{"id":10919,"date":"2020-04-04T12:51:53","date_gmt":"2020-04-04T15:51:53","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10919"},"modified":"2020-04-04T12:52:38","modified_gmt":"2020-04-04T15:52:38","slug":"capital-pandemia-e-os-papeis-do-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10919","title":{"rendered":"Capital, pandemia e os pap\u00e9is do feminismo"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"422\" data-attachment-id=\"10920\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10920\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/%C3%ADndice-1-1.jpg?fit=1000%2C659&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1000,659\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"\u00edndice-1-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/%C3%ADndice-1-1.jpg?fit=300%2C198&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/%C3%ADndice-1-1.jpg?fit=640%2C422&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/%C3%ADndice-1-1.jpg?resize=640%2C422&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10920\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/%C3%ADndice-1-1.jpg?w=1000&amp;ssl=1 1000w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/%C3%ADndice-1-1.jpg?resize=300%2C198&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/%C3%ADndice-1-1.jpg?resize=768%2C506&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em>Ultraliberais querem decidir quem vive ou morre. A maioria \u2014 com ra\u00e7a, g\u00eanero e classe social segregadas \u2014 amarga o medo e a exclus\u00e3o. \u00c9 a necropol\u00edtica, descrita pelo fil\u00f3sofo Achile Mbembe. Mas a brecha da mudan\u00e7a foi aberta\u2026<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Por <strong>SOS Corpo<\/strong>, na coluna <strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/capital-pandemia-e-os-papeis-do-feminismo\/\"><em>Baderna Feminista<\/em><\/a><\/strong>, no site <strong>Outras Palavras<\/strong>.<\/h5>\n\n\n\n<p>A r\u00e1pida expans\u00e3o da pandemia de coronav\u00edrus pelo mundo e a trag\u00e9dia sanit\u00e1ria e socioecon\u00f4mica por ela instalada nos coloca face a face com a profunda inseguran\u00e7a social em que o capitalismo jogou popula\u00e7\u00f5es inteiras, as mais empobrecidas. J\u00e1 ultrapassamos os 30 mil mortos e n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de prever at\u00e9 onde vamos diante deste cen\u00e1rio de incertezas.<\/p>\n\n\n\n<p>A outra quest\u00e3o impiedosa deste processo \u00e9 a voz dos poderosos querendo transparecer como algo que nos afeta indistintamente, em termos de classe, g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia. Isso \u00e9 um mito. Em tempos de pandemias, as desigualdades se revelam em toda sua contradi\u00e7\u00e3o e exp\u00f5e as diferen\u00e7as e desigualdades nas popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, social e economicamente. O confinamento tem sido poss\u00edvel para quem tem condi\u00e7\u00f5es de faz\u00ea-lo. Mesmo na classe trabalhadora h\u00e1 diferen\u00e7as. As trabalhadoras\/es inseridas no mercado de trabalho formal, com cobertura e prote\u00e7\u00e3o social, vivenciam esse per\u00edodo de forma d\u00edspare que \u00e0quelas\/es que vivem do trabalho informal ou que se encontram no campo dos servi\u00e7os essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, no movimento feminista, esse contexto revela o colapso do sistema capitalista. Mas ele n\u00e3o cair\u00e1 sem que hajam for\u00e7as vivas a impulsionar a queda. Essa \u00e9 a tarefa pol\u00edtica que assumimos, e queremos constru\u00ed-la junto com todos que sonham com um mundo de justi\u00e7a e igualdade. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 assustadora para todo mundo hoje, mas, no passado recente, vivemos situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas provocadas pela sanha capitalista que atingiram grandes contingentes de pessoas e s\u00e3o invisibilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 oito meses uma crise socioambiental, econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria atingia o Brasil. Toneladas de petr\u00f3leo cru contaminaram as praias de praticamente todo o litoral do pa\u00eds, modificando a din\u00e2mica de vida de milh\u00f5es de pescadoras e pescadores artesanais, causando danos \u00e0 sa\u00fade de mulheres, homens e crian\u00e7as que sobrevivem diretamente da renda da pesca artesanal. O vazamento do petr\u00f3leo que vinha do alto-mar, nunca teve sua origem definida. Quem teve um olhar mais atento e acompanhou esse crime, sabe que, como de praxe, o governo federal bolsonarista se absteve em ajudar na conten\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o do petr\u00f3leo sobre a costa. Foram diretamente impactados estu\u00e1rios, arrecifes, mangues, praias e vidas marinhas a longo prazo, al\u00e9m das vidas humanas que foram completamente modificadas nos meses em que do alto-mar vinham ondas e ondas carregadas de material altamente t\u00f3xico e cancer\u00edgeno.