{"id":11061,"date":"2020-04-20T12:07:16","date_gmt":"2020-04-20T15:07:16","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11061"},"modified":"2020-04-20T12:27:42","modified_gmt":"2020-04-20T15:27:42","slug":"violencia-domestica-e-os-precipicios-do-machismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=11061","title":{"rendered":"Viol\u00eancia dom\u00e9stica e os precip\u00edcios do machismo"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em>Nas janelas, len\u00e7os brancos denunciam opress\u00e3o. Surgem redes solid\u00e1rias. No Congresso, propostas punitivas s\u00f3 arranham o patriarcado. Uso emergencial de hot\u00e9is durante isolamento \u00e9 op\u00e7\u00e3o \u2014 mas elas ter\u00e3o at\u00e9 de ser expulsas de casa?\u2026<\/em><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\" data-attachment-id=\"11062\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=11062\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?fit=1200%2C800&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1200,800\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"violencia-domestica\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?fit=640%2C427&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?fit=580%2C387&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11062\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?w=1200&amp;ssl=1 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/violencia-domestica.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Pelo <a href=\"https:\/\/www.cfemea.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>CFEMEA<\/strong><\/a>, na coluna <em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/violencia-domestica-nossa-fragil-e-machista-democracia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Baderna Feminista<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma quest\u00e3o que tem se destacado como um problema na situa\u00e7\u00e3o de confinamento social por conta da pandemia \u00e9 tanto o agravamento quanto o aumento da viol\u00eancia dom\u00e9stica contra as mulheres. Lideran\u00e7as do mundo todo refor\u00e7am e tomam medidas para efetivar o isolamento social como medida fundamental para conter o v\u00edrus. #Fiqueemcasa est\u00e1 entre as hashtags mais usadas nas \u00faltimas semanas em todas as redes sociais, por personalidades, organismos internacionais e Estados. O governo Bolsonaro segue isolado, remando contra a mar\u00e9. At\u00e9 Donald Trump, que ensaiou ser contra as medidas de isolamento social, reviu sua posi\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para conten\u00e7\u00e3o do ritmo de contamina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus que provoca uma pandemia mundial, \u00e9 tamb\u00e9m o gatilho para o aumento significativo da viol\u00eancia contra as mulheres \u2013 e tamb\u00e9m contra meninas e crian\u00e7as. Segundo reportagem da Folha de S\u00e3o Paulo, \u201cos assassinatos de mulheres em casa dobraram em S\u00e3o Paulo durante a quarentena\u201d. Na segunda quinzena de mar\u00e7o, com o aumento do isolamento social, o servi\u00e7o de atendimento e den\u00fancia de situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia contra as mulheres Disque 180 registrou um aumento de 9% nas den\u00fancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira quinzena do mesmo m\u00eas [<strong>1<\/strong>]. Se o espa\u00e7o da casa \u00e9 um ambiente seguro para muitas pessoas, para muitas mulheres pode significar um lugar de viol\u00eancia e medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse fato, as mulheres se movimentam de distintas maneiras. Muitas est\u00e3o se organizando para criar redes de apoio e prote\u00e7\u00e3o, como o projeto \u201cAs Justiceiras\u201d que j\u00e1 re\u00fane mais de 700 volunt\u00e1rias numa lista de whatsapp para prestar assist\u00eancia m\u00e9dica, psicossocial e legal \u00e0 mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Outras est\u00e3o pendurando panos brancos nas janelas para denunciar que naquele local est\u00e1 ocorrendo viol\u00eancia conjugal. Outras ainda est\u00e3o elaborando artigos e an\u00e1lises com den\u00fancias, pleiteando de parlamentares e autoridades p\u00fablicas respostas efetivas a essa situa\u00e7\u00e3o. Essas a\u00e7\u00f5es mostram como um problema que parece ser apenas de algumas afeta, causa indigna\u00e7\u00e3o e mobiliza o conjunto das mulheres em busca de aliviar a dor das v\u00edtimas, denunciar essa injusti\u00e7a e demandar solu\u00e7\u00f5es para o problema.