{"id":10216,"date":"2019-12-05T09:22:00","date_gmt":"2019-12-05T12:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10216"},"modified":"2019-12-03T17:39:27","modified_gmt":"2019-12-03T20:39:27","slug":"no-centro-da-revolta-global-o-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?p=10216","title":{"rendered":"No centro da revolta global, o feminismo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em> Por <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/veronicagago1\/\">Veronica Gago<\/a>, no <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/no-centro-da-revolta-global-o-feminismo\/\">Outras Palavras<\/a>. <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"608\" data-attachment-id=\"10217\" data-permalink=\"https:\/\/antigo.soscorpo.org\/?attachment_id=10217\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?fit=1080%2C608&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1080,608\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;2.5&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;Canon EOS 5D Mark II&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1571502303&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;35&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;100&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.001&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"191128-Mulheres2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?fit=300%2C169&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?fit=580%2C326\" alt=\"\" class=\"wp-image-10217\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/antigo.soscorpo.org\/wp-content\/uploads\/191128-Mulheres2.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Veronica Gago<\/strong>, entrevistada por <strong>Roxana Sand\u00e1 <\/strong>| Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins <\/strong>| Ilustra\u00e7\u00e3o:<strong> Stephanie Pollo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Uma raiva de s\u00e9culos envolve a Am\u00e9rica Latina e ressoa com\namargura. O movimento de mulheres, l\u00e9sbicas, trans e travestis\nlevanta-se contra a ca\u00e7a feroz desencadeada ap\u00f3s o golpe de Estado\nna Bol\u00edvia e faz frente ao aparato repressivo no Chile. S\u00e3o\nmilhares de corpos acendendo fogos de rebeli\u00e3o para desafiar as\nfobias racistas e de classe, as fobias colonialistas e dominantes que\ncospem sobre quem luta por uma alternativa de poder feminista,\nantipatriarcal, antiextrativista e descolonizante. Os jovens\nenfrentam o maquinismo neoliberal para que n\u00e3o continue empobrecendo\nsuas fam\u00edlias. Enquanto se escreve este texto, a resist\u00eancia j\u00e1\ndura semanas. \u201cA Hist\u00f3ria \u00e9 nossa e o futuro tamb\u00e9m\u201d, declaram\ngraffitis pintados na urg\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por um momento, os olhos da cientista pol\u00edtica, professora e\nmilitante feminista <strong>Ver\u00f3nica Gago<\/strong> se umedecem. Pensa nos rios\nde sangue que est\u00e3o correndo, ms tamb\u00e9m na sequ\u00eancia de lutas que\nest\u00e3o rompendo os limites de um poder de morte. O livro que ela\nacaba de apresentar, \u201cLa potencia feminista \u2013 El deseo de\ncambiarlo todo\u201d [\u201cA pot\u00eancia feminista \u2013 O desejo de mudar\ntudo (Edi\u00e7\u00f5es Tinta Lim\u00f3n, Buenos Aires)] \u00e9 uma caixa de\nferramentas para ser usada contra a ofensiva neoliberal e\nconservadora, mas tamb\u00e9m uma investiga\u00e7\u00e3o tramada ao calor das\nassembleias, das mobiliza\u00e7\u00f5es, das greves internacionais do 8 de\nmar\u00e7o, que conecta as viol\u00eancia econ\u00f4micas, financeiras,\npol\u00edticas, institucionais, coloniais e sociais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um feminic\u00eddio a cada 29 horas na Argentina [Um a cada 8\nhoras, no Brasil] obriga a sair do binarismo v\u00edtima-algoz e a\natravessar os conflitos enfiando transversalidade na \u201ctremor\nsimult\u00e2neo