{"id":11629,"date":"2020-07-13T17:01:00","date_gmt":"2020-07-13T20:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11629"},"modified":"2020-08-29T21:24:46","modified_gmt":"2020-08-30T00:24:46","slug":"autocuidado-coletivo-politico-e-inadiavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11629","title":{"rendered":"(Auto)cuidado \u2013 coletivo, pol\u00edtico e inadi\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em>Termo, hoje incorporado pela l\u00f3gica capitalista, come\u00e7ou a ser difundido nos anos 1980, em grupos feministas e antirracistas. Enxergava-se, no ato, pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o social \u2014 inclusive para criar novos imagin\u00e1rios. \u00c9 preciso recuper\u00e1-lo<\/em><\/h4>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"373\" data-attachment-id=\"11630\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=11630\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?fit=1200%2C700&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1200,700\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Stephanie-Pollo\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?fit=300%2C175&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?fit=640%2C373&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?resize=640%2C373&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11630\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?resize=1024%2C597&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?resize=300%2C175&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?resize=768%2C448&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Stephanie-Pollo.jpg?w=1200&amp;ssl=1 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Por <strong>CFEMEA<\/strong>, na coluna <strong><em><a aria-label=\"undefined (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/autocuidado-coletivo-politico-e-inadiavel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Baderna Feminista<\/a><\/em><\/strong> | Ilustra\u00e7\u00e3o: <strong>Stephanie Pollo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 passamos dos cem dias desde o in\u00edcio da Pandemia do Coronav\u00edrus, mas ainda estamos batendo recordes de n\u00famero de casos. Depois de tantos meses isoladas ou enfrentando o medo da infec\u00e7\u00e3o nas ruas, estamos exaustas. A fadiga \u00e9 sentida mesmo por quem conseguiu transferir o trabalho remunerado e o de cuidado para dentro de casa. O problema \u00e9 que diante de uma pol\u00edtica de morte, o isolamento social n\u00e3o funcionou como deveria e o resultado \u00e9 que at\u00e9 as pessoas que o defendem como medida de conten\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a est\u00e3o dando \u201cescapadas\u201d para aliviar o estresse, a solid\u00e3o, a tens\u00e3o e a ansiedade \u2013 como mostra uma <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-24\/fadiga-da-quarentena-leva-ate-os-defensores-do-isolamento-a-se-arriscarem-contra-as-regras.html\">mat\u00e9ria recente<\/a> do El Pa\u00eds. Em meio ao debate sobre o impacto disso, nos chamou aten\u00e7\u00e3o o uso da ideia de autocuidado, n\u00e3o s\u00f3 na mat\u00e9ria, mas em diversos textos da rede. Autocuidado \u00e9 um termo feminista antirracista, que nos \u00faltimos anos se popularizou e agora passou a fazer parte do imagin\u00e1rio sobre a Pandemia. No entanto, est\u00e1 sendo reiteradamente retirado do seu contexto pol\u00edtico, como se fosse restrito \u00e0 escolha e ao julgamento individual, sem ter rela\u00e7\u00e3o com o entorno ou a coletividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, se voc\u00ea tem acesso a p\u00e1ginas e perfis feministas em redes como o Facebook e Instagram, vai receber an\u00fancios de cremes, roupas, produtos para o corpo, comidas, que tamb\u00e9m s\u00e3o colocados sob o r\u00f3tulo de autocuidado. Muitos s\u00e3o caros, pouco acess\u00edveis para a maior parte das mulheres. As mulheres merecem se valorizar, amar o pr\u00f3prio corpo e a pr\u00f3pria beleza. O trabalho das mulheres tamb\u00e9m deve ser valorizado. No entanto, autocuidado n\u00e3o pode ser reduzido a um produto comercializ\u00e1vel e rent\u00e1vel. Grandes corpora\u00e7\u00f5es como o Instagram, o Facebook, a Coca Cola, a Unilever, ou mesmo os bancos e as grandes ind\u00fastrias n\u00e3o promovem o autocuidado, elas promovem a individualiza\u00e7\u00e3o e a mercantiliza\u00e7\u00e3o de todos os aspectos da nossa vida. Brigid Delaney, colunista do The Guardian, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2020\/jan\/31\/we-need-to-move-on-from-self-care-to-something-that-cannot-be-captured-by-capitalism\">argumenta<\/a> que isso acontece porque \u201cauto\u201d nos d\u00e1 a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que a resposta \u00e9 individual, em vez de \u201cver a n\u00f3s mesmas, nossa sa\u00fade