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, feministas organizadas em movimentos que lutamos por igualdade de direitos a partir da vida concreta e cotidiana das mulheres, para al\u00e9m dessas a\u00e7\u00f5es \u00e9 preciso entender a viol\u00eancia como algo estrutural. A viol\u00eancia contra n\u00f3s \u00e9 um pilar do poder patriarcal, uma das mais fortes express\u00f5es das desigualdades entre homens e mulheres.&nbsp; Desde o per\u00edodo da redemocratiza\u00e7\u00e3o, os movimentos feministas e de mulheres, em sua ampla diversidade \u2013 do campo, das florestas e das cidades, de categorias de classe sindicalizadas ou n\u00e3o, trabalhadoras dom\u00e9sticas, profissionais do sexo, mulheres ind\u00edgenas, feministas negras, jovens, mulheres com defici\u00eancia, l\u00e9sbicas, bissexuais e transexuais \u2013 v\u00eam denunciando a viol\u00eancia sofrida no cotidiano das brasileiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns anos, militantes da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras decidiram realizar um processo formativo para aprofundar a reflex\u00e3o sobre a viol\u00eancia como elemento comum de nossa experi\u00eancia como mulheres. A compreens\u00e3o geral era a de que precis\u00e1vamos complexificar nosso olhar para enxergar as desigualdades entre homens e mulheres, tamb\u00e9m estruturadas pelo racismo e pelo capitalismo, e ainda considerando a dimens\u00e3o et\u00e1ria, da lesbofobia e os contextos onde a viol\u00eancia ocorre \u2013 espa\u00e7o urbano ou rural, onde disputas por territ\u00f3rios, faccionados por mil\u00edcias e traficantes e conflitos agr\u00e1rios tornam ainda mais complexa a viol\u00eancia sofrida pelas mulheres, como as ind\u00edgenas, quilombolas, pescadoras artesanais, extrativistas, etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foram muitos os aprendizados e ressaltamos aqui dois pontos debatidos neste processo que nos ajudam a perceber como a quest\u00e3o da viol\u00eancia e seu enfrentamento \u00e9 central para a constru\u00e7\u00e3o alternativa de projetos de sociedade mais igualit\u00e1rios, justos e democr\u00e1ticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro ponto diz respeito ao modo como a viol\u00eancia, pelo uso da for\u00e7a, da subjuga\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios, da popula\u00e7\u00e3o africana escravizada esteve e segue presente na forma\u00e7\u00e3o social brasileira \u2013 e tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina. Sociedades que foram historicamente estruturadas pelo uso da for\u00e7a e do massacre para a explora\u00e7\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtica. No Brasil, o uso da viol\u00eancia deixou marcas profundas e se perpetuou nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, de classe e baseadas na ra\u00e7a\/etnia. Foi um instrumento para a opress\u00e3o patriarcal no \u00e2mbito privado, sobre as mulheres, como tamb\u00e9m no campo da economia e da pol\u00edtica, atrav\u00e9s do patriarcalismo e do autoritarismo.<strong>[2]<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O segundo ponto diz respeito \u00e0 quest\u00e3o da viol\u00eancia como um fator do d\u00e9ficit democr\u00e1tico. Uma sociedade que convive passivamente com o jugo e o dom\u00ednio de parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o, mantendo-a permanentemente sob amea\u00e7a e medo n\u00e3o pode ser considerada democr\u00e1tica. Estamos falando de meninas violadas por pais, padrastos, irm\u00e3os mais velhos, mulheres l\u00e9sbicas violentadas por vizinhos e parentes para \u201ccorrigir\u201d sua sexualidade,&nbsp; mulheres violentadas por maridos que acreditam que seus corpos est\u00e3o dispon\u00edveis para servir aos seus \u00edmpetos e vontades pessoais. Mulheres ind\u00edgenas, extrativistas, quilombolas assassinadas e estupradas por grileiros e fazendeiros por exigirem o direito \u00e0 sua terra e o respeito aos nossos bens comuns. Jovens negros das periferias do Brasil, assassinados cotidianamente por agentes estatais da necropol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Se relacionarmos o problema da viol\u00eancia como elemento fundante da base social de nosso pa\u00eds com o comando da na\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de um patriarca, ex-militar que propaga h\u00e1 d\u00e9cadas o discurso da viol\u00eancia para combater a viol\u00eancia temos um resultado dram\u00e1tico. De forma geral, o descaso com as mortes de brasileiros e brasileiras decorrentes da falta de acesso \u00e0s condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas sanit\u00e1rias e de sa\u00fade no discurso do presidente \u00e9 desolador. Bolsonaro tem sido motivo de chacota internacional e sua rea\u00e7\u00e3o ao problema da pandemia o coloca como o pior l\u00edder mundial no trato da quest\u00e3o. Ouvimos n\u00e3o uma, mas algumas vezes pessoas que o apoiam propagarem discursos de que algumas milhares de mortes seriam nada mais que um efeito colateral diante do risco maior que as perdas econ\u00f4micas podem representar para o pa\u00eds, o que rapidamente gerou rea\u00e7\u00f5es diversas com o mote de que <em>Vidas Valem Mais que Lucro!