{"id":10298,"date":"2019-12-17T15:56:00","date_gmt":"2019-12-17T18:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10298"},"modified":"2019-12-16T11:45:39","modified_gmt":"2019-12-16T14:45:39","slug":"bolivia-nomear-o-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10298","title":{"rendered":"BOL\u00cdVIA: Nomear o golpe"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"358\" data-attachment-id=\"10299\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10299\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia.jpg?fit=973%2C545&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"973,545\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"golpe-bolivia\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia.jpg?fit=300%2C168&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia.jpg?fit=640%2C358&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia.jpg?resize=640%2C358&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10299\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia.jpg?w=973&amp;ssl=1 973w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia.jpg?resize=300%2C168&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia.jpg?resize=768%2C430&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Por Clyde Soto, na <a href=\"https:\/\/www.revistabravas.org\/nombrar-al-golpe\">Revista Bravas<\/a> | Tradu\u00e7\u00e3o: Larissa Brainer<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nomear\no que existe, ou n\u00e3o nome\u00e1-lo, s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es altamente\npol\u00edticas. \u00c9 parte da constru\u00e7\u00e3o de uma identidade que marcar\u00e1\num modo de existir no mundo, uma mem\u00f3ria (ou um esquecimento) e, em\nalguns casos, uma forma de entrar na Hist\u00f3ria. O debate sobre se o\nque aconteceu \u2013 e segue acontecendo \u2013 na Bol\u00edvia em 10 de\nnovembro de 2019 foi um golpe de Estado ou n\u00e3o e que qualidades\npodemos dar-lhe (policial, c\u00edvico, militar), \u00e9 parte deste jogo de\npoderes que se desdobra da pol\u00edtica e toma formas de alt\u00edssima\npolariza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Esta polariza\u00e7\u00e3o extrema \u00e9 al\u00e9m\ndisso uma tend\u00eancia regional instalada com maior for\u00e7a pelo menos\ndesde a segunda d\u00e9cada deste s\u00e9culo, que est\u00e1 de m\u00e3os dadas com\num avan\u00e7o fundamentalista a qual todos os nossos pa\u00edses (sem\nimportar tend\u00eancia ou governo) abriram as portas, com maior ou menor\ncomplac\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A\navalia\u00e7\u00e3o d\u00edspar sobre o que est\u00e1 acontecendo na Bol\u00edvia\ndificulta o encontro de vis\u00f5es comuns em rela\u00e7\u00e3o a como analisar e\ncomo posicionar-se diante dos feitos. As consequ\u00eancias s\u00e3o mais\ngraves para os setores que alguma vez encontraram coincid\u00eancias na\nluta democr\u00e1tica e amplificadora de direitos, pois surgem fraturas\nque facilitam a ascens\u00e3o conservadora e antidireitos. Ao escrever\nessas linhas, coloco um olhar sem inten\u00e7\u00e3o de encerrar o debate,\nmas de aliment\u00e1-lo, com palavras que sabemos serem situadas e\npr\u00f3prias, que jamais podem nem intencionam desabilitar outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Na\nBol\u00edvia houve um golpe de Estado que terminou com um mandato do\ngoverno vigente. Quando as for\u00e7as estatais que possuem armas\ninterv\u00e9m em um desfecho\npol\u00edtico\ncomo o sucedido na Bol\u00edvia, ainda que digam \u201csugest\u00e3o\u201d, \u00e9 um\ngolpe. Ainda que haja ren\u00fancia,\n\u00e9\ngolpe.\nNo Paraguai, um golpe militar derrocou Stroessner \u2013 ditador e\nmilitar \u2013 em 1989, conseguindo que assinasse sua ren\u00fancia. Esta\nren\u00fancia n\u00e3o fez do golpe menos golpe. Acontece em outros casos das\nfor\u00e7as armadas n\u00e3o tomarem o poder, por\u00e9m este \u00e9 outro assunto:\nh\u00e1 muitos governos civis surgidos de levantes militares e\nalimentados por manifesta\u00e7\u00f5es c\u00edvicas.