{"id":11477,"date":"2020-06-26T18:26:00","date_gmt":"2020-06-26T21:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11477"},"modified":"2023-09-13T16:45:16","modified_gmt":"2023-09-13T19:45:16","slug":"antirracismo-no-brasil-uma-tarefa-inadiavel-as-pessoas-brancas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11477","title":{"rendered":"Antirracismo no Brasil: uma tarefa inadi\u00e1vel \u00e0s pessoas brancas"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><em><strong>As recentes manifesta\u00e7\u00f5es que eclodiram ao redor do mundo t\u00eam exposto o racismo, uma ferida colonial, um sistema complexo e perfeito para (re)produzir desigualdades sociais dentro de uma sociedade racista como a nossa. O que o momento nos coloca como desafio para seguir na luta por dias melhores, \u00e9 a necessidade, mais que urgente, de colocarmos no centro de nossas vidas a luta antirracista.<\/strong><\/em><\/h5>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"11439\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=11439\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/105413457_1195200527505081_4789419292266652511_n.jpg?fit=720%2C480&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"720,480\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"105413457_1195200527505081_4789419292266652511_n\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/105413457_1195200527505081_4789419292266652511_n.jpg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/105413457_1195200527505081_4789419292266652511_n.jpg?fit=640%2C427&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/583178686_16ed7bc131_b-723x347_c.jpg?resize=563%2C375&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11439\" width=\"563\" height=\"375\"\/><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>\u201cO colonialismo \u00e9 uma ferida que nunca foi tratada.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Uma ferida que d\u00f3i sempre, por vezes infecta, e outra vezes sangra\u201d. Grada Kilomba<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>| Artigo: Fran Ribeiro |<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos vendo acontecer neste m\u00eas de junho de 2020 uma revolta popular contra o racismo, num primeiro olhar, desencadeada a partir da a\u00e7\u00e3o do movimento Black Lives Matter, nos Estados Unidos, e que tem irradiado grandes manifesta\u00e7\u00f5es de pessoas que t\u00eam se levantado para a luta racial ao redor do mundo. A morte de George Floyd foi o estopim para as mobiliza\u00e7\u00f5es de massa em quase todos os estados daquele pa\u00eds, numa a\u00e7\u00e3o articulada e liderada por mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es populares voltaram \u00e0s ruas, em manifesta\u00e7\u00f5es puxadas especialmente pelas torcidas antifascistas dos principais clubes de futebol, em defesa da democracia e contra os atos antidemocr\u00e1ticos, reanimando as for\u00e7as da resist\u00eancia para continuar a luta no enfrentamento ao <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/para-conter-bolsonarismo-dias-mulheres-virao\/\">bolsonarismo<\/a> e contra <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/para-compreender-os-oportunismos-do-fascismo\/\">o fascismo que molda toda a pol\u00edtica de morte do governo Bolsonaro<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a estes protestos, a morte de Jo\u00e3o Pedro pela viol\u00eancia policial na periferia do Rio de Janeiro, o aumento dos casos Covid-19, de vidas negras e ind\u00edgenas perdidas pela pandemia e da morte banalizada do pequeno Miguel Ot\u00e1vio \u2013 mais uma morte que escancara como as crian\u00e7as negras n\u00e3o s\u00e3o vistas como crian\u00e7as e que precisam de prote\u00e7\u00e3o -, impulsionaram \u00e0 ida de milhares de pessoas \u00e0s ruas, para exigir o fim do racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, mesmo que tenhamos tido manifesta\u00e7\u00f5es onde o racismo esteve em pauta nas ruas, a resist\u00eancia antirracista vista nas redes sociais n\u00e3o reverberou potencialmente como o levante estadunidense. A an\u00e1lise que tem sido feita por grande parte do movimento negro e de mulheres negras no pa\u00eds \u00e9 de como seguimos com o nosso olhar colonizado para o exterior, como se posicionar-se pelo <em>black lives matter<\/em> invisibilizasse o movimento de <em>vidas negras importam<\/em>. A