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise evidenciou a falta de compromisso n\u00e3o s\u00f3 do governo federal, mas tamb\u00e9m dos governos estaduais, casas legislativas, prefeituras e demais institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em gerenci\u00e1-la. Todo o trabalho ficou nas m\u00e3os e nos bra\u00e7os das mulheres pescadoras, que organizaram suas comunidades pesqueiras para exigir dos poderes solu\u00e7\u00f5es para conter a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, para denunciar o impacto no trabalho da cadeia produtiva da pesca artesanal, na economia das fam\u00edlias e das cidades atingidas, para exigir a democratiza\u00e7\u00e3o e melhorias no acesso \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, \u00e0 previd\u00eancia, aos direitos trabalhistas e para burlar a pr\u00f3pria fome. Neste momento j\u00e1 era evidente que o impacto socioambiental tinha seu recorte de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero e uma a\u00e7\u00e3o p\u00fablica avessa a pensar pol\u00edticas emergenciais e de mitiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No estado de Pernambuco, um dos que foram atingidos pelo derramamento, ap\u00f3s mobiliza\u00e7\u00f5es, atos, audi\u00eancias p\u00fablicas, reuni\u00f5es com Secretarias e representa\u00e7\u00f5es do Governo Estadual, as pescadoras e pescadores foram desrespeitadas, negligenciadas e entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte, j\u00e1 que decretar situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia p\u00fablica para conter a crise que estava instalada era assumir o risco de impactar a economia. Para preservar o lucro da ind\u00fastria pesqueira e hoteleira, o governo seguiu como se nada estivesse acontecendo. Entre as vidas de milhares que est\u00e3o doentes e passando fome, e o lucro dos grupos econ\u00f4micos, devemos escolher a vida e vida com condi\u00e7\u00f5es dignas.<\/p>\n\n\n\n<p>De julho at\u00e9 hoje \u2013 agora em contexto de pandemia de COVID-19, as mulheres e homens do mar, na sua grande maioria negras e negros, remanescentes de comunidades tradicionais e quilombolas, pessoas que sempre estiveram e est\u00e3o sistematicamente \u00e0s margens do poder econ\u00f4mico \u2013 fica evidente, mais uma vez, a contradi\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, que n\u00e3o pode, jamais, ser visto, refletido e analisado sem suas engrenagens: os sistemas racista e patriarcal. Trazemos esse recente epis\u00f3dio de necropol\u00edtica dentre tantos outros que poderiam ser narrados para alertar: a dificuldade de controlar o coronav\u00edrus \u00e9 a dificuldade de controlar o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achile Mbembe, necropol\u00edtica \u00e9 a forma como os governos usam o poder para definir quem morre e quem vive, e de que maneira essas mortes e vidas acontecer\u00e3o. No caso do crime s\u00f3cio-econ\u00f4mico-ambiental do derramamento de petr\u00f3leo, mais uma vez, a l\u00f3gica neoliberal prevaleceu: as consequ\u00eancias do impacto econ\u00f4mico seriam maiores do que a \u201cmorte de cinco, sete mil pessoas\u201d. O mesmo valeu para os crimes em Mariana e Brumadinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas porqu\u00ea as vidas das pescadoras e pescadores, ou de milhares de mulheres assassinadas por feminic\u00eddio por ano, das centenas de mulheres negras que morrem nos hospitais em consequ\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es em abortos clandestinos, ou de jovens negros mortos pelo genoc\u00eddio da pol\u00edcia nas comunidades perif\u00e9ricas, ou ainda, dos trabalhadores que se sacrificam em trabalhos an\u00e1logos \u00e0 escravid\u00e3o, das pessoas encarceradas, ou das meninas que s\u00e3o v\u00edtimas de estupro em casa, n\u00e3o s\u00e3o exemplos suficientes para escancarar as