{"id":10938,"date":"2020-04-07T08:50:00","date_gmt":"2020-04-07T11:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10938"},"modified":"2020-04-05T23:23:57","modified_gmt":"2020-04-06T02:23:57","slug":"as-tarefas-domesticas-e-do-cuidado-em-tempos-de-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10938","title":{"rendered":"As tarefas dom\u00e9sticas e do cuidado em tempos de Covid-19"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong><em>Carla Gisele Batista, na coluna <a href=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/noticias\/noticias\/mulheres-em-movimento\/2020\/03\/30\/NWS,135343,70,1055,NOTICIAS,2190-AS-TAREFAS-DOMESTICAS-CUIDADO-TEMPOS-COVID.aspx\">Mulheres em Movimento<\/a>.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"10939\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10939\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/37541547580004753650000.jpg?fit=475%2C365&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"475,365\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"37541547580004753650000\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/37541547580004753650000.jpg?fit=300%2C231&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/37541547580004753650000.jpg?fit=475%2C365&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/37541547580004753650000.jpg?resize=335%2C257&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10939\" width=\"335\" height=\"257\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/37541547580004753650000.jpg?w=475&amp;ssl=1 475w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/37541547580004753650000.jpg?resize=300%2C231&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Quando penso hoje na minha m\u00e3e com 5 crian\u00e7as sempre famintas em casa, se virando para inventar coisas para nos acalmar (cachorro quente, mingau, vitamina de abacate, pipoca, p\u00e3o com salame, banana amassada, frutas do quintal&#8230;) imagino como aquilo devia ser trabalhoso. Que brava! heroica! Lembran\u00e7as de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, claro. De uma mesa na qual nunca faltou a comida que agora deve estar faltando, ainda mais, em milhares de lares brasileiros. Imagine a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e dor ter que lidar com crian\u00e7as com fome, quando n\u00e3o se tem nada a lhes oferecer. E esses 600 reais que sabe-se l\u00e1 quando chegar\u00e3o \u00e0s mesas de uma parte das pessoas?!?! Nunca ficou t\u00e3o gritante a hipocrisia dos que dizem defender a vida negando a maternidade como direito para as mulheres! Ser m\u00e3e \u00e9 mais que parir, poder criar filhos\/as em aus\u00eancia de amea\u00e7as permanentes.<br \/><br \/>Em dias de quarentena recebo algumas piadinhas machistas e sem gra\u00e7a de maridos que n\u00e3o aguentam mais suas esposas pedirem para que levantem do sof\u00e1 e fa\u00e7am alguma coisa. Talvez essa imagem n\u00e3o tenha fronteiras de classe social. S\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, que perpassam todas as classes, ainda que de forma distinta. Tem gente que continua trabalhando para n\u00e3o perder o emprego ou porque sen\u00e3o n\u00e3o entra nada em casa. Rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, no Brasil com Bolsonaro, podem estar mais evidentes porque renaturalizadas, vide o aumento dos casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica no per\u00edodo de quarentena. A viol\u00eancia contra as mulheres j\u00e1 era maior nos finais de semana, quando os homens est\u00e3o de folga. Porque eles se sentem t\u00e3o humilhados e irritados com esta proximidade ao dom\u00e9stico, universo relegado historicamente \u00e0s mulheres? Vem da\u00ed tamb\u00e9m a dificuldade que os intelectuais de esquerda t\u00eam de ler o mundo com uma perspectiva de g\u00eanero e de ra\u00e7a?