cr\u00edtica se d\u00e1, principalmente, pela chuva de pessoas brancas que tem se posicionado como antirracistas nas redes, mas que pouco tem promovido um engajamento real para a mudan\u00e7a sist\u00eamica do racismo, principalmente depois que mais casos de viol\u00eancia policial aconteceram subsequente \u00e0 morte de George Floyd, como o caso de Micael Silva, de 11 anos, assassinado pela pol\u00edcia militar no estado da Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre pa\u00edses colonizados e colonizadores, pessoas negras, asi\u00e1ticas, ind\u00edgenas e pessoas brancas aliadas t\u00eam se deparado com o racismo, uma ferida colonial, um sistema complexo e perfeito para (re)produzir desigualdades sociais dentro de uma sociedade racista como a nossa. O que os levantes mundiais \u2013 que t\u00eam marcado este m\u00eas de junho hist\u00f3rico \u2013 nos colocam como desafio para seguir na luta por dias melhores, \u00e9 a necessidade, mais que urgente, de colocarmos no centro de nossas vidas a luta antirracista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o desta ferida, a ideia de ra\u00e7a foi fundamental para naturaliza\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de subalternidade, de desumaniza\u00e7\u00e3o e de supremacia na qual vivem determinados grupos sociais no processo de desenvolvimento das sociedades. A ra\u00e7a, como uma distin\u00e7\u00e3o que justifica rela\u00e7\u00f5es sociais de poder no mundo, \u00e9 um aparato de constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que se expressa na materialidade da vida e foi primordial para o projeto colonial de explora\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios. A cria\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a como elemento que legitima a domina\u00e7\u00e3o, fundamenta diferentes inst\u00e2ncias da vida, sejam elas materiais, subjetivas ou simb\u00f3licas. \u00c9 a partir da ra\u00e7a que cria-se o racismo como um sistema sofisticado que vai moldar s\u00e9culos de forma\u00e7\u00e3o social ao redor do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo, como define Audre Lorde [1], naturaliza a ideia de que existem seres superiores a outros e sua consequente legitimidade para a domina\u00e7\u00e3o \u00e9 conformada de maneira manifesta na materialidade de nossas vidas ou de maneira subentendida, como a cria\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos que s\u00e3o reproduzidos, que opera at\u00e9 no sil\u00eancio e no apagamento do pr\u00f3prio racismo. O racismo \u00e9 uma estrutura que faz parte do sistema de poder do capitalismo patriarcal. Entranhada nas rela\u00e7\u00f5es sociais, este se mostra como um projeto colonial perfeito, como aponta a intelectual negra e jurista brasileira, Dora L\u00facia de Lima Bert\u00falio [2].<\/p>\n\n\n\n<p>A luta antirracista n\u00e3o \u00e9 algo que surge no cen\u00e1rio da Pandemia. O antecede, mas tem nesta atual conjuntura de crise do sistema capitalista, os aditivos necess\u00e1rios para alavancar as mudan\u00e7as que precisamos. Nos EUA, onde as rela\u00e7\u00f5es sociais se diferem das brasileiras, bem como a forma que a ra\u00e7a e o racismo s\u00e3o experienciados por l\u00e1, produziu grande mobiliza\u00e7\u00f5es durante dias, confrontos entre manifestantes e policiais, ocupa\u00e7\u00e3o de ruas, o apoio de pessoas p\u00fablicas importantes, como Angela Davis, que foi a uma das manifesta\u00e7\u00f5es na cidade de Oakland, em que trabalhadores ocuparam o porto em protesto contra o racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em pa\u00edses como a B\u00e9lgica e a Inglaterra, as manifesta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foram gigantescas e de l\u00e1 surgiram os movimentos de remo\u00e7\u00e3o das est\u00e1tuas colocadas em pra\u00e7as p\u00fablicas em homenagem \u00e0 mercadores de pessoas escravizadas e genocidas, a exemplo da est\u00e1tua do Rei Leopoldo II, respons\u00e1vel pela morte de 10 milh\u00f5es de congoleses durante a coloniza\u00e7\u00e3o belga no Congo. Seja por a\u00e7\u00f5es diretas dos manifestantes ou da revis\u00e3o dos poderes p\u00fablicos locais que decidiram por retirar as est\u00e1tuas ap\u00f3s a forte onda de press\u00e3o popular, as a\u00e7\u00f5es desencadeadas por esse momento de levante antirracista no mundo tem fomentado o debate aqui no Brasil tamb\u00e9m, o que precisa de um olhar cuidadoso e sens\u00edvel para um complexo contexto no qual o racismo brasileiro se forma e se alastra at\u00e9 os presentes dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo, sobretudo, as mulheres negras liderando suas comunidades para resistir ao processo escravocrata que permanece mesmo com a aboli\u00e7\u00e3o em 1888, a luta antirracista no pa\u00eds est\u00e1 em curso para garantir o direito de (re)existir das popula\u00e7\u00f5es negras desprotegidas pelo Estado brasileiro e pela pr\u00f3pria sociedade, marcadamente racista. Resistir para o povo preto \u00e9 sobreviver, como bem afirma a historiadora e rapper Preta Rara [3].