contradi\u00e7\u00f5es do sistema como agora? Porque, na crise do coronav\u00edrus, que chega em qualquer pessoa, independente de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe social, se evidencia para todas as pessoas como a vida humano diante do capitalismo n\u00e3o vale nada. Mas, apesar disso, a viv\u00eancia da pandemia segue tendo g\u00eanero, ra\u00e7a, etnia e classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Em recente entrevista, Achile Mbembe destaca: o isolamento social, principal medida sanit\u00e1ria adotada pelas autoridades para retardar o avan\u00e7o do COVID-19, \u00e9 uma forma de controlar esse poder de quem vive e de quem morre. Afinal, quem s\u00e3o os 40% da popula\u00e7\u00e3o mundial que est\u00e1 em isolamento, em termos de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe social? Para quem vive no cotidiano, ao longo da hist\u00f3ria dessa humanidade, o isolamento social \u00e9 um luxo para quem pode. E isso se revela, no contexto de crise, de maneira aguda, aquilo que se vive cronicamente no cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa seletividade da pandemia se manifesta ainda nas informa\u00e7\u00f5es veiculadas pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. Os impactos entre mortos e infectados s\u00e3o explicitados pela centralidade do continente europeu e nos Estados Unidos. Mas, a pandemia j\u00e1 chegou no continente africano e atinge 39 pa\u00edses, com mais de 5.300 afetados e cerca de 170 mortos. Contudo, n\u00e3o vemos sendo divulgadas essas informa\u00e7\u00f5es como parte do mapa da maior pandemia da hist\u00f3ria da humanidade. O poder de decidir dos governantes transparece tamb\u00e9m em quais vidas importam serem conhecidas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"552\" data-attachment-id=\"10924\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10924\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Reprodu%C3%A7%C3%A3o-Facebook.jpeg?fit=715%2C617&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"715,617\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1585763284&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Reprodu\u00e7\u00e3o-Facebook\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Reprodu%C3%A7%C3%A3o-Facebook.jpeg?fit=300%2C259&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Reprodu%C3%A7%C3%A3o-Facebook.jpeg?fit=640%2C552&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Reprodu%C3%A7%C3%A3o-Facebook.jpeg?resize=640%2C552&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10924\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Reprodu%C3%A7%C3%A3o-Facebook.jpeg?w=715&amp;ssl=1 715w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Reprodu%C3%A7%C3%A3o-Facebook.jpeg?resize=300%2C259&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Os efeitos da pandemia colocam mais uma vez em evid\u00eancia quais s\u00e3o os corpos que est\u00e3o em risco maior: mulheres e homens empobrecidos, em sua maioria negras e negros, trabalhadoras dom\u00e9sticas, diaristas, profissionais de sa\u00fade, trabalhadoras de servi\u00e7os gerais, que sobrevivem da renda m\u00ednima conquistada com trabalho informal, moradoras de \u00e1reas de risco e suas fam\u00edlias. Para que servi\u00e7os essenciais continuem a funcionar, pessoas que sempre estiveram \u00e0s margens do sistema-mundo capitalista-racista-patriarcal s\u00e3o colocadas em risco maior, pois seguem trabalhando nas ruas, para garantir o sustento.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia descortina de maneira gritante a f\u00faria da superexplora\u00e7\u00e3o capitalista no cotidiano. Empresas se recusam a liberar empregados e empregadas, obrigados e obrigadas a expor-se ao risco da contamina\u00e7\u00e3o. Outras aumentam o pre\u00e7o de medicamentos e materiais de prote\u00e7\u00e3o. Isso revela a fal\u00eancia de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social que se coloca em conflito com a vida. \u00c9 exatamente por isto que as formas de conten\u00e7\u00e3o da epidemia nos colocam, necessariamente, em confronto com a l\u00f3gica capitalista de organiza\u00e7\u00e3o social. O isolamento social exige colocar a sa\u00fade sobre a economia baseada na produ\u00e7\u00e3o de bens e na venda de servi\u00e7os. Evidencia que, neste sistema, seres humanos s\u00e3o for\u00e7a de trabalho descart\u00e1veis, em um mundo em que tantos e tantas est\u00e3o desempregados.