{"id":10305,"date":"2019-12-16T16:36:00","date_gmt":"2019-12-16T19:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10305"},"modified":"2019-12-16T11:44:46","modified_gmt":"2019-12-16T14:44:46","slug":"no-brasil-63-das-casas-chefiadas-por-mulheres-negras-estao-abaixo-da-linha-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10305","title":{"rendered":"No Brasil, 63% das casas chefiadas por mulheres negras est\u00e3o abaixo da linha da pobreza"},"content":{"rendered":"\n<p>* <strong>Por Lola Ferreira, Maria Martha Bruno e Fl\u00e1via Bozza Martins<\/strong> \/ <a href=\"http:\/\/www.generonumero.media\/casas-mulheres-negras-pobreza\/\"><strong><em>G\u00eanero e N\u00famero<\/em><\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"382\" data-attachment-id=\"10306\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10306\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Foto-Lola-Ferreira-G%C3%AAnero-e-N%C3%BAmero.jpg?fit=816%2C487&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"816,487\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Foto-Lola-Ferreira-G\u00eanero-e-N\u00famero\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Foto-Lola-Ferreira-G%C3%AAnero-e-N%C3%BAmero.jpg?fit=300%2C179&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Foto-Lola-Ferreira-G%C3%AAnero-e-N%C3%BAmero.jpg?fit=640%2C382&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Foto-Lola-Ferreira-G%C3%AAnero-e-N%C3%BAmero.jpg?resize=640%2C382&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10306\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Foto-Lola-Ferreira-G%C3%AAnero-e-N%C3%BAmero.jpg?w=816&amp;ssl=1 816w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Foto-Lola-Ferreira-G%C3%AAnero-e-N%C3%BAmero.jpg?resize=300%2C179&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/Foto-Lola-Ferreira-G%C3%AAnero-e-N%C3%BAmero.jpg?resize=768%2C458&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption> Mulheres como Adriana e Paula sobrevivem com  menos de US$ 5,5 por dia e convivem com falta de saneamento e servi\u00e7os  b\u00e1sicos prec\u00e1rios | Foto: Lola Ferreira \/ G\u00eanero e N\u00famero <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><em>No comparativo entre cor\/ra\u00e7a,  S\u00edntese dos Indicadores Sociais, do IBGE, mostra que \u00edndice para  resid\u00eancias comandadas por mulheres brancas e com filhos \u00e9 de 39,6%<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>F\u00edgado ou ovo pro almo\u00e7o, quando \u00e9 poss\u00edvel comprar alguma prote\u00edna, casa enlama\u00e7ada no per\u00edodo de chuvas, falta de rem\u00e9dio no posto de sa\u00fade e  aproximadamente R$ 500 reais por m\u00eas para sustentar tr\u00eas filhos em dois  c\u00f4modos pequenos \u00e0s margens de um manguezal. Esta \u00e9 a realidade da casa  de Paula Roberta, 37, moradora de Guia de Pacoba\u00edba, bairro-distrito do  munic\u00edpio de Mag\u00e9, na Baixada Fluminense. De acordo com a \u00faltima <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101678.pdf\">S\u00edntese dos Indicadores Sociais<\/a>, ela est\u00e1 abaixo da linha da mis\u00e9ria, com US$ 1,90 <em>per capita<\/em> por dia. Em 2018,\u00a0segundo\u00a0o estudo, esse valor equivalia a aproximadamente R$ 145 mensais, por pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Abaixo da linha da pobreza, est\u00e3o 63% das casas comandadas por mulheres negras com filhos de at\u00e9 14 anos, com US$ 5,5 <em>per capita<\/em>\n ao dia, cerca de R$ 420 mensais. O \u00edndice representa mais que o dobro \nde pontos percentuais se comparado \u00e0 m\u00e9dia nacional, igualmente \nalarmante:&nbsp; 25% de toda a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 abaixo da linha da pobreza. \nPara mulheres brancas e com filhos, a propor\u00e7\u00e3o de casas abaixo da linha\n da pobreza \u00e9 de 39,6%.