<\/p>\n\n\n\n<p>Os sistemas racista, capitalista e patriarcal tem garantido, ao longo de s\u00e9culos e atualmente com o neoliberalismo, que a supremacia branca continue prosperando enquanto outras vidas seguem sem ter nenhuma possibilidade de existir. A mesma necropol\u00edtica que avan\u00e7a sobre os corpos pretos e empobrecidos, \u00e9 a que tem promovido o genoc\u00eddio de povos ind\u00edgenas, que junto com as classes populares e popula\u00e7\u00f5es negras e perif\u00e9ricas, s\u00e3o as que mais tem perdido a vida desde o in\u00edcio da pandemia. J\u00e1 ultrapassamos as 55 mil mortes notificadas pela Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma parte da nossa sobreviv\u00eancia \u00e9 confiscada a cada vez que h\u00e1 uma invas\u00e3o capitalista ou uma a\u00e7\u00e3o terrorista do agroneg\u00f3cio nas terras ind\u00edgenas, de acordo com professor Kabenguele Munanga. Parte da nossa sobreviv\u00eancia est\u00e1 se esvaindo com a morte indiscriminada de ind\u00edgenas, especialmente as anci\u00e3s e anci\u00e3os de diferentes etnias. S\u00e3o popula\u00e7\u00f5es que resistem para sobreviver h\u00e1 s\u00e9culos de pol\u00edticas de morte e que agora se deparam com um novo genoc\u00eddio ind\u00edgena, desta vez provocada pelo coronav\u00edrus, mas ampliado pelo sucateamento do Servi\u00e7o de Sa\u00fade Ind\u00edgena (SESAI), ligado ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que segue em gest\u00e3o interina h\u00e1 dois meses [4].<\/p>\n\n\n\n<p>O total descaso do Estado brasileiro, a pouca repercuss\u00e3o midi\u00e1tica e a letargia social provocada pelo sistema, se materializa de forma direta para a manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e, sobretudo, nos disparos sempre certeiros do racismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s popula\u00e7\u00f5es negras e ind\u00edgenas. O aumento da pobreza, da fome e da morte de popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas s\u00e3o algumas das graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos que seguem acontecendo no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A pris\u00e3o da ativista de direitos humanos Sara Rodrigues, que est\u00e1 encarcerada desde o \u00faltimo dia 16 de junho, \u00e9 uma das v\u00edtimas recentes da justi\u00e7a racista brasileira. Militante da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA), Sara, mulher perif\u00e9rica, m\u00e3e de uma crian\u00e7a de cinco anos e gr\u00e1vida de outra, foi presa em casa enquanto organizava a distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas e kits de higiene em \u00c1gua Fria, bairro da periferia de Recife. Mesmo com resid\u00eancia fixa, trabalho com carteira assinada e sem antecedente criminais, policiais militares invadiram sua resid\u00eancia de forma arbitr\u00e1ria, violenta, reviraram seus pertences e forjaram provas para incrimin\u00e1-la por tr\u00e1fico e associa\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico, como alega a defesa de Sara.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de ter sido presa em uma a\u00e7\u00e3o ilegal, os policiais agiram sem mandado de busca e apreens\u00e3o, Sara est\u00e1 presa ilegalmente, de acordo com a Lei da Primeira Inf\u00e2ncia, mostrando como a pris\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica racista [5].