e nossos destinos como indissoluvelmente ligados aos nossos semelhantes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de autocuidado propagada nas m\u00eddias ganha ades\u00e3o pela realidade que enfrentamos. As mulheres est\u00e3o cansadas, tendo que lidar com in\u00fameras jornadas, com o desgaste f\u00edsico e emocional da falta de respostas, com a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e o desemprego e as demais incertezas financeiras. Sem contar a viol\u00eancia dom\u00e9stica e urbana, a falta de perspectiva para os\/as jovens, a precariedade dos servi\u00e7os p\u00fablicos. A maior parte desses aspectos da vida cotidiana contempor\u00e2nea est\u00e3o fora do nosso controle individual. O que parece estar dentro do nosso controle? O que fazemos em casa ou com o nosso corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, h\u00e1 uma dimens\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, cuidado coletivo e seguridade social que ultrapassa as iniciativas individuais. N\u00e3o podemos ignorar o fato de que o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo e \u00e9 fundamental reivindicar que todas as pessoas tenham condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia nesta emerg\u00eancia. \u00c9 certo que o m\u00ednimo de autocuidado \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial n\u00e3o apenas para o nosso bem estar, mas para a nossa pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Mas que condi\u00e7\u00f5es temos de fazer essa escolha, como uma atitude individual, de cuidarmos de n\u00f3s mesmas neste cen\u00e1rio? O cuidado de si para as mulheres, negras e perif\u00e9ricas especialmente, \u00e9 ainda um direito a ser conquistado. Autocuidado est\u00e1 conectado \u00e0 luta pol\u00edtica e por isso ele precisa necessariamente aparecer com o seu par: o cuidado coletivo. Deveria estar pressuposto.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Autocuidado \u00e9 um termo do feminismo antirracista<\/h4>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante situar de onde vem a ideia de autocuidado. O termo ganhou grande repercuss\u00e3o junto ao movimento negro dos anos 80. Em um mundo p\u00f3s-crise e, no caso do Brasil, em processo de democratiza\u00e7\u00e3o, grupos feministas e negros estavam preocupados com a transforma\u00e7\u00e3o da cultura, com o compartilhamento de pr\u00e1ticas que fortalecessem a autonomia das pessoas, que pudessem romper com os sil\u00eancios impostos pelas opress\u00f5es. Uma transforma\u00e7\u00e3o que fosse pessoal e pol\u00edtica ao mesmo tempo. No Brasil, tivemos a dissemina\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de cuidados diversas nos chamados \u201cgrupos de consci\u00eancia\u201d, em que as mulheres se reuniam para discutir g\u00eanero, sexualidade, compartilhar leituras e contar suas hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as refer\u00eancias norte-americanas que difundiram o termo est\u00e1 Audre Lorde, mulher negra, feminista e l\u00e9sbica, que escreveu sobre autocuidado principalmente no final dos anos 1980, enquanto estava em tratamento contra um c\u00e2ncer. Em um dos textos que comp\u00f5e a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/mauricio-meireles\/2020\/06\/editoras-se-unem-para-publicar-obra-de-audre-lorde.shtml\">colet\u00e2nea<\/a> que a editora Ubu deve lan\u00e7ar em setembro, Lorde defende que o cuidado de si n\u00e3o era um ato de autoindulg\u00eancia, mas uma forma de autopreserva\u00e7\u00e3o e, portanto, <strong>um ato de guerra pol\u00edtica<\/strong>. Diante de uma pol\u00edtica de morte, manter as pessoas vivas \u00e9 um ato fundamental e pol\u00edtico. Mas isso parece imposs\u00edvel diante do cen\u00e1rio brasileiro na Pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhamos o Estado, miramos a parte da sociedade que aderiu ao fascismo e vemos qu\u00e3o assombroso \u00e9 o retrocesso. As batalhas populares que t\u00ednhamos vencido contra o racismo patriarcal n\u00e3o foram suficientes para impedir que o fascismo botasse mais lenha na fogueira (porque nunca tinha se apagado), acendendo outras chamas para arder a viol\u00eancia racista, patriarcal, capitalista com todas as dores que ela produz, as desigualdades que gera, a explora\u00e7\u00e3o que acumula, os genoc\u00eddios que comete, a devasta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica que realiza.