<br \/><br \/>Remetendo a quest\u00f5es culturais, lembrei de algumas semanas passadas no Canad\u00e1, em Toronto, para um curso de ingl\u00eas. De tarde costumava ver um pouco de televis\u00e3o para exercitar a audi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua. Adorava programas relacionados \u00e0 cozinha. Em um deles, um pai que ficava em casa, e que era um verdadeiro chef, ensinava coisas deliciosas e simples a fazer para as crian\u00e7as nos intervalos das brincadeiras, enquanto tamb\u00e9m pensava e armava o almo\u00e7o e o jantar. Tinha outro que me chamava mais a aten\u00e7\u00e3o: uma casa em que a m\u00e3e n\u00e3o gostava muito de cozinhar era visitada por uma consultora que buscava responsabilizar toda a fam\u00edlia, inclusive crian\u00e7as a partir de determinada idade, com estas tarefas. Ela organizava uma agenda em que cada dia caberia a uma pessoa da casa preparar a refei\u00e7\u00e3o. Se o garoto era bom em hamb\u00fargueres, propunha a ele um card\u00e1pio relacionado: hamb\u00farguer com salada, sem o p\u00e3o ou batatas, por exemplo, preocupada em fazer com que as refei\u00e7\u00f5es fossem tamb\u00e9m mais saud\u00e1veis. Se o pai era bom com as massas, ou n\u00e3o era bom em nada, propunha algo saud\u00e1vel que n\u00e3o fosse t\u00e3o dif\u00edcil dele aprender a fazer. E a m\u00e3e, como as outras pessoas, tinha apenas o seu dia no rod\u00edzio de ir para a cozinha. O card\u00e1pio e a distribui\u00e7\u00e3o era pra v\u00e1rias semanas. A consultora voltava para acompanhar e certificar se aquilo contribu\u00eda para mudar os h\u00e1bitos da fam\u00edlia.<br \/><br \/>Eu adorava esses programas porque eles criavam um deslocamento da ideia de que a mulher e m\u00e3e, por ter sido respons\u00e1vel pela amamenta\u00e7\u00e3o, tinha que passar o resto da vida cuidando de alimentar a fam\u00edlia. Isso vale para todas as tarefas da casa, que devem ser da responsabilidade de todos\/as que nela habitam. Ali\u00e1s, como temos visto, este tem sido um tempo que convida a arrumar a casa: guarda-roupas, livros, discos\/CDs, brinquedos, al\u00e9m de limpar ch\u00e3o, lavar banheiro, coisas que precisam ser feitas com mais frequ\u00eancia quando as pessoas est\u00e3o o tempo todo em casa. Nada mais justo e democr\u00e1tico que cada pessoa tenha uma parte destas tarefas sob sua responsabilidade, em igual medida.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que fazer para garantir a higiene necess\u00e1ria, nestes tempos com amea\u00e7a de contamina\u00e7\u00e3o por todos os lados, quando falta \u00e1gua em casa? Entendendo que a responsabilidade com os cuidados devem ser coletivas, o F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco (FMPE) que mant\u00e9m as conversas em grupo de WhatsApp, elaborou um precioso documento de orienta\u00e7\u00e3o para aquelas fam\u00edlias que est\u00e3o nesta situa\u00e7\u00e3o. Segundo Pergentina Vilarim, coordenadora do F\u00f3rum, \u201cos movimentos de mulheres e feministas t\u00eam contribu\u00eddo para visibilizar as desigualdades existentes entre as mulheres e buscam fortalecer as redes de solidariedade neste momento em que as mulheres est\u00e3o piradas de medo. Mesmo sendo da classe trabalhadora, algumas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, todas as integrantes do FMPE contribuem. Quem tem dinheiro, alimentos, e pode, compartilha. Quem tem s\u00f3 aten\u00e7\u00e3o e escuta doa seu tempo, sua empatia. Tudo porque somos feministas!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.folhape.com.br\/obj\/83\/375413%2C800%2C80.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.folhape.com.br\/obj\/83\/375413%2C930%2C80.