<\/p>\n\n\n\n<p>No\ncaso da Bol\u00edvia, podemos acrescentar que houve mobiliza\u00e7\u00f5es\nimportantes de um setor cidad\u00e3o,\nrecordar\no referendo cujos resultados foram desconhecidos para for\u00e7ar uma\nnova candidatura de Evo Morales, mencionar\nas suspeitas de fraude eleitoral (muito embora, na realidade,\nsuspeito\ndo papel e do comunicado\napressado\nde Almagro, que nem sequer trouxe um informe definitivo), enumerar\nos questionamentos ao governo derrubado, ao seu estilo de lideran\u00e7a\nou machismo, a seu extrativismo, a sua posi\u00e7\u00e3o como esquerda ou\ndireita: por\u00e9m, tudo isto se pode dizer sem ocultar ou negar a\nqualidade golpista do que lhe aconteceu, nem a gravidade dos feitos\nque o cercaram. Em especial,\nrefiro-me a toda a simbologia do poder religioso e militar com a\nqual se\ninstala o governo de fato (tamb\u00e9m aqui h\u00e1 quem os chame de\nconstitucional ou simplesmente interino), \u00e0s express\u00f5es racistas\nanti-ind\u00edgenas (vimos ao vivo a queima da Wiphala), \u00e0s repress\u00f5es\nviolentas que deixou mais de 30 mortos nas duas semanas posteriores\nao golpe (h\u00e1 quem justifique as mortes dizendo que eram \u201cv\u00e2ndalos\u201d\ne n\u00e3o manifestantes em leg\u00edtima resist\u00eancia ou protesto), e \u00e0\nimplanta\u00e7\u00e3o do poder autorit\u00e1rio de quem se apossou como governo,\namea\u00e7ando processos judiciais e a precipita\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a\nduvidosa contra refer\u00eancias do governo anterior, acusando de\ninsubordina\u00e7\u00e3o at\u00e9 jornalistas que tentavam cobrir os fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na\nBol\u00edvia n\u00e3o houve apenas um golpe, para al\u00e9m disso, est\u00e1 em\nquest\u00e3o at\u00e9 onde este golpe habilitar\u00e1 um novo tempo que pode ser\nchamado democr\u00e1tico. E algo importante: um golpe n\u00e3o \u00e9 um ato\npr\u00f3prio da democracia, ainda que possa, eventualmente e em alguns\nsentidos, derivar em aberturas democratizadoras. Retomo o Paraguai\ncomo exemplo desta afirma\u00e7\u00e3o: o golpe militar que derrubou o\nditador em 1989 produziu uma abertura imediata no que refere \u00e0s\nliberdades democr\u00e1ticas. Tenho cada vez mais d\u00favidas sobre se \u2013 e\nat\u00e9 onde \u2013 temos conseguido ou n\u00e3o construir democracia, e creio\nque estamos em franco retrocesso democr\u00e1tico, sobretudo desde o\ngolpe mais recente, de 2012. No atual caso da Bol\u00edvia, minha opini\u00e3o\n\u00e9 que este golpe n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o foi um ato democr\u00e1tico, como tamb\u00e9m\nfoi sucedido por atos fortemente antidemocr\u00e1ticos e n\u00e3o sabemos\nainda o que acontecer\u00e1 ao pa\u00eds nos termos do futuro da democracia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"195\" data-attachment-id=\"10300\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10300\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-1.jpg?fit=973%2C296&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"973,296\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"golpe-bolivia-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-1.jpg?fit=300%2C91&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-1.jpg?fit=640%2C195&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-1.jpg?resize=640%2C195&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-1.jpg?w=973&amp;ssl=1 973w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-1.jpg?resize=300%2C91&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-1.jpg?resize=768%2C234&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Chamar\nde golpe o que ocorreu na Bol\u00edvia \u00e9 uma forma de resistir \u00e0\nnormaliza\u00e7\u00e3o e a \u201csantifica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d de um tipo de\nopera\u00e7\u00f5es que j\u00e1 se tornou comum na Am\u00e9rica Latina e no Caribe no\ns\u00e9culo XXI. Haiti em 2004, Honduras em 2009, Paraguai em 2012,\nBrasil em 2016, Bol\u00edvia em 2019. E houve outros falidos, por\u00e9m n\u00e3o\nmenos existentes. \u00c9 um surto de golpes g\u00eameos entre si, como\nrestaura\u00e7\u00e3o violenta de uma ordem neoliberal a\u00ed onde os interesses\nforam percebidos sob