<\/p>\n\n\n\n<p>O atual cen\u00e1rio revela tamb\u00e9m a inseguran\u00e7a social e econ\u00f4mica das pessoas que vivem do trabalho, provocada pelos 40 anos de implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo. Ele gerou o aprofundamento da acumula\u00e7\u00e3o por expropria\u00e7\u00e3o de bens comuns, a retirada dos direitos sociais e a convers\u00e3o de pol\u00edticas sociais em mercadorias, como a sa\u00fade, o abastecimento de \u00e1gua, a previd\u00eancia social e moradia. A crise sanit\u00e1ria instalada revela, com toda a sua crueldade, a desprote\u00e7\u00e3o social, o desmonte dos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade em v\u00e1rias partes do mundo e a insufici\u00eancia da a\u00e7\u00e3o do estado para responder prontamente ao crescimento do n\u00famero de pessoas infectadas e adoecidas. O colapso da pol\u00edtica de sa\u00fade no mundo \u00e9 revelador deste sucateamento. Poucos leitos de UTI dispon\u00edveis; n\u00famero reduzido de profissionais de sa\u00fade; desinvestimento em pesquisa e desestrutura\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e departamentos voltados para enfrentamento, de forma preventiva, de ciclos epid\u00eamicos.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta pela conten\u00e7\u00e3o da epidemia revela, portanto, a urg\u00eancia de conter o capitalismo: sua investida sobre recursos p\u00fablicos, direitos e pol\u00edticas. A pandemia de coronav\u00edrus exige, no plano imediato, no caso brasileiro, lutar pelo fim do contingenciamento de recursos, na amplia\u00e7\u00e3o e defesa do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, pelo acesso ao saneamento b\u00e1sico e \u00e0 \u00e1gua e moradia. Exige tamb\u00e9m o enfrentamento ao lucro, a taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas e a defesa do fundo p\u00fablico para garantir a vida de todos. E exige do campo da esquerda, de maneira geral, colocar no centro de suas lutas o enfrentamento ao projeto ultraliberal e a defesa de pol\u00edticas sociais universais que, frente \u00e0 voracidade da tomada de recursos do Estado, assumem radicalidade e ganham potencialidade nesse contexto. Esta luta nos permite acumular for\u00e7as para o enfrentamento do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Na contram\u00e3o da l\u00f3gica neoliberal e na disputa real do sentido de solidariedade, vemos, mais uma vez, as pessoas levando nas m\u00e3os as ajudas para aquelas e aqueles que s\u00e3o invis\u00edveis neste sistema. Vem dos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es sociais e populares as iniciativas emergenciais para assistir popula\u00e7\u00f5es e comunidades vulner\u00e1veis no cotidiano e que no contexto da crise sanit\u00e1ria do COVID-19 est\u00e3o ainda mais fragilizadas. \u00c9 importante destacar que as a\u00e7\u00f5es de solidariedade vem de um campo pol\u00edtico que \u00e9 extremamente atacado e criminalizado pelas for\u00e7as conservadoras e neofascistas, que contribu\u00edram para o atual quadro pol\u00edtico em curso.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o campanhas de arrecada\u00e7\u00e3o que dependem de iniciativas individuais, de pequenos comerciantes, de pessoas que j\u00e1 sabem qual \u00e9 o peso da escassez dos recursos e riquezas acumuladas pelo capital. Mas, o v\u00edrus vem chegando e do ponto de vista dos valores e da nossa forma de viver, o individualismo neoliberal e a ideia \u201cdo cada um e cada uma por si\u201d n\u00e3o cabe mais neste momento, n\u00e3o se sustenta. Precisamos radicalizar e pressionar o poder p\u00fablico, fortalecer as redes de solidariedade que existem, fomentar novas, fiscalizar e cobrar que os servi\u00e7os que s\u00e3o da ordem do Estado sejam mantidos e as vidas das pessoas que, de fato, est\u00e3o em risco diante dessa pandemia, sejam protegidas. Precisamos entender que o tempo \u00e9 o agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos, todas e todos, compreender que o andamento do ano 2020 como conhec\u00edamos foi interrompido. E o que h\u00e1 de surgir deve ser \u00e0 partir da vontade do povo, da classe que vive do trabalho. E temos a consci\u00eancia e exemplos mais que evidentes de quem s\u00e3o os nossos inimigos. O corona \u00e9 um v\u00edrus, a pandemia \u00e9 o capitalismo racista e patriarcal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ultraliberais querem decidir quem vive ou morre. 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