{"id":11539,"date":"2020-07-06T09:43:00","date_gmt":"2020-07-06T12:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11539"},"modified":"2020-08-29T23:53:54","modified_gmt":"2020-08-30T02:53:54","slug":"brasil-a-pandemia-e-a-virulencia-do-sistema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11539","title":{"rendered":"Brasil: A pandemia e a virul\u00eancia do sistema"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Que mundo \u00e9 esse que nos fez chegar nesse estado de coisas? Uma pandemia incontrol\u00e1vel e veloz avan\u00e7a sobre a vida humana, em escala global. O poder do v\u00edrus desafia a ci\u00eancia, os Estados-na\u00e7\u00e3o, as entidades multilaterais. O assombro do mundo vem dos sucessivos an\u00fancios, mesmo nos pa\u00edses do Norte, da incapacidade de salvar vidas e evitar o n\u00famero de mortes di\u00e1rias e as imagens terr\u00edveis que se espalham velozmente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"353\" data-attachment-id=\"11541\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=11541\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/imagem-2.jpg?fit=877%2C484&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"877,484\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"imagem-2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/imagem-2.jpg?fit=300%2C166&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/imagem-2.jpg?fit=640%2C353&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/imagem-2.jpg?resize=640%2C353&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11541\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/imagem-2.jpg?w=877&amp;ssl=1 877w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/imagem-2.jpg?resize=300%2C166&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/imagem-2.jpg?resize=768%2C424&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong><em>Por Maria Bet\u00e2nia \u00c1vila \/ Ver\u00f4nica Ferreira<\/em><\/strong> | <a href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\/virulencia-sistema\"><strong>Revista BRAVAS n.12<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Que mundo \u00e9 esse que nos fez chegar nesse estado de coisas?&nbsp; Uma pandemia incontrol\u00e1vel e veloz avan\u00e7a sobre a vida humana, em escala global. O poder do v\u00edrus desafia a ci\u00eancia, os Estados-na\u00e7\u00e3o, as entidades multilaterais. O assombro do mundo vem dos sucessivos an\u00fancios, mesmo nos pa\u00edses do Norte, da incapacidade de salvar vidas e evitar o n\u00famero de mortes di\u00e1rias e as imagens terr\u00edveis que se espalham velozmente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bNo seu in\u00edcio, tudo na pandemia parecia invertido: eram os pa\u00edses do Norte os mais afetados e, nos primeiros casos em solo latino-americano, as pessoas mais ricas e abastadas que trouxeram o coronav\u00edrus em suas bagagens transatl\u00e2nticas de turismo e neg\u00f3cios.&nbsp; Todavia, o avan\u00e7o da pandemia demonstrou que o mundo estava exatamente no mesmo lugar e que o poder letal e a rota do v\u00edrus se expandia no terreno de desigualdade, desprote\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a social e devasta\u00e7\u00e3o ambiental produzida pelo sistema capitalista-patriarcal e racista. A pandemia de Covid 19 escancarou as desigualdades que definem a vida e a morte dos grupos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200b\u00c9 a virul\u00eancia capitalista, na sua etapa neoliberal, que se abate sobre o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bA pandemia revela as vidas que valem e as vidas que parecem n\u00e3o ter valor. Desvela a amea\u00e7a a todos os seres vivos que este sistema nos imp\u00f5e e as desiguais condi\u00e7\u00f5es de vida, de moradia e de sa\u00fade em que se d\u00e1 o tr\u00e1gico encontro entre o novo coronav\u00edrus e o \u201cmin\u00fasculo e fr\u00e1gil corpo humano\u201d. Tal rela\u00e7\u00e3o entre o coronav\u00edrus e os seres humanos \u00e9 mediada n\u00e3o apenas pelos processos fisiol\u00f3gicos que acarreta, como a letal SARS 2 e outros efeitos ainda n\u00e3o conhecidos. Mas pelas rela\u00e7\u00f5es sociais que convertem seres humanos em grupos sociais desiguais: pobres, negras e negros, popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, mulheres. No centro dessa trag\u00e9dia, est\u00e3o grupos populacionais inteiros desprovidos da prote\u00e7\u00e3o do Estado, dos sistemas universais de sa\u00fade e de desenvolvimento cient\u00edfico a servi\u00e7o do comum e de condi\u00e7\u00f5es ambientais para viver.