<br \/>\n<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/newsletter-23.png\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/newsletter-23.png?w=640\" alt=\"\" class=\"wp-image-13006\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>De acordo com o IBGE, h\u00e1 mais de 7,8 milh\u00f5es de pessoas vivendo em\n casas chefiadas por mulheres negras. No caso daquelas chefiadas por \nmulheres brancas, o n\u00famero absoluto \u00e9 de 3,6 milh\u00f5es. O arranjo com \nmenor propor\u00e7\u00e3o de pessoas abaixo da linha da pobreza \u00e9 o de casal sem \nfilhos: 9%.<\/p>\n\n\n\n<p>A conta do IBGE leva em considera\u00e7\u00e3o o\n Paridade de Poder de Compra, ou PPC, que \u00e9 \u201cutilizada para comparar o \npoder de compra entre diferentes pa\u00edses, ou moedas, e \u00e9 utilizada como \nalternativa \u00e0 taxa de c\u00e2mbio\u201d. Ou seja, com quantos reais, em compara\u00e7\u00e3o\n a d\u00f3lares, um cidad\u00e3o brasileiro pode comprar a mesma quantidade de \nbens e servi\u00e7os&nbsp;que um cidad\u00e3o americano ou indon\u00e9sio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em casas como a comandada por \nPaula Roberta n\u00e3o se consegue comprar muita coisa. A renda \u00e9 composta \npelas faxinas em \u201ccasas de fam\u00edlia\u201d, que ela conseguiu come\u00e7ar a fazer \nh\u00e1 tr\u00eas meses, e pelo Bolsa Fam\u00edlia, o programa de transfer\u00eancia de \nrenda implantado pelo governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) em 2003,\n a fim oferecer uma ajuda imediata a&nbsp;pessoas em situa\u00e7\u00e3o de extrema \npobreza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, de acordo com Paula, erros j\u00e1 \nfizeram seu benef\u00edcio ser bloqueado, quando o \u201csistema\u201d apontou que seu \nfilho n\u00e3o estava frequentando regularmente a escola. Enquanto buscava \ncomprovar que o menino ia \u00e0s aulas, ela relata que j\u00e1 passou fome: \u201cMas \u00e9\n sempre a mulher que segura as pontas, principalmente por causa dos \nfilhos. Vamos deixar nossos filhos passando necessidade?\u201d, analisa, de \nforma ret\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/WhatsApp-Image-2019-12-12-at-08.15.54.jpeg\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/WhatsApp-Image-2019-12-12-at-08.15.54.jpeg?w=640\" alt=\"\" class=\"wp-image-12975\"\/><\/a><figcaption>Paula\n vive em uma casa de dois c\u00f4modos em Guia de Pacoba\u00edba; renda da fam\u00edlia\n \u00e9 de R$ 500 ao m\u00eas | Foto: Lola Ferreira \/ G\u00eanero e N\u00famero<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Basicamente, o dinheiro de Paula \u00e9\n todo direcionado para a alimenta\u00e7\u00e3o. Com filhos de 16, 14 e oito anos, \nela se preocupa em comprar frutas e biscoitos. \u201cA gente sabendo \nadministrar, tudo d\u00e1 certo.\u201d Questionada se sobra alguma quantia para \ncomprar algo exclusivamente seu, ela diz que n\u00e3o, mas explica que recebe\n muita ajuda: \u201cA mo\u00e7a para quem eu fa\u00e7o faxina \u00e0s vezes me d\u00e1 um \npresente, manda alguma coisinha para as crian\u00e7as. Ela me ajuda \u00e0 be\u00e7a\u201d, \nrelata.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de conseguir essa nova fonte de\n renda, Paula ficou doente, exatamente por n\u00e3o conseguir atender todas \nas necessidades b\u00e1sicas de seus filhos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\nTudo falta \u00e0s mulheres negras. Ela \u00e9 um esteio que tem que dar conta de \ntudo: da fome, da falta de saneamento, da falta de sa\u00fade, de educa\u00e7\u00e3o \nadequada. Se tivesse escola&nbsp;e posto de sa\u00fade funcionando, uma legisla\u00e7\u00e3o\n trabalhista n\u00e3o discriminat\u00f3ria, ou