00e9 a receita extraordin\u00e1ria do agroneg\u00f3cio que se \u201cderrama\u201d, entre outras coisas, como bolha imobili\u00e1ria e <em>boom<\/em> de constru\u00e7\u00e3o nas cidades (com o consequente aumento nos alugu\u00e9is).<\/p>\n\n\n\n<p>As din\u00e2micas imobili\u00e1rias e extrativistas, que cruzam as geografias aqui e ali, revelam que o aumento do pre\u00e7o da moradia \u00e9 um sintoma do aumento do poder das finan\u00e7as e que a sua conex\u00e3o com modelos extrativistas (e em particular o agroneg\u00f3cio) \u00e9 direta. A casa, esse suposto espa\u00e7o de ref\u00fagio privado denunciado pelos feminismos como epicentro das viol\u00eancias, \u00e9 o terminal de fluxos que s\u00e3o parte central do cen\u00e1rio econ\u00f4mico e pol\u00edtico mundial na crise. Por essa raz\u00e3o, a reivindica\u00e7\u00e3o pela soberania alimentar (um vocabul\u00e1rio de luta dos movimentos camponeses do sul) come\u00e7a em cada casa e em cada panela popular para alcan\u00e7ar questionar todo o circuito da valoriza\u00e7\u00e3o dos <em>commodities<\/em> de exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que, al\u00e9m do lobby imobili\u00e1rio atual diante da regulamenta\u00e7\u00e3o do aluguel, desencadeou-se tamb\u00e9m o lobby de cereais contra a inten\u00e7\u00e3o do governo argentino de expropriar um dos maiores exportadores de gr\u00e3os, no momento em que a emerg\u00eancia alimentar \u00e9 a maior trag\u00e9dia nos pa\u00edses do sul. Nos referimos \u00e0 empresa Vicent\u00edn, um grande conglomerado agroindustrial de exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios declarado em fal\u00eancia, que se tornou tema da agenda devido a uma investiga\u00e7\u00e3o que revelou que a fam\u00edlia propriet\u00e1ria triangulou dinheiro no exterior, sonegando impostos e fraudando ao banco p\u00fablico e a centenas de produtores.<\/p>\n\n\n\n<p>Em poucos dias, primeiro foram os agentes imobili\u00e1rios que levantaram suas vozes, depois uma mobiliza\u00e7\u00e3o que foi batizada de \u201crebeli\u00e3o dos propriet\u00e1rios\u201d tomou as ruas em todo o pa\u00eds exigindo a n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o do Estado no mercado de gr\u00e3os e, especialmente, em defesa da propriedade privada. Apesar da fraude j\u00e1 ser de conhecimento p\u00fablico, os protestos reivindicam o retorno dos propriet\u00e1rios \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da empresa em nome do respeito \u00e0 \u201cpropriedade familiar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia propriet\u00e1ria \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o que demonstra precisamente um poder propriet\u00e1rio que, diante das demandas emergenciais reivindicadas de baixo (emerg\u00eancia alimentar e habitacional), se v\u00ea amea\u00e7ado no que considera seu \u201cdireito natural\u201d de posse.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Socializa\u00e7\u00e3o dos meios de reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A batalha pela propriedade da qual estamos falando se desenrola na demanda concreta por usos comuns e p\u00fablicos dos bens e servi\u00e7os que possibilitam (ou n\u00e3o) a reprodu\u00e7\u00e3o da vida pessoal e coletiva. Considerada a reprodu\u00e7\u00e3o enquanto esfera estrat\u00e9gica sobre a qual se baseia a expropria\u00e7\u00e3o neoliberal e o endividamento dom\u00e9stico, a socializa\u00e7\u00e3o de seus meios e recursos emergiu como um dos elementos comuns a n\u00edvel global.