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"A\u00e7\u00f5es\" title=\"A\u00e7\u00f5es\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es e movimentos feministas est\u00e3o oferecendo uma s\u00e9rie de canais para apoiar as mulheres neste per\u00edodo de pandemia de Covid-19. S\u00f3 para ilustrar: o Grupo Curumim oferece orienta\u00e7\u00e3o a gestantes da Regi\u00e3o Metropolitana do Recife; a Casa M\u00e3e est\u00e1 fazendo um mapeamento emergencial para m\u00e3es que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade causada ou agravada pelo coronav\u00edrus. O Coletivo espanhol Calala produziu um <a href=\"https:\/\/www.calala.org\/manual-autocuidado-tiempos-pandemia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">manual de autocuidado f\u00edsico, emocional e digital em tempos de pandemia: pr\u00e1ticas e recursos<\/a>. J\u00e1 o manual de \u201credu\u00e7\u00e3o de danos em tempos de corona v\u00edrus: dicas de preven\u00e7\u00e3o para profissionais do sexo\u201d pode ajudar nos cuidados ao namorar.<br \/><br \/>H\u00e1 p\u00e1ginas de organiza\u00e7\u00f5es de toda a Am\u00e9rica Latina orientando, \u00e0s vezes acolhendo e apoiando, procedimentos para os casos de viol\u00eancia contra as mulheres. Liguei para o 180 do governo federal e a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que este \u00e9 o canal para registro de den\u00fancias e que orientam ir ao CRAS mais pr\u00f3ximo, que funciona nos hor\u00e1rios comerciais. Em caso de emerg\u00eancia recorrer ao 190. Como se sabe, h\u00e1 estados e munic\u00edpios mais ou menos preparados para estes atendimentos. Muitos deixaram de receber recursos federais para atendimento especializado, desde que assumiu um governo determinado a investir na viol\u00eancia e na morte. Mas, \u00e9 o que temos por hora.<br \/><br \/>H\u00e1 uma s\u00e9rie de iniciativas solid\u00e1rias acontecendo a partir da sociedade. Voc\u00ea, homem ou mulher, al\u00e9m de dividir as tarefas de casa, pode se engajar em alguma delas, ou criar a sua e mobilizar outras pessoas. Pode ao menos somar for\u00e7as nas campanhas pela renda m\u00ednima. H\u00e1 muito o que fazer, tanto em casa quanto pelo bem comum.<br \/><br \/>Recebo um outro v\u00eddeo de um marmanjo sentado sem camisa no sof\u00e1 \u2013 porque a m\u00e3e foi colocar a roupa de rua dele pra lavar &#8211; se achando muito engra\u00e7ado. Reclama que a m\u00e3e fez a lista de compras sem relacionar os produtos na mesma ordem da distribui\u00e7\u00e3o nas prateleiras do supermercado, entre outras besteiras. Pasmem!!! Penso: uma coisa que as mulheres poderiam aprender tamb\u00e9m \u00e9 sentar no sof\u00e1, n\u00e3o s\u00f3 na \u201chora da minha novela\u201d, pra tomar uma cerveja ou o que seja e deixar a casa cair. At\u00e9 que algu\u00e9m se mexa.<br \/><br \/>Termino desejando a voc\u00ea for\u00e7a para superarmos todos estes desafios e ofere\u00e7o \u201ca mulher do fim do mundo\u201d, com a deusa Elza Soares. Em tempos de tristeza e preocupa\u00e7\u00e3o extrema, v\u00e1 dan\u00e7ar um pouco!<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6SWIwW9mg8s\" allowfullscreen=\"\" width=\"930\" height=\"522\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p><em>*Carla Gisele Batista \u00e9 historiadora, pesquisadora, educadora popular. Mestra em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, G\u00eanero e Feminismo pela UFBA. Militante feminista, integrou as coordena\u00e7\u00f5es do F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco, da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras e da Articulaci\u00f3n Feminista Marcosur. Publicou em 2019 o livro: A\u00e7\u00e3o Feminista em Defesa da Legaliza\u00e7\u00e3o do Aborto: Movimento e Institui\u00e7\u00e3o, pela Annablume Editora.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o custa insistir: as responsabilidades e tarefas de cuidado com a vida devem ser coletivas. 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