&nbsp; No \u201cnovo normal\u201d do sistema judici\u00e1rio brasileiro, onde as audi\u00eancias de cust\u00f3dia tem acontecido de maneira virtual, sem a participa\u00e7\u00e3o de acusados e suas defesas, o que influencia diretamente para o aumento da pol\u00edtica de encarceramento. Sara Rodrigues \u00e9 mais uma mulher cuja exist\u00eancia est\u00e1 sendo interditada ou interrompida pelo racismo. A RENFA est\u00e1 com um abaixo assinado pela liberdade de Sara Rodrigues. <a href=\"https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLScav5KQieOs4HGiXOQK_3B6XE2dT_E6o0O-qciM09QqIA3xXw\/viewform\"><strong>Assine aqui<\/strong><\/a><strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sara teve seus direitos violados em mais um processo de \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, termo disseminado jur\u00eddico e midiaticamente e que mascara a realidade e os interesses por tr\u00e1s desta pol\u00edtica, que \u00e9 o aprofundamento do racismo institucional, com o encarceramento em massa da popula\u00e7\u00e3o preta e favelada, a criminaliza\u00e7\u00e3o da periferia e das regi\u00f5es mais empobrecidas das grandes cidades. A guerra, na verdade, \u00e9 contra o povo preto, como h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e9 denunciado pelo movimento negro brasileiro. Um pol\u00edtica com uma forte base ret\u00f3rica e de disputa de sentido, que serve apenas para manter o controle social de uma classe dominante, detentora do poder econ\u00f4mico, midi\u00e1tico e jur\u00eddico sobre os corpos descart\u00e1veis para o capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionar as estruturas e confront\u00e1-las \u00e9 praticar uma a\u00e7\u00e3o antirracista. Isso porque racismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o individual, que se refere a um detalhe de comportamento de uma pessoa ou outra, mas sim, atinge a todo mundo, em diferentes dimens\u00f5es. O racismo \u00e9 um sistema sofisticado, que diz mais respeito sobre as pessoas brancas do que sobre pessoas negras e de cor. Como bem nos lembra Grada Kilomba, o racismo \u00e9 uma problem\u00e1tica branca [6].<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria recente do Brasil, quando s\u00f3 em 1988 entra na Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas da luta antirracista, pessoas brancas se aliaram ao movimento negro e ind\u00edgena para defender a erradica\u00e7\u00e3o do racismo. Mas, \u00e9 preciso o reconhecimento dos benef\u00edcios dados por esse sistema \u00e0 branquitude para passarmos para a etapa da repara\u00e7\u00e3o, abrindo m\u00e3o dos privil\u00e9gios sociais garantidos pelo racismo, sejam eles individuais e\/ou coletivos. De acordo com Maria Aparecida Bento, podemos nomear de branquitude \u201ctra\u00e7os da identidade racial do branco brasileiro a partir das ideias sobre branqueamento\u201d [7]. Como uma ideologia, a branquitude refor\u00e7a a reprodu\u00e7\u00e3o do racismo em n\u00edvel sist\u00eamico. Isso quer dizer que a constru\u00e7\u00e3o da ideia de que h\u00e1 uma supremacia branca refor\u00e7a e \u00e9 a base para a tamb\u00e9m ideia de que h\u00e1 uma inferioridade negra. Nesse sentido, a branquitude sustenta o racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Benefici\u00e1rias diretas deste sistema, parece que parte dos indiv\u00edduos brancos t\u00eam descoberto o antirracismo com os \u00faltimos acontecimentos, enquanto outros insistem por ignor\u00e1-lo, seja no campo das for\u00e7as dominantes, seja no nosso campo da transforma\u00e7\u00e3o social. Contudo, como bem salienta todas e todos intelectuais j\u00e1 citados aqui, n\u00e3o se combate o racismo s\u00f3 com ret\u00f3rica ou com palavras bonitas. O desafio que se lan\u00e7a no atual contexto ao grupo social branco, especialmente aquelas e aqueles que desaprovam publicamente o racismo, \u00e9 ultrapassar a etapa do reconhecimento para o processo de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de todos os preju\u00edzos que o racismo tem jogado no colo das popula\u00e7\u00f5es negras e ind\u00edgenas no Brasil h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, para al\u00e9m de a\u00e7\u00f5es afirmativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para movimentar a estrutura racista, \u00e9 preciso mais do que uma ret\u00f3rica que s\u00f3 serve para amenizar, na melhor das hip\u00f3teses, a culpa pela branquitude e uma a\u00e7\u00e3o antirracista exige muito mais que uma simples expia\u00e7\u00e3o de culpa, como coloca Kabengele Munanga [8]. Em meio a uma pandemia sem precedentes, dizer-se antirracista n\u00e3o \u00e9 o suficiente. Enquanto uma pr\u00e1tica de genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena no pa\u00eds, o racismo s\u00f3 ser\u00e1 combatido com mudan\u00e7as