amea\u00e7a. \n<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"197\" data-attachment-id=\"10301\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10301\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-2.jpg?fit=972%2C299&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"972,299\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"golpe-bolivia-2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-2.jpg?fit=300%2C92&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-2.jpg?fit=640%2C197&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-2.jpg?resize=640%2C197&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10301\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-2.jpg?w=972&amp;ssl=1 972w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-2.jpg?resize=300%2C92&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-2.jpg?resize=768%2C236&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Alguns\nforam mais expl\u00edcitos, enquanto outros tentaram encobrir as formas\ndo chamado procedimento democr\u00e1tico, ou ainda justific\u00e1-los com um\nsentido supostamente democratizador. Trata-se de uma volta de ciclo\nque se n\u00e3o pode avan\u00e7ar por via eleitoral, atua por m\u00e9todos\nantidemocr\u00e1ticos. Para os interesses dominantes (capitalistas,\nneoliberais, imperialistas, os nomes que queiram), a democracia \u00e9\napenas uma fachada que \u00e0s vezes serve, e quando n\u00e3o, apela-se a\noutros modos, incluindo os golpes. Tudo isto \u00e9 parte de uma enorme\nopera\u00e7\u00e3o continental a qual \u00e9 preciso nomear. Muito tempo depois\ndas ditaduras estragarem nossa regi\u00e3o no s\u00e9culo XX, e j\u00e1 com\nprocessos de abertura democr\u00e1tica, pudemos saber que que se tratava\nde um t\u00e9trico e tr\u00e1gico plano com nome pr\u00f3prio: a Opera\u00e7\u00e3o\nCondor.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nque temos na regi\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os tradicionais golpes militares,\ne trazem consigo tamb\u00e9m um discurso de aparente democracia. Recordo\ncomo logo ap\u00f3s o golpe parlamentar de 2012 no Paraguai, ao qual\ncham\u00e1vamos de \u201cgolpe\u201d para nomear essa opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\naberrante\nde julgamento pol\u00edtico eclodido e conclu\u00eddo em uma semana \u2013 sem o\nprocesso devido, sem garantias de nenhum tipo \u2013 uma avalanche de\ninforma\u00e7\u00e3o nos meios dominantes nos silenciava, insistindo que era\num procedimento normal do sistema democr\u00e1tico em um Estado de\nDireito. E o sil\u00eancio tamb\u00e9m abonava uma quantidade de pa\u00edses que\nqueriam uma\nr\u00e1pida \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\ndemocr\u00e1tica\u201d, e iam reconhecendo a validez do governo surgido\ndesse golpe, que apenas estava disfar\u00e7ado de julgamento e\ndestitui\u00e7\u00e3o. Foi um golpe paradigm\u00e1tico, cujo modelo se\naperfei\u00e7oou no Brasil em 2016. E n\u00e3o foi \u201cbrando\u201d porque para\ncomet\u00ea-lo houve antes um massacre sangrento, de Curuguaty. Tamb\u00e9m\npassou muito tempo para que fosse nomeado como o que foi: um massacre\nperpetrado pelo Estado, utilizado como justificativa do golpe, e n\u00e3o\num enfrentamento adequado propiciado pelos campesinos. E at\u00e9 agora,\nn\u00e3o h\u00e1 normaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica sen\u00e3o uma domestica\u00e7\u00e3o da\ndemocracia para os interesses mais autorit\u00e1rios, mais corruptos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"356\" data-attachment-id=\"10302\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10302\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-3.jpg?fit=793%2C441&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"793,441\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"golpe-bolivia-3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-3.jpg?fit=300%2C167&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-3.jpg?fit=640%2C356&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-3.jpg?resize=640%2C356&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-10302\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-3.jpg?w=793&amp;ssl=1 793w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-3.