das camas, casas e territ\u00f3rios\u201d de que fala a\ninvestigadora, sem deixar nada de fora porque as lutas feministas\natravessam tudo. Uma advert\u00eancia: nestas p\u00e1ginas, ler a consigna\n\u201cNiUnaMenos\u201d [\u201cNemUmaAMenos\u201d] implica reconceitualizar as\nviol\u00eancias machistas e politiz\u00e1-las, para reconhecer seu horror e\ndesarm\u00e1-lo, a ponto de converter em migalhas a ret\u00f3rica da\nvitimiza\u00e7\u00e3o. Mas quando nos assaltem as letrras de\n\u201cNosMueveElDeseo\u201d [\u201cNosMoveODesejo\u201d], esta aventura em chave\nplurinacional, estaremos diante da capacidade experimental,\ndesejante, massiva e radical com que se constr\u00f3i uma proposta\nrevolucion\u00e1ria: o desejo de mudar tudo. Eis a entrevista:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A que se refere <\/strong><em><strong>A pot\u00eancia feminista?<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma maneira de denominar a for\u00e7a do processo que os feminismos\nprotagonizaram nos \u00faltimos anos e de dar conta de tudo o que\nabriram, puseram em debate e alvora\u00e7aram: nas rela\u00e7\u00f5es sociais,\nnas formas de fazer alian\u00e7as pol\u00edticas, nas din\u00e2micas de rua, nas\nmaneiras de dar conta do sofrimento e no modo de criar lutas\ntransversais. <em>Pot\u00eancia feminista <\/em>quer\ndizer que experimentamos uma for\u00e7a concreta que desloca e modifica\nos limites do que acreditamos que podemos e somos capazes de fazer,\nde transformar e de desejar. E esta pot\u00eancia tem muito a ver com\noutra das caracteriza\u00e7\u00f5es em que mais insisto no livro: a conjun\u00e7\u00e3o\nque os feminismos conseguiram entre massividade e radicalidade. Ela\nmarca uma novidade hist\u00f3rica. Claro\nque sempre houve grupos, din\u00e2micas, debates feministas variados,\nfundamentais, radicais. Mas o fato de tudo\nisso tomar uma\nescala de massas e transnacional, como ocorreu nos \u00faltimos tempos,\nrevirou a cena. Esta expansividade do feminismo no interior de\norganiza\u00e7\u00f5es, espa\u00e7os e territ\u00f3rios existenciais dos mais\ndiversos faz com que o movimento \u2013 que\n\u00e9 intergeracional e\npluralista \u2013 consiga fazer interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas conjunturais\nmuito fortes, ao mesmo tempo em que altera as vidas quotidianas.\n<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/191129-ste2-1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3020532\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A simultaneidade do tremor nas\ncamas, ruas, casas, territ\u00f3rios, lugares de trabalho (eles\npr\u00f3prios redefinidos pelo\nfeminismo) introduz uma\ntransversalidade\nmaterialista, que n\u00e3o deixa nada de fora, nada sem tocar. E uma\nquest\u00e3o que abra\u00e7a todos estes planos \u00e9 como se reconceitua, de\nmaneira pr\u00e1tica, desde as inst\u00e2ncias coletivas, as viol\u00eancias\ndom\u00e9sticas (incluindo as financeiras), institucionais,\nracistas, laborais. Isso permite um diagn\u00f3stico feminista do aumento\nde viol\u00eancias, um mapeamento e uma caracteriza\u00e7\u00e3o precisa das\nconflitividades sociais do presente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E permite conectar os diferentes conflitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pot\u00eancia feminista \u00e9 uma capacidade de conectar lutas bem  distintas, a partir de uma preocupa\u00e7\u00e3o comum. O que est\u00e1 sendo  expropriado da riqueza coletiva, de maneira que nos empobrece a vida,  nos rouba tempo e explora determinados corpos e territ\u00f3rios de maneira  brutal? Nesta chave, come\u00e7am a ser tecidos os conflitos, as  reivindica\u00e7\u00f5es e as lutas propostas por coletivos ind\u00edgenas,  trabalhadoras precarizadas, estudantes, trabalhadoras da terra,  travestis e trans, aposentadas. E esta, insisto, \u00e9 a materialidade  concreta da transversalidade feminista que se