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres brasileiras, em sua enorme diversidade e com todas as desigualdades entre n\u00f3s, est\u00e3o organizadas e em luta h\u00e1 muitos anos. E desde os primeiros ind\u00edcios da pandemia, em luta para sobrevivermos a ela. Estamos organizadas em redes de solidariedade para suprir a aus\u00eancia do Estado na garantia de alimenta\u00e7\u00e3o e produtos de higiene para as milh\u00f5es de pessoas de comunidades rurais e periferias urbanas, desempregadas, demitidas ou trabalhadoras aut\u00f4nomas que perderam sua renda nessa situa\u00e7\u00e3o. Estamos na luta, fazendo press\u00e3o pol\u00edtica, para reduzir os danos da pol\u00edtica genocida desse desgoverno. Estamos lidando, hoje e desde sempre, com a dupla e tripla jornada de trabalho, agora ainda com a sobrecarga que o isolamento social e o trabalho remoto imp\u00f5em \u00e0s mulheres com seus filhos e maridos em casa o tempo todo. Estamos lutando tamb\u00e9m, agora e h\u00e1 muitos anos, pelo direito de cuidarmos de n\u00f3s mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte da fadiga que enfrentamos agora tem a ver, claro, com o fato do governo federal se mostrar displicente, al\u00e9m de promover uma pol\u00edtica da morte para as popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 vulner\u00e1veis. Ele atua tamb\u00e9m para sabotar as iniciativas locais em defesa das vidas e do bem estar da popula\u00e7\u00e3o. Depois da mal sucedida tentativa de pressionar o governo para uma articula\u00e7\u00e3o nacional para o enfrentamento \u00e0 pandemia, coube aos estados e munic\u00edpios definirem sua pr\u00f3pria pol\u00edtica. E isso n\u00e3o funcionou. Os \u00edndices de ades\u00e3o ao isolamento sempre estiveram abaixo do esperado e se tornaram frequentes os conflitos entre governadores e prefeitos sobre o que poderia ser considerado servi\u00e7o essencial, o per\u00edodo de isolamento ou como organizar os atendimentos nos servi\u00e7os. Neste pa\u00eds historicamente governado pelas elites e oligarquias, brancas, patriarcais e heteronormativas, nenhuma lei, pol\u00edtica p\u00fablica ou direito em benef\u00edcio para os grupos sociais exclu\u00eddos dos espa\u00e7os de poder e decis\u00e3o foi aprovada sem que houvesse muita luta e press\u00e3o pol\u00edtica. Neste momento n\u00e3o seria diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 cuidado coletivo poss\u00edvel se n\u00e3o formos capazes de olhar as desigualdades entre n\u00f3s e a posi\u00e7\u00e3o que cada pessoa ocupa nesta rela\u00e7\u00e3o, porque a omiss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s desigualdades \u00e9 c\u00famplice da viol\u00eancia. O racismo patriarcal continua sendo estrutural. A repara\u00e7\u00e3o nunca aconteceu. Vidas negras, vidas ind\u00edgenas n\u00e3o importaram para os nossos colonizadores e ainda hoje n\u00e3o importam para o poder institu\u00eddo e para uma parte consider\u00e1vel da nossa sociedade. Porque o racismo \u00e9 uma marca t\u00e3o profunda, nesses tempos brutos de pandemia e pandem\u00f4nio fascista, todo dia vivemos o terror do Estado que mata, permite que outros matem ou abandona \u00e0 morte as pessoas dos grupos racializados. Todo dia vivemos o terror da sociedade majoritariamente indiferente \u00e0 crueldade, \u00e0 doen\u00e7a, \u00e0 agonia, \u00e0 tortura, aos assassinatos e \u00e0s injusti\u00e7as. Al\u00e9m dos negros, que sofrem diretamente o racismo e sempre lutaram contra as pessoas, as estruturas e institui\u00e7\u00f5es que o sustentam, enfrentar o racismo \u00e9 mais que urgente, e \u00e9 parte da tarefa da emerg\u00eancia que os brancos t\u00eam de responder. Conhecer-se na pr\u00f3pria branquitude para reconhecer de outro lugar a negritude e lutar contra o racismo \u00e9 um compromisso radical, inadi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por mais espa\u00e7os de cuidado no movimento de mulheres<\/h4>\n\n\n\n<p>Todo o contexto pol\u00edtico e a pr\u00f3pria necessidade de lutar pela vida e por direitos tamb\u00e9m causam fadiga e uma exaust\u00e3o profunda nas mulheres feministas. A luta e o ativismo muitas vezes podem ser catalisadores de processos emocionais dolorosos. Por isso \u00e9 t\u00e3o importante fomentar espa\u00e7os e iniciativas onde essas quest\u00f5es sejam conversadas, lugares que mantenham o compromisso \u00e9tico com a transforma\u00e7\u00e3o do mundo e da l\u00f3gica patriarcal e racista da pol\u00edtica hegem\u00f4nica. Quando estamos em grupos, nos fortalecemos, ganhamos confian\u00e7a para reivindicar nossa liberdade. Recuperar esse hist\u00f3rico do termo autocuidado e o colocar com o seu par, \u201ccuidado coletivo\u201d \u00e9 importante para entendermos que o que defendemos por autocuidado n\u00e3o se separa da ideia de um projeto pol\u00edtico antifascista, feminista e antirracista, que enfrente o neoliberalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma maneira que a autotransforma\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o social, o autocuidado e o cuidado coletivo se nutrem mutuamente. N\u00e3o h\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o social poss\u00edvel se as pessoas que est\u00e3o na luta n\u00e3o forem, elas mesmas, portadoras de outros desejos, de outra \u00e9tica, outro imagin\u00e1rio, outra cultura. Se n\u00e3o acreditarem em outras possibilidades, nem ousarem experimentar outras formas de organizar a luta para terem direitos, viverem bem, serem livres e felizes.