seja, se elementos que n\u00e3o s\u00e3o de \ncompet\u00eancia dela estivessem organizados, ela n\u00e3o estaria na linha de \npobreza\n<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>\u2014 W\u00e2nia Santana, historiadora e vice-presidente do conselho do Ibase<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Restri\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os<\/h3>\n\n\n\n<p>Em Guia de Pacoba\u00edba, dezenas de fam\u00edlias sobrevivem sazonalmente da \nvenda dos caranguejos, esporadicamente de pequenos servi\u00e7os bra\u00e7ais (os \nfamosos \u201cbicos\u201d), e principalmente de benef\u00edcios do governo, como o \npr\u00f3prio Bolsa Fam\u00edlia. O local fica a cerca de 60km da capital.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo quintal em que est\u00e1 \nlocalizada a casa de dois c\u00f4modos de Paula, vive Adriana Pinheiro, de 36\n anos. Casada e m\u00e3e de dois filhos, de 17 e 9 anos, a \u00fanica renda da \nfam\u00edlia \u00e9 o sal\u00e1rio m\u00ednimo que o marido recebe como frentista, \ntrabalhando na capital fluminense. Arranjos como o da fam\u00edlia de Adriana\n e que vivem com menos de US$ 5,5 por dia, s\u00e3o 29,3% do total dos casais\n com filhos. A renda tamb\u00e9m tem que dar para a m\u00e3e, doente, e o \npadrasto, desempregado. Com tantos obst\u00e1culos, Adriana adoeceu.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatro anos, ela foi diagnosticada\n com depress\u00e3o, \u201cpor problemas do passado que voltaram\u201d, diz, sem dar \nmuitos detalhes. No posto de sa\u00fade, consegue fluoxetina, receitada pelo \npsiquiatra da mesma unidade de sa\u00fade. Quando recebeu a reportagem, a \ndoen\u00e7a estava controlada, mas j\u00e1 houve tempos tamb\u00e9m em que ela n\u00e3o \nconseguiu a medica\u00e7\u00e3o. E entrou em crise.<\/p>\n\n\n\n<p>A S\u00edntese dos Indicadores Sociais \ntamb\u00e9m analisa restri\u00e7\u00f5es a direitos b\u00e1sicos. A falta de saneamento \nb\u00e1sico, por exemplo, tamb\u00e9m \u00e9 mais patente em domic\u00edlios comandados por \nmulheres negras: 41,8% n\u00e3o tinham acesso a coleta de lixo, \u00e1gua encanada\n e rede tubular de esgoto. Nas casas de Paula e Adriana, a \u00e1gua que \n\u201ccai\u201d dos canos s\u00f3 d\u00e1 para encher os baldes para tomar banho e lavar \nroupa. Para beber ou cozinhar, as vizinhas t\u00eam que caminhar cerca de 1km\n at\u00e9 o po\u00e7o. Nunca adoeceram por conta da \u00e1gua \u2014\u201cGra\u00e7as a Deus\u201d, dizem \n\u2014, mas outras&nbsp;moradoras&nbsp;n\u00e3o tiveram a mesma sorte. <\/p>\n\n\n\n<p>As casas \u00e0s margens do manguezal \ntamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam esgoto. Todos os dejetos s\u00e3o levados por uma rede \nclandestina ao pr\u00f3prio mangue. As ruas, sem asfalto, s\u00e3o esburacadas e \nenlama\u00e7adas, o que impede a chegada de caminh\u00f5es de lixo, e terrenos \nbaldios viram lixeiras a c\u00e9u aberto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para W\u00e2nia Santanna, vice-presidente \ndo conselho curador da ONG Ibase (Instituto Brasileiro de An\u00e1lises \nSociais e Econ\u00f4micas), situa\u00e7\u00f5es como as das casas dessas mulheres n\u00e3o \npodem deixar de ser consideradas na an\u00e1lise de pobreza. Ela destaca que o\n problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a falta de renda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTudo falta \u00e0s mulheres negras. Ela \u00e9\n um esteio que tem que dar conta de tudo: da fome, da falta de \nsaneamento, da falta de sa\u00fade, de educa\u00e7\u00e3o adequada. Ent\u00e3o fica aquele \nsujeito, por acaso feminino e negro, no centro, como uma ilha rodeada de\n problemas. Se tivesse escola funcionando, posto de sa\u00fade funcionando, \numa legisla\u00e7\u00e3o trabalhista que n\u00e3o fosse discriminat\u00f3ria, ou seja, se \nelementos que n\u00e3o s\u00e3o de compet\u00eancia dela estivessem organizados, ela \nn\u00e3o estaria na linha de pobreza\u201d, analisa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\n\u00c9 sempre a mulher que segura as pontas, principalmente por causa dos filhos.