conquistou. Por \u00faltimo,  diria que a no\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia \u00e9 uma discuss\u00e3o em termos de teoria  pol\u00edtica: desde certa leitura de Espinosa, pode-se dizer que a pot\u00eancia \u00e9  uma capacidade de fazer, de instituir, de afetar e de criar que se  diferencia do poder \u2013 este, um grau m\u00ednimo de pot\u00eancia. Creio que isso \u00e9  importante para discutir a infantiliza\u00e7\u00e3o que muitas vezes se tenta  fazer do feminismo, como pr\u00e1tica ing\u00eanua ou microsc\u00f3pica na  transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que voc\u00ea prop\u00f5e a greve feminista como uma esp\u00e9cie de\nlente para conceitualizar e politizar as viol\u00eancias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A greve funciona como uma esp\u00e9cie de umbral, de pr\u00e1tica de\ndeslocamento diante da viol\u00eancia feminicida. Gera um lugar de\nenuncia\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aceita apenas a subjetividade das v\u00edtimas \u2013\na predileta da m\u00eddia e de certas institui\u00e7\u00f5es. Em vez disso,\nprop\u00f5e uma subjetividade que se constitui na luta, no encontro com\noutres. E a greve expressa um gesto de bloqueio diante do estado de\ncoisas. O chamado \u00e0 greve permitiu questionar o que chamamos de\ntrabalho; qual \u00e9 o valor que produzimos; de que maneira as\nviol\u00eancias machistas relacionam-se com a precariza\u00e7\u00e3o\ngeneralizada. Mas al\u00e9m disso, a greve como processo pol\u00edtico que\ncome\u00e7a em 2016, e que segue com a emerg\u00eancia internacional da greve\ndo 8 de Mar\u00e7o nestes \u00faltimos anos, tem como protagonistas aquelas\nque realizam os trabalhos historicamente desvalorizados \u2013 ou as que\nforam marginalizadas, por muito tempo, nos sindicatos. Assim, a greve\n\u00e9 impulsionada a partir das trabalhadoras sindicalizadas e das\ntrabalhadoras da economia popular, a partir das professoras <em>ad\nhonoren <\/em>e das estudantes, das\njornalistas <em>free lancers <\/em>e\ndas trabalhadoras estatais precarizadas, das agricultoras e das\ntrabalhadoras migrantes,\na partir das que fazem trabalho em suas casas e das desocupadas. Ela\ndesencadeia em termos pr\u00e1ticos uma perspectiva feminista que permite\nler as formas de trabalho atuais, enxergar todos os trabalhos, que em\nsua maioria compartilham a condi\u00e7\u00e3o de precariedade e de\nsuperexplora\u00e7\u00e3o. Ou seja, a perspectiva feminista n\u00e3o apenas\nilumina, visibiliza e valoriza o trabalho das mulheres e dos corpos\nfeminizados, mas permite ler,\na partir da\u00ed, a condi\u00e7\u00e3o de precariza\u00e7\u00e3o geral, a fragiliza\u00e7\u00e3o\ndas rela\u00e7\u00f5es e a necessidade de uma for\u00e7a coletiva para fazer\nfrente a tal n\u00edvel de saque da vida.\n<\/p>\n\n\n\n<p>A greve feminista desacata o reconhecimento restrito que a greve\ntradicional faz a respeito de quem s\u00e3o trabalhadorxs. Lan\u00e7a uma\nbela consigna: #TrabalhadorasSomosTodas. Ao mesmo tempo, evidencia\nque hoje o pr\u00f3prio chamado trabalho formal torna-se cada vez mais\nintermitente, mais dif\u00edcil. Mesmo para quem tem o \u201cprivil\u00e9gio\u201d\ndo sal\u00e1rio, esta renda j\u00e1 quase n\u00e3o garante a reprodu\u00e7\u00e3o da\nvida. Muito foi escrito e pensado sobre o que significa a divis\u00e3o\nsexual do trabalho, deste matrim\u00f4nio indissoci\u00e1vel entre\npatriarcado, colonialismo e capitalismo. Mas a novidade \u00e9 que a\ngreve feminista atualiza estes debate em termos pr\u00e1ticos, em uma\nperspectiva que abre espa\u00e7o de insubordina\u00e7\u00e3o diante do mandato da\n\u201causteridade\u201d, d\u00edvida e precariedade.