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bPortanto, o problema n\u00e3o est\u00e1 totalmente na chegada do coronav\u00edrus. V\u00edrus n\u00e3o cessam de surgir e isto \u00e9 parte da conting\u00eancia e da interdepend\u00eancia ambiental que caracteriza a vida humana neste planeta. O problema est\u00e1 nas condi\u00e7\u00f5es em que ele nos encontra. Se o v\u00edrus atinge a todas e todos, as condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas definem quem est\u00e1 mais exposta\/o ao cont\u00e1gio e, para aquelas e aqueles que foram contaminados, quem tem mais ou menos ou nenhuma condi\u00e7\u00e3o de se cuidar, de ter acesso ao servi\u00e7o de sa\u00fade, a atendimento de qualidade e, portanto, de sobreviver ou n\u00e3o. Quem tem condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias nos espa\u00e7os e territ\u00f3rios onde habitam que possam assegurar as possibilidades cotidianas de cuidados de preven\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus: \u00e1gua corrente e limpa, espa\u00e7os livres de lixo, de&nbsp; esgotos a c\u00e9u aberto, de insetos provedores de outras doen\u00e7as que tornam as pessoas ainda mais vulner\u00e1veis. S\u00e3o apenas algumas necessidades b\u00e1sicas e imprescind\u00edveis para qualquer momento da vida e que se revelam incontornavelmente fundamentais para sobreviv\u00eancia nesse momento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_81bdd9770a594d85bf8b5262d336b7f3~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_309%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/VIDARICO.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"VIDARICO.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_5f58a2ae63da41b7ae5910a082be6297~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_325%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/VIDAPOBRES.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"VIDAPOBRES.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A pandemia revela e aprofunda os efeitos desse sistema capitalista patriarcal e racista sobre a vida humana, sua face destrutiva e predat\u00f3ria. E mostra com toda a sua contund\u00eancia o grau de desigualdade social de ra\u00e7a, de classe e g\u00eanero que nos divide e segrega.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a pandemia instaura uma crise de social e sanit\u00e1ria geral, mas as condi\u00e7\u00f5es em que vivemos \u00e9 totalmente diferente dependendo do pa\u00eds e do governo que governa esse pa\u00eds, das condi\u00e7\u00f5es dos seus sistemas de sa\u00fade e prote\u00e7\u00e3o social, das condi\u00e7\u00f5es de vida definidas pela classe, pela ra\u00e7a, pela etnia e g\u00eanero.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>As causas da trag\u00e9dia atual n\u00e3o podem ser tratadas se n\u00e3o consideramos as devasta\u00e7\u00f5es causadas pelas pol\u00edticas neoliberais em curso nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, que aprofundaram os processos de acumula\u00e7\u00e3o do capital em detrimento da vida humana, da preserva\u00e7\u00e3o da natureza e do planeta como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do nosso pa\u00eds, o Brasil, temos a trag\u00e9dia da pandemia em um contexto de profunda e abissal desigualdade social e um governo federal absolutamente irrespons\u00e1vel quanto \u00e0s garantias de condi\u00e7\u00f5es de vida humana, al\u00e9m de autorit\u00e1rio e declaradamente adepto \u2013 e operante \u2013 de uma pol\u00edtica de morte aos grupos sociais que despreza, como anunciou em sua campanha: popula\u00e7\u00e3o pobre, negra e ind\u00edgena. Encontrou e faz do coronav\u00edrus sua marca massiva de morte. Suas atitudes pessoais se expressam como um deboche e desd\u00e9m que amea\u00e7am cotidianamente a vida da popula\u00e7\u00e3o, sobretudo das trabalhadoras\/os, popula\u00e7\u00f5es negra e ind\u00edgenas, as mulheres que s\u00e3o maioria nesses grupos sociais, a popula\u00e7\u00e3o lgbt.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia e a repress\u00e3o pol\u00edticas do Estado e a viol\u00eancia social no cotidiano se tornaram evid\u00eancias do contexto conservador, fundamentalista e de enfraquecimento dos sistemas democr\u00e1ticos no mundo e em nossa regi\u00e3o, nestes \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse per\u00edodo tr\u00e1gico da pandemia h\u00e1 um desvendamento e aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o e da desigualdade. As filas para recebimento de um benef\u00edcio emergencial que garanta a perman\u00eancia dos mais pobres, trabalhadores e trabalhadoras informais, em quarentena s\u00e3o express\u00e3o dessa desigualdade. A necessidade imperiosa de ficar em casa revela a situa\u00e7\u00e3o daquelas e daqueles que n\u00e3o tem casa ou que est\u00e3o amontoadas e amontoados em condi\u00e7\u00f5es por si s\u00f3 j\u00e1 mort\u00edferas, nas pris\u00f5es. Revelou que se a casa \u00e9 um espa\u00e7o de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a, \u00e9 para as mulheres um lugar de risco e vulnerabilidade das mulheres, meninas e meninos \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica e sexual. Protegidas do v\u00edrus, mas n\u00e3o do poder e da viol\u00eancia dos homens. A sobrecarga com o trabalho dom\u00e9stico e de cuidados \u00e9 a outra face do confinamento em casa: um lugar de priva\u00e7\u00e3o de tempo, de exaust\u00e3o corporal, que fragiliza os corpos das mulheres diante da poss\u00edvel contamina\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o trabalho dom\u00e9stico remunerado, nunca antes reconhecido como essencial, \u00e9 requisito nesta condi\u00e7\u00e3o para manter o privil\u00e9gio das fam\u00edlias de classe m\u00e9dia. A custa, inclusive, do sacrif\u00edcio da vida. A primeira mulher a morrer de Covid 19, no Brasil, era uma trabalhadora dom\u00e9stica. Negra.