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/golpe-bolivia-3.jpg?resize=768%2C427&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Nomear\nestes golpes \u00e9 um pol\u00edtica contra o sil\u00eancio e a submiss\u00e3o a isso\nque est\u00e1 ocorrendo na regi\u00e3o, e que hoje acontece na Bol\u00edvia de\nmaneira traum\u00e1tica. Negar ou silenciar os golpes \u00e9 parte de uma\nopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica: de naturaliza\u00e7\u00e3o, de aceita\u00e7\u00e3o,\nde resigna\u00e7\u00e3o, de nega\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nome\u00e1-los encobre a gravidade\ndos fatos. \u00c9 um tipo de sil\u00eancio que n\u00e3o representa \u201cpontos\nm\u00e9dios\u201d, mas sobretudo vis\u00f5es diferentes, e talvez enfrentadas,\nsobre o que \u00e9 ou n\u00e3o admiss\u00edvel nos processos democr\u00e1ticos.\nNomear um golpe, com todas as letras, n\u00e3o representa necessariamente\numa \u201cdesculpa\u201d ou \u201cfalta de senso cr\u00edtico\u201d diante das\natua\u00e7\u00f5es do governo deposto, nem uma nega\u00e7\u00e3o das oposi\u00e7\u00f5es\nleg\u00edtimas que podem ter gerado, nem uma pretens\u00e3o de estabelecer em\nque momento devem ser ditas as cr\u00edticas que se t\u00eam. Tampouco\ndeve-se \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do binarismo conceitual ou pol\u00edtico diante\nde outros racioc\u00ednios que s\u00e3o supostamente complexos, nem \u00e9 uma\nmostra de pensamento \u00fanico. Em contrapartida, n\u00e3o nome\u00e1-lo envolve\num s\u00e9rio perigo, porque oculta ou minimiza a gravidade da opera\u00e7\u00e3o\nantidemocr\u00e1tica que amea\u00e7a nossa regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para\nal\u00e9m de nossas posi\u00e7\u00f5es e cr\u00edticas frente ao governos que caem\nmediante estes mecanismos, n\u00e3o dever\u00edamos admitir rupturas\ninstitucionais t\u00e3o graves sem dar-lhes o nome que merecem, e menos\nse elas s\u00e3o sucedidas por den\u00fancias t\u00e3o s\u00e9rias de viol\u00eancia e\nviola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, de express\u00f5es fundamentalistas e\nantidireitos, de racismo, como ocorreu logo depois do sucedido\ndomingo 10 de novembro na Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas\nfeministas latinoamericanas temos lutado e trabalhado pela democracia\nem nossos pa\u00edses, porque pensamos que se trata do melhor sistema\nonde podemos avan\u00e7ar nos direitos para mulheres e direitos humanos.\nCom todas as nossas diferen\u00e7as, essas lutas uniu a muitas de n\u00f3s, e\nseguimos nelas. Temos aprofundado a ideia e a possibilidade\ndemocr\u00e1tica, incorporando-lhes o pensamento e as a\u00e7\u00f5es feministas.\nTemos avan\u00e7ado na compreens\u00e3o e na\npolitiza\u00e7\u00e3o de\ncomo as diferen\u00e7as de classe, raciais, \u00e9tnicas, identit\u00e1rias e\nsexuais n\u00e3o eram dados menores ou acess\u00f3rios, mas que estavam no\ncentro da democracia que aspiramos construir. O desafio \u00e9\nnos re-apropriarmos\ndeste debate e nos posicionarmos nele, identificando os pensamentos e\nespa\u00e7os a partir de onde podemos seguir atuando para impedir que\nnossos pa\u00edses e nossa regi\u00e3o retornem, com novas roupagens, a\ntempos autorit\u00e1rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nomear o que existe, ou n\u00e3o nome\u00e1-lo, s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es altamente pol\u00edticas. \u00c9 parte da constru\u00e7\u00e3o de uma identidade que marcar\u00e1 um modo de existir no mundo, uma mem\u00f3ria (ou um esquecimento) e, em alguns casos, uma forma de entrar na Hist\u00f3ria. Por Clyde Soto. <\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":10299,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Nomear o que existe, ou n\u00e3o nome\u00e1-lo, s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es altamente pol\u00edticas. \u00c9 parte da constru\u00e7\u00e3o de uma identidade que marcar\u00e1 um modo de existir no mundo, uma mem\u00f3ria (ou um esquecimento) e, em alguns casos, uma forma de entrar na Hist\u00f3ria. Por Clyde Soto. 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