\n<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O feminic\u00eddio de Lucia P\u00e9rez em 2016, durante o Encontro\nNacional de Mulheres de Rosario, foi luto coletivo e impulso vita da\nprimeira Greve Internacional Feminista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Produziu-se, ent\u00e3o, uma racionalidade de assembleia. E desta\nassembleia saiu a ideia-for\u00e7a da Primeira Greve de Mulheres [<em>Primero\nParo de Mujeres<\/em>], como foi\nchamado. O que sustento no livro \u00e9 que as assembleias produzem um\nmodo de intelig\u00eancia coletiva em tr\u00eas atos: a imagina\u00e7\u00e3o de uma\na\u00e7\u00e3o comum surgida a\u00ed mesmo, <em>in situ; <\/em>a\navalia\u00e7\u00e3o da for\u00e7a que se tem e, finalmente, a capacidade pr\u00e1tica\nde realizar uma decis\u00e3o coletiva. A assembleia \u00e9 uma m\u00e1quina de\ndecis\u00e3o pol\u00edtica que instala outra for\u00e7a soberana, que surge ao\nproduzir condi\u00e7\u00f5es\nde escuta, cada vez mais escassas em tempos de hipermediatiza\u00e7\u00e3o. O\nchamado a deixar as redes, a nos encontrarmos corpo a corpo, sempre \u00e9\num chamado ao <em>trabalhoso <\/em>ato\nde nos encontrarmos, e a sustentar os desencontros que a\u00ed se\nproduzem, como parte de uma pr\u00e1tica de elabora\u00e7\u00e3o coletiva. \u00c9 um\nexerc\u00edcio hist\u00f3rico do feminismo que, nos \u00faltimos anos, vimos\nmultiplicado e massificado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A partir das assembleias e das greves, e desde os territ\u00f3rios,\no feminismo come\u00e7ou a tecer um novo processo transnacional e\nplurinacional que n\u00e3o pode ser detido.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O processo de transnacionaliza\u00e7\u00e3o ou internacionalismo feminista\n\u00e9 das coisas mais interessantes, porque esta pr\u00e1tica est\u00e1 sendo\nreinventada a partir do movimento feminista. Tem a ver com a\ncapacidade de resson\u00e2ncia que as lutas v\u00e3o adquirindo, a maneira\ncomo se traduzem e materializam os sentidos de uma consigna, de uma\nbandeira, de um len\u00e7o, uma imagem. Quando houve o debate pelo aborto\nlegal, seguro e gratuito, ou a greve feminista, n\u00e3o ocorreu apenas o\nesquema cl\u00e1ssico de solidadriedade de umas lutas contra as outras.\nAo contr\u00e1rio, o transnacionalismo expressa-se como uma for\u00e7a\nconcreta em cada luta, e um horizonte comum que n\u00e3o aplana as\ndiferen\u00e7as nem as coloca debaixo do tapete, para encaixar tudo num\nmesmo esquema.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta experi\u00eancia de n\u00e3o estarmos s\u00f3s, que sintetiza consignas\ncomo \u201cTocam em uma, tocam em todas!\u201d expressa uma repercuss\u00e3o,\numa conex\u00e3o e uma transversalidade que produz um corpo coletivo,\nalargado, e que permite coordenar iniciativas muito amplas, ao ponto\nde produzir o efeito oce\u00e2nico de mar\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desde o \u201cNiUnaMenos\u201d, formula-se uma frase avan\u00e7ada, quase\nsenha de transforma\u00e7\u00e3o, que \u00e9 No Move o Desejo. Que a consigna\nexpressa politicamente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma consigna que me encanta. Vejo nela muitos desdobramentos e\na tomei como guia no livro. Por um lado, significa para mim que o\ndesejo tem pot\u00eancia cognitiva. Quer dizer que produz conhecimento,\npercep\u00e7\u00e3o, sensibilidade. Dar este status ao desejo implica assumir\nsua capacidade pol\u00edtica de mobiliza\u00e7\u00e3o e de inven\u00e7\u00e3o de\ntrajet\u00f3rias vitais. Algo muito rico do movimento feminista \u00e9 esta\nelabora\u00e7\u00e3o permanente de consignas, de frases, de slogans que v\u00e3o\ntramando um saber coletivo e uma pedagogia feminista, para ir\nconceituando, nomeando e tramando, compartilhando o que fazemos \u2013 o\nque pode ser sistematizado tamb\u00e9m como saber. O desejo n\u00e3o \u00e9 o\ncontr\u00e1rio do poss\u00edvel, como muitas vezes se diz. \u00c9 o que abre\noutros poss\u00edveis. Nestes sentido, o fato de nos mover implica uma\naposta na radicalidade do que significa fazer pol\u00edtica feminista.