<\/p>\n\n\n\n<p>O cuidado \u00e9 o m\u00e9todo, mas tamb\u00e9m a estrat\u00e9gia que nos orienta ao Bem Viver, \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da liberdade sexual, do car\u00e1ter multirracial, pluri\u00e9tnico e ecossocial para a sociedade que estamos construindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cuidados comunit\u00e1rios podem incluir coisas como tornar-se dispon\u00edvel para pessoas que precisam de apoio, a\u00e7\u00f5es que se popularizaram no in\u00edcio da Pandemia. Mas a luta pelo SUS, por jornadas dignas de trabalho, por uma renda m\u00ednima universal tamb\u00e9m \u00e9 parte disso. Individualmente, \u00e9 poss\u00edvel encontrar formas de lidar com o estresse, a ansiedade e o medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, desde o in\u00edcio da Pandemia, multiplicamos as Rodas de autocuidado e cuidado coletivo, as forma\u00e7\u00f5es. Vimos aparecerem grupos de apoio, oficinas de escrita, guias e manuais de pr\u00e1ticas naturais. Experimentar o contato com a outra pessoa e ser capaz de dialogar, respeitar, admirar outros princ\u00edpios, outros pontos de vista, reconhecer outros pontos de partida, processar os conflitos pr\u00f3prios do encontro entre diferentes, vislumbrar outras possibilidades al\u00e9m da desigualdade para lidar com a diferen\u00e7a, envolver-se para que tal alternativa se viabilize, engajar-se pessoal e politicamente nesta constru\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente imprescind\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1logo intercultural que experimentamos gera reconhecimento m\u00fatuo e \u00e9 cuidadoso, envolve conhecer-se para poder reconhecer a outra. N\u00e3o supomos que a individualidade, a autonomia das mulheres possa ser constitu\u00edda desprovida de v\u00ednculos. Cada uma \u00e9 o que \u00e9 na rela\u00e7\u00e3o com as outras e por isso ganhamos for\u00e7a e autonomia. A individualidade desprovida de v\u00ednculos \u00e9, de fato, dependente, pode at\u00e9 ser dominante, mas n\u00e3o sobrevive sem a parte dominada, e \u00e9 assim que se constitui a falsa independ\u00eancia dos homens brancos no poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses tempos brutos que vivemos, h\u00e1 muitas iniciativas populares, feministas antirracistas que articulam autocuidado e cuidado coletivo germinando por a\u00ed. Tem contrapoder sendo plantado, subvers\u00e3o da ordem racista e patriarcal em plena opera\u00e7\u00e3o, ultrapassagem das fronteiras entre o pessoal e o pol\u00edtico acontecendo todo o tempo. S\u00e3o micropol\u00edticas, iniciativas que fazem circular a solidariedade e o cuidado entre as mulheres nos coletivos, nas comunidades, nos movimentos a que pertencem. Em tempos de pandemia, apesar de tudo, gira entre a mulheres a solidariedade com a dor, o sofrimento, a enfermidade, o desespero, a fadiga, a escassez, a viol\u00eancia, as perdas que as mulheres vivem. S\u00e3o m\u00e3os dadas em reciprocidade, mais que solidariedade, capazes de compartilhar alimentos, produtos de higiene, mobilizar recursos e servi\u00e7os, mas tamb\u00e9m afeto, amorosidade, cumplicidade, confian\u00e7a no coletivo. H\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o compartilhada para a autotransforma\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o social, para o autoconhecimento e o reconhecimento m\u00fatuos. S\u00e3o iniciativas micropol\u00edticas que respondem \u00e0 emerg\u00eancia, sem, contudo, perder de vista a estrat\u00e9gia feminista antirracista que nos orienta \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste sentido que trazemos o conceito de autocuidado, cunhado por uma mulher negra ativista enquanto um ato de guerra pol\u00edtica, contra o racismo, o machismo e o individualismo neoliberal que nos empurra ao abandono de n\u00f3s mesmas e nossas semelhantes. O autocuidado e o cuidado coletivo s\u00e3o alicerce, armas e muni\u00e7\u00e3o para as guerras cotidianas que estamos travando para sobrevivermos, vencermos o fascismo que nos oprime e construirmos um mundo de Bem Viver.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a no\u00e7\u00e3o radical de autocuidado e cuidado coletivo que defendemos, no CFEMEA, na Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras e no campo dos movimentos feministas e antirracistas. N\u00e3o o termo como foi apropriado pelo mercado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Termo, hoje incorporado pela l\u00f3gica capitalista, come\u00e7ou a ser difundido nos anos 1980, em grupos feministas e antirracistas. 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