{"id":11557,"date":"2020-07-09T16:31:00","date_gmt":"2020-07-09T19:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11557"},"modified":"2020-07-03T20:41:46","modified_gmt":"2020-07-03T23:41:46","slug":"nao-podemos-nos-permitir-perder-liderancas-entrevista-com-maite-rodriguez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11557","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o podemos nos permitir perder lideran\u00e7as\u201d, entrevista com Maite Rodr\u00edguez"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong><em>Como se vinculam a situa\u00e7\u00e3o das mulheres, a administra\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e os conflitos relativos ao meio ambiente e \u00e0 pandemia? Como se reconstr\u00f3i depois de uma crise de dimens\u00f5es planet\u00e1rias? Durante a entrevista, Maite Rodr\u00edguez vai costurando, um a um, esses conceitos.<\/em><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"355\" data-attachment-id=\"11558\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=11558\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-6-1.jpg?fit=875%2C485&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"875,485\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"capa-6-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-6-1.jpg?fit=300%2C166&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-6-1.jpg?fit=640%2C355&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-6-1.jpg?resize=640%2C355&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11558\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-6-1.jpg?w=875&amp;ssl=1 875w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-6-1.jpg?resize=300%2C166&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/capa-6-1.jpg?resize=768%2C426&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong><em>Por Bah\u00eda Flores<\/em><\/strong> |<strong><a href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\/entrevista-m-rodriguez-por\" target=\"_blank\" aria-label=\"undefined (opens in a new tab)\" rel=\"noreferrer noopener\"> Revista BRAVAS n.12<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Maite Rodr\u00edguez Bland\u00f3n \u00e9 ativista, Coordenadora de Programas da Funda\u00e7\u00e3o Guatemala, fundada em 1987. Lidera a Rede de Mulheres e Paz na Am\u00e9rica Central, que agrupa organiza\u00e7\u00f5es de mulheres da Nicar\u00e1gua, Guatemala, El Salvador, Costa Rica e Honduras; integra a Rede Mulher e Habitat da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, da qual \u00e9 Coordenadora Regional e faz parte da Comiss\u00e3o Huairou. Em sua extensa trajet\u00f3ria, tem-se dedicado ao trabalho com movimentos de mulheres de base, acompanhando suas lutas pelos direitos da terra.<strong>\u200b<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2014Como voc\u00ea passou a se interessar pelas lutas das mulheres?\u200b<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Sou a \u00fanica filha mulher, tenho tr\u00eas irm\u00e3os homens e tive a sorte de ter um pai que mal p\u00f4de me ensinar a nadar. Com esses pequenos ensinamentos, me empoderou e alentou minha independ\u00eancia. Minha m\u00e3e n\u00e3o duvidou em me emprestar o carro para percorrer a cidade. Nessa \u00e9poca, n\u00e3o se diziam \u201cfeministas\u201d, mas eram, me impulsionavam a fazer muitas coisas, a poder conseguir os quatro \u201cA\u201d: autoestima, autoridade, autonomia e autom\u00f3vel. Na universidade, me meti no movimento de esquerda, militei em um partido dentro do qual abrimos espa\u00e7os para as mulheres; novamente, ainda n\u00e3o fal\u00e1vamos de \u201c\u00e1rea de g\u00eanero\u201d ou \u201cfeminismo\u201d explicitamente, mas foi nesses espa\u00e7os onde comecei a trabalhar pelos direitos das mulheres. E portanto, claro, minha inspira\u00e7\u00e3o e minha mentora, sem d\u00favida, foi minha tia, Raquel Bland\u00f3n, ativista e refer\u00eancia pol\u00edtica. Raquel, que foi primeira-dama de meu pa\u00eds e recentemente foi candidata \u00e0 vice-presidenta, \u00e9 uma das pioneiras na Guatemala em abordar os direitos das mulheres. Ela participou na Primeira Confer\u00eancia Mundial sobre a Mulher, ocorrida no M\u00e9xico em 1975, e tamb\u00e9m representou a Guatemala na Comiss\u00e3o da Condi\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica e Social da Mulher. Pude acompanh\u00e1-la nessa ocasi\u00e3o e foi uma experi\u00eancia muito importante para mim.