\nNela, nenhum aspecto da vida fica fora da pol\u00edtica. Tal politiza\u00e7\u00e3o\nda exist\u00eancia nega a hierarquia entre o espa\u00e7o que se chama\nusualmente \u201cpol\u00edtica\u201d e o espa\u00e7o do dom\u00e9stico. Romper estas\ndivis\u00f5es tem a ver com desejar mudar <em>tudo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para <\/strong><strong>a ordem conservadora, produzir estes sentidos\nrepresenta uma amea\u00e7a que precisa ser disciplinada, castigada ou\ndestru\u00edda, se necess\u00e1rio. Com voc\u00ea caracteriza a guerra no e\ncontra o corpo das mulheres e os corpos feminizados, no cen\u00e1rio\natual<\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em sua investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\n<em><a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/caliba-e-a-bruxa\/\">Calib\u00e3\ne a bruxa<\/a>, <\/em>Silvia Federici\nexplica por que a ca\u00e7a \u00e0s bruxas \u00e9 uma cena fundante da guerra\ncontra as mulheres que est\u00e1 oculta na origem do capitalismo. A\npergunta que se faz \u00e9 por que o capital precisa dar combate \u00e0s\nparteiras e aborteiras, \u00e0s que vivem s\u00f3s, \u00e0s artes\u00e3s e chefas de\nassocia\u00e7\u00f5es, e situ\u00e1-las todas como bruxas \u2013 o que significa\nsubjetividades her\u00e9ticas e subversivas para o sistema. Isso sup\u00f5e\nao mesmo tempo a necessidade de desprestigiar seus conhecimentos, de\ntirar o poder social de suas atividades e de enclausurar a muitas no\nlar, entendido como servi\u00e7o dom\u00e9stico obrigat\u00f3rio e gratuito. H\u00e1\naqui uma quest\u00e3o: o que se quer encerrar, quando se prende este\npoder e este conhecimento? \u00c9 a pergunta que\nnos volta sobre por que, em alguns momentos hist\u00f3ricos, h\u00e1 certos\ncorpos e certos territ\u00f3rios contra os quais se faz a guerra. O que\nse quer silenciar, explorar, dominar nestes corpos? \u00c9 devido ao fato\nde as mulheres, l\u00e9sbicas, travestis e trans discutirem e\nconfrontarem os modos hist\u00f3ricos de subordina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o\ndiferencial destes corpos que a resposta tornou-se cada vez mais\nviolenta? Para sintetizar: a pergunta da guerra mant\u00e9m-se atual\nporque estamos em um momento em que a viol\u00eancia converteu-se na\nprincipal for\u00e7a produtiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea fala tamb\u00e9m que o capital precisa incrementar as\nviol\u00eancias para sustentar formas de dom\u00ednio explora\u00e7\u00e3o que est\u00e3o\nem crise.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e3o em crise porque h\u00e1 um mont\u00e3o de lutas que questionam estas \nformas e as impugnam quando desejam outras coisas e repudiam os modos de\n vida neoliberais com sua dose insuport\u00e1vel de sofrimento, solid\u00e3o e \nausteridade. Por isso, tamb\u00e9m, a crueldade particular com as gera\u00e7\u00f5es \nmais jovens; a inten\u00e7\u00e3o de endivid\u00e1-las, medic\u00e1-las e control\u00e1-las. \u00c9 \npreciso entender esta obsess\u00e3o atual de substituir educa\u00e7\u00e3o sexual por \neduca\u00e7\u00e3o financeira nas escolas. Parecem quest\u00f5es menores , mas s\u00e3o o \ncontr\u00e1rio. Tocam no ponto de como o capital j\u00e1 organiza formas de \nexplora\u00e7\u00e3o e de extra\u00e7\u00e3o de valor no futuro; como tenta superar a crise \nde poder quando corpos e territ\u00f3rios declaram-se em rebeldia, dizem que \nperderam o medo e que est\u00e3o dispostes a mudar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como voc\u00ea caracteriza as viol\u00eancias expl\u00edcitas desatadas\ncontra a for\u00e7a que os feminismos desencadearam na regi\u00e3o? <\/strong>\n<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma contraofensiva militar, financeira e religiosa para\ntentar \u201cvoltar\u201d ao que o capital chama de normalidade. Insisto,\nela \u00e9 imposs\u00edvel sem ultrapassar um novo umbral de viol\u00eancia\nnestas tr\u00eas frentes ao mesmo tempo. Financeiro