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, podemos nos perguntar qual \u00e9 o impacto de tamanha banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, e ainda, de sua permiss\u00e3o para que siga sendo parte das rela\u00e7\u00f5es sociais entre n\u00f3s, dado que at\u00e9 o presidente do pa\u00eds legitima sua perpetua\u00e7\u00e3o. Quando confrontado com o problema do crescimento da viol\u00eancia dom\u00e9stica no contexto da pandemia, o presidente negligenciou suas causas estruturantes e destilou mais um de seus achismos asquerosos ao afirmar que as mulheres est\u00e3o apanhando em casa durante a quarentena porque os homens n\u00e3o est\u00e3o saindo para trabalhar e ganhar o sustento da fam\u00edlia. A reprodu\u00e7\u00e3o desse discurso por um l\u00edder nacional n\u00e3o \u00e9 apenas leviana e preconceituosa em rela\u00e7\u00e3o aos milh\u00f5es de desempregados e desempregadas que vivem hoje no pa\u00eds, mas cumpre tamb\u00e9m o papel de naturalizar a viol\u00eancia como algo que pode necessariamente acontecer, e \u201cautorizar\u201d os homens a serem violentos com suas companheiras quando estiverem passando por situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, quando deveria conden\u00e1-la em qualquer circunst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa experi\u00eancia comum vivida por n\u00f3s mulheres, o movimentos feministas se articularam e pressionaram por a\u00e7\u00f5es efetivas dos poderes p\u00fablicos para o combate \u00e0 viol\u00eancia, partindo do pressuposto de que era preciso ter um marco legal que garantisse os direitos das brasileiras e que tais leis pudessem ser efetivas, atrav\u00e9s da execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas com recursos reais e equipamentos sociais capazes de transformar as rela\u00e7\u00f5es desiguais entre homens e mulheres, entre a popula\u00e7\u00e3o branca e negra, entre trabalhadores\/as e propriet\u00e1rios.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E tivemos muitas vit\u00f3rias. A Lei Maria da Penha e a lei do Feminic\u00eddio s\u00e3o algumas das conquistas na legisla\u00e7\u00e3o, bem como a fomento de uma rede de atendimento e assist\u00eancia, a constru\u00e7\u00e3o de protocolos para o atendimento a situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia sexual nos servi\u00e7os de sa\u00fade, entre outras. A maior parte dessas conquistas s\u00f3 foi poss\u00edvel com a cria\u00e7\u00e3o de organismos dedicados \u00e0 defesa dos direitos das mulheres, e com a a\u00e7\u00e3o de incid\u00eancia institucional e resist\u00eancia dos coletivos e movimentos feministas. Foram poss\u00edveis gra\u00e7as \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o e \u00e0s oportunidades que se abriram com o fim da ditadura militar, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o social, \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos movimentos nacionais e aos acordos firmados em espa\u00e7os internacionais. Conquistas essas que, em grande medida, v\u00eam sendo fragilizadas ap\u00f3s o golpe de 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 base do patriarcado, a viol\u00eancia tamb\u00e9m se relaciona diretamente com os outros sistemas de opress\u00e3o \u2013 capitalismo e racismo \u2013 e outras formas de viol\u00eancia, como LGBTfobia, o capacitismo, entre outras. Assim, atinge as mulheres de diversas maneiras e contribui para a manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais. A viol\u00eancia n\u00e3o acontece do mesmo jeito em todos os lugares e \u00e9 por isso que seu enfrentamento n\u00e3o pode ser pensado a partir de um \u00fanico par\u00e2metro.<\/p>\n\n\n\n<p>O aumento da viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 real desde que este governo mis\u00f3gino \u2013 que n\u00e3o gosta de mulheres \u2013 e racista chegou ao poder. Assistimos abismadas ao aumento de casos de feminic\u00eddios, mulheres sendo jogadas pela janela, assassinadas dentro de casa; e tudo isso associado \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de recursos p\u00fablicos destinados ao enfrentamento da viol\u00eancia, e ao desmonte dos servi\u00e7os de atendimento \u00e0s mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia.&nbsp; Ao mesmo tempo, \u00e9 justamente \u00e0 frente do Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos \u2013 sim \u201cmulher\u201d no singular porque n\u00e3o se governa para o conjunto da diversidade das mulheres brasileiras \u2013 que a jun\u00e7\u00e3o entre o conservadorismo patriarcal e o fundamentalismo religioso toma forma na vers\u00e3o mais assustadora e antifeminista poss\u00edvel. O que dizer da declara\u00e7\u00e3o de Damares de que a causa dos estupros cotidianos e da explora\u00e7\u00e3o sexual de jovens meninas no norte do pa\u00eds \u00e9 a falta de calcinhas, e a solu\u00e7\u00e3o seria, ent\u00e3o, fabric\u00e1-las, ao inv\u00e9s de&nbsp; interromper o ciclo de viol\u00eancia que autoriza que homens adultos estuprem meninas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se j\u00e1 \u00e9 grave n\u00e3o ter recursos p\u00fablicos para enfrentar o problema \u201cdemocr\u00e1tico\u201d da viol\u00eancia contra as mulheres, o que esperar de um governo que subestima&nbsp; a necessidade de pol\u00edticas efetivas de enfrentamento do problema estruturante da viol\u00eancia? Com a resposta ineficiente e encorajadora de viol\u00eancia deste governo \u00e9 previs\u00edvel que, nessa situa\u00e7\u00e3o extremada de emerg\u00eancia que tem demandado o isolamento social como forma de conter a contamina\u00e7\u00e3o do Covid-19, muitas mulheres, meninas e crian\u00e7as estariam em perigo em suas pr\u00f3prias casas, do que em outros contextos. O sil\u00eancio sobre a necessidade de propostas efetivas do governo para conter a viol\u00eancia contra as mulheres em tempos de crise \u00e9 criminoso.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito do poder legislativo,&nbsp; est\u00e3o sendo discutidas e aprovadas uma s\u00e9rie de propostas para enfrentar a crise gerada pela pandemia do coronav\u00edrus, algumas para apoiar as mulheres e popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas, como o <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/648307-lideres-da-oposicao-propoem-renda-basica-emergencial-durante-a-pandemia\/\">projeto que criou a Renda B\u00e1sica Emergencial<\/a> para trabalhadoras e trabalhadores informais e aut\u00f4nomos. Outras est\u00e3o mais preocupadas com as elites econ\u00f4micas, sacrificando direitos trabalhistas e obrigando a classe trabalhadora a pagar pela crise, como a <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2019\/Mpv\/mpv905.htm\">Medida Provis\u00f3ria 905\/2019<\/a> que cria o contrato de trabalho verde e amarelo, ou a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/04\/entenda-o-que-preve-a-pec-do-orcamento-de-guerra.shtml\">PEC 20\/2020 (Or\u00e7amento de Guerra<\/a>), que aumenta o poder do governo federal na gest\u00e3o dos recursos p\u00fablicos durante a crise.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no intuito de tentar conter o aumento do n\u00famero de casos de viol\u00eancia, mulheres parlamentares propuseram uma s\u00e9rie de medidas. Entre os projetos em debate (talvez j\u00e1 tenham sido aprovados quando esse texto tiver sido publicado), o <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/prop_mostrarintegra?codteor=1871653&amp;filename=Tramit\">PL 1267\/2020<\/a>, da Deputada Tal\u00edria Petrone e outras tem o objetivo de ampliar a divulga\u00e7\u00e3o do Disque 180 enquanto durar a pandemia da covid-19. O <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/prop_mostrarintegra;jsessionid=A7D3341EAC7FC4ECB89A\">PL 1291\/2020<\/a>, apresentado pela Deputada Maria do Ros\u00e1rio, entre outras, que visa assegurar medidas de combate e preven\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica j\u00e1 previstas no c\u00f3digo penal brasileiro enquanto durar a declara\u00e7\u00e3o de estado de emerg\u00eancia de car\u00e1ter humanit\u00e1rio e sanit\u00e1rio em territ\u00f3rio nacional. O <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/prop_mostrarintegra?codteor=1873271&amp;filename=PL+1552\/2020\">PL 1552\/2020<\/a>, da Deputada S\u00e2mia e outras, que disp\u00f5e sobre a prote\u00e7\u00e3o de mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia enquanto durarem as medidas de quarentena e restri\u00e7\u00f5es de atividades no contexto da pandemia da covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o medidas importantes, ainda que insuficientes, j\u00e1 que est\u00e3o centradas no punitivismo, lan\u00e7ando m\u00e3o de uma rede de atendimento que j\u00e1 era fr\u00e1gil e que nos \u00faltimos anos vem sendo desmontada. Durante os Governos Lula e