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2014Depois voc\u00ea focou nos direitos das mulheres, no territ\u00f3rio e nas viol\u00eancias. Como foi esse caminho?\u200b<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Desde muito jovem, me envolvi bastante no tema porque me sentia muito impactada diante das injusti\u00e7as, diante da exclus\u00e3o das mulheres e, sobretudo, diante da discrimina\u00e7\u00e3o que havia em meu pa\u00eds para com as mulheres ind\u00edgenas. Quando visitava o interior da Guatemala, ainda muito pequena, lembro-me de que via as mulheres atravessando as \u00a0carregando a lenha com suas crian\u00e7as, descal\u00e7as, levando a \u00e1gua sobre suas cabe\u00e7as e pensava que n\u00e3o era poss\u00edvel que vivessem nessas condi\u00e7\u00f5es, que as meninas n\u00e3o pudessem estudar; parecia-me t\u00e3o injusto. Ao voltar desse encontro das Na\u00e7\u00f5es Unidas, juntamente com Raquel, e, ao retornar a democracia na Guatemala, come\u00e7amos a criar redes centro-americanas de mulheres. Integramos a Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza e ali pudemos criar comit\u00eas de g\u00eanero e desenvolvimento sustent\u00e1vel. Foi um ponto de ruptura porque a\u00ed come\u00e7amos a trabalhar os temas de g\u00eanero, explicitamente. Fizemos uma oficina na Nicar\u00e1gua sobre desenvolvimento sustent\u00e1vel com companheiras de diferentes pa\u00edses e a\u00ed conhecemos Maria Marcela Lagarde y de los R\u00edos que coordenou uma oficina. Nos mobilizou bastante, nos ajudou a dar corpo a nossos olhares sobre o tema. Lembro que, terminada a guerra em El Salvador, em um ato de reivindica\u00e7\u00e3o e rebeldia, fizemos com ela uma oficina no que restava das instala\u00e7\u00f5es da Universidad del Salvador; foi um ato bel\u00edssimo para recuperar esse espa\u00e7o, completamente destru\u00eddo, para as irm\u00e3s salvadorenhas. E essas experi\u00eancias foram se multiplicando, crescendo. De Volta \u00e0 Guatemala, fizemos a primeira Oficina \u201cCassandra\u201d de Antropologia Feminista e essa oficina foi seguida de mais 30, coordenadas por Marcela. Mais adiante, criamos a Licenciatura em Estudos das Mulheres, G\u00eanero, Feminismos e Descoloniza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m naqueles anos, no final da d\u00e9cada de 80, foram criados os comit\u00eas de mulheres rurais; nessa \u00e9poca, surge a Funda\u00e7\u00e3o Arias para a Paz e o Progresso Humano da Costa Rica. Me convocaram e tive a oportunidade de trabalhar para capacitar a primeira coordenadora de mulheres ind\u00edgenas, muito antes dos acordos de paz. A Coordenadora Nacional pelo Direito \u00e0 Terra e \u00e0 Propriedade estava formada por nove organiza\u00e7\u00f5es de mulheres ind\u00edgenas e come\u00e7amos a trabalhar com elas o acesso \u00e0 terra, \u00e0 propriedade. E, rapidamente, pudemos incidir no Minist\u00e9rio da Agricultura, que estranhamente ou n\u00e3o, foi um dos primeiros espa\u00e7os que buscou tecer alian\u00e7as com as mulheres. Foi e ainda hoje continua sendo um tema para trabalhar, foi um processo de muito tempo, de muitas aprendizagens, de muita constru\u00e7\u00e3o coletiva.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2014Como se integra a perspectiva de g\u00eanero nas lutas pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica e os conflitos ambientais?