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_46f75e984aca4d0983ee1075671dc21c~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_305%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/SALUDPRIVADOS.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"SALUDPRIVADOS.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_95f5615b0c9746f28977dd80457edd33~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_283%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/SALUDPOBRES.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"SALUDPOBRES.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Sobretudo, est\u00e1 escancarado nessa pandemia o racismo. Est\u00e1 no n\u00famero de mortes de pessoas negras e povos ind\u00edgenas no Brasil e em v\u00e1rias partes da Am\u00e9rica Latina. Est\u00e1 no cotidiano, nos corpos que est\u00e3o hoje mais expostos \u00e0 covid 19 pela sua condi\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho: trabalhadoras dom\u00e9sticas, jovens entregadores de Ifood, no corpo do menino que cai, na cidade do Recife, e do homem negro assassinado, nos Estados Unidos da Am\u00e9rica. O racismo mata. E mata massiva e cruelmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideologia dominante construiu uma apar\u00eancia da vida social na qual as necessidades humanas, concretas e di\u00e1rias, n\u00e3o s\u00e3o levadas em considera\u00e7\u00e3o. \u00c9 sempre, e cada vez mais, o lucro o que importa. E a ideologia neoliberal de \u201cindiv\u00edduos que fazem a si mesmos\u201d tamb\u00e9m vem ao ch\u00e3o quando uma pandemia coloca a vida em amea\u00e7a e revela a interdepend\u00eancia inescap\u00e1vel para que possamos nos proteger. A t\u00e3o vendida seguran\u00e7a neoliberal \u00e9 desmentida quando uma pandemia revela a brutal inseguran\u00e7a, individual e coletiva, que suas pol\u00edticas imp\u00f5em \u00e0 humanidade inteira. N\u00e3o somente a Covid 19 e os medos todos que evoca, mas a amplitude do transtorno cr\u00f4nico de ansiedade e depress\u00e3o, sobretudo entre jovens, j\u00e1 eram sintomas de que n\u00e3o nos serve esse sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Os problemas s\u00e3o estruturais e muito mais vastos do que os apontados acima, e apesar de ser mundial, as particularidades da situa\u00e7\u00e3o em de cada pa\u00eds, s\u00e3o desigualmente diferenciadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa crise, a import\u00e2ncia absoluta do trabalho est\u00e1 evidenciada mais que nunca e, portanto, daqueles e daquelas que o realizam: a classe trabalhadora. Muitos governos falam apenas em economia. Todavia, quem faz a economia girar \u00e9 o trabalho, as traballhadoras e trabalhadores. Aqueles e aquelas que s\u00e3o realmente os produtores. Para aumentar a riqueza das elites e portanto a pobreza da maioria da popula\u00e7\u00e3o, muitas reformas, reestrutura\u00e7\u00f5es, inven\u00e7\u00f5es e tecnologias s\u00e3o usadas, inclusive nesse contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise sanit\u00e1ria \u00e9, no fundo, uma crise da forma de organiza\u00e7\u00e3o social e das possibilidades do viver: o que a realidade revela, globalmente, \u00e9 que n\u00e3o se poder\u00e1 conter a pandemia sem conter o capitalismo e a apropria\u00e7\u00e3o desenfreada dos recursos p\u00fablicos para os interesses do capital, o desapossamento dos territ\u00f3rios e comuns, o descarte das popula\u00e7\u00f5es, o desmonte do investimento social dos Estados e seus sistemas de prote\u00e7\u00e3o social, a superexplora\u00e7\u00e3o que desgasta e descarta corpos, a convers\u00e3o de pessoas em mercadorias for\u00e7a de trabalho sem direito m\u00ednimo de prote\u00e7\u00e3o e uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social que admite \u2013 e no caso da extrema direita defende \u2013 o descarte de grupos sociais e popula\u00e7\u00f5es inteiras seja pela viol\u00eancia do Estado, pelo encarceramento, pelas doen\u00e7as devastadoras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_dbf3a36a4b184cf1895cf37df18f3426~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_328%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/CASAPOBRE.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"CASAPOBRE.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_8ad12c121b5144b9a2d508f3374c0d62~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_302%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/CASARICO.