Dilma, ensaiamos a constru\u00e7\u00e3o de uma Rede Nacional que pudesse efetivar uma pol\u00edtica acess\u00edvel a todas as mulheres. No entanto, a falta de prioriza\u00e7\u00e3o dos recursos e a forma como a pol\u00edtica foi conduzida manteve diversas desigualdades entre os estados e n\u00e3o conseguiu dar escala \u00e0 proposta e garantir sua universaliza\u00e7\u00e3o. Agora, no Governo Bolsonaro, ao contr\u00e1rio do que alardeia a ministra respons\u00e1vel pelo tema, temos um or\u00e7amento cada vez mais reduzido, que n\u00e3o sustenta nem os servi\u00e7os e equipamentos existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel a maior visibilidade do debate sobre viol\u00eancia na sociedade. No entanto, esse debate, ainda est\u00e1 muito centrado em torno da necessidade de den\u00fancia e puni\u00e7\u00e3o do agressor. O foco est\u00e1 centrado na viol\u00eancia <em>aberta<\/em>, aquela que \u00e9 reconhecida imediatamente pela sociedade. A perspectiva feminista antirracista nos desafia a ir al\u00e9m, precisamos enfrentar a viol\u00eancia estrutural ou sist\u00eamica, vinculada \u00e0s formas de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o vigentes. Temos vistos propostas em diferentes pa\u00edses de cria\u00e7\u00e3o de alternativas emergenciais de locais para abrigar mulheres vivendo essa situa\u00e7\u00e3o durante a pandemia, como o uso de hot\u00e9is e espa\u00e7os p\u00fablicos em desuso durante o isolamento, um debate que temos feito nos movimentos de mulheres junto com a divulga\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os que est\u00e3o funcionando, al\u00e9m de redes solid\u00e1rias de acolhimento com escuta para essas mulheres se encorajarem a sair dessa situa\u00e7\u00e3o; afinal, ceder \u00e0s v\u00e1rias formas de viol\u00eancia n\u00e3o significa aceitar.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia estrutural \u00e9 camuflada por sua conformidade \u00e0s regras; \u00e9 naturalizada por sua presen\u00e7a permanente na tessitura das rela\u00e7\u00f5es sociais; \u00e9 invisibilizada porque, ao contr\u00e1rio da viol\u00eancia aberta, n\u00e3o aparece como uma ruptura da normalidade. Em particular, a viol\u00eancia estrutural tem benefici\u00e1rios, mas n\u00e3o tem necessariamente perpetradores particulariz\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A demanda do movimento feminista n\u00e3o pode ser pautada pela puni\u00e7\u00e3o, fortalecimento das for\u00e7as de seguran\u00e7a, do judici\u00e1rio e do sistema prisional. Porque diante de um sistema prisional como o nosso, marcado pela desigualdade de classe e de ra\u00e7a, seria ilus\u00f3rio imaginar que a puni\u00e7\u00e3o seria suficiente para acabar com o problema da viol\u00eancia. \u00c9 preciso criar mecanismos culturais e sociais. \u00c9 preciso avan\u00e7ar na desconstru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es desiguais do poder patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, \u00e9 fundamental a constru\u00e7\u00e3o da autonomia das mulheres. \u00c9 preciso criar condi\u00e7\u00f5es para que as mulheres rompam com o ciclo da viol\u00eancia, contribuindo para que as mulheres a seu redor tamb\u00e9m o fa\u00e7am. \u00c9 preciso fortalecer a a\u00e7\u00e3o coletiva feminista e garantir recursos e pol\u00edticas adequadas para o atendimento, acolhimento e prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres v\u00edtimas para que n\u00e3o sejam elas a serem punidas e retiradas de seus lares; urge com que os homens discutam, escutem nosso pleito e sejam tamb\u00e9m atores para a interrup\u00e7\u00e3o desse ciclo que muito se mant\u00e9m pela coniv\u00eancia social masculina. Enfim, \u00e9 preciso que o tema seja discutido amplamente como uma quest\u00e3o democr\u00e1tica de respeito e dignidade de cada uma de n\u00f3s mulheres que temos cotidianamente nosso principal territ\u00f3rio, nosso corpo f\u00edsico e nossa subjetividade, violado.<\/p>\n\n\n\n<p>[1] <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mdh\/pt-br\/assuntos\/noticias\/todas-as-noticias\/2020-2\/marco\/coronavirus-sobe-o-numero-de-ligacoes-para-canal-de-denuncia-de-violencia-domestica-na-quarentena\">Coronav\u00edrus: sobe o n\u00famero de liga\u00e7\u00f5es para canal de den\u00fancia de viol\u00eancia dom\u00e9stica na quarentena<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>[2] O processo formativo realizado na Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras foi sistematizado na forma de um documento interno com um marco te\u00f3rico sobre a viol\u00eancia contra as mulheres. 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