\u200b<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Acredito que h\u00e1 um v\u00ednculo bem forte entre a perspectiva de g\u00eanero, as mulheres e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Nesses anos, a agenda foi mudando. Antes, pens\u00e1vamos o meio ambiente, hoje nos encontramos pensando sobre os impactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. As mulheres, o acesso \u00e0 terra e o impacto da mudan\u00e7a clim\u00e1tica em seus habitats est\u00e3o vinculados. Basta apenas se perguntar para que as mulheres querem a terra. A querem para dar seguran\u00e7a alimentar, a querem para ter moradia, para ter sua partezinha de territ\u00f3rio, a querem para viver. Come\u00e7amos a ver que as mais afetadas pela defesa da terra s\u00e3o as mulheres. Os homens t\u00eam mais possibilidades de se movimentar e transitar, migram tanto dentro de seus pa\u00edses quanto para fora. As mulheres, pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o as que ficam fazendo frente aos embates clim\u00e1ticos, s\u00e3o as que ficam vendo o que v\u00e3o dar de comer para seus filhos e filhas. S\u00e3o as mulheres e as meninas as que carregam a \u00e1gua, percorrem longas dist\u00e2ncias com muita frequ\u00eancia e isso cria m\u00faltiplos problemas em seu desenvolvimento, em sua sa\u00fade. Os problemas que enfrentamos devido \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica t\u00eam um impacto diferencial nas mulheres que n\u00e3o podemos negar.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2014Como se vincula ao ecofeminismo esta linha de trabalho?\u200b<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014As correntes ecofeministas, ao menos h\u00e1 um tempo, propunham que o centro era a m\u00e3e terra, n\u00e3o as mulheres. A\u00ed est\u00e1 a grande armadilha de algumas correntes ecofeministas que naturalizam a maternidade e o papel de cuidadoras das mulheres em todo sentido. Temos que atender essa diferen\u00e7a, a partir do feminismo estamos todo o tempo pensando em colocar as mulheres no centro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_fe75f784b6504c71ae78827caead2796~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_621%2Ch_348%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/No-podemos-permitirnos---Foto-2---Fundac.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"No-podemos-permitirnos---Foto-2---Fundac\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2014Nos \u00faltimos tempos, em pa\u00edses como Nicar\u00e1gua, Costa Rica, Col\u00f4mbia, se conhecem mais casos de ativistas que terminam assassinadas em conflitos por territ\u00f3rios e recursos naturais, lutas que muitas vezes as mulheres encabe\u00e7am. Como promovemos a lideran\u00e7a das mulheres sem exp\u00f4-las ainda mais a viol\u00eancias?\u200b<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Ningu\u00e9m est\u00e1 pensando em quem cuida das defensoras desses direitos ambientais, nem em seus companheiros de luta. Nas mobiliza\u00e7\u00f5es camponesas por territ\u00f3rios, na hora de lutar, as mulheres sempre v\u00e3o como bucha de canh\u00e3o e os homens, enquanto isso, v\u00e3o para as mesas de di\u00e1logo. H\u00e1 casos paradigm\u00e1ticos: Berta C\u00e1rceres era uma ativista realmente muito importante em Honduras e a deixaram muito sozinha, muito exposta; Marielle Franco, no Brasil. Falta muita solidariedade no interior dos movimentos de luta para com as mulheres, com as l\u00edderes. H\u00e1 muito que revisar. Eu penso que devemos pensar em estrat\u00e9gias que envolvam n\u00e3o apenas as ativistas, mas tamb\u00e9m aos governos locais e aos meios de comunica\u00e7\u00e3o para que possam acompanhar os processos de luta. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se guardar, mas sim assegura \u00e0queles que lutam o m\u00ednimo de garantias, uma rede de sustenta\u00e7\u00e3o e acompanhamento com atores-chave: deputados, procuradores, legisladores, organismos internacionais. N\u00e3o podemos nos permitir perder lideran\u00e7as. Devemos estar pensando j\u00e1, redesenhando e redefinindo esses processos de luta. N\u00e3o nos expor tanto porque n\u00e3o somos tantas. Com os crimes de Berta, Marielle e tantas outras companheiras, temos que aprender, neste mundo t\u00e3o mis\u00f3gino e t\u00e3o feminicida, que n\u00e3o podemos colocar as l\u00edderes na mira. E, antes de tudo, entender que esses s\u00e3o crimes mis\u00f3ginos e, por isso, continuam impunes, porque os sistemas de justi\u00e7a est\u00e3o corrompidos, por\u00e9m devemos continuar na luta e buscar alternativas.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u2014Que estrat\u00e9gias se prop\u00f5em a partir dos feminismos para ter lugar e voz em espa\u00e7os de decis\u00e3o como os governos locais?\u200b<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u00c9 fundamental convocar as autoridades locais, o munic\u00edpio e atuar com as nossas refer\u00eancias dentro desses espa\u00e7os. Sempre haver\u00e1 um escrit\u00f3rio municipal da mulher, um gabinete municipal da mulher, uma secretaria municipal da mulher. Temos que fortalecer a que est\u00e1 ali, nos aproximarmos com nosso trabalho, criar alian\u00e7a com ela. Temos que ser entronas, como diz uma de minhas professoras, Rosa Cobo. Ela diz, e eu concordo, que n\u00e3o v\u00e3o nos convidar para que nos sentemos \u00e0 mesa para negociar. N\u00f3s temos que entrar, temos que ver onde h\u00e1 uma fissura e nela nos metermos. N\u00e3o \u00e9 que haja uma abertura magn\u00edfica para os temas de g\u00eanero, por\u00e9m temos que faz\u00ea-lo do nosso modo, localizando onde est\u00e3o estas fissuras. Nessa mesma linha, eu penso que o que temos que fazer \u00e9 entrar nos governos locais. Inclusive seria melhor entrar por meio das elei\u00e7\u00f5es, mas sabemos que, para ser candidatas e entrar no jogo dos partidos pol\u00edticos, tem que falar de dinheiro. O que nos leva a que tamb\u00e9m tenhamos que trabalhar para mudar a lei de partidos pol\u00edticos, de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, porque se se mant\u00e9m como est\u00e1, n\u00e3o vamos ter acesso para fazer parte das indica\u00e7\u00f5es para elei\u00e7\u00f5es populares. A lei eleitoral deve mudar porque agora n\u00e3o h\u00e1 altern\u00e2ncia. Aqui na Guatemala, ter acesso a um cargo dos mais baixos na lista de deputados implica custos alt\u00edssimos que \u00e9 imposs\u00edvel enfrentar. Ent\u00e3o, acredito que temos que entrar nas estruturas que nos permite o processo municipal, o processo descentralizado de cada pa\u00eds. Se est\u00e1s envolvida nos conselhos comunit\u00e1rios de desenvolvimento do teu distrito, do teu munic\u00edpio, do teu bairro, esse \u00e9, pois, o primeiro passo. E depois buscar essas aliadas que est\u00e3o trabalhando pelos interesses das mulheres no interior da pr\u00f3pria estrutura municipal. Um exemplo muito concreto de como estas estrat\u00e9gias funcionam \u00e9 o caso de um munic\u00edpio em Livingston (que foi onde come\u00e7ou o Programa de Cidades Seguras) onde conseguiram que o Plano Operacional Anual do escrit\u00f3rio municipal desse munic\u00edpio fosse a reconstru\u00e7\u00e3o e revitaliza\u00e7\u00e3o de toda a parede do cemit\u00e9rio local. Por que era importante essa obra? Porque as mulheres ali sofriam abusos de todo tipo, dado que o cemit\u00e9rio n\u00e3o tinha muros e nem. Ent\u00e3o, durante a noite, ningu\u00e9m poderia passar; era um lugar muito perigoso. Dessa forma, gra\u00e7as ao trabalho com a dire\u00e7\u00e3o de mulheres desse mun\u00edcipio, realizou-se a reconstru\u00e7\u00e3o da \u00e1rea perimetral do cemit\u00e9rio. Penso que temos muitas metodologias em pr\u00e1tica e tem que continuar aprofundando-as.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2014<em>Em um f\u00f3rum virtual, semanas atr\u00e1s, voc\u00ea disse que \u201co covid-19 \u00e9 como furac\u00e3o silencioso, que rompe com estruturas que t\u00ednhamos criado e colocado em funcionamento para as mulheres\u201d Qual \u00e9 a chave para avan\u00e7ar na reconstru\u00e7\u00e3o depois que esse furac\u00e3o passar?