atrav\u00e9s da d\u00edvida e\ndo empobrecimento generalizado; militar, como estamos vendo, com\nrepresss\u00e3o pura e dura. E os fundamentalismos religiosos, que est\u00e3o\nem uma nova cruzada colonial, racista, pelo dom\u00ednio dos corpos e o\nfazem com a b\u00edblia na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No entanto, as viol\u00eancias ocorrem de diferentes modos em\nmulheres, l\u00e9sbicas, trans e travestis, na garotas dos bairros, nas\nmulheres migrantes e em suas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o\nda vida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A caracteriza\u00e7\u00e3o interseccional das viol\u00eancias e o\nenfrentamento \u00e0s viol\u00eancias racistas, patriarcais, coloniais e\ncapitalistas s\u00e3o um fio vermelho dos distintos feminismos: feminismo\nde bairros, transfeminismo, feminismo ind\u00edgena-comunit\u00e1rio,\nfeminismo negro, feminismo popular e muitos outros. A historiciza\u00e7\u00e3o\ndas viol\u00eancias explicita feridas e opress\u00f5es diferentes, e refletu\numa dimens\u00e3o de classe que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ocultar. Situar e\nespecificar o que significa a viol\u00eancia em cada uma das exist\u00eancias\ndiversas \u00e9 fundamental. Ao mesmo tempo \u00e9 necess\u00e1rio compor uma\nluta comum que n\u00e3o aplane nem banalize estas diferen\u00e7as hist\u00f3ricas.\nEste plano comum \u00e9 tecido a partir do que o coletivo <em>Mujeres\nCreando<\/em> chamou de \u201calian\u00e7as ins\u00f3litas\u201d, capazes de compor o\nque swe tenta manter em classifica\u00e7\u00f5es e caixinhas separadas.\n<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando os feminismos fazem-se fortes, como voc\u00ea diz, colocam\nno centro do debate os atos de despojo do neoliberalismo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um ponto\nfundamental \u00e9 o car\u00e1ter antineoliberal que os feminismos expressam\nhoje. S\u00e3o eles que puseram no centro do debate pol\u00edtico a quest\u00e3o\ndo extrativismo sobre corpos e territ\u00f3rios. Desde o extrativismo de\numa multinacional mineira, que desaloja toda uma popula\u00e7\u00e3o em nome\ndo desenvolvimento, at\u00e9 o extrativismo financeiro da d\u00edvida, que\nextrai valor da precariedade. Mas tamb\u00e9m foram os feminismos que\npuseram em primeiro plano a quest\u00e3o de o que significam o despojo de\ninfraestrutura p\u00fablica e a privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os sociais. Eles\ns\u00e3o substitu\u00eddos com trabalho gratuito ou hiper barato das\nmulheres, l\u00e9sbicas, trans e travestis nos territ\u00f3rios \u2013 seres\nque o capital quer transformar numa esp\u00e9cie de nova classe servil.\nForam os feminismos que puseram em quest\u00e3o o que significa uma\neduca\u00e7\u00e3o sexista com mandatos de g\u00eanero que ao mesmo tempo te\npreparam para est\u00e1gios baratos nas empresas. Os feminismos\narticularam a dimens\u00e3o de ajuste estrutural das economias com a\ndimens\u00e3o de um governo do desejo e da ordem pol\u00edtico-sexual que\nimplica ordenar o\ntrabalho e a inclus\u00e3o social num\nesquema heteronormativo. Tudo isso permitiu que em pa\u00edses com o\nnosso se tirasse do mapa o feminismo liberal, que s\u00f3 prop\u00f5e\nigualdade de condi\u00e7\u00f5es sob o ideal de nos convertermos em\nempres\u00e1rias de n\u00f3s mesmas.