\n<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>\u2014 Paula, 37, m\u00e3e de tr\u00eas filhos e com renda mensal total de cerca R$ 500<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/WhatsApp-Image-2019-12-11-at-15.27.24.jpeg\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/WhatsApp-Image-2019-12-11-at-15.27.24.jpeg?w=640\" alt=\"Em Guia de Pacoba\u00edba, falta o simples: coleta de lixo, rede de esgoto e \u00e1gua encanada | Foto: Maria Martha Bruno \/ G\u00eanero e N\u00famero \" class=\"wp-image-12965\"\/><\/a><figcaption>Em\n Guia de Pacoba\u00edba, falta o simples: coleta de lixo, rede de esgoto e \n\u00e1gua encanada | Foto: Maria Martha Bruno \/ G\u00eanero e N\u00famero<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na compara\u00e7\u00e3o com a&nbsp;popula\u00e7\u00e3o \nbranca, Santanna explica, o que ajuda a tir\u00e1-la dessa linha de extrema \npobreza \u00e9, exatamente, n\u00e3o ter discrimina\u00e7\u00f5es pr\u00e9-estabelecidas: \u201cOs \nproblemas para o branco pobre podem at\u00e9 ser muitos, mas por quest\u00f5es de \nrenda, classe ou poder, quando conseguem acessar educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade p\u00fablica\n ou privada, seguran\u00e7a, etc., saem de baixo da linha de pobreza para a \nlinha do bem-estar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de horizonte em rela\u00e7\u00e3o a um \nemprego fixo, formal ou ao menos com melhor remunera\u00e7\u00e3o j\u00e1 atingiu \nmulheres negras do entorno das casas de Paula e Adriana. Ambas, ali\u00e1s, \njamais tiveram carteira assinada, e quando questionadas pela reportagem \nqual seria o emprego dos sonhos, responderam \u201ctrabalhar em caixa de \nsupermercado\u201d e \u201cter minha pr\u00f3pria loja de roupas\u201d, respectivamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o emprego dos sonhos ou \nqualquer outro emprego n\u00e3o aparecem, ambas t\u00eam nos filhos e na f\u00e9 seu \nprincipal esteio. Membros da Assembleia de Deus, elas esperam uma \nprovid\u00eancia divina para melhorar sua qualidade de vida. \u201cPara Deus, nada\n \u00e9 imposs\u00edvel. Tenho f\u00e9 que Ele vai me ajudar\u201d, diz Adriana.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/WhatsApp-Image-2019-12-11-at-15.27.22-1.jpeg\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.generonumero.media\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/WhatsApp-Image-2019-12-11-at-15.27.22-1.jpeg?w=640\" alt=\"WhatsApp Image 2019-12-11 at 15.27.22 (1)\" class=\"wp-image-12969\"\/><\/a><figcaption>Adriana\n nunca trabalhou de carteira assinada; sal\u00e1rio m\u00ednimo do marido sustenta\n seis pessoas em Guia de Pacoba\u00edba | Foto: Maria Martha Bruno \/ G\u00eanero e\n N\u00famero<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pol\u00edticas direcionadas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>W\u00e2nia Santanna tamb\u00e9m analisa quais \nmudan\u00e7as podem ser feitas, em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas, para \nmelhorar a situa\u00e7\u00e3o dessas mulheres. De antem\u00e3o, ela refuta a ideia do \nsenso comum de que mulheres como Paula e Adriana t\u00eam mais filhos para \nreceber maiores benef\u00edcios de programas como Bolsa Fam\u00edlia: \u201cIsso \u00e9 uma \ncrueldade\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Bolsa Fam\u00edlia tem o benef\u00edcio \nb\u00e1sico, de R$ 89, concedido a