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Tivemos que ver como esta pandemia, al\u00e9m das milhares de vidas perdidas, deixa em seu rastro pobreza, tristeza, desola\u00e7\u00e3o e muitos meios de vida em peda\u00e7os. Hoje, por exemplo, fui a um banco que est\u00e1 localizado em um pequeno shopping: de todas as lojas, umas dez j\u00e1 n\u00e3o existem, quebraram. E isso \u00e9 apenas um caso. Outro exemplo: aqui na Guatemala \u2013 j\u00e1 estamos por completar os tr\u00eas meses de quarentena \u2013 a cesta b\u00e1sica, no \u00faltimo m\u00eas, subiu 40%, mas as fam\u00edlias dizem que inclusive o aumento poderia ser de 70%. \u00c9 claro que vamos necessitar plenamente de uma reativa\u00e7\u00e3o dos meios de vida e impulsionar iniciativas que as mulheres est\u00e3o tendo. Diante disso, uma das chaves para a recupera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pandemia poderia ser que as mulheres, as fam\u00edlias produzissem o que v\u00e3o consumir, recuperar a ideia de \u201cesta comunidade come o que produz\u201d. O empoderamento econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 apenas que ganhes dinheiro, \u00e9 tamb\u00e9m que economizes dinheiro ao deixar de pagar pre\u00e7os muito altos por alimentos que tu podes cultivar, que tu podes produzir. A autossufici\u00eancia alimentar \u00e9 uma das primeiras \u00e1reas: o investimento em bancos de sementes, em processos de hortas urbanas, individuais e coletivas, de aproveitamento de solos. Tamb\u00e9m h\u00e1 que buscar financiamento para investir em meios de vida, voltar a processos artesanais. Por outro lado, voltar para a solidariedade da troca, ao menos em certas \u00e1reas; isso vem da \u00e9poca das civiliza\u00e7\u00f5es Maias, que j\u00e1 usavam este tipo de interc\u00e2mbio de bens. As pessoas n\u00e3o v\u00e3o ter dinheiro para comprar coisas; ent\u00e3o, estas pr\u00e1ticas v\u00e3o ser importantes, porque ser\u00e1 fundamental restringir a compra de bens que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios. Logo, devemos pensar em programas estatais e ver como aceitamos essas iniciativas. Penso, por exemplo, em programas do Minist\u00e9rio da Agricultura que possam trabalhar com as mulheres que vivem perto de mercados para impulsionar os mercados coletivos e comunit\u00e1rios. Deveremos usar os espa\u00e7os p\u00fablicos a partir de uma apropria\u00e7\u00e3o multiuso. A partir das organiza\u00e7\u00f5es, pensar em fazer eventos, n\u00e3o mais em hot\u00e9is, mas em espa\u00e7os comunit\u00e1rios para ajudar a reativa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Em resumo: \u00e9 um momento de voltar para tudo que \u00e9 local, consumir tudo que \u00e9 local, comprar tudo que \u00e9 produzido pela vizinha, voltar a usar o que j\u00e1 temos em vez de gastar dinheiro no \u00faltimo modelo. Estas a\u00e7\u00f5es v\u00e3o nos permitir substituir custos e fazer circular o dinheiro, \u00e9 a \u00fanica maneira. E, por \u00faltimo, trabalhar em processos coletivos de cura, voltar \u00e0s cosmogonias, \u00e0s espiritualidades, porque a humanidade vai ficar arrasada e temos que pensar em nos ampararmos entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_adfd17c99284433e9ceaf344a41032f3~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_537%2Ch_537%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/No-podemos-permitirnos---Foto-1-de-Maite.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"No-podemos-permitirnos---Foto-1-de-Maite\"\/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como se vinculam a situa\u00e7\u00e3o das mulheres, a administra\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e os conflitos relativos ao meio ambiente e \u00e0 pandemia? Como se reconstr\u00f3i depois de uma crise de dimens\u00f5es planet\u00e1rias? 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