\n<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Es<\/strong><strong>tas a\u00e7\u00f5es diretas de corpo-territ\u00f3rio puderam ser\nvistas com clareza nestes dias, com as assembleias de mulheres e as\ndissid\u00eancias no Chile\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que ocorre no Chile \u00e9 impactante. As companheiras da Coordena\u00e7\u00e3o Feminista 8M v\u00eam numa sequ\u00eancia de iniciativas que remonta pelo menos ao maio feminista de 2018, esta reivindica\u00e7\u00e3o conjunta de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o sexista. Vieram em seguida o Encontro das que Lutam e a massividade do 8 de Mar\u00e7o deste ano. H\u00e1, no \u00faltimo per\u00edodo, um ac\u00famulo da din\u00e2mica feminista que tem muito a ver com a pegada da mobiliza\u00e7\u00e3o atual. Sobre tudo devido ao lugar que tiveram as e os jovens secundaristas, ao iniciar a desobedi\u00eancia, o pula-catraca, como um gesto de ruptura com a chantagem moral impl\u00edcita no endividamento familiar para que se eduquem e sejam exitosos em termos de competi\u00e7\u00e3o. O mesmo vinham fazendo os movimentos que denunciavam a d\u00edvida por Sa\u00fade. Para resumir, no cora\u00e7\u00e3o do projeto neoliberal dos <em>Chicago Boys, <\/em>implode a vida neoliberal, gra\u00e7as ao impulso das gera\u00e7\u00f5es mais jovens, junto com uma din\u00e2mica que a greve plurinacional feminista projeta. Porque o que vemos na greve dos \u00faltimos dias, no Chile, s\u00e3o elementos da greve feminista, que levam em conta a reprodu\u00e7\u00e3o da vida como um espa\u00e7o onde hoje o capital acumula o tempo todo. Como hoje a reprodu\u00e7\u00e3o da vida j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 garantida por rendimentos (sejam salariais ou de outro tipo), a d\u00edvida converte-se em uma obriga\u00e7\u00e3o, \u00e9 adquirida compulsoriamente. Por isso, parece-me t\u00e3o genial este graffiti que no Chile algu\u00e9m escreveu na parede de um banco. Diz: \u201cNos devem uma vida\u201d, o que inverte a quest\u00e3o de quem deve a quem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Bol\u00edvia arde, e a cada dia o recrudescimento dos setores que\ntomaram o poder e dos comandos de ultradireita est\u00e1 causando mais\nrepress\u00e3o e mortes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um massacre atr\u00e1s desde o golpe de Estado \u2013 sem d\u00favida, racista e fundamentalista. A viol\u00eancia sexual como viol\u00eancia pol\u00edtica e a viol\u00eancia da heteronormatividade contra ind\u00edgenas, mulheres, l\u00e9sbicas, travestis e trans s\u00e3o o tra\u00e7o que sobressai e \u00e9 comum ao Brasil, Chile, Equador e Bol\u00edvia. A pergunta que surge \u00e9 como se desarma o fascismo social e como se desarma a situa\u00e7\u00e3o de guerra interna que se pretende instalar. H\u00e1 uma discuss\u00e3o de fundo sobre como o desenvolvimentismo desencadeia din\u00e2micas neoextrativistas \u00e0s quais se resiste h\u00e1 anos. E estas resist\u00eancias t\u00eam como protagonistas mulheres que disseram claramente: a conquista neoextrativista e neocolonial dos territ\u00f3rios \u00e9 contra a reprodu\u00e7\u00e3o da vida, contra os bens comuns. N\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o te\u00f3rica, \u00e9 um ac\u00famulo de lutas que com enorme esfor\u00e7o, risco e perseveran\u00e7a conseguiram instalar estes debate. \u00c9 um ponto muito forte da discuss\u00e3o latinoamericana atual, porque os feminismos est\u00e3o denunciando o am\u00e1lgama entre neoliberalismo, extrativismo e colonialidade. Hoje isso est\u00e1 no centro da guerra social. As lutas feministas puseram em palavras e em pr\u00e1ticas uma resist\u00eancia antineoliberal, e relan\u00e7aram o conflito pol\u00edtico. Por isso, t\u00eam um papel fundamental em combater o fascismo. Por isso, est\u00e3o tamb\u00e9m no centro do alvo das viol\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cientista pol\u00edtica argentina busca entender o protagonismo das mulheres, nas lutas atuais contra o neoliberalismo. Suas hip\u00f3teses falam da revaloriza\u00e7\u00e3o do desejo e da percep\u00e7\u00e3o de que pol\u00edtica precisa sacudir ruas, casas, f\u00e1bricas e camas<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":10217,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Cientista pol\u00edtica argentina busca entender o protagonismo das mulheres, nas lutas atuais contra o neoliberalismo. 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