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"CASARICO.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>No tempo da pandemia, as contradi\u00e7\u00f5es do sistema t\u00eam sido t\u00e3o escancaradas que n\u00e3o h\u00e1 como ocultar as desigualdades sociais que elas provocam. Quando o aparente consenso parece perder for\u00e7a, \u00e9 preciso usar do autoritarismo pol\u00edtico e da repress\u00e3o para manter a ordem dominante. Isso nos ensinou Gramsci. E \u00e9 agora o caso no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra toda esta virul\u00eancia, e mesmo em quarentena, as vozes insurgentes se levantam e as lutas hist\u00f3ricas mostram toda a sua relev\u00e2ncia. O movimento feminista trouxe a vida cotidiana como uma dimens\u00e3o da democracia. N\u00e3o por que s\u00e3o mulheres uma ess\u00eancia, mas por sua pr\u00f3pria experi\u00eancia social e hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>O enfrentamento \u00e0 pandemia de Covid 19 recolocou a necessidade absoluta da garantia de direitos coletivos para solucionar problemas globais e a urg\u00eancia de sa\u00eddas antissist\u00eamicas. Direitos universais, como o direito \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 renda de sobreviv\u00eancia, \u00e0 \u00e1gua e \u00e0 moradia, est\u00e3o no centro das pautas de enfrentamento \u00e0 pandemia. Para isso, recoloca-se tamb\u00e9m a necessidade de sistemas tribut\u00e1rios justos, nos quais os mais ricos paguem mais e o capital, principalmente rentista e parasit\u00e1rio, financie a expans\u00e3o de direitos e prote\u00e7\u00e3o social. Recoloca-se no horizonte de nossas lutas a necessidade de reorganizar jornadas de trabalho para enfrentar a escassez do tempo que a forma hegem\u00f4nica de organiza\u00e7\u00e3o social da produ\u00e7\u00e3o e da reprodu\u00e7\u00e3o produz.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, movimento feminista, recoloca-se a necess\u00e1ria utopia para enfrentar o mundo de distopia. Queremos transformar o mundo e construir um modo de vida resgatando experi\u00eancias e inventando novas formas de organizar a produ\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o do viver em comum.&nbsp; Queremos democracia n\u00e3o s\u00f3 como um sistema pol\u00edtico, mas como uma forma de organiza\u00e7\u00e3o da vida social. Essa democracia que temos \u00e9 uma democracia burguesa, nada democr\u00e1tica, e serve para garantir o poder e o lucro das elites. Mas mesmo essa est\u00e1 amea\u00e7ada em nosso pa\u00eds nas suas formalidades e garantias institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos um trabalho que seja pleno de sentido para quem faz o trabalho e n\u00e3o para garantir a gan\u00e2ncia de quem nos domina, nos oprime e nos explora. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Somos mulheres feministas na luta antissist\u00eamica. Estamos na resist\u00eancia e na defesa da democracia, contra o poder desp\u00f3tico que se instalou no nosso pa\u00eds. Na pandemia e al\u00e9m dela, estamos engajadas na constru\u00e7\u00e3o de alternativas ao sistema, feitas no horizonte das lutas e na vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa revolta precisa ganhar profundidade e consci\u00eancia cr\u00edtica, que leve as\/os oprimidas\/os, e portanto a maioria, a um confronto sob formas plurais e radicais de luta, como um compromisso hist\u00f3rico com os\/as que perderam suas vidas e como devir de rupturas com essa ordem social global e constru\u00e7\u00e3o de vida em comum.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_91d3b2ebb96c48bb841b4e4a34a6f85d~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_292%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/ESTILOPOBRE.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"ESTILOPOBRE.jpg\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/b45053_fc78739cef594795b9a334d27365c649~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_980%2Ch_304%2Cal_c%2Cq_80%2Cusm_0.66_1.00_0.01\/ESTILORICO.webp?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"ESTILORICO.jpg\"\/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que mundo \u00e9 esse que nos fez chegar nesse estado de coisas? Uma pandemia incontrol\u00e1vel e veloz avan\u00e7a sobre a vida humana, em escala global. O poder do v\u00edrus desafia a ci\u00eancia, os Estados-na\u00e7\u00e3o, as entidades multilaterais. O assombro do mundo vem dos sucessivos an\u00fancios, mesmo nos pa\u00edses do Norte, da incapacidade de salvar vidas e evitar o n\u00famero de mortes di\u00e1rias e as imagens terr\u00edveis que se espalham velozmente.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":11640,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Que mundo \u00e9 esse que nos fez chegar nesse estado de coisas?  Uma pandemia incontrol\u00e1vel e veloz avan\u00e7a. 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