materiais e pol\u00edticas, com mais mulheres negras e ind\u00edgenas sendo ouvidas, estando em lugares de poder para produzir as mudan\u00e7as reais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lutar contra o racismo n\u00e3o pode ser uma luta pontual. Se enfrenta com uma luta pol\u00edtica maci\u00e7a, com pol\u00edticas p\u00fablicas e com a\u00e7\u00f5es materiais coletivas e individuais, culturais e simb\u00f3licas para mudar a sociedade. Em territ\u00f3rios como o Brasil, a luta de classes se materializa e se sustenta na conforma\u00e7\u00e3o ou na cren\u00e7a de que h\u00e1 ra\u00e7as superiores e inferiores. Para o movimento negro, sobretudo para feministas negras como L\u00e9lia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Erica Malunguinho, Vilma Reis, Marielle Franco e todas aquelas que t\u00eam constru\u00eddo em suas comunidades a luta popular antirracista, a ra\u00e7a n\u00e3o pode continuar sendo vista como um recorte ou como uma luta \u201cidentit\u00e1ria\u201d quando, na verdade, ra\u00e7a \u00e9 o fundamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a luta antirracista n\u00e3o se efetivar\u00e1 sem a luta por igualdade de g\u00eanero. Num pa\u00eds onde mais de sete milh\u00f5es de mulheres seguem sendo superexploradas por um trabalho de extrema heran\u00e7a escravocrata como as trabalhadoras dom\u00e9sticas, n\u00e3o h\u00e1 como pensar uma luta em defesa da democracia enquanto o racismo ainda moldar a vida de uma grande parcela da nossa popula\u00e7\u00e3o [9]. A luta em defesa do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, da Renda B\u00e1sica Universal, por uma Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica gratuita e de qualidade, pela descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto e em defesa da vida de todas as mulheres, a luta crucial por moradia, devem ser encaradas como dimens\u00f5es urgentes e pujantes da luta antirracista, que \u00e9 uma luta por emancipa\u00e7\u00e3o coletiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo \u00e9 desestabilizado a partir da base da pir\u00e2mide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo\u201d. A frase de Angela Davis nos convoca ao movimento [10]. E toda a\u00e7\u00e3o de deslocamento, que gera mudan\u00e7a, produz inc\u00f4modo. E o racismo, como toda ferida colonial, incomoda porque ainda n\u00e3o foi cicatrizada. A luta antirracista exige mudan\u00e7as que deslocam velhos inc\u00f4modos, exige desnaturaliza\u00e7\u00e3o de ideias, reconhecimento de privil\u00e9gios sociais concedidos pelo racismo e exige de n\u00f3s a a\u00e7\u00e3o da coletividade para superarmos as estruturas que nos oprimem.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso precisamos considerar a lideran\u00e7a das mulheres negras, h\u00e1 muito elas nos apontam caminhos que abrem veredas de emancipa\u00e7\u00e3o para todas as pessoas, n\u00e3o somente para o seu povo. S\u00e3o elas, grande maioria das que tem liderado articula\u00e7\u00f5es que tem garantido a sobreviv\u00eancia de diversas comunidades desassistidas pelo Estado frente ao coronav\u00edrus. A luta antirracista \u00e9 uma luta de solidariedade radical, como aponta a feminista negra brasileira, Rivane Arantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo esta intelectual, \u201ca efic\u00e1cia de uma a\u00e7\u00e3o antirracista depende muito, embora n\u00e3o s\u00f3 [\u2026] da radicalidade da vis\u00e3o sobre o que \u00e9 racismo, os modos como ele se constitui e perenizou ao longo da hist\u00f3ria e [\u2026], as formas pelas quais ele se atualiza e segue ordenando o mundo na contemporaneidade\u201d [11].<\/p>\n\n\n\n<p>Assumir a radicalidade da luta antirracista em todas as nossas pautas \u00e9 acabar com a heran\u00e7a colonialista que ainda existe em nossas rela\u00e7\u00f5es sociais. O colonialismo que paira sobre n\u00f3s n\u00e3o deixa essa ferida cicatrizar. A erradica\u00e7\u00e3o do racismo depende do poder que temos para derrubar as estruturas que nos oprimem. E essas estruturas reverberam tamb\u00e9m em n\u00f3s e em nossas rela\u00e7\u00f5es sociais dentro e fora dos movimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">&gt;&gt;&gt;&gt;&gt; Baderna Feminista indica \u2013 Aud\u00e1cia, Preta Rara: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=c03koCeTOhY\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=c03koCeTOhY<\/a><\/h5>\n\n\n\n<p>_________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Os