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria dos pa\u00edses, a financeiriza\u00e7\u00e3o dos direitos sociais (que significa acess\u00e1-los por d\u00edvida e em benef\u00edcio de bancos e empresas) tem sido a segunda fase ap\u00f3s a privatiza\u00e7\u00e3o das infraestruturas p\u00fablicas e o sufocamento das economias autogestionadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que tamb\u00e9m se salienta: n\u00e3o est\u00e1 sendo discutido neste momento de quem s\u00e3o os servi\u00e7os p\u00fablicos, a quem pertence a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e medicamentos, de quem s\u00e3o as moradias, quais s\u00e3o as amea\u00e7as contra o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o que est\u00e3o em curso, de quem s\u00e3o as fortunas, que d\u00edvidas est\u00e3o sendo criadas e que reformas tribut\u00e1rias a crise exige? E mais: n\u00e3o v\u00ednhamos discutindo qual ordem sexual traz consigo a propriedade privada sobre os corpos e os territ\u00f3rios? Assim, a grande quest\u00e3o sobre quem vai pagar pela crise hoje est\u00e1 envolvida diretamente na discuss\u00e3o da propriedade. E, como diz\u00edamos, isso n\u00e3o \u00e9 abstrato. Se aterrissa nos terrenos estrat\u00e9gicos da reprodu\u00e7\u00e3o social (moradia, alimentos, medicamentos, educa\u00e7\u00e3o), em conex\u00e3o concreta com as formas de trabalho que os sustentam e os pap\u00e9is de g\u00eanero que exigem.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje nas casas, essas mesmas atulhadas de trabalho dom\u00e9stico, exaust\u00e3o psicol\u00f3gica e teletrabalho, novas d\u00edvidas est\u00e3o sendo contra\u00eddas, apesar da concess\u00e3o de renda emergencial. Na Argentina, por exemplo, al\u00e9m dos alugu\u00e9is, uma d\u00edvida crescente corresponde ao acesso \u00e0 conectividade. Ou seja, a d\u00edvida a pagar pelo consumo dos telefones celulares \u00e9 uma das que mais cresceu nesses meses. Isso se deve \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do uso dos telefones como meio de conex\u00e3o obrigat\u00f3rio especialmente para m\u00e3es com a escolaridade des filhes, quando n\u00e3o h\u00e1 computadores e\/ou rede wi-fi em casa. Fazer a li\u00e7\u00e3o de casa hoje exige para muitxs um uso enorme de dados que se adquire quase diariamente. Desse modo, a conta do telefone celular atinge cifras recordes em um momento que, como sabemos, \u00e9 caracterizado por perda de renda. Muitas benefici\u00e1rias de subs\u00eddios de emerg\u00eancia concedidos pelo governo se veem obrigadas a destinar grande parte dessa renda para o pagamento das tarifas das companhias telef\u00f4nicas (uma nova media\u00e7\u00e3o privada para o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica).<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, s\u00e3o formadas verdadeiras \u201ccestas\u201d de d\u00edvida, que se v\u00e3o refinanciando entre si, combinando diversas taxas de juros, formas de amea\u00e7a por inadimpl\u00eancia e diferentes cronogramas de vencimentos. Se algumas an\u00e1lises sociol\u00f3gicas falam dxs trabalhadorxs atuais como \u201ccoletorxs de renda\u201d, que j\u00e1 n\u00e3o podem mais garantir sua reprodu\u00e7\u00e3o com um sal\u00e1rio \u00fanico e est\u00e1vel, podemos falar de umx \u201ccoletora de d\u00edvidas\u201d que se acentua como figura da crise. As novas d\u00edvidas que invadem o terreno da reprodu\u00e7\u00e3o social encarnam uma disputa pela propriedade do tempo futuro, para impedir qualquer tipo de transi\u00e7\u00e3o para <em>outra<\/em> coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 urgente conectar a demanda de rendas, subs\u00eddios e sal\u00e1rios pelos quais hoje se luta em v\u00e1rios movimentos sociais, com o fornecimento de servi\u00e7os p\u00fablicos gratuitos (da conectividade \u00e0 \u00e1gua, da eletricidade aos servi\u00e7os de sa\u00fade) e pol\u00edticas de desendividamento para que essas rendas n\u00e3o sejam definitivamente absorvidas pelas corpora\u00e7\u00f5es de sempre: bancos, supermercados, empresas de telecomunica\u00e7\u00e3o e empresas de plataformas. Discutir a d\u00edvida, dom\u00e9stica e externa (inclusive a divis\u00e3o de espacialidade que ela representa), \u00e9 discutir a forma violenta com a qual se titulariza a propriedade do nosso trabalho a longo prazo e, portanto, do tempo futuro. Em outras palavras, rejeitar a \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d que a d\u00edvida imp\u00f5e como trabalho gratuito, barato e prec\u00e1rio no tempo por vir e como responsabiliza\u00e7\u00e3o individual, onerosa e privada da reprodu\u00e7\u00e3o cotidiana agora.