fam\u00edlias em extrema pobreza e o benef\u00edcio \nvari\u00e1vel, de R$ 41 para cada crian\u00e7a, adolescente ou mulher em fase de \namamenta\u00e7\u00e3o dado a fam\u00edlias em extrema pobreza. Mas h\u00e1 um limite: s\u00e3o, \nno m\u00e1ximo, cinco benef\u00edcios vari\u00e1veis por domic\u00edlio. H\u00e1 tamb\u00e9m o \nbenef\u00edcio vari\u00e1vel para fam\u00edlias que tenham jovens de 16 e 17 anos, que \u00e9\n de R$ 48, com um teto de dois benef\u00edcios por resid\u00eancia, nestes casos. \nH\u00e1 ainda outro benef\u00edcio, com valor n\u00e3o tabelado, calculado a partir da \nrenda familiar e de outros benef\u00edcios j\u00e1 recebidos. Em resumo: ningu\u00e9m \nfica rico \u00e0s custas do Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Santanna, h\u00e1 necessidade de \nmelhores programas complementares ao Bolsa Fam\u00edlia nos munic\u00edpios, al\u00e9m \nde equidade na distribui\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA realidade da pobreza n\u00e3o se \naltera, porque essa parcela da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o recebe o que tem direito \u2014 \nisso lhe \u00e9 subtra\u00eddo. Por exemplo, o mesmo asfalto que est\u00e1 na orla de \nIpanema deveria estar em Duque de Caxias. N\u00e3o h\u00e1 motivo para isso n\u00e3o \nser assim, a n\u00e3o ser a distribui\u00e7\u00e3o do poder, o ac\u00famulo de poder \npol\u00edtico e de classe. Todo mundo sabe que uma avenida tem de estar \nasfaltada, mas na Baixada Fluminense \u00e9 como se fosse normal n\u00e3o estar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Andr\u00e9 Sim\u00f5es, gerente da \npesquisa da S\u00edntese dos Indicadores Sociais, do IBGE, os dados \ndesagregados por g\u00eanero e ra\u00e7a exp\u00f5em ainda mais a vulnerabilidade de \ngrupos como o de mulheres negras, e a inten\u00e7\u00e3o ao sistematiz\u00e1-los \u00e9 \nfazer com que outros pesquisadores se debrucem sobre o tema e aprofundem\n o estudo das desigualdades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAinda que nos \u00faltimos anos tenha \nhavido um avan\u00e7o, uma inclus\u00e3o maior, principalmente na quest\u00e3o de \neduca\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma desigualdade grande. E a popula\u00e7\u00e3o de cor preta ou \nparda \u00e9 mais vulner\u00e1vel quando comparamos todos os temas\u201d, analisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para W\u00e2nia Santanna, esses dados s\u00e3o \nfundamentais para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas. De acordo\n com a historiadora, \u00e9 preciso questionar \u201cn\u00e3o somente a desigualdade \n\u00e9tnico-racial mas a profunda assimetria, a dist\u00e2ncia que nos separa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o de \nrenda, para as mulheres negras, n\u00e3o foram suficiente para tir\u00e1-las do \npatamar em que elas se encontravam quando&nbsp;os programas de redu\u00e7\u00e3o da \npobreza come\u00e7aram mais fortemente, em 2003. Elas podiam estar mais \nmiser\u00e1veis? Infelizmente sim, mas o fato \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 uma progress\u00e3o \njusta e necess\u00e1ria. As mulheres negras se mant\u00eam proporcionalmente sendo\n aquele grupo mais prejudicado social e economicamente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>*Lola Ferreira \u00e9 rep\u00f3rter, Maria Martha Bruno \u00e9 editora e Fl\u00e1via Bozza Martins \u00e9 analista de dados da&nbsp;<strong>G\u00eanero e N\u00famero<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No comparativo entre cor\/ra\u00e7a, S\u00edntese dos Indicadores Sociais, do IBGE, mostra que \u00edndice para resid\u00eancias comandadas por mulheres brancas e com filhos \u00e9 de 39,6%. 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