usos da raiva: mulheres respondendo ao racismo, Audre Lorde: <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/os-usos-da-raiva-mulheres-respondendo-ao-racismo\/\">https:\/\/www.geledes.org.br\/os-usos-da-raiva-mulheres-respondendo-ao-racismo\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[2] Racismo, Viol\u00eancia e Direitos Humanos. Considera\u00e7\u00f5es sobre a Discrimina\u00e7\u00e3o de Ra\u00e7a e G\u00eanero na sociedade Brasileira, Dora L\u00facia de Lima Bert\u00falio, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>[3] Preta Rara: \u201cPara mim, resistir \u00e9 estar viva\u201d <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/11\/25\/preta-rara-para-mim-resistir-e-estar-viva\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/11\/25\/preta-rara-para-mim-resistir-e-estar-viva<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[4] M\u00e3es Yanomami imploram pelos corpos de seus beb\u00eas, Eliane Brum: <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-24\/maes-yanomami-imploram-pelos-corpos-de-seus-bebes.html?fbclid=IwAR1kaG-gsoNZyRL4X_ZPKswWqGZGRO3GYY2AjPgAafcRcWuPS8kc0qDL0Gk\">https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-06-24\/maes-yanomami-imploram-pelos-corpos-de-seus-bebes.html?fbclid=IwAR1kaG-gsoNZyRL4X_ZPKswWqGZGRO3GYY2AjPgAafcRcWuPS8kc0qDL0Gk<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[5] Desembargador nega pedido de liberdade provis\u00f3ria da ativista gr\u00e1vida Sara Rodrigues, Marco Zero Conte\u00fado: <a href=\"https:\/\/marcozero.org\/desembargador-nega-pedido-de-liberdade-provisoria-da-ativista-gravida-sara-rodrigues\/\">https:\/\/marcozero.org\/desembargador-nega-pedido-de-liberdade-provisoria-da-ativista-gravida-sara-rodrigues\/<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>[6] Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o \u2013 Epis\u00f3dios do Racismo cotidiano, Grada Kilomba. Tradu\u00e7\u00e3o: Jess Oliveira. Cobog\u00f3, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>[7] Branqueamento e branquitude no Brasil, Maria Aparecida Bento. Vozes, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>[8] #4 Caminhos: Conjuntura da luta antirracista no mundo, Kabengele Munanga, Andreia Beatriz&nbsp; \u2013 Di\u00e1logo com os Povos: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=56BM3A9loZE\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=56BM3A9loZE<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>[9] Enquanto houver RACISMO, n\u00e3o haver\u00e1 DEMOCRACIA: <a href=\"https:\/\/comracismonaohademocracia.org.br\/\">https:\/\/comracismonaohademocracia.org.br\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[10] \u201cQuando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela\u201d, Angela Davis: <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570053-quando-a-mulher-negra-se-movimenta-toda-a-estrutura-da-sociedade-se-movimenta-com-ela\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570053-quando-a-mulher-negra-se-movimenta-toda-a-estrutura-da-sociedade-se-movimenta-com-ela<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[11] Medita\u00e7\u00f5es sobre feminismos, rela\u00e7\u00f5es raciais e lutas antirracistas, Rivane Arantes: <a href=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/feminismo-relacoes-raciais-e-lutas-antirracistas\/\">https:\/\/antigo.soscorpo.org\/feminismo-relacoes-raciais-e-lutas-antirracistas\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As recentes manifesta\u00e7\u00f5es que eclodiram ao redor do mundo t\u00eam exposto o racismo, uma ferida colonial, um sistema complexo e perfeito para (re)produzir desigualdades sociais dentro de uma sociedade racista como a nossa. O que o momento nos coloca como desafio para seguir na luta por dias melhores, \u00e9 a necessidade, mais que urgente, de colocarmos no centro de nossas vidas a luta antirracista.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":11479,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"As recentes manifesta\u00e7\u00f5es ao redor do mundo t\u00eam exposto o racismo, uma ferida civilizat\u00f3ria, um sistema criado para (re)produzir desigualdades sociais. O que o momento nos  desafia \u00e9 colocar no centro de nossas vidas a luta antirracista. 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