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Aluguel, fam\u00edlia e quarentena: por uma espacialidade feminista<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A crise atual intensifica a divis\u00e3o entre propriet\u00e1rixs e n\u00e3o propriet\u00e1rixs em uma perspectiva familiarista. Por qu\u00ea? Quando o aluguel n\u00e3o pode ser pago devido \u00e0 restri\u00e7\u00e3o de renda, a moradia herdada ou conjugal \u00e9 refor\u00e7ada como a \u00fanica maneira de garantir a casa, excluindo realidades como as da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+, geralmente deserdada e com outras formas de conviv\u00eancia al\u00e9m da conjugalidade heterossexual. Assim, quando os subs\u00eddios e sal\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o suficientes, a propriedade familiar se transforma na moradia dispon\u00edvel, confirmando que esse direito se torna quase imposs\u00edvel de exercer fora da jurisdi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. A casa, dessa forma, volta a ser o lugar para \u201creordenar\u201d o que vinha sendo questionado. Al\u00e9m de ser o espa\u00e7o onde historicamente foram estabelecidos os pap\u00e9is de g\u00eanero associados \u00e0s tarefas de reprodu\u00e7\u00e3o, com suas longas horas de trabalho invisibilizado. Questionar o que chamamos de \u201ccasa\u201d \u00e9 tamb\u00e9m problematizar a assun\u00e7\u00e3o privada da responsabilidade pela crise.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento feminista, a for\u00e7a de mobiliza\u00e7\u00e3o nas ruas e de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos territ\u00f3rios dom\u00e9sticos, questionou tanto a romantiza\u00e7\u00e3o do lar quanto a familiariza\u00e7\u00e3o de seus contornos. De modos diversos e transversais, foi colocado em pauta o acesso \u00e0 moradia, dissociando-o da fam\u00edlia heteronormativa. Ao mesmo tempo em que a casa familiar era denunciada como um espa\u00e7o inseguro para mulheres, l\u00e9sbicas, bichas, travestis e trans (hoje ainda mais pela conviv\u00eancia obrigat\u00f3ria com os agressores), outra experi\u00eancia de ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o foi constru\u00edda, especialmente outros usos da rua e da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se todo regime de propriedade traz consigo uma ordem sexual e de divis\u00e3o do trabalho, tamb\u00e9m o detectamos na forma de demarcar contornos, movimentos e fixa\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o. A propriedade hoje est\u00e1 no centro do debate porque mapeia e sinaliza a batalha pelos limites que tenta, uma e outra vez, relan\u00e7ar o capital em suas formas mais brutais. O retiro familiarista da propriedade de que estamos falando implica, tamb\u00e9m, garantir trabalho dom\u00e9stico gratuito dxs n\u00e3o-propriet\u00e1rixs.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, voltamos \u00e0 import\u00e2ncia da confronta\u00e7\u00e3o com os alugu\u00e9is imobili\u00e1rios (como \u00e9 o caso da lei de alugu\u00e9is e o cumprimento do decreto de proibi\u00e7\u00e3o de despejos), institui\u00e7\u00f5es financeiras e do agroneg\u00f3cio ao mesmo tempo em que constru\u00edmos outros \u201cinteriores\u201d, inventando formas de ref\u00fagio, cuidado e acompanhamento que declinem aqui e agora a pergunta de como queremos viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modelo patriarcal j\u00e1 intensifica explora\u00e7\u00e3o dos corpos por meio de d\u00edvidas, chantagem por habita\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia machista e mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida. 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